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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 17, 2025

Os horrores da guerra, a guerra ao horror

Miguel Marujo

 

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Valeu a pena a espera (passe o jogo de palavras): uma das mais interessantes autoras no mundo da ilustração viu algumas das suas mais importantes obras chegar ao mercado português nos tempos mais recentes. A sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim revelou-se por cá com A Espera, a que se seguiram já outros três livros: A Árvore Despida, Erva, e só não lemos ainda Alexandra Kim – Filha da Sibéria.

Keum Suk Gendry-Kim traça, num preto e branco firme e numa narrativa sempre cuidada, o peso de um povo dividido em dois países, de uma história marcada pela ausência e pela memória de famílias forçadas a viverem separadas por uma fronteira herdada da Guerra Fria, com a Guerra da Coreia, em 1950, a dividir a península em duas metades.

Em cada uma das suas novelas gráficas, o desenho vai contando a história quase dispensando palavras a mais. Como em A Espera, testemunho de uma geração de coreanos que vivia na esperança de uma notícia de que os familiares do outro lado do paralelo 38 estavam vivos e haveria a possibilidade de um reencontro (concretizados desde os anos 1980, décadas depois da separação). Keum Suk Gendry-Kim ouviu a mãe sobre a vida dela e entrelaçou-a, pintando a história da península com pinceladas sobre a sua relação filial, numa dose de afeto, humor e ironia que narram a dor e angústia do povo coreano.

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Com Erva, a autora alarga o seu sucesso e projeção internacionais, voltando a abordar um capítulo doloroso na história coreana, ao contar a história verídica de uma criança sul-coreana que foi vendida pela família, durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou explorada como “mulher de conforto”, ou seja, escrava sexual dos soldados japoneses. Essa criança, Ok-Sun Lee, deu a conhecer a sua história nos últimos anos de vida, quando se tornou ativista dos direitos das mulheres — e Gendry-Kim abordou a história com uma sensibilidade notável, carregando no preto das suas pinceladas (e há páginas que pedem que nos demoremos a ver cada detalhe) para melhor retratar o sofrimento destas crianças.

Em A Árvore Despida, Keum Suk Gendry-Kim regressou aos tempos da Guerra da Coreia, mas desta vez optando por adaptar uma obra de culto da literatura coreana da autoria de Park Wan-Seo, de novo sob o signo do muro que divide as duas partes da península, com uma história de amor impossível entre uma mulher do Sul e um pintor do Norte (ele era casado). O traço marcante a preto e branco da autora dá lugar à cor para representar os quadros desse homem-pintor, numa solução engenhosa e bonita, que acrescenta poesia a uma narrativa que remexe com as sombras e as dores da guerra.

E este é o poder dos trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim: tocar o indizível e a angústia da guerra, a memória e os afetos, com uma graciosidade e uma beleza que toca o seu desenho e a narrativa. Valeu a pena esperar por esta autora.

 

O quotidiano das mulheres no Irão

 

Inscrever a memória da luta pelos direitos das mulheres no Irão é o propósito de Mulher, Vida, Liberdade, um álbum de banda desenhada coordenado por Marjane Satrapi, ilustradora iraniana, autora do notável Persépolis, hoje radicada em França. Depois da morte de Mahsa Amini, às mãos da polícia de costumes do regime iraniano, em setembro de 2022, levantou-se um movimento — com o nome que dá título a este livro — que tem exigido outra liberdade para as mulheres no país.

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O regime dos ayatollahs tem reprimido de forma violenta, com condenações à morte e execuções públicas, muitos homens e mulheres (na sua maioria jovens) envolvidos neste movimento, e é esse retrato que o livro procura trazer, como explica Marjane Satrapi: a primeira intenção deste livro “consiste em explicar o que se passa no Irão, descodificar os acontecimentos na sua complexidade e nas suas nuances para um público não iraniano”; a segunda intenção “é a de lançar um sinal aos iranianos para os lembrar de que não estão sozinhos”.

Para concretizar a obra, Satrapi reuniu três especialistas (um politólogo, um jornalista e um historiador), que construíram os argumentos, juntamente com 17 desenhadores que verteram em 23 histórias em banda desenhada e um debate ilustrado. Há ainda um texto que contextualiza “uma história persa do bem e do mal”, que é narrada em três capítulos: “Os acontecimentos”, “Um pouco de história” e “Um regime férreo… um povo que resiste”. Este Mulher, Vida, Liberdade é um relato essencial para melhor compreender a luta de mulheres e homens que não se resignam a um regime que oprime direitos e vidas no Irão.

 

Uma árvore que é testemunha do tempo

 

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No Oriente, o conflito marca também os territórios de Israel e Palestina, terreno que a banda desenhada já explorou com excelentes resultados (como as de Joe Sacco ou Guy Delisle, por exemplo). Agora, o historiador Vincent Lemire, no texto, e o ilustrador Christophe Gaultier, no desenho, apresentam uma História de Jerusalém, que parte do ponto de vista de uma árvore, uma oliveira com milhares de anos que é testemunha da passagem do tempo e dos tempos que fazem a história da Cidade Santa. Em 250 páginas, a oliveira vai narrando o que vê, desde o tempo em que a árvore “não tinha importância nenhuma” até aos dias de hoje.

No prefácio, com o título “A árvore do conhecimento do bem e do mal”, o historiador Rui Tavares nota que “ao levar-nos para o ponto de vista de uma árvore, este livro comete o paradoxo de nos humanizar”, numa história que “vai para lá da história de uma cidade e que se torna história do Médio Oriente, história europeia e global, história das civilizações e impérios”. A sua esperança – e a daqueles que semeiam uma obra assim – é a de que “com sorte a nossa oliveira”, a árvore deste livro, “lá continuará quando as razões que levam humanos a matar-se, em Jerusalém e no seu entorno, voltem a ser inconcebíveis”.

Numa linha que bebe na tradição franco-belga e com um texto extraído de mais de 200 fontes publicadas e de arquivos inéditos, esta narrativa é uma boa introdução para perceber também muito do que se vive hoje naquelas paragens. Entre o apocalipse e a revelação.

 

A Espera
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2023, 248 pp.

Erva
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2024, 488 pp.

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A Árvore Despida

Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Sunee Hong e Pedro Moura)
LeVoir, 2024, 328 pp.

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Mulher, Vida, Liberdade

Marjane Satrapi (coordenação; com tradução de Inês Fraga)
Iguana, 2023, 288 pp.

História de Jerusalém
Vincent Lemire e Christophe Gaultier (tradução de Sandra Alvarez)
LeVoir, 2024, 264 pp.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 16 de maio de 2025. Imagem principal: pormenor da ilustração do livro Erva]

 

 

Setembro 25, 2025

Crónicas de uma sombra sem fim

Miguel Marujo

 

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Este é um tempo estranho e de contradições. Regressou o medo do uso da bomba atómica, em particular à Europa (e todos demos por nós a cantar Russians, a canção de Sting que parecia já não fazer sentido), por causa da guerra instalada na Ucrânia, mas também ao Médio Oriente, onde o conflito se eterniza e há demasiadas bombas à solta. E regressou também o debate sobre o uso da energia nuclear, em que se vende como mais fiável, barato e seguro aquilo que sempre pareceu muito pouco seguro, depois de Chernobyl, e na sequência de Fukushima. 

Nem de propósito, chegaram às livrarias duas obras essenciais para nos ajudar a entrar neste debate, sem receio de o fazer através de livros de banda desenhada: A Bomba (em dois volumes) e Fukushima – Crónica de um desastre sem fim transportam dois acontecimentos maiores dos séculos XX e XXI para o universo das novelas gráficas.

Em A Bomba: Parte I – No princípio era o nada e A Bomba: Parte II – A sombra, os desenhos de Denis Rodier e o argumento de Didier Alcante e L.F. Bollée (numa tradução de Isabel Lopes) trazem-nos a história da corrida à bomba atómica, que culminou com o lançamento de duas ogivas sobre Hiroxima, a 6 de agosto de 1945, e Nagasáqui (ambas no Japão), três dias depois.

 

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Num forte traço a preto e branco, o narrador da história é o próprio urânio, adormecido durante milhões de anos e que foi despertado pela pesquisa científica e médica, mas que acabou desviado para a mesa de interesse de governos e militares, que durante a Segunda Guerra Mundial queriam defender-se procurando uma arma de destruição maciça. O entendimento de uns e outros era a de ter na sua posse uma arma que dissuadisse os inimigos.

A bomba atómica produzida pelos EUA nasce da vontade e da resistência de americanos e europeus, que tinham fugido a Hitler e Mussolini, que perceberam melhor do que ninguém aquilo que estavam a fazer. A obra de Alcante e Bollée insiste muito no debate ético que foi assomando nas mentes brilhantes que foram dando corpo a esta arma. E o traço de Rodier, que se demora nos detalhes, que é minucioso na definição das personagens, que voa das paisagens frias da Noruega para as minas na selva do Congo, ou mergulha no oceano Pacífico e levanta voo de Potsdam, não se perde no essencial, que é o de transmitir com nervo o argumento eficaz de Alcante e Bollée. A história é didática (e há um posfácio e outros textos), mas não se refugia numa linguagem hermética, apesar do desafio de ir narrando as experiências científicas dos criadores da bomba.

A ficção que rompe a “veracidade histórica” é trazida por uma família japonesa e uma menina, colocados no epicentro da bomba, que os autores definiram como uma homenagem aos Japoneses Desconhecidos, como se fossem o Soldado Desconhecido que se encontra em tantas cidades europeias. 

A sombra que ficou impregnada no chão de um edifício de Hiroxima, no momento da explosão da bomba atómica, é a sombra que paira sobre o mundo, de um dia alguém usar esta arma. Einstein – que é também um dos que aparece em A Bomba – disse, em 1948, quando lhe perguntaram como seria uma eventual Terceira Guerra. “Não sei como se fará a Terceira Guerra Mundial, mas posso dizer-vos o que será usado na quarta: pedras.”

 

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Em Fukushima – Crónica de um desastre sem fim, o nuclear está contido numa central elétrica. Será a natureza a libertar o mal, num acidente nuclear devastador, de que a humanidade acreditaria já estar longe, depois da irresponsabilidade soviética em Chernobyl. 

A 11 de março de 2011, um forte sismo no nordeste do Japão provocou um maremoto que inundaria a central elétrica de Fukushima Daiichi, apesar de esta ter um dique de seis metros de altura, para evitar esse cenário. Seguindo as atas das investigações ao acidente e relatórios sobre o desastre, Bertrand Galic criou um guião que resume os primeiros cinco dias do acidente, através do desenho de Roger Vidal, procurando mostrar como homens e mulheres foram gerindo a tensão e as (más) decisões que conduziram ao desastre que perdura ainda hoje. Já o traço do ilustrador catalão arrisca carregar nos tons de um ambiente tóxico e tenso, saindo dos limites das pranchas quando o momento exige, mas respeitando uma linguagem mais canónica da banda desenhada.

Fukushima levou, no Japão, à demissão de um primeiro-ministro que se tornou um ativista antinuclear, à reforma profunda das agências nucleares do país, a uma aposta menos tímida nas energias renováveis, a graves consequências no meio ambiente e nos seres vivos e no deslocamento de uma população, que já não quer voltar a uma zona contaminada. Estas duas novelas gráficas levam-nos a pensar que o nuclear continua a não ser uma hipótese. Ou melhor: é uma opção, mas só no desenho.

 

 

A Bomba: Parte I – No princípio era o nada
A Bomba: Parte II – A sombra
Didier Alcante e L.F. Bollée (guião) e Denis Rodier (desenhos), tradução de Isabel Lopes.
Gradiva, 2022, 216 pp. (vol. I), 264 pp. (vol. II), 18€ cada.

 

Fukushima – Crónica de um desastre sem fim
Bertrand Galic (guião) e Roger Vidal (desenhos), tradução de Isabel Lopes.
Gradiva, 2022, 136 pp., 27,50€

 

 

Dezembro 14, 2023

Tolentino Mendonça, aquele que foi bibliotecário do Vaticano

Miguel Marujo

Em julho de 2018, José Tolentino Mendonça foi nomeado bibliotecário e arquivista do Vaticano. Hoje é cardeal e prefeito do Dicastério para a Cultura e Educação, também no Vaticano. Em entrevista ao DN, o padre e poeta português - que já tinha orientado o retiro quaresmal do Papa, em fevereiro desse ano - recusou então a "lógica das influências" e falava da sede que desinstala. Hoje, quando é anunciada a atribuição do Prémio Pessoa 2023 a Tolentino Mendonça, recuperamos essa conversa de 2018.

 

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José Tolentino Mendonça estava convencido que orientava o retiro quaresmal do Papa - estávamos em fevereiro [de 2018] - e voltava ao seu trabalho em Lisboa. Mas Francisco desinstalou-o e chamou-o a Roma, agora, para ser o responsável da Biblioteca Vaticana e do Arquivo Secreto da Santa Sé, dando-lhe a dignidade de arcebispo.

Depois de ser o primeiro português a pregar os exercícios espirituais ao papa, Tolentino chegará a Roma recusando qualquer influência especial junto de Francisco. "Um retiro tem outra natureza, bem distante da lógica das influências. A voz que aqueles que fazem um retiro procuram não é certamente a do pregador. E mais. De uma forma despojada, nem é sequer a sua própria voz. A única voz importante é mesmo a de Deus que ressoa no silêncio do coração. Tudo o resto é acessório", confessou ao DN.

É esta lógica despojada com que responde sobre a sua nomeação. "Eu estava convencido que fazia o retiro e voltava ao meu trabalho em Lisboa, de que gostava muito."

O poder é uma tentação, notou o padre e poeta, no retiro de fevereiro, publicado em livro em abril (Elogio da Sede, ed. Quetzal). "O culto do poder faz do poder um ídolo, qualquer que ele seja", pregou Tolentino, apontando que é "um risco enorme" quando esse poder "deixa de ser claramente um serviço aos irmãos e se torna o delírio da autoafirmação e da autorreferencialidade". E recordou ao Papa e bispos que o ouviam nesse retiro: "Não devemos esquecer que Jesus se recusou determinantemente a ajoelhar-se perante Satanás, mas ajoelhou-se voluntariamente diante dos discípulos para lavar-lhes os pés."

Tolentino Mendonça foi à metáfora da sede para melhor "descrever a vida espiritual": a sede, respondeu ao DN, "volta sempre, desinstala-nos continuamente, faz de nós caminhantes em busca de uma fonte".

"A fé não é um estado de autossuficiência, mas pelo contrário: é uma aguda e por vezes dramática consciência da nossa pobreza, da nossa escassez que nos atira em confiança para a escuta de Deus", acrescentou. Para melhor olhar para o que tem sido este pontificado: "o Papa Francisco diz recorrentemente que um dos maiores perigos para a Igreja é a autorreferencialidade. Ele tem-nos desafiado a todos a tornarmo-nos sedentos, a vivermos com fome e sede de justiça, de misericórdia, de humanidade... E creio que este é um dos traços que tornam a sua figura tão marcante e inspiradora: percebermos rapidamente que ele faz da sua sede o seu tesouro. Onde é que o Papa alimenta e amplia essa sede? Não tenho dúvidas que a oração para ele é uma máquina de criar sede, mas também o é a leitura que ele faz dos sinais dos tempos ou a sua fidelidade à escuta dos pobres e das periferias."

O telefonema que comoveu o poeta

O modo de atuar de Francisco é de alguém que escuta, que tem sede de ouvir. "Ele é um Papa que defende muito a prática da sinodalidade. Seja com os bispos. E, por exemplo, no sínodo da família, o primeiro pedido que ele fez aos bispos foi que falassem e discutissem abertamente todas as questões. Seja com os fiéis, a quem estimula a uma participação mais ativa. Seja com as periferias sociais e existenciais, cuja voz ele tem a solicitude por escutar e trazer para o centro da reflexão", notou Tolentino.

A reflexão do padre português chegou a todos através da publicação do livro, abrindo a porta a que outros se aproximem desta fonte, um caminho que Francisco também tem proposto. "Tenho uma amiga que tem uma livraria, que é completamente agnóstica, e que, há dias, me surpreendeu. "Quero dizer-te uma coisa" - disse-me ela. "O Papa Francisco é a única voz verdadeiramente humana que hoje se faz ouvir no mundo". Não há dúvida que o Papa Francisco é um grande mestre de humanidade, num tempo em que os mestres escasseiam. E é muito escutado também fora do espaço eclesial", concordou Tolentino.

As pregações reunidas em livro também já têm edição em italiano, que o Papa já viu. "Bem, Elogio da Sede começou por ser uma espécie audiolivro (risos), pois reúne as meditações que o Papa ouviu no retiro da quaresma passada. Mas, sim. Enviei a edição do livro em italiano ao Papa Francisco e ele telefonou-me depois a agradecer, coisa que muito me comoveu."

Tolentino começará em 1 de setembro [de 2018], nas suas novas funções. O 48º bibliotecário espera aprender com os seus trabalhadores. "Estou entusiasmado. Não nos faltará que fazer."

 

[artigo originalmente publicado no DN, em 1 de julho de 2018, com o título "Tolentino Mendonça: O 48.º bibliotecário do Vaticano"; foto de Ricardo Perna/Família Cristã]

Abril 05, 2022

Viagens à Lua? Isso é tudo falso, dizem eles

Miguel Marujo

Viagem-à-Lua.jpegO filme de 1902, Viagem à Lua, inspirou muitos na primeira vez que o homem foi à Lua.
Contudo, cerca de 6 por cento dos americanos acreditam que é uma mentira.


Ainda há quem não acredite que "aquele pequeno passo para a humanidade" tenha sido mesmo dado. E nos EUA, o país que pôs um homem na Lua, há mesmo quem se dedique a tentar desmontar a façanha. Há teorias da conspiração para todos os gostos.

Num mundo que elegeu Donald Trump e Jair Bolsonaro, que tantas vezes põem em causa as mais óbvias e sensatas evidências científicas, não admira que, meio século depois, ainda persistam teses conspirativas de que o homem nunca chegou na Lua. É um dos feitos maiores da humanidade, mas para alguns o pequeno passo de Neil Armstrong foi um "gigantesco salto de falsidade".

Nos EUA, de onde partiu a missão, há homens que se empenham em desmontar o que dizem ser o filme mais caro de sempre, montado pela NASA, para enganar todo o mundo. Literalmente: o mundo todo.

Em 1957, a União Soviética colocou no espaço com êxito o primeiro satélite. Num tempo em que se vivia a Guerra Fria, com a ameaça do nuclear bem presente, os russos eram inimigos, e o lançamento do Sputnik 1 abriu porta aos maiores receios. É neste contexto que os EUA se lançam também na corrida espacial. Quem chegará primeiro à Lua passa a ser um desafio não só tecnológico como também político.

É neste caldo que emergem também os céticos, como Bill Kaysing. Este analista e engenheiro de Rocketdyne, a companhia que projetou os foguetes Apollo, surge num programa de televisão de 2001, transmitido pela Fox, assertivamente chamado Teoria da Conspiracão: Nós Pousámos mesmo na Lua?, convencido "de que nunca enviámos homens à Lua".

"Acho que foi uma intuição", "aquilo tudo pareceu-me falso", explicou-se no referido programa. Kaysing "ficou chocado com inconsistências", porque "não havia estrelas no céu lunar", a bandeira americana tremulou, "sabendo que não existe ar na Lua", e "não havia nenhuma cratera debaixo do módulo, que deveria ser provocada pelo forte motor" no momento em que a nave pousou.

Bart Sibrel é outro profeta das mirabolantes teses que garante, com os pés bem assentes na Terra, que o homem não chegou à Lua. Diz que faz "jornalismo de investigação", tem um site no qual pede ao visitante que "apoie a verdade" e dedica-se a apregoar o engodo que terá sido a viagem ao satélite.

Os ingredientes estão todos servidos: num filme de série B, escrito pelos piores argumentistas de Hollywood, Kaysing e Sibrel alinham meia dúzia de dúvidas retóricas com base em "suponhamos", sem qualquer rigor científico. E está lançada a teoria de conspiração.

Como foi então montada a farsa? "O lançamento do foguete Saturno 5 com a Apollo foi real", diz Kaysing no documentário. Mas não levou astronautas para a Lua. Eles ficaram oito dias em órbita "e ao oitavo dia a cápsula separou-se e voltou à Terra".

Os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer.

Para ajudar, os EUA têm o local ideal para alimentar a mais tosca imaginação: a Área 51, uma base supersecreta na extensa região desértica do Nevada, onde tudo pode acontecer. Para os autores do programa, foi nesta zona restrita — com uma superfície quase lunar — que se filmaram os passos dos astronautas que pisaram a Lua e as pegadas de Armstrong. E foi onde cravaram a bandeira dos EUA, a tal que esvoaçou. "Significa que existia vento na Área 51 quando filmaram", descrevem os descrentes. Ou os "crentes em falsidades", como lhes chamam cientistas e astronautas que responderam com minúcia ao programa de TV de 2001.

Nada foi deixado ao acaso nesta "teoria da conspiração": Mitch Pileggi, que conhecemos como o diretor do FBI, Walter Skinner, em Ficheiros Secretos, é o narrador deste documentário. E todos nos lembramos do lema desta série de ficção: "Não confie em ninguém."

"Teorias grotescas"

Tudo é dito e mostrado para instalar a dúvida no mais empedernido fiel da chegada à Lua, decompondo em 50 minutos aquilo que um porta-voz da NASA, Brian Welch, classifica de "teorias grotescas". Às teorias juntam-se dados falsos: "20% dos americanos acreditam que nunca se foi à Lua", diz o narrador. Serão 6%, nas sondagens feitas. E juntam-se vozes supostamente credíveis para dar gás a teses que não têm (elas sim) qualquer evidência. Brian O'Leary é um ex-astronauta e cientista consultor das missões Apollo. Diz ele no programa que "não pode garantir que estes homens tenham andado na Lua".

E ao bom estilo americano não faltam mortes. O astronauta Gus Grissom, da missão Apollo 1, morreu num acidente da nave. A família acredita que não foi acidente porque ele terá dito que alguém iria morrer. "Foram silenciados porque sabiam demasiado?", pergunta o narrador.

Também Thomas Ronald Baron, inspetor de segurança da Apollo 1, testemunhou no Congresso que o programa tinha tantos problemas que os americanos nunca chegariam à Lua. Uma semana depois, Baron morre num acidente quando o carro é colhido por um comboio. "Foi assassinado", sentencia Kaysing. "Entre 1964 e 1967, dez astronautas morreram em acidentes estranhos", diz-nos o narrador. Nunca lhes ocorreu que o treino e as viagens espaciais não eram propriamente um passeio no parque.

O porta-voz da NASA responde com números: o programa Apollo envolveu diretamente 250 mil pessoas e indiretamente outras 500 mil. Era muita gente. Mas os profetas da conspiração não deixam que a verdade lhes estrague uma boa história, como afirma Sibrel: "Era tudo dividido, não sabiam deste engodo." E só acreditarão como São Tomé: "Se a NASA pousou mesmo na Lua, os restos das seis missões estão lá." Trump, o homem que gosta de teorias da conspiração, já pediu à NASA para voltar à Lua.

 

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, em 13 de julho de 2019 e replicado no site do jornal a 15 de julho de 2019]

Setembro 25, 2021

Hergé e a grandeza da arte maior que é Tintin e a BD

Miguel Marujo

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Lisboa recebe a partir de dia 1 de outubro, na Gulbenkian, uma grande exposição sobre Hergé e a sua obra, que inclui o universo de Tintin. Em 2016, já vimos muito do que agora vem até à capital portuguesa e vale mesmo a pena.

 

As extensas filas que se acumulam à porta do Grand Palais [no outono de 2016], em Paris, parecem querer dar razão a Hergé, quando o criador de Tintin dizia esperar que "no ano 2000" a banda desenhada fosse ela própria um meio de expressão tão considerado "como a literatura ou o cinema" (e disse-o em 1969). É essa também a ideia-chave com que abre a exposição que as Galerias Nacionais francesas dedicam pela primeira vez à banda desenhada, 16 anos depois do início do milénio, numa sala que apresenta "a grandeza da arte menor".

Puro engano: o que esta mostra — [e que esteve] em exibição até 15 de janeiro de 2017— nos traz é uma arte maior em que a vida e a obra do belga Georges Rémi, que todos conhecem por Hergé, vai para além do universo da sua emblemática criação que é o repórter Tintin, mesmo que, ao longo de dez salas, se centre neste universo de 24 álbuns.

Logo a abrir há uma dimensão pouco conhecida de Hergé: a de amante de pintura abstrata e pintor, em que as suas referências são reconhecíveis nos quadros por si pintados, seja Miró ou Dubuffet. No diálogo interativo que a exposição apresenta com a obra de Hergé, é possível descobrir como o autor belga transportou essa sua admiração para as pranchas da BD, como no álbum Tintin e os Pícaros.

Todos os álbuns estão impregnados de referências da pintura neoclássica, surrealista ou do japonês Hokusai, como também do cinema de King Kong ou as personagens Bucha e Estica, de Stan Laurel e Oliver Hardy, que influenciaram as criações de Dupont e Dupond, como sinaliza o comissário da exposição, Jérôme Neutres, no catálogo da mostra. É Jérôme Neutres que nota que, "para alimentar o seu imaginário, Hergé, que raramente saiu da Bélgica e seus arredores, viajou essencialmente por outros imaginários". É essa viagem deste "romancista da imagem" que nos transporta também para a Lua e mergulhamos numa sala em que o centro é a maqueta da nave espacial dos álbuns de Tintin Rumo à Lua e Explorando a Lua, ao som da voz de David Bowie, em Space Oddity, com o Major Tom a chamar o ground control.

A acompanhar cada uma das etapas da obra de Hergé, o visitante pode observar esboços, trabalhos originais, reproduções do Le Petit Vingtième, no qual eram publicadas as histórias de Tintin, cruzando-se com a história. É assim que, num período de sucesso das obras publicadas no suplemento infantil do jornal Vingtième Siècle, a II Guerra Mundial obriga à suspensão deste diário. Na capa desse último Petit Vingtième Hergé desenhou o doutor Müller pronto a atacar Tintin, no momento em que a Alemanha invadia a Bélgica.

Tintin continuará nas páginas do diário Le Soir, sob controlo alemão, o que angustia Hergé quando da libertação do país do jugo nazi, mas não será acusado de nada. O estilo da linha clara que Hergé vem ensaiando nas pranchas de Tintin é ainda mais depurado com a publicação de As 7 Bolas de Cristal nas páginas do jornal.

A fama de Tintin que tantas vezes eclipsou a obra de Hergé atirou para a gaveta muito do seu trabalho. Antes de Tintin, o belga criou e desenhou em 1926 Totor, um jovem escuteiro, mas também daria vida em dezembro de 1935 a Les Aventures de Jo, Zette et Jocko, numa publicação francesa Coeurs Vaillants, uma lança num país onde o número de potenciais leitores era bem mais vasto.

Autodidata, o desenhador tomou o nome de Hergé, um pseudónimo que nasceu da troca das iniciais do seu nome de batismo Georges Rémi ("r" e "g"). Fazendo uso de uma montagem inteligente entre os vários elementos iconográficos e cénicos, a exposição leva-nos ainda aos trabalhos que foram emergindo dos Studios Hergé, nomeadamente na publicidade.

Transportando a linguagem da linha clara para os anúncios, Hergé entendeu desde cedo que a "legibilidade da mensagem e da imagem era primordial". Antes de a BD ocupar os seus dias a tempo inteiro, o criador de Tintin dedicou-se ao grafismo de logótipos, um talento de que se ocupou nos anos 1920 e 1930.

O mito de Tintin nasceria bem depois da publicação das duas primeiras pranchas a 10 de janeiro de 1929. Hergé dizia que podia abandonar a BD para se dedicar à pintura - não o fez. No final da mostra parisiense, há um painel imenso, uma "multidão de pessoas sozinhas", que foram as suas boas festas de 1973, uma multidão de personagens a deixar-nos os seus votos. Um universo de gentes a mostrar-nos como Hergé é universal.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, em 29 de novembro de 2016; foto © Robert Kayaert, SOFAM, Bruxelas/SPA, Lisboa, 2021]

Julho 27, 2021

Fazer amor sem suar e com a roupa interior vestida

Miguel Marujo

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Os clichés das produções de Hollywood estão registados num site divertidíssimo. Saiba tudo aquilo que os argumentistas repetem nos seus guiões.

 

Cena 7, take 2. Ação! Os dois principais protagonistas fazem amor, com a sua "roupa interior vestida". "Ela geme, mas não sua" e, depois do sexo, "ela deita-se de costas e puxa os lençóis até ao pescoço, exatamente como na vida real".

Não se trata do argumento de nenhum filme em particular. Retrata apenas três clichés das produções de Hollywood, em cenas de sexo, segundo um site divertidíssimo que regista os estereótipos dos filmes – Moviecliches.com. E clichés há muitos!

Qualquer personagem "apanha um táxi instantaneamente", basta esticar a mão e gritar. Mas se se tratar do herói do filme em perigo, "nenhum táxi aparece". É como os elevadores, que estão sempre no piso em que se encontram os protagonistas (como no filme Ricos e Pobres), exceto quando os heróis fogem dos vilões – e aí nunca mais chegam! Já se o herói foge do vilão, por elevador, o mau-da-fita consegue descer os 20 andares do prédio ao mesmo tempo.

A criatividade dos argumentistas não é posta em causa por estes detalhes (chamemos-lhes assim), mas lendo as 73 categorias disponibilizadas é impossível não reconhecer muitas cenas dos filmes que se veem. De A de "airplanes" [aviões] a W de "wood" [madeira], as mais diversas e hilariantes situações são listadas. "Há sempre uma freira em aviões que têm acidentes. Moral da história: nunca apanhem um avião com freiras" (como nos filmes Aeroplano e Aeroporto 77). Ou: "Quando os homens bebem whiskey, fazem-no sempre num copo pequeno, e bebem-no de um trago", lê-se na secção de "bares e bebidas".

Se encontramos secções que se limitam a um ou dois clichés, há outras que parecem autênticos tratados do disparate: em "Carros e condução", "os protagonistas encontram sempre lugar de estacionamento junto do seu destino"; em "mulheres", "as mulheres têm sempre as pernas e os sovacos depilados, mesmo na Idade das cavernas"; ou em "telefones", "todos os números de telefone começam por 555" (e há lá melhor exemplo que em O Último Grande Herói, quando um miúdo "entra" no filme do seu herói e para provar ao personagem de Schwarzenegger que "está" num filme, pergunta à menina do clube de vídeo o número de telefone e obtém como resposta o inevitável prefixo?!).

"Armas", "guerra", "lutas" e "vilões" são outras secções bem guarnecidas de estereótipos. E há ainda outras duas secções especiais: uma sobre "asteróides" e outra sobre o "Dia da Independência". A ficção científica sempre viveu de seres verdes, muito parecidos com... os homens.

Um site como este vive da contribuição de cinéfilos [apesar de hoje estar inativo]. E tem como mote uma frase do “rei dos clichés”, Jerry Seinfeld: "Quando se gosta de uma coisa, não se deve ser muito racional com isso. Como os vilões de todos os filmes de James Bond. Sempre que Bond entra na sua casa: 'Ah!, Mr. Bond, seja bem-vindo, entre. Deixe-me mostrar o meu plano diabólico e depois ponho-o numa máquina de morte que não funciona'."

[artigo revisto a partir do texto originalmente publicado em 2001, no Culto, site de cultura do iol.pt, hoje inacessível e cujo arquivo está apenas parcialmente disponível em Arquivo.pt; a foto é de Vicky Cristina Barcelona, filme de 2008, de Woody Allen, nesta cena com Scarlett Johansson.]

Maio 31, 2021

A escrita de Patti Smith entre um café e uma tosta de pão escuro

Miguel Marujo

Patti Smith no Coliseu de Lisboa em 2015 Orlando A

M Train foi escrito em cafés, entre muitas doses de cafeína, uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. Tratou-se do segundo registo autobiográfico da cantora, que depois desta obra já teve mais dois livros publicados em Portugal.

O café quer-se curto, cheio, seja bica ou abatanado, italiana, cimbalino, em chávena fria ou escaldada, sem princípio, carioca, pingado, com ou sem açúcar. Café, sempre café. Patti Smith só quer a chávena de café acompanhada de uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. É senha e contra-senha para as suas viagens, pela memória dos seus dias, com o marido Fred, naquele que é o seu novo livro M Train.

O livro é movido a café, como já em setembro [dse 2015] confessava Patti Smith ao DN, numa conversa em que se antecipava o seu concerto em Lisboa. "Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre cafés, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava."

Este comboio é também um longo poema de amor a Fred Sonic Smith, o rapaz de Detroit que "foi um encontro inesperado" na sua vida e que "lentamente" alterou o rumo da vida de Patti.

Sentada à mesa do pequeno Café 'Ino, em Greenwich Village, na sua Nova Iorque adotiva, Patti rapidamente deixa a conversa com Zak, que lhe "tira o melhor café aqui das redondezas", para viajar, pela memória, pela mente, para os trópicos, entre o Suriname e a Guiana Francesa, como depois se instala no Café Pasternak , em Berlim, onde se senta na "mesa habitual". É quase sempre assim que se inicia a chegada a um local. "Deixei as malas no quarto e fui de imediato para o café", escreve de Berlim. Podia ser o seu café imaginário, que gostava ter um dia. Ou outro qualquer, pelo mundo, onde se senta. E nomeia pelo menos um em cada cidade.

Já se sabe: este M Train é também diferente do anterior livro autobiográfico de Patti. Agora, disse, "quis escrever um livro muito diferente" de Just Kids porque nesse livro a artista "tinha uma coisa específica que tinha que escrever". E explicou ao DN: "O Robert Mapplethorpe pediu-me que escrevesse Just Kids antes de ele morrer, sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico."

M Train é diferente: é "um mapa das estradas da minha vida", apresenta a artista. "É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é, para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido - e tem muito café", explicava-se ao DN. Não é só os livros que lê Patti, são quem a marca. E por isso Patti convence Fred a viajar de avião e carro até à fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, atravessando o rio Maroni de piroga até Saint-Laurent-du-Maroni, antiga colónia penal e de deportação dos condenados que cumpriam sentença na terrífica ilha do Diabo.

O que leva a artista até aquela cidade onde chove sempre não é a famosa história de fuga de Henri Charrière, que escreveu um livro (Papillon) e deu origem ao filme com Steve McQueen - é antes a vontade de ver aquilo que Jean Genet chamava de "chão sagrado", ele que tinha sido condenado a cumprir pena, mas que já não o chegou a fazer ali porque o presídio foi encerrado. Patti recolheu pedras que fará chegar ao escritor através de William S. Burroughs. M Train é também isto: a soma encantada de encontros e referências literárias.

Em setembro [de 2015], Patti admitia ao DN: "É difícil explicar o livro, foi desdobrando-se em tempo real, mas regressa ao reino da memória." Patti Smith tem na escrita a mesma disponibilidade que mostra voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a sua poesia ou dos sons viscerais com que canta. Mas a música também se nota em cada uma das páginas deste comboio movido a café.

[Artigo originalmente publicado no DN, em 7 de maio de 2016. Foto de Patti Smith no Coliseu de Lisboa em setembro de 2015 © Orlando Almeida/Global Imagens]

Novembro 30, 2020

"Toda a minha vida foi fazer coisas com beleza e sentido"

Miguel Marujo

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Laurie demora-se no pequeno-almoço. Entre amigos e telefonemas para Paris, para onde segue depois de Lisboa. O dia límpido e o mar brilhante, azuis estonteantes no horizonte, entram pelo hall do hotel. Talvez a conversa que se antecipa no bloco-notas peça um ambiente menos vivo – e daí talvez não. Recordando as imagens que percorrem os momentos finais de Heart of a Dog – Coração de Cão, o filme que Laurie Anderson veio apresentar ao Lisbon & Estoril Film Festival, e as palavras que Lou Reed canta em Turning Time Around, talvez a conversa tenha de ter afinal aquele enquadramento, luminoso – e também a simplicidade de Laurie, 68 anos, artista, música, realizadora, desarmante no humor, olhar de menina, chávena larga de café na mão.

Vamos a Paris, para início de conversa. Depois de Lisboa, a americana seguia para a cidade que, na sexta-feira anterior (a entrevista teve lugar no domingo, 15 de novembro de 2015), vivia o terror de atentados que não olharam a quem, que atingiram gente num estádio, em restaurantes, num concerto. “Vou para Paris, era suposto fazer uma conferência sobre música para jovens músicos, que vêm de todo o mundo, mas cancelaram os concertos, o promotor do evento foi morto, mas decidi ir...” E acrescenta: “Toda a minha vida como artista temi este dia, em que pessoas viriam a um concerto para matar pessoas. Aconteceu na Califórnia, uma vez há muito tempo, mas nunca assim, nunca como terrorismo. Por isso tenho que pensar o que vou dizer, é demasiado complexo. ‘Como vivemos isto e como vamos responder a isto?’.” 

Sobram dúvidas, apesar de certezas. “O meu objetivo como artista é criar empatia, por isso quando temos toda a gente a falar de quem foi morto, também me lembro de todos os sírios que foram mortos, questionando-me sobre que conflito é este, sobre o facto de nós não falarmos sobre eles, de não os termos nas nossas manchetes. Também devíamos fazer isto, as nossas vidas não são mais preciosas que as deles. Não estou a dizer que entendo o terrorismo mas é muito importante recuarmos e olharmos para toda a situação.”

A morte irrompe na conversa, como no filme Heart of a Dog, um retrato sobre a sua cadela Lolabelle, pretexto para refletir sobre a vida e a morte, que revisita os últimos dias da morte da mãe (com quem a artista mantinha uma relação distante, difícil: “Não amo a minha mãe.”) e percorre episódios com a marca do 11 de setembro. Laurie vive na cidade que foi atacada num dia límpido de 2001, e na altura a sua resposta foi artística: dois concertos dias depois do dia infame. A arte como resistência e sobrevivência. “Podemos usar muitas palavras: resistir, sobreviver, comprometer com, viver por... Para mim, toda a minha vida foi fazer coisas que considero terem beleza e sentido, por isso é muito importante proteger essas coisas de pessoas que querem acabar com elas.”

“O propósito da morte é a libertação do amor”, diz-nos Laurie no filme - e a banda sonora que faz o filme vive em disco de forma magistral, sem que as músicas e o monólogo da autora se percam. “Não tento romantizar a morte, eu amo a vida”, e repete-se ao DN para melhor se explicar. “Eu amo a vida, mas no meio de Heart of a Dog, o meu professor [de budismo] diz-me para praticar a tristeza sem estar triste. A morte para muitos é assustadora ou triste, mas eu tento vê-la como uma big picture, uma coisa transitória, que faz profundamente parte das nossas vidas.”

Depois regressa à viagem que se seguia a Lisboa e aos telefonemas que a ocupavam. “Tenho pensado toda a manhã, no que dizer a estes jovens músicos, porque temos aqui uma combinação de amor e morte no mesmo instante: gente que se dedica a ouvir música, uma das coisas mais alegres que podemos fazer como seres humanos, e depois são mortos.”

Das palavras que lhe ocupam a manhã passa para o filme. “Heart of a Dog é também sobre lá em cima”, e olha e aponta. “Sobre a liberdade do alto mas que quando se inverte transforma-se em medo." No filme não há metáforas: a sua rat terrier descobre, em passeios pela Califórnia (onde Laurie se refugia com Lolabelle depois dos atentados do 11 de setembro), que nos ares mora uma ameaça, falcões que a sobrevoam e confundem a cadela com coelhos, a mesma surpresa estampada nos olhos dos novaiorquinos quando olharam para cima e viram a destruição. “Para mim, como artista, é importante ver sempre a oportunidade em algo, em vez de viver no medo. Por isso me questiono 'porque faço música?', 'porque faço filmes, porquê?'.” 

Eles, quem atacou, querem isto: “Que vivamos no medo, para termos medo. É uma coisa terrível para se fazer às pessoas, para as fazer ter medo de sair e eles sabem isso. Por isso, é importante resistir, mas também ouvir a sua história, o seu lado.” Ou dito de outro modo, procurando a normalidade. “Sair à rua, ir aos restaurantes, fazer coisas, coisas normais, não ter medo, tentar não ter medo, tentar abrir o coração ao que se passa, em vez de só pedir vingança” - e muda a voz, quase fantásmica, “vingança não, não, não”. Para insistir que essa “é uma terrível reação”.

O filme termina com uma “mensagem de esperança”. A voz de Lou Reed - o marido de Laurie, que morreu em 2013, e que assoma por instantes a estender-lhe a mão - canta Turning Time Around, onde se pergunta a que é que se chama amor. Laurie sorri e antecipa uma resposta: “Cada ser no presente. Este filme também é sobre o tempo. Como se vive os arrependimentos, as expectativas, como é que vivemos este momento. Para mim, Turning Time Around é sobre uma pessoa que está bem no presente, e é uma prenda para as pessoas, de quem aprecia a vida como é.”

[artigo originalmente publicado no DN em 22 de novembro de 2015]

Outubro 28, 2020

A música do trono que nos levou pelo Inverno

Miguel Marujo

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Oito temporadas, oito bandas sonoras: Ramin Djawadi teve a capacidade de, com a música de A Guerra dos Tronos, compor uma partitura que dá fôlego a cada cena, sem nunca perder a identidade musical própria - e assim nasceu uma estrela rock.


Há uma porta que se fecha e Jon Snow parte com os homens livres a caminho do Norte selvagem, para lá da Muralha, ao som de A Song of Ice and Fire, uma versão vocal do tema-título de Game of Thrones, que nos acompanhou até maio [de 2019], ao longo de oito temporadas e 73 episódios, desde 2011.

Esta Guerra dos Tronos não se fez apenas de uma história que agarrou milhões por todo o mundo — e que esteve [em 2019] na corrida aos Emmys, com 32 nomeações em 26 categorias, incluindo melhor composição musical original para uma série dramática, com The Long Night —, também se fez de uma banda sonora original, também ela dividida em oito volumes, um por cada temporada.

Ramin Djawadi teve a capacidade de, com este trabalho, compor uma partitura que dá fôlego a cada cena da série, sem nunca perder uma identidade musical própria, o que permite ouvir os álbuns (oito volumes, tantos quantos as temporadas da série, para lá de outras edições que exploram o filão da série) sem o acompanhamento das imagens para as quais a música foi composta. A revista americana The Atlantic não deixa a coisa por menos: "Game of Thrones fez do seu compositor uma estrela rock." Faltou o adjetivo: merecido.

A orquestração é muitas vezes épica, como pedem as imagens que nos surgem no ecrã. E à memória vem-nos, por exemplo, Mhysa, um tema quase litúrgico para ilustrar a elevação em braços de Daenerys (a personagem interpretada por Emily Clarke, outra estrela pop nascida com esta série), saudada pelos yunkish como a sua mhysa, a sua mãe, depois de terem sido libertados do jugo esclavagista, a fechar o último episódio da terceira temporada.

Djawadi encontra ainda o equilíbrio necessário para composições mais íntimas, mesmo que nesses momentos essas músicas possam parecer mais decorativas e mais dependentes das imagens que ilustram.

Lado a lado com o "classicismo" cinéfilo (chamemos-lhe assim) de grande parte dos temas instrumentais, Ramin Djawadi mostra-nos que não é apenas um bom aluno do melhor que se faz neste campo de bandas sonoras e vai introduzindo no alinhamento das temporadas uma ou duas canções verdadeiramente pop, nomeadamente esse hino que é Rains of Castamere e que parte de uma frase que é o lema da Casa Lannister: "Um Lannister paga sempre as suas dívidas."

A letra exulta a vitória de Tywin Lannister sobre os membros da Casa Reyne, senhores de Castamere, depois da rebelião destes antigos vassalos dos Lannister. Tal como na série, a canção será cantada por várias personagens nos livros de George R.R. Martin, As Crónicas de Gelo e Fogo.

Pop de primeira água

Ao longo das oito temporadas, Rains of Castamere conhecerá múltiplas versões, pela mão de fortes nomes da música indie, como os americanos The National ou os islandeses Sigur Rós, ou outros intérpretes menos conhecidos por cá. E o espantoso é descobrir como esta mesma canção permite interpretações tão próprias de cada uma destas bandas — que facilmente poderiam integrar o seu catálogo.

Também se ouvem breves apontamentos, como aquele em que Tyrion Lannister assobia quase com sarcasmo uma parte da canção da sua família, no primeiro episódio da segunda temporada, naquela que é a primeira vez que se ouve o tema na série, ou no "casamento vermelho" (na terceira temporada), em que se escuta uma versão instrumental no início da boda sangrenta. Só uma das personagens percebe o alcance do que significa aquele tema: há um massacre a caminho.

É nesta terceira temporada que Cersei Lannister explica a Margaery Tyrell o significado da canção, recitando dois versos — But now the rains weep o'er his hall, with no one there to hear — que a ajudam a tirar a conclusão com a frieza de sempre: "Se me chamar irmã de novo, farei com que seja estrangulada durante o sono."

Noutro casamento, o do rei Joffrey, uns músicos interpretam a canção, num falsete que se reconhece de tão característico, para logo serem escorraçados pelo monarca, atirando-lhes moedas — eles são, também, neste breve cameo, os membros dos Sigur Rós, que voltam a fazer-se ouvir nos créditos finais do episódio da quarta temporada.

Já na versão dos The National, que se ouve na segunda temporada, a voz funda de Matt Berninger arranca sozinha, quase ébria, para se fazer acompanhar de discretas cordas e sopros, que ganham espaço e imponência à medida que a canção evolui, com Matt ao comando desta solenidade pop. Simplesmente brilhante.

Ao longo da série encontramos variações sobre este tema, como, por exemplo, na abertura da terceira temporada, em que ouvimos A Lannister always Pays His Debts, primeiro quase lamentada pela voz de um violoncelo, depois num crescendo épico como Djawadi gosta de fazer.

Um jogo de autocitações

Este jogo de autocitações é recorrente, como no tema de Petyr Baelish, o "Littlefinger", The Climb, que, tal como a canção dos Lannister, parte do lema de lorde Baelish, "o caos não é um poço, o caos é uma escada". E esta melodia é também ela mote para várias composições, como Await the King's JusticeA Raven from King's Landing e A Bird without Feathers, na primeira temporada, ou The Throne Is Mine, na segunda.

Há uma experimentação de que Ramin Djawadi não abdica, em função do que melhor quer para ilustrar as cenas. Se até ao final da quinta temporada, na parafernália de instrumentos que usou, não se ouviu uma só nota de piano, o compositor nascido na Alemanha, filho de pai iraniano e mãe alemã, aposta então neste instrumento para contar aquilo que se vê no ecrã, como recorda a revista The Atlantic. É na sequência-chave em que Cersei Lannister destrói o templo do seu reino, fazendo explodir todos os que lá se encontravam.

A peça de mais de nove minutos acompanha, primeiro com piano, depois órgão e violinos, o perigo mortífero subterrâneo cada vez mais ensurdecedor até à explosão final. "Toquei a cena inteira com harpa e todas as pessoas estavam a menear a cabeça", contou Djawadi à The Atlantic, levando-o a procurar outro instrumento. "Existe um calor que o piano mais frio não tem."

Com o piano em Westeros, Light of the Seven é uma composição que impregna as imagens de tensão, violência, malícia e desespero, tal como é a personagem interpretada por Lena Headey, descreve de forma certeira a revista. "Ele não acompanha a cena", explicam os criadores da série David Benioff e Daniel Brett Weiss ao jornalista da revista americana. "Ele molda a cena, tanto ou mais do que qualquer outro elemento criativo." Ele é Ramin Djawadi, claro.

Mais para o fim, muitos fãs manifestaram-se desiludidos, em particular com a forma como a dupla criativa arrumou o argumento da oitava e última temporada. Djawadi pouco se importou e não se poupou, como na explosão do Septo, a construir com a sua sonoridade uma violência funda e contida para a destruição de Westeros por Daenerys em The Bells. Por comparação: é bem mais interessante ouvir o original do que a versão que alguém montou com For Whom the Bell Tolls, dos Metallica, achando que a descarga metaleira ia melhor com aquele massacre, e não percebendo que a força da composição de Ramin é tecer a violência com uma linguagem musical bem menos óbvia — e tensa, muito (mais) tensa.

É nesta opulência criativa que encontramos na peça que fecha a série, A Song of Ice and Fire, com vozes em crescendo a acompanhar percussões que sobem aos céus e que se precipitam para um final abrupto. Como se Djawadi tivesse também ele pressa em fechar a série, cuja última temporada foi despachada em seis episódios. Mas não há mácula, só redenção.

 

OUTROS CANDIDATOS dos Emmys de 2019

Os Emmys distribuem as bandas sonoras por várias categorias. Aqui ficam alguns exemplos das obras que concorrem com Game of Thrones e outras que são candidatas a outros prémios. Mãos-cheias de boa música.

The Handmaid's Tale
Adam Taylor compõe uma partitura tão densa e pesada como a história desta série. Elisabeth Moss é a voz em dois temas.

Barry
David Wingo tem no seu currículo já 30 bandas sonoras, incluindo Take Shelter e Midnight Special, é nomeado por esta comédia negra.

House of Cards
Jeff Beal, várias vezes nomeado e que venceu dois Emmys em 2015 e 2017 com composições para esta série, está de novo indicado.

This Is Us
O americano Siddhartha Khosla recebe a primeira nomeação para um Emmy de melhor música para uma série dramática.

Chernobyl

A islandesa Hildur Guðnadóttir visitou uma central nuclear para se inspirar e construir uma música tão tensa e claustrofóbica como as paredes da central destruída.

Escape at Dannemora
A categoria de música composta para minisséries, filmes e especiais acolhe também esta obra de Edward Shearmur.

Good Omens
David Arnold compôs uma obra que acompanha as peripécias de um anjo e de um demónio que vivem na Terra.

True Detective
T Bone Burnett e Keefus Ciancia juntam-se para a banda sonora da série da HBO, que nos traz temas de Leonard Cohen e de Nick Cave.

When They See Us
Kris Bowers traduz em sons a história verídica de jovens falsamente acusados de um crime. É a sua primeira nomeação.

[artigo revisto a partir do original publicado no DN em 22 de setembro de 2019]

Dezembro 26, 2019

Uma zona morta. Como uma série de TV fez crescer um turismo de risco

Miguel Marujo

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Em finais de abril de 1986, os céus da Europa cobriram-se de pequenas partículas poeirentas e radioativas. Na central nuclear sueca de Forsmark, os trabalhadores notaram a acumulação dessas pequenas partículas nas suas roupas e lançaram o alerta para eventuais fugas no local - mas a fonte do mal estava a 1100 km, em Chernobyl, uma central nuclear na cidade de Pripyat, na Ucrânia, então uma república soviética.

Hoje, 33 anos depois, Chernobyl é o que os ucranianos chamam de "uma zona morta", mas é também uma excelente série de televisão (com uma banda sonora a condizer na qualidade), que relata aqueles dias que carregaram mais medo e terror na atmosfera de uma Europa rasgada a meio.

A série, uma produção da HBO, conta uma história conhecida: na noite de 25 para 26 de abril de 1986, um teste de segurança correu mal e o reator nuclear n.º 4 explodiu - era 1.23 da manhã. É por aqui que começa a série, por aquela onda que se propaga, um incêndio que se instala, e as pessoas ao longe que despertam nas suas casas e saem à rua, homens, mulheres e crianças a verem ao longe as tonalidades hipnóticas que se desenham vindas da central. E as tais partículas que enchem o ar, como se fossem pequenos flocos de neve, quando na verdade eram confetis de morte.

Gente como nós

É este rigor estético - sublinhado pelos cenários, guarda-roupa e os espaços físicos quase ascéticos e asséticos -, que prende o olhar do telespectador desde o primeiro instante, somado a uma tensão de quem descobre os bastidores e pormenores deste acidente.

O realizador Johan Renck (autor de outra minissérie, Os Últimos Panteras, ou dos telediscos de David Bowie, Lazarus e Blackstar) faz-se acompanhar de um elenco que inclui Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley, para nos contarem uma tragédia tantas vezes dita, mas tão pouco conhecida. Se conhecemos a história, a série reaviva a memória e conta-nos mais, mostra-nos o dia-a-dia de gente como nós, que trabalhavam e iam para a escola todos os dias sem desconfiar que viviam encostados a uma potencial "zona de morte".

"Um mundo justo é um mundo são e não há nada são em Chernobyl", diz-nos a voz que nos introduz na série, a de Valery Legasov (Jared Harris), cientista russo, que chefiou a comissão de inquérito ao acidente, e se suicidou dois anos depois do acidente, na véspera de publicar os resultados do inquérito.

Paradoxo: sem nada saudável em Chernobyl, como nos avisa Legasov, o sucesso desta minissérie fez disparar o turismo nesta "zona morta", uma fantasmagórica cidade de Pripyat, que foi evacuada 36 horas depois do acidente. E na série, há um rapaz que vê um homem a vomitar num relvado, enquanto um soldado de máscara manda seguir um dos muitos autocarros que transportaram cerca de 49 mil pessoas para fora de um perímetro de dez quilómetros.

Em duas reportagens fotográficas, uma da Reuters publicada no dia 4 [de junho], e outra da agência EPA partilhada este sábado [8 de junho], veem-se visitantes a passearem pela cidade abandonada de Pripyat: como qualquer turista destes dias, há uma mulher que tira uma selfie junto a um autocarro abandonado e outras duas que se fotografam numa ponte (talvez a "ponte da morte" que se vê no primeiro episódio da série), há um homem que observa um camião e pneus deixados para trás, há quem se passeie por prédios que o tempo tratou de ir degradando ou quem fotografe um pequeno dosímetro, que regista os valores de radiação, e uma sala destruída de um jardim-de-infância.