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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 08, 2020

Tiraram-lhes a tosse, não lhes tiraram o rock

Miguel Marujo

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Este blogue vai vivendo de breves solfejos, com a publicação de textos que vou escrevendo ou a recuperação de antigas prosas, que retiro sobretudo do baú do DN. Não estranhem pois a data original de alguns artigos, como este de 2015, que recupera uma prosa escrita pelos 40 anos dos Led Zeppelin. Quarenta anos, seis álbuns, escrevia então: a reedição da discografia da banda de Jimmy Page e Robert Plant, com edições que não deixavam (quase) nada de fora.

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A 24 de fevereiro de 1975, o jornal destacava o protesto dos fotógrafos às portas das igrejas, recusando-se a fazer horas extraordinárias, enquanto não fosse revista a tabela salarial. Coisa séria: o verão quente estava à porta, ainda que se estivesse no inverno. Em Portugal, as preocupações eram outras: havia ministros que tinham tomado posse nessa manhã e as comissões de moradores tinham assumido o controlo de casas devolutas. Lá fora, nesse dia, as guitarras  dos Led Zeppelin, em Physical Graffiti, rasgavam as janelas de um prédio nova-iorquino, os números 96 e 98 de St. Mark's Place, prometendo outras revoluções, outros verões quentes. E o jornal era omisso nesse tema.

Quarenta anos depois, as casas devolutas continuam sem controlo e os ministros vão resistindo a deixar a posse, mas o sexto álbum de originais dos Led Zeppelin só não provocou nova revolução porque a que tínhamos era recente e os cravos ainda estavam frescos na mão. Na música, a coisa foi diferente e - mesmo que tenhamos esperado 40 anos pelo festim de edições luxuosas da discografia do grupo de Jimmy Page e Robert Plant - basta desfiar influências descaradas ou subtis e cópias mais ou menos grosseiras para destaparmos um filão iniciado em 1969 com o álbum homónimo e com a obra prima definitiva de 1975, Physical Graffiti.

O que desde fevereiro deste ano podemos ouvir é a reedição do duplo original numa edição de três CD: dois com o álbum, tal e qual como no vinil, um terceiro de registos inéditos retirados das sessões de estúdio. As sessões originais prolongaram-se desde novembro de 1973 até à edição de 1975, mas o sexto álbum inclui temas que vêm dos tempos do terceiro álbum, como Bron-Yr-Aur, de 1970, ou uma canção com o mesmo título do quinto trabalho, Houses of the Holy (lançado a 26 de março de 1973), quase só para baralhar, como admitiu o próprio Jimmy Page. "É capaz de ter sido uma decisão única, na altura", disse, referindo-se ao facto de a terem deixado de fora do alinhamento do álbum anterior. "Era divertido poder fazer coisas que as outras bandas não faziam", notou a 3 de fevereiro numa conversa com jornalistas de todo o mundo, registada em português pela Blitz. Divertimento e ambição, apontou Page, que tem liderado a remasterização e produção das reedições dos Led Zeppelin. "Todo este processo tem sido muito divertido."  

Page trouxe mais uma nota solta. "A única coisa que queríamos era lançar um álbum que deixasse toda a gente embasbacada!" E com outra exigência: "Tentei que, nos quatro lados do vinil, houvesse uma canção para te arregalar os olhos, na abertura, e uma canção para te deixar a pensar no final." A experiência fica limitada num CD a dois "lados" (a edição da discografia em vinil também anda por aí, a preços bem menos populares) mas os olhos arregalam-se com Custard Pie e In The Light e o corpo embala-se nas ideias de Kashmir e Sick Again.

A cadência do álbum é a do vinil, formato para o qual foi feito para tocar. É Page quem o dizia na referida conversa na Blitz. E que o levou a eliminar eventuais ruídos, como a tosse final em In My Time of Dying. Nesta depuração não se perde a rugosidade das guitarras, de um rock puro que bebia água em todas as fontes. Page cita o skiffle, de origens negras americanas, de simples dois ou três acordes, o country ou os blues, o jazz, mas também as músicas da Índia ou das Arábias, com o alaúde ou a sitar a interessarem o guitarrista e produtor dos Led Zeppelin.

No campeonato das referências, há quem dispare que este sexto trabalho de originais era "uma mistura inventiva de heavy blues, soul, folk, acústico e o seu rock armado de marca registada". Outros falam, sem pestanejar, em linhas consecutivas, de rock'n'roll, funk-metal, "rock progressivo mordaz" e "pop rápido". Ou um jornalista da Rolling Stone, Jim Miller, que dizia que este Physical Graffiti era como se "Tommy, Beggars Banquet e Sgt Pepper se tornassem num só". Convocar três obras maiores dos The Who, Rolling Stones e The Beatles pode parecer elogio em excesso ou cegueira absoluta, mas este triplo compacto parece querer confirmar em cada nota ou riff essa síntese de genialidade.

Ao álbum original, Physical Graffiti acrescenta, como já o faziam as anteriores cinco reedições da discografia ledzeppeliniana, um companion disc. Não é um simples disco de extras, é mais um compacto que ajuda a reinterpretar a obra maior de uma das maiores bandas do mundo.

O festim, já se disse, passará ainda pela reedição de Presence (1976), In Through Out The Door (1979) e Coda, que fará outra síntese de "coisas do passado", como explicou Page. Até aqui já se podem ouvir os seis primeiros álbuns (I, II, III, IV, Houses of The Holly e Physical Graffiti), sempre em edições cuidadas, que reproduzem as originais, mesmo no formato pequeno do CD, com os inevitáveis companion discs, uma porta para o tempo das gravações dos discos dos Led Zeppelin, com uma seleção de canções ainda a serem trabalhadas, versões alternativas, misturas originais. Sem necessidade de ir consultar os jornais do dia, esta porta do tempo vai permanecer muito tempo aberta. Só os maiores o conseguem. Até quando deixam de tossir.

[artigo originalmente publicado no DN, em 15 de abril de 2015]

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