Dezembro 17, 2025
Os horrores da guerra, a guerra ao horror
Miguel Marujo

Valeu a pena a espera (passe o jogo de palavras): uma das mais interessantes autoras no mundo da ilustração viu algumas das suas mais importantes obras chegar ao mercado português nos tempos mais recentes. A sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim revelou-se por cá com A Espera, a que se seguiram já outros três livros: A Árvore Despida, Erva, e só não lemos ainda Alexandra Kim – Filha da Sibéria.
Keum Suk Gendry-Kim traça, num preto e branco firme e numa narrativa sempre cuidada, o peso de um povo dividido em dois países, de uma história marcada pela ausência e pela memória de famílias forçadas a viverem separadas por uma fronteira herdada da Guerra Fria, com a Guerra da Coreia, em 1950, a dividir a península em duas metades.
Em cada uma das suas novelas gráficas, o desenho vai contando a história quase dispensando palavras a mais. Como em A Espera, testemunho de uma geração de coreanos que vivia na esperança de uma notícia de que os familiares do outro lado do paralelo 38 estavam vivos e haveria a possibilidade de um reencontro (concretizados desde os anos 1980, décadas depois da separação). Keum Suk Gendry-Kim ouviu a mãe sobre a vida dela e entrelaçou-a, pintando a história da península com pinceladas sobre a sua relação filial, numa dose de afeto, humor e ironia que narram a dor e angústia do povo coreano.

Com Erva, a autora alarga o seu sucesso e projeção internacionais, voltando a abordar um capítulo doloroso na história coreana, ao contar a história verídica de uma criança sul-coreana que foi vendida pela família, durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou explorada como “mulher de conforto”, ou seja, escrava sexual dos soldados japoneses. Essa criança, Ok-Sun Lee, deu a conhecer a sua história nos últimos anos de vida, quando se tornou ativista dos direitos das mulheres — e Gendry-Kim abordou a história com uma sensibilidade notável, carregando no preto das suas pinceladas (e há páginas que pedem que nos demoremos a ver cada detalhe) para melhor retratar o sofrimento destas crianças.
Em A Árvore Despida, Keum Suk Gendry-Kim regressou aos tempos da Guerra da Coreia, mas desta vez optando por adaptar uma obra de culto da literatura coreana da autoria de Park Wan-Seo, de novo sob o signo do muro que divide as duas partes da península, com uma história de amor impossível entre uma mulher do Sul e um pintor do Norte (ele era casado). O traço marcante a preto e branco da autora dá lugar à cor para representar os quadros desse homem-pintor, numa solução engenhosa e bonita, que acrescenta poesia a uma narrativa que remexe com as sombras e as dores da guerra.
E este é o poder dos trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim: tocar o indizível e a angústia da guerra, a memória e os afetos, com uma graciosidade e uma beleza que toca o seu desenho e a narrativa. Valeu a pena esperar por esta autora.
O quotidiano das mulheres no Irão
Inscrever a memória da luta pelos direitos das mulheres no Irão é o propósito de Mulher, Vida, Liberdade, um álbum de banda desenhada coordenado por Marjane Satrapi, ilustradora iraniana, autora do notável Persépolis, hoje radicada em França. Depois da morte de Mahsa Amini, às mãos da polícia de costumes do regime iraniano, em setembro de 2022, levantou-se um movimento — com o nome que dá título a este livro — que tem exigido outra liberdade para as mulheres no país.

O regime dos ayatollahs tem reprimido de forma violenta, com condenações à morte e execuções públicas, muitos homens e mulheres (na sua maioria jovens) envolvidos neste movimento, e é esse retrato que o livro procura trazer, como explica Marjane Satrapi: a primeira intenção deste livro “consiste em explicar o que se passa no Irão, descodificar os acontecimentos na sua complexidade e nas suas nuances para um público não iraniano”; a segunda intenção “é a de lançar um sinal aos iranianos para os lembrar de que não estão sozinhos”.
Para concretizar a obra, Satrapi reuniu três especialistas (um politólogo, um jornalista e um historiador), que construíram os argumentos, juntamente com 17 desenhadores que verteram em 23 histórias em banda desenhada e um debate ilustrado. Há ainda um texto que contextualiza “uma história persa do bem e do mal”, que é narrada em três capítulos: “Os acontecimentos”, “Um pouco de história” e “Um regime férreo… um povo que resiste”. Este Mulher, Vida, Liberdade é um relato essencial para melhor compreender a luta de mulheres e homens que não se resignam a um regime que oprime direitos e vidas no Irão.
Uma árvore que é testemunha do tempo

No Oriente, o conflito marca também os territórios de Israel e Palestina, terreno que a banda desenhada já explorou com excelentes resultados (como as de Joe Sacco ou Guy Delisle, por exemplo). Agora, o historiador Vincent Lemire, no texto, e o ilustrador Christophe Gaultier, no desenho, apresentam uma História de Jerusalém, que parte do ponto de vista de uma árvore, uma oliveira com milhares de anos que é testemunha da passagem do tempo e dos tempos que fazem a história da Cidade Santa. Em 250 páginas, a oliveira vai narrando o que vê, desde o tempo em que a árvore “não tinha importância nenhuma” até aos dias de hoje.
No prefácio, com o título “A árvore do conhecimento do bem e do mal”, o historiador Rui Tavares nota que “ao levar-nos para o ponto de vista de uma árvore, este livro comete o paradoxo de nos humanizar”, numa história que “vai para lá da história de uma cidade e que se torna história do Médio Oriente, história europeia e global, história das civilizações e impérios”. A sua esperança – e a daqueles que semeiam uma obra assim – é a de que “com sorte a nossa oliveira”, a árvore deste livro, “lá continuará quando as razões que levam humanos a matar-se, em Jerusalém e no seu entorno, voltem a ser inconcebíveis”.
Numa linha que bebe na tradição franco-belga e com um texto extraído de mais de 200 fontes publicadas e de arquivos inéditos, esta narrativa é uma boa introdução para perceber também muito do que se vive hoje naquelas paragens. Entre o apocalipse e a revelação.
A Espera
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2023, 248 pp.
Erva
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2024, 488 pp.

A Árvore Despida
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Sunee Hong e Pedro Moura)
LeVoir, 2024, 328 pp.

Mulher, Vida, Liberdade
Marjane Satrapi (coordenação; com tradução de Inês Fraga)
Iguana, 2023, 288 pp.
História de Jerusalém
Vincent Lemire e Christophe Gaultier (tradução de Sandra Alvarez)
LeVoir, 2024, 264 pp.
[texto originalmente publicado no 7Margens, a 16 de maio de 2025. Imagem principal: pormenor da ilustração do livro Erva]











