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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 31, 2025

“Aqui”: arte e literatura numa obra maior

Miguel Marujo

 

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Este é um objeto inclassificável e muito bonito, uma verdadeira obra de arte. Para começo de conversa, é o que conta. Falamos de um livro, que já tem mais de dez anos (foi publicado em 2014), mas só ficou disponível em português no último ano. E em boa hora.

Aqui, como se chama esta novela gráfica, é o registo de um quotidiano que passa pelos nossos olhos ao longo de 304 páginas e milhões de anos – sim, milhões de anos. Este é o ponto de partida criativamente notável da obra de Richard McGuire.

Num traço seguro e clássico, o autor retrata o mesmo espaço ao longo dos tempos, seja 1962, seja 110.000 AC, seja 1990, seja 1609, seja no futuro… e por aí fora, em saltos temporais aleatórios, sempre desconcertantes, que nos levam por entre gargalhadas, silêncios, dramas e afetos, pela doença ou pelas brincadeiras, pelo amor e pela morte, pela infância e pela velhice.

 

O espaço é o interior de uma casa, nomeadamente o canto de uma sala de uma casa, mas essa sala antes de ser sala foi uma floresta, um lago, um jardim, e só depois a casa, que foi mudando de cor e decoração, umas vezes com um escadote ou um berço, outras vezes um sofá-cama, outras um espaço para brincar ou namorar. O canto da sala é protagonista e testemunha, vista e vivida por árvores e plantas, crianças, adultos, mais jovens, menos jovens, velhos, animais, uma lareira ou o pinheiro de Natal.

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É praticamente impossível traduzir o que nos oferece Aqui em cada página, e muitas vezes numa mesma página abrem-se várias janelas, que registam anos distintos, da pré-história ou do século XX. É esta narrativa visual, com diálogos curtos, quando os há, que abre todas as possibilidades para a forma como o leitor e a leitora constroem a história.

Richard McGuire recebeu os maiores elogios com esta novela gráfica, revolucionando a linguagem deste género, que também tem cada vez mais edições em Portugal e leitores. McGuire, que já teve ilustrações publicadas no The New York Times, Le Monde, Libération, fez de Aqui “um trabalho de literatura e arte diferente de qualquer outro visto ou lido antes”, como descreveu o jornal britânico The Guardian. Foi o melhor livro do ano, no festival de BD de Angoulême, ou da década, para a revista Les Inrocks, e o El País não deixou a coisa por menos: “Um dos 100 melhores livros do século XXI.” Não é excessivo: Richard McGuire fez uma obra de arte e de literatura tão intemporal como o tempo percorrido nas pranchas de Aqui.

 

 

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Aqui
Richard McGuire (tradução de 
Raul Henriques)
Cavalo de Ferro, 2024
304 páginas, 35,45€.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 29 de setembro de 2025; imagens do livro]

Dezembro 30, 2025

Um guia sem postais ilustrados

Miguel Marujo

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Não se engane o leitor: esta Volta a Portugal, com um ciclista vitorioso na capa, que Álvaro Domingues retratou em palavras e imagens, não nos traz um pelotão de ciclistas a subir à Torre ou à Senhora da Graça, mas sobe à Serra da Estrela e plana pelas terras da Ria de Aveiro, desce do Minho ao Algarve e salta às ilhas.

Domingues viaja pelo país de bicicleta ou no Google Earth. A parábola da Volta (aquela que se faz em bicicleta iniciou-se em 1927) ajuda o autor a compor e a decompor o “imaginário poderoso” e a “mitologia de lugares” de que se fazem imagens e representações da geografia de Portugal. Não há postais ilustrados aqui.

A globalização, explica-nos Domingues, parece ter acelerado o tempo, aumentando a tensão e a ansiedade sobre a própria paisagem e, no país de hoje, a paisagem urbana e a rural explodiram, numa amálgama que estilhaça a “geografia mítica da Nação” e “algumas ideias assentes sobre Portugal tão uno na sua individualidade nacional, e tão variado nas suas expressões de vida e beleza”.

Não se assuste o leitor: Álvaro Domingues pedala nesta Volta a Portugal, não esquecendo a terra e procurando apresentar o retrato de um imaginário geográfico. É uma viagem que vale a pena. O autor, geógrafo, e doutorado em Geografia Humana, quase oblitera humanos da paisagem, mesmo que a sua presença esteja omnipresente. As fotografias têm legendas, mas omitem a sua localização, como se toda a paisagem fosse de todos os lugares.

“Sob a paleta genérica da metamorfose profunda do país rural e da mágoa da sua perda, persiste uma jazida imensa de imagens emaranhadas em filões variados e contrastantes que, de tão diversos ao nível local e regional, comprometem a própria visibilidade da questão ao nível nacional — o todo que nunca houve vai-se perdendo na pulverização das suas peças. Desta superabundância de casos resulta um aturdimento geral que tudo confunde.”

Não se confunda o leitor: Álvaro Domingues, nos seus textos, ou os muitos poetas, escritores, académicos, de que se socorre o autor, organiza uma Volta a Portugal que tenta guiar-nos por entre “o mosaico das suas diversidades, as contradições e os contrastes que percebemos na rapidez das mudanças recentes a que assistimos aqui e ali” e responder aos “consensos sobre o imaginário geográfico do País” que escasseiam.

A fealdade de lugares pode levar o leitor a não encontrar empatia no olhar destas paisagens, mas acaba por reconhecer um certo tipo de beleza na composição de anacronismos no espaço, das ruínas coloniais por entre árvores a alminhas nas esquinas, de jardins de pedra a chaminés que se intrometem na planície, na salganhada de telhados e painéis solares que desaguam no campo ou por entre blocos de prédios dispostos de forma errática, até ao “Minho tropical romântico de torna-viagem” ou pombais que se assenhoreiam de um lugar.

 

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A obra de Álvaro Domingues (que mantém na sua conta no Facebook um registo idêntico de fotografias) nota que “as geografias mentais de Portugal e as suas memórias colectivas encontram-se em profunda transformação” e desvela-nos, de forma muito provocadora este território de “aldeias típicas”, “centros históricos”, “paisagens sem identidade fixa, sem memória”, “paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca”.

O autor e geógrafo não prescreve uma receita, algum medicamento servirá melhor que outros, mas na observação cáustica e irónica de Álvaro Domingues há um olhar profundo sobre a necessidade de melhor vermos e cuidarmos o território, em direção a “um ponto de equilíbrio ou estabilidade”. As eleições autárquicas de outubro passado deviam ter tido como roteiro obrigatório esta Volta a Portugal. E este é um belo livro de bolso para autarcas de como (não) fazer.

 

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Volta a Portugal
Álvaro Domingues
Contraponto, 2017
328 pp, 19,90€.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 12 de outubro de 2025, com ligeiras adaptações; fotos © Álvaro Domingues, e capa do livro]

Dezembro 19, 2025

A trindade do horror: como Putin, Xi e Kim se perpetuam no poder

Miguel Marujo

 

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A ilustração da capa deste livro A Dança dos Ossos não é ficção: a 3 de setembro de 2025, o Presidente chinês, Xi Jinping, chegou à Porta de Tiananmen, em Pequim, acompanhado dos líderes da Rússia e da Coreia do Norte, Vladimir Putin e Kim Jong-un, para assinalar o 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Uma trindade do horror.

Cada um destes três líderes é visto a partir do lugar de poder que ocupam, usando a História e abusando da falsificação e da manipulação das histórias dos seus países, para melhor controlar os povos que dirigem de forma autocrática e ditatorial. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, escreve George Orwell, citado na epígrafe do livro.

“A dança dos ossos” refere-se à manipulação política: em contextos políticos, nomeadamente à forma como os líderes, particularmente os autoritários, distorcem e modelam as narrativas históricas — até mesmo as “mentiras descaradas” — para servir a sua agenda política e justificar o governação atual.

Livro político do ano, em 2022, para os jornais Financial Times, Sunday Times e BBC History Magazine, a jornalista Katie Stallard apresenta-nos, nesta obra de fôlego, uma viagem que tem tanto de fascinante, como de assustadora: os destinos da China, Coreia do Norte e Rússia não são dissociáveis do estado do mundo, num tempo em que o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, fica despeitado e invejoso por não estar em Pequim, lado a lado com os três ditadores.

 

A Dança dos Ossos

 

A desinformação e as fake news não são uma invenção de hoje, nem exclusiva de regimes autoritários, mas em pleno século XXI, em que se vive num ambiente saturado de informação, o joio faz as vezes do trigo e o gato é comido por lebre, com muitos a acreditar e aqueles que lutam pela verdade, acabam presos, exilados ou mesmo mortos. Por exemplo, a história da Segunda Guerra Mundial é reescrita em função dos interesses do poder. Putin decretou que a Rússia “precisava mais dos seus mitos e dos seus heróis do que da verdade” (p. 202).

Também na Coreia do Norte, a ficção entranha-se na realidade, e a dinastia Kim governa com os pés assentes em mentiras sucessivas, dos locais de nascimento ao envolvimento dos líderes nos esforços de guerra, seja a Segunda Guerra Mundial, seja a Guerra da Coreia. “Os relatos verdadeiros dos combates, por mais inocentes que fossem, ameaçavam comprometer a versão oficial dos acontecimentos” (p. 165). Para que não haja dúvidas, a desinformação (em anos muito anteriores à internet e às redes sociais) fazia-se de gigantescas edições: “Entre 1957 e 1960, foram impressos mais de 95 milhões de exemplares de livros sobre o movimento de guerrilha”, ou seja, como constatou o historiador Andrei Lankov, “nove livros por cada homem, mulher e criança do país” (p. 162).

Na Rússia, tal como na China e Coreia do Norte, nota Katie Stallard, “a liderança reconheceu o poder da guerra passada para mobilizar o apoio da opinião pública e reivindicar uma posição moral de destaque”. Por isso, na ocupação russa da Crimeia em 2014, Putin apresenta-se como o defensor da paz e a proteger os russos, perante a “ameaça fascista” da Ucrânia. “Tal como tinham derrotado Hitler em 1945 e salvado o mundo do fascismo, também se oporiam à ascensão desta nova ameaça fascista” (p. 180). O passado a justificar (ou a limpar) os crimes de hoje.

Como sintetiza Stallard, Xi Jinping utilizou o passado na China “para contextualizar os desafios contemporâneos do país e demonstrar a necessidade da sua liderança, afirmando estar a alcançar vitória após vitória e a liderar a luta contra os inimigos, tal como os seus antecessores haviam feito em conflitos anteriores” (p. 269). São vitórias que mergulham estas sociedades em regimes sem liberdades, e em que qualquer assomo de dissidência é punido de forma absoluta.

 

A Dança dos Ossos

Katie Stallard, tradução de Sara Veiga.
Livros Zigurate, 2024
328 pp, 23,20€.

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 2 de outubro de 2025; imagem: pormenor da capa do livro]

Dezembro 17, 2025

Os horrores da guerra, a guerra ao horror

Miguel Marujo

 

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Valeu a pena a espera (passe o jogo de palavras): uma das mais interessantes autoras no mundo da ilustração viu algumas das suas mais importantes obras chegar ao mercado português nos tempos mais recentes. A sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim revelou-se por cá com A Espera, a que se seguiram já outros três livros: A Árvore Despida, Erva, e só não lemos ainda Alexandra Kim – Filha da Sibéria.

Keum Suk Gendry-Kim traça, num preto e branco firme e numa narrativa sempre cuidada, o peso de um povo dividido em dois países, de uma história marcada pela ausência e pela memória de famílias forçadas a viverem separadas por uma fronteira herdada da Guerra Fria, com a Guerra da Coreia, em 1950, a dividir a península em duas metades.

Em cada uma das suas novelas gráficas, o desenho vai contando a história quase dispensando palavras a mais. Como em A Espera, testemunho de uma geração de coreanos que vivia na esperança de uma notícia de que os familiares do outro lado do paralelo 38 estavam vivos e haveria a possibilidade de um reencontro (concretizados desde os anos 1980, décadas depois da separação). Keum Suk Gendry-Kim ouviu a mãe sobre a vida dela e entrelaçou-a, pintando a história da península com pinceladas sobre a sua relação filial, numa dose de afeto, humor e ironia que narram a dor e angústia do povo coreano.

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Com Erva, a autora alarga o seu sucesso e projeção internacionais, voltando a abordar um capítulo doloroso na história coreana, ao contar a história verídica de uma criança sul-coreana que foi vendida pela família, durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou explorada como “mulher de conforto”, ou seja, escrava sexual dos soldados japoneses. Essa criança, Ok-Sun Lee, deu a conhecer a sua história nos últimos anos de vida, quando se tornou ativista dos direitos das mulheres — e Gendry-Kim abordou a história com uma sensibilidade notável, carregando no preto das suas pinceladas (e há páginas que pedem que nos demoremos a ver cada detalhe) para melhor retratar o sofrimento destas crianças.

Em A Árvore Despida, Keum Suk Gendry-Kim regressou aos tempos da Guerra da Coreia, mas desta vez optando por adaptar uma obra de culto da literatura coreana da autoria de Park Wan-Seo, de novo sob o signo do muro que divide as duas partes da península, com uma história de amor impossível entre uma mulher do Sul e um pintor do Norte (ele era casado). O traço marcante a preto e branco da autora dá lugar à cor para representar os quadros desse homem-pintor, numa solução engenhosa e bonita, que acrescenta poesia a uma narrativa que remexe com as sombras e as dores da guerra.

E este é o poder dos trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim: tocar o indizível e a angústia da guerra, a memória e os afetos, com uma graciosidade e uma beleza que toca o seu desenho e a narrativa. Valeu a pena esperar por esta autora.

 

O quotidiano das mulheres no Irão

 

Inscrever a memória da luta pelos direitos das mulheres no Irão é o propósito de Mulher, Vida, Liberdade, um álbum de banda desenhada coordenado por Marjane Satrapi, ilustradora iraniana, autora do notável Persépolis, hoje radicada em França. Depois da morte de Mahsa Amini, às mãos da polícia de costumes do regime iraniano, em setembro de 2022, levantou-se um movimento — com o nome que dá título a este livro — que tem exigido outra liberdade para as mulheres no país.

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O regime dos ayatollahs tem reprimido de forma violenta, com condenações à morte e execuções públicas, muitos homens e mulheres (na sua maioria jovens) envolvidos neste movimento, e é esse retrato que o livro procura trazer, como explica Marjane Satrapi: a primeira intenção deste livro “consiste em explicar o que se passa no Irão, descodificar os acontecimentos na sua complexidade e nas suas nuances para um público não iraniano”; a segunda intenção “é a de lançar um sinal aos iranianos para os lembrar de que não estão sozinhos”.

Para concretizar a obra, Satrapi reuniu três especialistas (um politólogo, um jornalista e um historiador), que construíram os argumentos, juntamente com 17 desenhadores que verteram em 23 histórias em banda desenhada e um debate ilustrado. Há ainda um texto que contextualiza “uma história persa do bem e do mal”, que é narrada em três capítulos: “Os acontecimentos”, “Um pouco de história” e “Um regime férreo… um povo que resiste”. Este Mulher, Vida, Liberdade é um relato essencial para melhor compreender a luta de mulheres e homens que não se resignam a um regime que oprime direitos e vidas no Irão.

 

Uma árvore que é testemunha do tempo

 

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No Oriente, o conflito marca também os territórios de Israel e Palestina, terreno que a banda desenhada já explorou com excelentes resultados (como as de Joe Sacco ou Guy Delisle, por exemplo). Agora, o historiador Vincent Lemire, no texto, e o ilustrador Christophe Gaultier, no desenho, apresentam uma História de Jerusalém, que parte do ponto de vista de uma árvore, uma oliveira com milhares de anos que é testemunha da passagem do tempo e dos tempos que fazem a história da Cidade Santa. Em 250 páginas, a oliveira vai narrando o que vê, desde o tempo em que a árvore “não tinha importância nenhuma” até aos dias de hoje.

No prefácio, com o título “A árvore do conhecimento do bem e do mal”, o historiador Rui Tavares nota que “ao levar-nos para o ponto de vista de uma árvore, este livro comete o paradoxo de nos humanizar”, numa história que “vai para lá da história de uma cidade e que se torna história do Médio Oriente, história europeia e global, história das civilizações e impérios”. A sua esperança – e a daqueles que semeiam uma obra assim – é a de que “com sorte a nossa oliveira”, a árvore deste livro, “lá continuará quando as razões que levam humanos a matar-se, em Jerusalém e no seu entorno, voltem a ser inconcebíveis”.

Numa linha que bebe na tradição franco-belga e com um texto extraído de mais de 200 fontes publicadas e de arquivos inéditos, esta narrativa é uma boa introdução para perceber também muito do que se vive hoje naquelas paragens. Entre o apocalipse e a revelação.

 

A Espera
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2023, 248 pp.

Erva
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2024, 488 pp.

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A Árvore Despida

Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Sunee Hong e Pedro Moura)
LeVoir, 2024, 328 pp.

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Mulher, Vida, Liberdade

Marjane Satrapi (coordenação; com tradução de Inês Fraga)
Iguana, 2023, 288 pp.

História de Jerusalém
Vincent Lemire e Christophe Gaultier (tradução de Sandra Alvarez)
LeVoir, 2024, 264 pp.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 16 de maio de 2025. Imagem principal: pormenor da ilustração do livro Erva]

 

 

Dezembro 14, 2025

Lisboa, uma cidade sonhada e misteriosa com gôndolas

Miguel Marujo

 

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Há 30 anos, Lisboa ainda respirava: a cidade vivia o sobressalto dos dinheiros que chegavam a jorro da Europa, a Praça do Comércio deixava de ser o parque de estacionamento a céu aberto, vivia-se a ressaca da Capital Europeia da Cultura, o estertor do cavaquismo, a alma lisboeta não se tinha entregue por completo ao diabo de nómadas digitais, cruzeiros e tuk-tuks. Havia turistas, neonazis a matarem um jovem português de origem cabo-verdiana e o Chiado ainda se subia por um passadiço para transpor os escombros do incêndio de 1988.

É neste caldo que nasce Ana (1994), o primeiro álbum da trilogia de aventuras de Filipe Seems, personagem nascido da pena de Nuno Artur Silva e do lápis de António Jorge Gonçalves, que “sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse… uma cidade onde imaginasse os lugares e os habitantes, com as suas histórias, o enredo do acaso e do destino dos seus encontros, uma cidade e a sua mitologia”.

Esta cidade sonhada tem gôndolas que navegam no imenso lago da Praça do Comércio, sobem pelo canal da Rua Augusta e desaguam num Rossio aquático. Na Lisboa destas páginas, há um cinema drive-in junto à Torre de Belém, elétricos voadores a subir as colinas (e estávamos longe de nos assustarmos com a realidade trágica do Elevador da Glória), um comboio tubular na ponte, um rio sob o aqueduto, ou uma Basílica da Estrela transformada em templo da moda. Nesta cidade imaginada, o velho e o futurista coexistem num delírio de imaginação e criatividade que damos por nós a gostar que esta cidade venha a existir.

 

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

Esta trilogia – que se completou com A História do Tesouro Perdido (1994) e, quase dez anos depois, com A Tribo dos Sonhos Cruzados (2003) – foi de novo editada numa edição comemorativa dos 30 anos da edição do primeiro volume. “Estes livros”, descreveu António Jorge, “foram o início (longínquo) de um caminho” e que agora têm uma nova vida.

“Os originais foram digitalizados de novo com tecnologia recente (permitindo melhor reprodução das cores), o texto foi revisto, novas capas e material inédito foi criado e algumas páginas tiveram de ser redesenhadas porque os originais tinham desaparecido: fui falsário de mim próprio, a redescobrir técnicas de desenho e pintura que deixei de usar há décadas. Por fim, a escolha do papel e o formato generoso deixam-nos mais próximos dos desenhos originais”, contou o autor, no seu site (de onde se reproduzem as imagens deste texto).

 

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

Esta edição cuidada e lindíssima dos três volumes é um ótimo pretexto para revisitar a Lisboa do detetive “muito particular” Filipe Seems, e escritor de bandas desenhadas nas horas em que não investiga um mistério sobre duas gémeas.

Este ponto de partida leva Seems a perder-se numa “Lisboa que parece existir na Lisboa que talvez não exista”, como depois o faz seguir o rasto de um tesouro perdido, que um canal de televisão também cobiça, antes de se perturbar por sonhos enigmáticos, num tempo em que as redes de conteúdos globais.

As aventuras aqui desenhadas vivem de uma ideia tão original, quanto de um argumento lucidamente tecido por Nuno Artur Silva e de um traço característico e sempre surpreendente e arrebatador de António Jorge Gonçalves, que a cada volume adequa o desenho aos ambientes exigidos pelo texto. Estas aventuras de Filipe Seems têm 30 anos, mas vêm a tempo deste tempo – é uma obra-prima. Para continuar a sonhar com uma outra cidade.

 

Os livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

As capas da nova edição dos livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Outras fotografias: imagens dos trabalhos, no atelier de António Jorge Gonçalves. Fotos retiradas do site oficial do autor: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

 

Trilogia Filipe Seems
Livro 1: Ana
Livro 2: A História do Tesouro Perdido
Livro 3: A Tribo dos Sonhos Cruzados
António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva
Asa, 2024, 64 páginas cada volume, 22,90€ cada volume.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 19 de outubro de 2025]

Novembro 28, 2025

Rosalía não é uma santa mas está abençoada

Miguel Marujo

 

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O mundo parece ter-se ajoelhado perante Rosalía, nascida catalã há 33 anos, que, ao quarto álbum de originais, Lux, subiu ao altar da mundaneidade pop, com a benção de muitos católicos. Apesar de tudo, Roaalía não é uma santa.

Cardeais, pelo menos o português Tolentino Mendonça, publicações mais ou menos austeras, como a American, e leigos espantaram-se com esta fusão de estilos, do flamenco ao hip-hop, pinceladas de fado e uma atrevida lição de música clássica, bebendo de várias fontes e contando com vozes convidadas, como Björk, Carminho, Silvia Pérez Cruz ou Estrella Morente. Senhores e senhoras, bendita é Rosalía entre as mulheres, e os homens. O sexo também é deste reino.

Berghain, o primeiro cartão de visita do disco e que se ouve por todo o lado, refere-se a um clube noturno de Berlim, na Alemanha, conhecido por uma cultura queer e por ser muito seletivo à porta. Mas a canção é uma síntese pop perfeita de experimentação e ousadia, mergulhando entre o classicismo da London Symphony Orchestra, a voz sempre única de Björk e a provocação de Yves Tumor.

Cantada em alemão, espanhol e inglês, Berghain é dedicada a Hildegarda de Bingen, monja do século XII e um dos nomes fundamentais da música medieval religiosa. “Se canto em alemão, é porque me inspiro em Hildegard de Bingen.” Para Rosalía, em entrevista ao The New York Times, esta doutora da Igreja deu-lhe a chave para Lux: “A música pode ser uma forma de oração.”

 

 

 

O pecado mora ao lado da santidade, e Rosalía socorre-se de outras santos e místicos, para contar as suas dores e amores, em doses equilibradas de sensualidade e espiritualidade. “Há algo no sagrado que sempre me atraiu, algo que tem a ver com entrega e amor”, notou na entrevista. “Li Santa Teresa de Jesus, Simone Weil, Hildegarda de Bingen… todas elas me acompanharam neste processo.”

Espanto, portanto, já o dissemos. E os exemplos sucedem-se, num álbum que não faz concessões, nem se deixa ir abaixo: RelíquiaLa PerlaLa Yugular e Sauvignon Blanc entram nos cânones da perfeição chamada pop, juntamente com esse hino que é Memória (o dueto com Carminho, e já lá vamos) e a aparente simplicidade de Magnolias.

Há mais: na edição física em vinil e CD, há outras três canções, Focu ‘ranni’Novia Robot e outro assombro quase sussurrado e doce, que é Jeanne, com uma influência assumida: Joana d’Arc. “Entrégate/ Que no hay manera/ Mejor de amar/ Que aniquilarse/ Et qui serais-je?/ C’était décidé/ La voix d’un ange s’est révélée”.

A oração universal que é Lux canta-se em 13 línguas, incluindo o árabe e o hebraico — e esta torre de Babel é também uma tomada de posição, como a própria se explicou: “Fiz o álbum por amor e curiosidade, querendo aprender outras línguas, querendo entender melhor o outro”, disse. E citou a filósofa Simone Weil para acrescentar: “Amor é amar a distância entre nós e o objeto amado. Compreendendo o outro, talvez possas compreender-te melhor, e possas aprender a amar melhor.”

Em português, Rosalía quase disfarça a pronúncia — denunciando o processo de aprendizagem das diferentes línguas, feita ao longo de um ano — para uma letra de Carminho, num fado lisboeta de Armando Machado, que vê a sua composição reinterpretada pela espanhola, por Carminho e pelo americano produtor e multinstrumentista Dylan Wiggins. É da ordem do espanto.

 

 

O novo disco de Rosalía é um puzzle e um labirinto, reconhece a própria, cheio de referências místicas e culturais, multiplicando piscadelas às artes, num jogo do gato e do rato, feito de camadas sonoras e um atrevimento que mais que arrebatou uma multidão.

Não é um disco fácil, pede paciência, em tempos de dopamina instantânea. “Quanto mais estamos na era da dopamina, mais eu quero o oposto. É isso que eu desejo.” Oremos, Rosalía. “No soy una santa pero estoy blessed”, canta ela em Relíquia. Ámen.

 

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[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 23 de novembro de 2025; fotos de divulgação © Noah P. Dillon/Columbia Records]

Novembro 24, 2025

Lá longe, bem longe: um Fórum Social Mundial para sair para a cidade

Miguel Marujo

Há 16 anos, acompanhei como jornalista, convidado pelos Missionários da Consolata, a edição do Fórum Social Mundial (FSM) de 2009, em Belém do Pará, Brasil. Por estes dias, Belém foi ainda mais central no mundo, com a realização da COP30. Mas os resultados são amargos, sem referências à eliminação de combustíveis fósseis. Recupero esta crónica-notícia, escrita em 2024, sobre um novo FSM, que ecoa também sobre o palco de contradições que também é a conferência anual sobre ambiente — e que foi mais nota de rodapé em telejornais ou notícia pequena nos jornais do que a manchete de um mundo sedento de outro clima.

 

 

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Lá longe, bem longe, no Nepal, e ainda mais longe dos debates que por estes dias fazem a atualidade política portuguesa, decorre desde quinta-feira, 15 [de fevereiro], até segunda-feira, 19 [de fevereir de 2024], o Fórum Social Mundial 2024. À distância, a tentação de vermos este evento como algo meramente folclórico é grande – mas é mais revelador de fortes preconceitos e uma enorme ignorância, do que qualquer outra coisa.

A capital daquele estado asiático, Kathmandu, é palco deste evento que se assume como uma plataforma para a convergência de uma gama diversificada de participantes, incluindo movimentos sociais, trabalhadores, agricultores, grupos da sociedade civil, comunidades marginalizadas e os que são “afetados pelos impactos do capitalismo neoliberal e da privatização”. Assim, sem rodeios. As igrejas também participam – por exemplo, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) marca, mais uma vez, presença no encontro –, em muitos casos a um nível mais basista, com missionários, religiosos ou leigos.

Há [16] anos, em janeiro de 2009, em Belém, junto ao rio Guamá, encostado à imensa bacia do rio Amazonas (e durante muito tempo fixou-se a sua foz nesta cidade), houve um mar de gente que chegou até à capital do estado brasileiro do Pará: foram 133 mil participantes de 142 países, incluindo 1.900 indígenas de 120 nações, para um total de 3.210 atividades previstas. Também por lá andaram três mil crianças e adolescentes, num espaço especialmente preparado para o efeito e a organização do evento envolveu, então, mais 17.500 pessoas no trabalho voluntário de apoio, expositores, artistas, jornalistas – e mais sete mil na segurança, incluindo a Força Nacional de Polícia.

No meio de tanta água (65% do território do município espraia-se por 42 ilhas), os mosquitos tiravam a paciência naquela amálgama de gentes, ideias e vontades. Belém é dona de um charme dolente, com a saudade a impregnar-se em edifícios antigos, havia carros de vidros fumados que gritam “Jesus é sucesso”, a polícia mostrava-se muito no meio de moleques, a manga chegava ao porto depois de horas de viagem, os urubus esvoaçavam sobre os restos do mercado, o elétrico parecia só existir em carris e sinais, e a Rua de Aveiro que existe no mapa, mas que não cheguei a ver. Belém entranhou-se. Sem verdadeiramente se estranhar.

Olhando ao redor, via-se uma quantidade extraordinária de projetos que fervilhavam por todo o mundo. Em Belém, soltavam-se ideologias esclerosadas, havia missionários católicos em Moçambique, na Colômbia ou no Roraima a fazerem aquilo que o Estado ou o mercado, ou quem quer que devia fazer, não fazia. Havia associações que participavam ativamente a definir a vida da sua cidade, da sua região, até do seu país. O orçamento participativo não era verbo de encher páginas de jornais – havia cidades que praticavam esta forma de democracia e de cidadania. Também havia folclore, sim, também resistia um ideário velho e gasto, mas o que surpreendia era o facto de, já nesse tempo, este acontecimento que mexeu então com mais de 130 mil pessoas ser apenas uma nota de rodapé em telejornais ou uma notícia pequena nos jornais.

O Fórum Social Mundial também era (e ainda será) um palco de contradições. Onde se acumulava lixo, quando se discutia um mundo mais limpo. Onde havia automóveis a mais, quando se queria um mundo mais verde. E, então, naquela Belém, fez falta pensar num Fórum para lá do seu território: sair da discussão para a praxis política, sair da tenda para a cidade. Ultrapassar o simples slogan ou a palavra de ordem fácil é sempre uma tarefa mais árdua do que parece. O Fórum cresceu muito naquele 2009 – com os tais 133 mil participantes e mais de cinco mil organizações. Mas necessitava de crescer para o mundo, olhar para quem estava de fora, de lado, na margem, e entender que devia traduzir a riqueza daqueles dias de debates nos intervalos entre fóruns.

Nesse tempo, o Fórum Social Mundial de Belém do Pará era um exemplo: a sua realização aconteceu em dois campos universitários enormes, o da Universidade Federal Rural da Amazónia e o da Universidade Federal do Pará, que obrigavam a caminhar muito. Mas outro tipo de exercício ficou por fazer. Junto às universidades, Guamá e Terra Firme eram uma real imersão naquele Brasil de contrastes, com imensas favelas, caídas à beira da estrada, que deviam interpelar mais quem participava no Fórum. Afinal, havia uma fronteira, impercetível, que separava estes territórios. Um outro mundo é possível, lembrava o outdoor do Fórum. Mas só saindo para a cidade.

[Dezasseis] anos depois, noutro país e noutro continente, o Fórum Social Mundial (FSM) procura manter viva a fórmula e o objetivo de criar um “pensamento reflexivo, um debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a livre troca de experiências e a interligação para ações efetivas”, como descreve o CMI, no seu site. Criado em 2001, em Porto Alegre, no Sul do Brasil, com a visão de “Outro mundo é possível”, a edição de 2024 do FSM tem como tema o apelo “Outro Mundo Agora”. O relógio da Terra deixou de ter tempo para grandes futuros, sem ações imediatas.

Durante este fim de semana, há painéis temáticos sobre “Justiça Climática, Ecologia, Transições Justas, Habitat e Desenvolvimento Sustentável”, ou “Terra, Agricultura, Soberania Alimentar, Agroecologia, Energia e Recursos Naturais”, e no sábado, 18, decorre um evento paralelo sobre o “Jubileu da Dívida em Tempos de Mudanças Climáticas”, no qual, segundo informação do CMI, líderes religiosos e comunitários, bem como especialistas de países vulneráveis ao clima, compartilharão experiências vividas e estudos de caso sobre as interseções entre a dívida externa e as alterações climáticas.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 16 de fevereiro de 2024; imagem: na 9.ª edição do Fórum Social Mundial, em Belém, Brasil, em 2009, povos indígenas da Amazónia lideraram uma marcha pelas ruas da capital do Pará. Foto © Marcelo Schneider/WCC-CMI]

 

Outubro 14, 2025

Israel quer que nos esqueçamos da História. Um aparente beco sem saída

Miguel Marujo

 

Dois anos depois dos massacres do 7 de Outubro, que deram início ao atual genocídio em Gaza, eis a sugestão de alguns livros que ajudam a entender raízes, história e contexto do conflito. Dificilmente o atual cessar-fogo resultará, se não se for mais além. Estes livros dão pistas.

 

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“É útil para Israel que todos nos esqueçamos da História”. Assim, de uma penada, o historiador Ilan Pappé resume muito do jogo de desinformação, manipulação e omissão que, por estes dias, nos conta o que se passa em terras de Israel e da Palestina ocupada. E este professor, natural de Haifa, em Israel, filho de judeus alemães que fugiram do regime nazi, insiste em tornar legível a história do conflito aberto entre israelitas e palestinianos.

Com o 7 de outubro de 2023, quando o Hamas lançou um ataque contra Israel, que deixou mais de mil mortos entre civis e militares israelitas, para além de mais de 200 reféns, Israel voltou à sua narrativa, tantas vezes repetida: qualquer ato de violência por parte de palestinianos é vista como “uma atrocidade anormal, compreensível apenas através da ótica de quererem aniquilar os judeus”, dando a Israel “carta-branca” para reações desproporcionadas e violentas. “O ataque do 7 de outubro é utilizado por Israel como pretexto parar implementar políticas genocidas na Faixa de Gaza” (p. 146).

 

 

Israel vs Palestina – A Mais Breve História do Conflito consegue de forma enxuta, sem ser exaustiva, situar-nos no âmago de uma guerra interminável. Ilan Pappé desafia há muito a narrativa tradicional sobre a fundação de Israel, e com esta centena e meia de páginas desmonta o mito de que a Palestina era uma terra vazia, como a propaganda sionista insiste em vender; refuta a ideia de que os ocupantes da Palestina romana de há 2000 anos eram os antecessores dos colonizadores sionistas que chegaram no século XIX; retrata o desastre diplomático britânico na gestão da autodeterminação e independência, prometida aos palestinianos, abrindo porta a um movimento de ocupação colonial, que é o sionista.

Foi este movimento sionista que burilou e conduziu ao longo destas décadas uma política assente na ocupação de terras e expulsão dos seus habitantes originais. Israel tem procurado confundir – por motivações políticas e ideológicas, para justificar a ocupação – antissionismo com antissemitismo, como se um e outro fossem caras da mesma moeda, mas Ilan Pappé desmonta de forma clara essa confusão.

Também por isso, o historiador (para quem dar contexto não é o mesmo que dar desculpas) abre com uma quase-provocação, ao citar o secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, que, nos dias seguintes ao ataque do 7 de outubro, relembrou que os palestinianos estavam sujeitos a uma ocupação com mais de cinco décadas. Mas as raízes são mais antigas, avisa Pappé, recuando ao final do século XIX.

O relato obedece a um cadência cronológica, em que a História parece repetir-se, fosse com a tutela colonial britânica, seja com o governo de Netanyahu. Em 1936 como hoje, a revolta dos palestinianos, não é apenas eliminada. “O objetivo não era simplesmente suprimir a revolta – era garantir que os palestinianos não voltariam a ter forma de se revoltar com eficácia.”

A História tem inquietantes pontos de contacto: os bombardeamentos britânicos, que arrasam cidades, como resposta a ataques de palestinianos, a ocupação de terras, a complacência da comunidade internacional, são cenas que se passam diante dos nossos olhos, nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, como no genocídio em curso na Faixa de Gaza. Estávamos em 1948 e estava em marcha “a limpeza étnica da Palestina”.

A cartilha de Netanyahu, nos dias de hoje, é a de Ben Gurion, um sionista e trabalhista, que avançou com a mesma impunidade da atual liderança israelita: ignorou a partilha do território em dois estados, patrocinou castigos coletivos, promoveu a limpeza étnica, deu ordem para arrasar três aldeias, com o massacre de crianças e mulheres (pp. 67-68).

Pappé não tem dúvidas: o movimento sionista é um projeto contínuo de colonialismo de ocupação, e a solução, para este historiador, é Israel esvaziar o seu “etos de colonialismo de ocupação”. Só assim poderá “coexistir pacificamente com os palestinianos”. Parece cada vez mais longe esse horizonte.

 

Biografias de um povo expatriado

 

 

As edições sobre a história e a política do Médio Oriente, em particular de Israel e Palestina, multiplicam-se por estes dias nas estantes das livrarias portuguesas. Para além da “mais breve história do conflito” de Ilan Pappé, há uma outra História da Palestina Moderna – Uma Terra, Dois Povos, do mesmo autor. O livro foi publicado em Portugal em 2007 e recuperado agora, pela necessidade de ir mais longe na espuma dos dias e dos comentários encartados das televisões.

O tempo e o propósito desta História vai mais longe que o livro dado à estampa no último ano. As suas mais de 400 páginas indicam-no. Esta obra não se confina apenas ao conflito, vai ao início do século XIX, ainda no Império Otomano, percorre a formação da Palestina moderna, demora-se no retrato social, cultural de uma sociedade sem política, nesses tempos, até ao início sionista. O sionismo é um projeto muitas vezes racista, que nasceu também impulsionado por cristãos europeus, que queriam – mais do que dar uma casa aos judeus – pô-los a andar da Europa. Estávamos na época dos nacionalismos egoístas que levariam às tragédias das duas guerras mundiais.

Se Israel vs Palestina pinta com uma cadência informada e breve aquilo que é o conflito entre israelitas e palestinianos, sem descurar o rigor, esta História da Palestina Moderna dá-nos o contexto e o enquadramento para o entender.

 

 

Palestina – Uma Biografia, Cem anos de guerra e resistência é de 2020, e mesmo o prefácio do autor, Rashid Khalidi, para a edição portuguesa (maio de 2022, reimpressa em 2024), é anterior a esta nova guerra entre Israel e a Palestina. No entanto, esta obra vai na linha de Ilan Pappé e traz-nos os elementos suficientes para melhor contextualizar o que se passa na região. Khalidi apresenta-nos os acontecimentos de forma detalhada, no seu contexto global e histórico, notando, como Ilan Pappé, que esta é “uma longa e desigual luta do povo palestiniano para resistir à expropriação de que é alvo”.

Rashid Khalidi, que se dedica aos estudos árabes, na Universidade de Columbia (EUA), apresenta-nos esta história, bebendo nas fontes arquivísticas de uma rica e extensa biblioteca reunida pelo avô e de outras famílias palestinianas, e pintando o retrato desta região a partir das suas próprias experiências pessoais. Os capítulos dividem-se cronologicamente pelas declarações de guerra – e no livro são identificadas seis, de 1917 a 2014, que se traduzem num século de guerra, em que os palestinianos poucas vezes foram ouvidos, e no qual o tabuleiro geoestratégico e político da região se sobrepôs à vontade dos muçulmanos, cristãos e judeus que habitavam estas terras palestinas. O mapa de Khalidi alarga-se ao Iémen, Líbano, Síria, Irão, entre outras geografias, para melhor entender estes cem anos.

 

Os Holocaustos de 2023 até hoje

 

 

O cientista político e arabista Gilles Kepel começa a sua narrativa no 7 de outubro de 2023, para apontar os “dois holocaustos que encarnam a maldição da Terra Santa” desde esse dia: “O pogrom cometido pelo Hamas”, nesse dia, “no qual foram massacrados, violados e mutilados 1140 israelitas, mulheres e homens, de bebés a idosos”; e ainda “a hecatombe de Gaza, causada pelos bombardeamentos e pelas operações terrestres do exército do Estado judaico, na qual morreram cerca de 25 mil palestinianos durante os primeiros cem dias da ofensiva”.

Este número já está desatualizado, mas a visão de Kepel em Holocaustos permanece muito atual. Ao usar o termo holocaustos no seu sentido religioso original de sacrifício em massa, o autor francês procura relacionar “Israel, Gaza e a guerra contra o Ocidente”, o subtítulo do livro. E este é um ponto que distingue as abordagens dos outros anteriores. Gilles Kepel aborda o conflito que opõe o Norte – que luta contra o antissemitismo nazi que ainda permanece – a um Sul Global, que está contra o domínio colonial e a perpetuação de regimes de apartheid. Uma guerra global ao Ocidente e aos seus valores, opondo o apartheid à Shoah.

É uma perspetiva desencantada sobre uma política mais interesseira que interessada, “um prelúdio ao Armagedão a que os beligerantes da Terra Santa aspiram”. O mundo que apenas pede justiça e paz fica sem chão.

 

O choque entre o Islão e a modernidade

 

 

O choque de civilizações, tão caro a uma determinada corrente, é ainda mais aprofundado em O Médio Oriente e o Ocidente – O que correu mal?, obra do historiador Bernard Lewis de 2002 (editada em Portugal em 2003 e que agora teve nova edição) que aborda “as consequências do choque entre o Islão e a modernidade”. Para lá das fronteiras do conflito entre Israel e a Palestina, para lá do que separa estes dois povos na mesma terra.

É uma obra de fôlego, que parte da traição da História, que os muçulmanos sentem, por causa da perda de uma liderança civilizacional e do afastamento da modernidade. Para Lewis, nota o tradutor e prefaciador deste livro, Bruno Cardoso Reis, “nenhuma comunidade está isenta de erros e crimes, mas também nenhuma tem o seu monopólio”, e por aqui não se esperam facilidades na leitura dessa História.

Nestas páginas não há Hamas ou Netanyahu, mas há suficientes e densas pistas para uma leitura destes tempos. A esperança deste académico britânico, com raízes judaicas e que morreu em 2018, era a de que os habitantes do Médio Oriente se perguntassem “Onde é que errámos?”, para ultrapassarem a decadência de uma região que foi uma das “maiores, mais avançadas e mais abertas civilizações da história humana”, e que hoje mergulha “num círculo vicioso de ódio e vingança, frustração e autocomiseração, pobreza e opressão”.

Pondo de lado estas “queixas e autocomiseração obsessivas”, talvez o Médio Oriente possa ser “um ponto importante em termos civilizacionais”. Por enquanto, esta é ainda "uma escolha que está nas suas mãos”, argumenta Lewis. No caso dos palestinianos, há quem não o permita. Um aparente beco sem saída.

 

Israel vs Palestina – A Mais Breve História do Conflito 
Ilan Pappé, tradução de Ana Rooney-Magalhães
Ideias de Ler, 2025, 160 pp, 14,99€.

História da Palestina Moderna – Uma Terra, Dois Povos
Ilan Pappé, tradução de Ana Saldanha
Caminho, 2024, 416 pp, 20,90€.

Palestina – Uma Biografia, Cem anos de guerra e resistência
Rashid Khalidi, tradução de Carla Ribeiro
Ideias de Ler, 2024 (reimpressão), 404 pp., 19,99€.

Holocaustos – Israel, Gaza e a guerra contra o Ocidente
Gilles Kepel, tradução de Luís Filipe Pontes
D. Quixote, 2024, 216 pp., 18,80€.

O Médio Oriente e o Ocidente – O que correu mal?
Bernard Lewis, tradução de Bruno Cardoso Reis
Gradiva, 2024, 232 pp., 15,50€.

 

[texto originalmente publicado no 7MARGENS, com o título "Israel quer que nos esqueçamos da História. Estes livros lembram-nos como é", a 6 de outubro de 2024]

 

Setembro 25, 2025

Crónicas de uma sombra sem fim

Miguel Marujo

 

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Este é um tempo estranho e de contradições. Regressou o medo do uso da bomba atómica, em particular à Europa (e todos demos por nós a cantar Russians, a canção de Sting que parecia já não fazer sentido), por causa da guerra instalada na Ucrânia, mas também ao Médio Oriente, onde o conflito se eterniza e há demasiadas bombas à solta. E regressou também o debate sobre o uso da energia nuclear, em que se vende como mais fiável, barato e seguro aquilo que sempre pareceu muito pouco seguro, depois de Chernobyl, e na sequência de Fukushima. 

Nem de propósito, chegaram às livrarias duas obras essenciais para nos ajudar a entrar neste debate, sem receio de o fazer através de livros de banda desenhada: A Bomba (em dois volumes) e Fukushima – Crónica de um desastre sem fim transportam dois acontecimentos maiores dos séculos XX e XXI para o universo das novelas gráficas.

Em A Bomba: Parte I – No princípio era o nada e A Bomba: Parte II – A sombra, os desenhos de Denis Rodier e o argumento de Didier Alcante e L.F. Bollée (numa tradução de Isabel Lopes) trazem-nos a história da corrida à bomba atómica, que culminou com o lançamento de duas ogivas sobre Hiroxima, a 6 de agosto de 1945, e Nagasáqui (ambas no Japão), três dias depois.

 

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Num forte traço a preto e branco, o narrador da história é o próprio urânio, adormecido durante milhões de anos e que foi despertado pela pesquisa científica e médica, mas que acabou desviado para a mesa de interesse de governos e militares, que durante a Segunda Guerra Mundial queriam defender-se procurando uma arma de destruição maciça. O entendimento de uns e outros era a de ter na sua posse uma arma que dissuadisse os inimigos.

A bomba atómica produzida pelos EUA nasce da vontade e da resistência de americanos e europeus, que tinham fugido a Hitler e Mussolini, que perceberam melhor do que ninguém aquilo que estavam a fazer. A obra de Alcante e Bollée insiste muito no debate ético que foi assomando nas mentes brilhantes que foram dando corpo a esta arma. E o traço de Rodier, que se demora nos detalhes, que é minucioso na definição das personagens, que voa das paisagens frias da Noruega para as minas na selva do Congo, ou mergulha no oceano Pacífico e levanta voo de Potsdam, não se perde no essencial, que é o de transmitir com nervo o argumento eficaz de Alcante e Bollée. A história é didática (e há um posfácio e outros textos), mas não se refugia numa linguagem hermética, apesar do desafio de ir narrando as experiências científicas dos criadores da bomba.

A ficção que rompe a “veracidade histórica” é trazida por uma família japonesa e uma menina, colocados no epicentro da bomba, que os autores definiram como uma homenagem aos Japoneses Desconhecidos, como se fossem o Soldado Desconhecido que se encontra em tantas cidades europeias. 

A sombra que ficou impregnada no chão de um edifício de Hiroxima, no momento da explosão da bomba atómica, é a sombra que paira sobre o mundo, de um dia alguém usar esta arma. Einstein – que é também um dos que aparece em A Bomba – disse, em 1948, quando lhe perguntaram como seria uma eventual Terceira Guerra. “Não sei como se fará a Terceira Guerra Mundial, mas posso dizer-vos o que será usado na quarta: pedras.”

 

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Em Fukushima – Crónica de um desastre sem fim, o nuclear está contido numa central elétrica. Será a natureza a libertar o mal, num acidente nuclear devastador, de que a humanidade acreditaria já estar longe, depois da irresponsabilidade soviética em Chernobyl. 

A 11 de março de 2011, um forte sismo no nordeste do Japão provocou um maremoto que inundaria a central elétrica de Fukushima Daiichi, apesar de esta ter um dique de seis metros de altura, para evitar esse cenário. Seguindo as atas das investigações ao acidente e relatórios sobre o desastre, Bertrand Galic criou um guião que resume os primeiros cinco dias do acidente, através do desenho de Roger Vidal, procurando mostrar como homens e mulheres foram gerindo a tensão e as (más) decisões que conduziram ao desastre que perdura ainda hoje. Já o traço do ilustrador catalão arrisca carregar nos tons de um ambiente tóxico e tenso, saindo dos limites das pranchas quando o momento exige, mas respeitando uma linguagem mais canónica da banda desenhada.

Fukushima levou, no Japão, à demissão de um primeiro-ministro que se tornou um ativista antinuclear, à reforma profunda das agências nucleares do país, a uma aposta menos tímida nas energias renováveis, a graves consequências no meio ambiente e nos seres vivos e no deslocamento de uma população, que já não quer voltar a uma zona contaminada. Estas duas novelas gráficas levam-nos a pensar que o nuclear continua a não ser uma hipótese. Ou melhor: é uma opção, mas só no desenho.

 

 

A Bomba: Parte I – No princípio era o nada
A Bomba: Parte II – A sombra
Didier Alcante e L.F. Bollée (guião) e Denis Rodier (desenhos), tradução de Isabel Lopes.
Gradiva, 2022, 216 pp. (vol. I), 264 pp. (vol. II), 18€ cada.

 

Fukushima – Crónica de um desastre sem fim
Bertrand Galic (guião) e Roger Vidal (desenhos), tradução de Isabel Lopes.
Gradiva, 2022, 136 pp., 27,50€

 

 

Junho 30, 2025

A queda de Chernobyl é o princípio do fim de um regime

Miguel Marujo

Em 1986, a explosão de uma central nuclear soviética é escondida de todos. Mas este acidente já se antecipava desde a sua construção nos anos 70. Novela gráfica angustiante retrata aquele que são os anos finais da então União Soviética. 

 

 

Chernobyl ficou enterrado num imenso sarcófago, não viesse a invasão da Ucrânia pela Rússia ressuscitar fantasmas antigos e medo sobre o destino desta antiga central nuclear soviética, situada em território da Ucrânia. Chernobyl foi também o mais grave acidente ocorrido numa central nuclear, tendo atingido o nível máximo de gravidade na escala oficial da Agência Internacional de Energia Atómica, tal como aconteceu com o acidente de Fukushima (Japão), em 2011.

Chernobyl é o pretexto para uma novela gráfica de Matyás Namai (n. 1993), autor checo-japonês, que desde há meses se encontra nos escaparates: Chernobyl – A queda de Atomgrad,  O centro do livro é a catástrofe de 26 de abril de 1986, mas Namai conta-nos como a tragédia se começou a desenhar desde o tempo da sua construção, na primeira metade da década de 1970, acelerada pela vontade de um ministro que se queria exibir, com materiais menos resistentes e capazes, para poupar tempo e dinheiro, ou no uso de pessoal menos qualificado, num regime em que a corrupção alastrava.

Matyás Namai condensa a história em curtas frases e vinhetas que vivem de uma multiplicidade de detalhes, para contar o que se quer em 112 páginas, demorando-se em explicações mais técnicas, que procuram guiar o leitor pelo que terá acontecido — explicando, contextualizando e mostrando — naquele dia fatídico na central nuclear.

Em 1986, Mikhail Gorbatchov estava há pouco tempo à frente dos destinos da União Soviética, mas até a sua política de abertura (glasnost), transparência e reconstrução (perestroika) foi abalada pelos velhos vícios do regime comunista: opacidade e desinformação atrasaram ou travaram quaisquer ajudas de outros países – e também não permitiu outro tipo de ajuda a muitas das vítimas. A queda de Chernobyl é o princípio do fim de um regime.

“Há muito que a União Soviética substituiu Deus pela ciência”, diz-se daquele tempo, mas o regime nem nos homens confiava plenamente. E mesmo que o autor desta novela gráfica não se detenha muito no desenho psicológico das personagens, as suas expressões, as suas dúvidas, os seus receios, as suas convicções, estão todas lá, num traço que cuida do pormenor para narrar a história de Chernobyl e dos habitantes da cidade vizinha, hoje um território desabitado, de Atomgrad Pripyat.

[Apenas um reparo: na edição portuguesa refere-se o “27.º aniversário do Partido Comunista” da União Soviética, celebrado em “25 de agosto de 1986”, em Moscovo, quando na realidade se trata da realização do 27.º Congresso do PCUS.]

Este livro pode acompanhar outros já aqui referenciados, A Bomba e Fukushima – Crónica de um desastre sem fim: o primeiro contando (em dois volumes) a história da corrida à bomba nuclear, que se traduziu na mortandade de Hiroxima e Nagasáqui; o segundo, que relata o segundo mais grave acidente da história de uma central nuclear.

Aquilo que continua a parecer muito pouco seguro, é-nos vendido agora por algumas vozes como algo fiável, barato e seguro. Matyás Namai, nascido anos depois do acidente, relembra-nos com esta novela gráfica angustiante que o nuclear não é certamente o que nos pintam nos dias de hoje. Tal e qual como no acidente de Fukushima, este é “um mosaico de vítimas que pagaram o preço da ambição e da arrogância de políticos que manobravam à distância”. Quem nos garante que a história não se pode voltar a repetir? Ninguém, a não ser um qualquer vendedor de banha da cobra.

 

Chernobyl – A queda de Atomgrad
Matyás Namai
Tradução de Ana Coelho
Editora Minotauro, 2024, 112 pp.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 2 de junho de 2025]

Maio 22, 2025

O ofício deles é a morte. E foi correndo bem

Miguel Marujo

 

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Quase em simultâneo, o mercado livreiro português conheceu duas obras sobre o Grupo Wagner, a milícia armada de mercenários com base na Rússia que construiu um verdadeiro império de crime e sangue, com uma capa empresarial de opacidade e dinheiros sujos e o apoio invisível do Presidente russo, Vladimir Putin, e do seu regime mafioso.

O Nosso Ofício É a Morte: A história do Grupo Wagner, dos jornalistas Ilya Barabanov e Denis Korotkov (edição Livros Zigurate) e Wagner: A Máquina de Guerra de Putin, dos também jornalistas Rui Pedro Antunes e João Porfírio (Tinta-da-China) propõem-se revelar a história deste bando de mercenários, mas com pontos de partida distintos.

O livro dos portugueses parte das reportagens que Antunes e Porfírio realizaram na Ucrânia, entre agosto e setembro de 2023, no “rasto do temível Grupo Wagner”. Para começar, os jornalistas procuraram protagonistas que lhes deram pistas do que era o PMC Wagner: o mercenário, o “caçador”, o combatente, a enfermeira, a fugitiva. O quadro completa-se com o que vem depois: a reportagem — enriquecida pelas fotografias de João Porfírio — num país em guerra, enquanto se deslocam à vila onde nasceu o número dois da companhia, mas que deu o nome ao grupo, Dmitri Utkin, “Wagner”; e a parte em que se explica a ascensão e queda de Yevgeny Prigozhin, o multimilionário e antigo chef, um criminoso que esteve preso na juventude, o homem que desafiou Putin, acabando morto, que fez de Wagner um nome temido em várias geografias.

É este o ponto de partida dos dois livros: no caso dos jornalistas russos, dá-se conta do funeral de Yevgeny Prigozhin, e dos ardis para enganar a comunicação social do local exato do seu enterro; no dos portugueses, os dois encontravam-se numa sala em Kiev com o Presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, quando se soube da notícia da explosão do avião em que seguiam Prigozhin, Utkin e Valery Chekalov, o homem que conduzia os negócios do grupo.

Barabanov e Korotkov acompanham o PMC Wagner há vários anos, e O Nosso Ofício É a Morte apresenta com notável detalhe o percurso deste grupo mercenário – até onde é possível, num regime como o de Putin – bebendo de uma longa recolha de informação e de entrevistas junto de fontes. As lacunas (assumidas) que não estão preenchidas na história são escondidas por um regime corrupto, nada transparente, uma sociedade que vive uma aparência democrática. A biografia mais recente dos dois jornalistas ajuda a explicar a impossibilidade de ir mais longe: Barabanov e Korotkov vivem atualmente no exílio.

A geografia da atuação dos mercenários da PMC (Private Military Company) Wagner ultrapassa as fronteiras da Rússia, estende-se pela Ucrânia, andou pela Síria garantindo a segurança de Bashar al-Assad, o deposto ditador, e alimenta-se na República Centro-Africana, uma guerra esquecida por todos menos pelos interesses geoestratégicos, comerciais e de delapidação de recursos (como dava conta a reportagem de Rui Araújo em 2021, na TVI/CNN, republicada no 7MARGENS).

Estas duas obras dão-nos conta de como Putin se foi escondendo detrás de mercenários para o trabalho sujo da guerra, alimentando a corrupção e o crime. Hoje, com Prigozhin e Utkin mortos, o futuro do Grupo Wagner pode parecer mais incerto, ou pelo menos com os holofotes desviados dos seus protagonistas, mas dificilmente um império destes se perde, como descrevem O Nosso Ofício É a Morte e Wagner: A Máquina de Guerra de Putin. Um e outro livro são complementares, um cheira a terreno, o outro escava bem fundo nos podres do regime russo. Os dois valem a pena.

 

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O Nosso Ofício É a Morte: A história do Grupo Wagner
Ilya Barabanov e Denis Korotkov (tradução do inglês de Luís Filipe Pontes)
Livros Zigurate, 2024, 256 pp.

Wagner: A Máquina de Guerra de Putin
Rui Pedro Antunes e João Porfírio
Tinta-da-China, 2024, 216 pp.

 

[artigo originalmente publicado no 7Margens, a 1 de janeiro de 2025. Imagem: membros do Grupo Wagner treinam tropas bielorrussas. Foto © Информационное агентство БелТА, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.]

Maio 21, 2025

As memórias guardadas de Abril

Miguel Marujo

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Nestes tempos, ninguém questiona por onde anda a Liberdade, como cantam os Mão Morta. Talvez os livros que aqui se apresentam nos apontem caminhos para saber por onde anda ela, indo à História do 25 de Abril para também nos ajudar a refletir o presente.

À boleia dos 50 anos do 25 de Abril, que se continuam a comemorar (num arco temporal que decorre, pelo menos, até ao cinquentenário das primeiras eleições legislativas de 1976), as edições no mercado livreiro têm continuado a bom ritmo, recuperando textos ou documentos antigos, propondo novas releituras e abordagens inovadoras, sempre com a efeméride festiva no horizonte.

Depois de três (breves) propostas deixadas nestas páginas, voltamos a avançar com mais uma sugestão de seis livros obrigatórios para melhor conhecer as memórias guardadas destes 50 anos e melhor entender a diversidade que nos trouxe Abril. Não se estranhe o facto de todos eles terem a chancela da Tinta-da-China, que mantém uma parceria com a Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, por um lado, e sempre dedicou uma atenção particular à História, e em particular ao século XX.

 

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Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido

Manuel Vázquez Montalbán deixou-nos como legado essa personagem maior dos policiais que é Pepe Carvalho, que alimentava a sua lareira com livros, e que se confundia tanto com o jornalista e escritor espanhol, morto subitamente em 2003.

Em boa hora a Tinta-da-China, numa cuidada edição de Rita Luís (investigadora em História Contemporânea), recuperou as “crónicas da revolução” que Montalbán escreveu em 1974 e 1975 sobre Portugal, desvelando a sua fina ironia, argúcia e humor na leitura da realidade nacional naquele tempo. Há três textos anteriores ao 25 de Abril, sobre o livro de Spínola que desestabiliza o regime, e depois da Revolução o jornalista acompanha, em nome próprio ou por pseudónimos (ele que foi o homem dos “100 nomes”), os dias festivos e quentes de Abril e os meses que se seguiram até ao final de 1975.

Há um entusiasmo claro pelos dias que Portugal vivia, por oposição a uma Espanha então ainda amordaçada no estertor de Franco e da sua ditadura. As notícias sobre o país, os seus políticos emergentes ou os caminhos a seguir são despachadas com lucidez, apesar do entusiasmo tropeçar nalgumas leituras precipitadas, por vezes corrigidas: Montalbán percebe muito depressa que é no PS e PPD que os portugueses irão concentrar os seus votos, antecipa a necessidade de Portugal aderir à Europa e nota a importância em fortalecer a democracia – assim como se refere a Pereira de Moura como uma “das quatro figuras políticas mais importantes da atualidade portuguesa” e cuja memória se esfumou na História.

Este Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido: Crónicas sobre a revolução (1974-1975) não é livro que Pepe usasse na sua lareira.

 

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A Guerra Guardada

Este é, antes de mais, um objeto bonito, que os livros também o são, numa edição irrepreensível que nos traz, como se descreve no subtítulo, fotografias de soldados portugueses nas três frentes da Guerra Colonial, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, entre 1961 e 1974. Esta viagem pela memória de tantos homens mobilizados para o combate foi resgatada da “estreiteza dos seus círculos pessoais”, para dar corpo também a uma exposição no Museu do Aljube.

As fotografias “banais ou extraordinárias” desvelam um outro olhar sobre a “guerra longa e anacrónica, que foi mandada combater pela ditadura”, e que por vezes parece nem existir naquele quotidiano. Há fotos contadas pelos soldados, ou faladas pelos próprios (explorando o áudio através de um QR code), há os avessos dessas fotos, com breves mensagens ou legendas em letras mais ou menos redondas, há soldados fotógrafos, e a vida na caserna, e também a violência e o racismo que espreitam nas molduras daquelas fotos, na sua maioria a preto e branco.

A estas memórias particulares, junta-se o olhar da academia que debate a várias vozes o colonialismo, a guerra e o fim do império, num diálogo que se revela fresco e franco entre a investigação e a guerra guardada por quem a fez. A completar estas abordagens, a obra coordenada por Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte apresenta ainda as criações artísticas e as composições musicais – de novo, fazendo um uso inteligente de QR codes – que acompanharam a exposição, entrelaçando o olhar sobre a Guerra Colonial. Este livro é, então, um objeto bonito, mas também de leitura obrigatória.

 

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25 de Abril. Revolução e mudança em 50 anos de memória

Este livro vive da memória, traçando uma abordagem inovadora sobre de que forma é lembrada ou esquecida a Revolução de 1974, mas também celebrada ou contestada, apropriada ou combatida.

Nesta obra que não é um livro clássico de História, como definem os seus organizadores, Manuel Loff e Miguel Cardina, os protagonistas não são os soldados que derrubaram uma ditadura podre de quase 50 anos; são aqueles que trazem evocações pessoais e sociais que ajudam a traçar várias dimensões da Revolução, inscrevendo a pluralidade e o conflito como narrativa para melhor perceber a mudança de Portugal nestes 50 anos de liberdade. Por isso, há a proposta das “memórias reacionárias” da Revolução (por Loff) ou das “memórias disputadas” dos retornados (trazidas por Elsa Peralta), e também cabe a leitura de como se construíram as ficções da Revolução, a partir da memória dos acontecimentos (num olhar de Luís Trindade, que já nos tinha trazido o excelente Silêncio Aflito).

A partir da condição da mulher no Estado Novo, Ana Sofia Ferreira  questiona se a Revolução está (ainda) incompleta para as mulheres, traçando um percurso sobre estes 50 anos, no qual regista a tese de Manuela Tavares (dirigente da UMAR) de que “a participação de muitas raparigas na Juventude Operária Católica (JOC) e na Juventude Universitária Católica (JUC) terá sido importante para o despertar de uma consciência feminista na fase final da ditadura”.

A memória do fim do império e do 25 de Abril, entrelaçada com a narrativa das “Descobertas” e do “caráter benevolente do colonialismo português”, que Miguel Cardina desenvolve, e as sombras perenes da Reforma Agrária, decifradas por Paula Godinho, são outras importantes abordagens desta obra.

O livro encerra com uma leitura sobre “o que se esconde atrás da nuvem: imagens em movimento da Revolução Portuguesa nalguns centros urbanos”, uma proposta de Joana Craveiro que é “um exercício de investigação historiográfica construído como uma ficção”, que não é uma ficção, parte antes de “relatos orais” e histórias escutadas em primeira mão, “como fontes primordiais” do texto, para além de notícias dos jornais de então. Memórias imprescindíveis, todas elas.

 

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Vozes da Revolução e A Revolução dentro da Revolução

No acervo de livros sobre o 25 de Abril, Vozes da Revolução. Revisitando o 25 de Abril de 1974. Entrevistas e Estudos é uma significativa recolha documental, centrada no “precioso conjunto de entrevistas”, como as define António Costa Pinto, até agora inéditas em Portugal e que foram realizadas nos anos 1990 pelo cientista político norte-americano Paul Christopher Manuel, quando era ainda estudante na Universidade de Georgetown. Este investigador entrevistou intervenientes relevantes na Revolução e durante o PREC (Processo Revolucionário em Curso), que categorizou como “reformistas anticomunistas”, nos quais incluiu Spínola e Jaime Neves; “um oficial do MFA radical pró-comunista”, que era Vasco Gonçalves; “moderados do MFA”, “três dos quais signatários do importantíssimo documento do Grupo dos Nove”, como Vítor Alves e Vasco Lourenço; “dois populistas do MFA”, que favoreciam um “regime de tipo revolucionário pró-cubano” (Otelo e Mário Tomé); e “dois independentes”, incluindo Costa Gomes). Os pontos de vista únicos dos entrevistados ajudam a compor o mosaico de que se fazem as vozes do 25 de Abril.

Na mesma coleção, “O 25 de Abril visto de fora”, promovida pela Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, com a chancela da Tinta-da-China, e com coordenação de Costa Pinto, é apresentada uma tese de doutoramento da cientista política americana Nancy Bermeo, que avalia a Reforma Agrária portuguesa enquanto processo revolucionário enquadrado pela mudança de regime, centrada no controlo operário dos grandes domínios fundiários. A Revolução dentro da Revolução. O controlo operário no Portugal rural é uma história da Reforma Agrária – que pode, para muitos apressados, parecer datada ou ultrapassada – e, como aponta o coordenador da coleção, “um excelente contributo” para compreender o 25 de Abril e o processo de democratização do país. Com a profundidade merecida, e ultrapassando a caricatura (ideologicamente preconceituosa, na esmagadora maioria dos casos) que tantos hoje transmitem deste processo reformador.

 

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Cabral Ka Mori

Este catálogo de “Amílcar Cabral, Uma Exposição” acaba por viver para lá dessa mostra (apresentada em Lisboa, em 2023, e entretanto mostrada em Bissau, em 2024), ao propor uma viagem pelo mundo do líder independentista do PAIGC, através de 50 peças que apresentam momentos e lugares da vida de Amílcar Cabral.

Os historiadores José Neves e Leonor Pires Martins, comissários científicos da exposição, completam os seus textos com fotografias, ilustrações, livros, jornais, documentos, que traçam um olhar atento também à sua época. Este livro-catálogo acaba por retratar, como se aponta, o passado de Amílcar Cabral mas também sobre quem fez e continua a fazer sentido desse passado, – Cabral “e as suas vidas posteriores”, ele que contribuiu de forma decisiva para pôr um ponto final no império colonial português. O 25 de Abril também foi escrito por Cabral.

 

 

Por enquanto, o Povo Unido ainda não Foi Vencido: Crónicas sobre a revolução (1974-1975)
Manuel Vázquez Montalbán (seleção e tradução de Rita Luís)
Tinta-da-China, 2024, 176 pp.

A Guerra Guardada. Fotografia de Soldados Portugueses em Angola, Guiné-Bissau e Moçambique, 1961‑1974
AAVV, com coordenação de Maria José Lobo Antunes e Inês Ponte
Tinta-da-China, 2024, 192 pp.

25 de Abril. Revolução e mudança em 50 anos de memória
AAVV, com organização de Manuel Loff e Miguel Cardina
Tinta-da-China, 2024, 312 pp.

Vozes da Revolução. Revisitando o 25 de Abril de 1974. Entrevistas e Estudos
AAVV, com organização de Paul Christopher Manuel (tradução de Myriam Zaluar)
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 248 pp.

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A Revolução dentro da Revolução. O controlo operário no Portugal rural
Nancy Bermeo (tradução de Susana Sousa e Silva)
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 288 pp.

Cabral Ka Mori. Catálogo de ‘Amílcar Cabral, Uma Exposição’
José Neves e Leonor Pires Martins
Tinta-da-China/Comissão Comemorativa 50 Anos 25 de Abril, 2024, 120 pp.

[Artigo originalmente publicado no 7Margens, a 23 de março de 2025. Imagem principal: instalação na Assembleia da República, com palavras de ordem dos anos de 1974 e 1975, em abril de 2014. Foto © Miguel Marujo]

Fevereiro 18, 2025

Frescos que falam com Deus

Miguel Marujo

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Chega-se a Assis por estradas que serpenteiam, entre curva e contracurva, a neve a pintar as bermas e a cidade de Francisco coberta de neve. É inverno, está frio e só uma bicicleta encostada num muro denuncia a presença de pessoas. O presépio com figuras de dimensões humanas acolhe o visitante da Basílica de São Francisco, onde a vista se perde pelo vale branco.

Cheguei a Assis por causa de Nick Cave. Perguntaram-lhe como ia passar ele o dia Natal, e se gosta de ouvir canções da época, e o músico antecipou com detalhe esse dia, entre idas à praia e à missa, salpicando o texto com comida e bebida e referências musicais, para assim dizer que também gosta de ouvir os clássicos de Natal (e não, não são os Wham!).

Para ilustrar a prosa, em que a banalidade quotidiana se entrelaça com a poesia, Nick Cave escolheu a Natividade de Giotto — e daí saltei para Assis, da memória daqueles frescos, na igreja alta e na igreja baixa, de uma arte e magnificência que inquieta e nos transporta de forma viva para Deus. A obra de Giotto é de 1304, num tempo que nos habituámos a associar às trevas, quando hoje os tempos não serão tão luminosos como gostaríamos ou desejamos.

Entre a música e a pintura descobrimos sempre formas próximas de falar com Deus, mesmo quando a Igreja dos homens nos inquieta mais do que desinquieta. E ao trazermos a linguagem das artes para esta relação é, de facto, por a arte ser um refúgio necessário quando nos falham os homens.

Não nos falha Herberto Helder, que disse-nos que “através da mãe o filho pensa/ que nenhuma morte é possível”, e logo fomos beber de novo ao texto de Nick Cave, sobre o significado do Natal: “Recordarei também, no meio de tudo o que se faz e do que se faz, o princípio energizante em torno do qual gira este dia, que fala tão eloquentemente de renascimento e de renovação, e do fim da espera — o de uma mãe que dá à luz uma criança num estábulo, revitalizando o mundo para toda a eternidade.” Neste ano novo, perante tanta desesperança (e desespero), da Faixa de Gaza à Ucrânia, do Sudão ao Iémen, entre outros tantos pontos de um mapa de conflitos, só falta a humanidade estar à altura.

 

[artigo originalmente publicado no Ponto SJ, a 7 de janeiro de 2025]

Novembro 24, 2024

A próxima guerra civil americana está em preparação

Miguel Marujo

Este texto foi escrito e publicado dias antes das eleições presidenciais americanas. E se a sua frase final já tem uma resposta, cada uma destas linhas vertidas a partir do livro A Próxima Guerra Civil — Notícias da América do futuro antecipa muito daquilo que se começa a desenhar com uma insistência assustadora, sobretudo quando lemos sobre as nomeações do indigitado Presidente, e de como o mesmo Donald Trump pretende exercer o seu cargo: pelo ódio e pelo ressentimento.

 

 

Assalto ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, por apoiantes de Trump, que queriam impedir a tomada de posse do Presidente Joe Biden. Foto © TapTheForwardAssist, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

 

A América que vai a votos na terça-feira, 5 de novembro, não é apenas uma América dividida. Os Estados Unidos da América são hoje um país à beira da guerra civil, em que a insurreição está já a acontecer. Tal e qual como no século XIX, em que ninguém viu chegar a primeira guerra. A catástrofe depois era inevitável. Hoje, os preparativos já estão em curso, mas como ninguém quer o que aí vem, ninguém quer ver o que aí vem: uma guerra civil.

A tese de Stephen Marche, escritor canadiano, que colabora com publicações americanas, não é do mundo da ficção, ainda que em A Próxima Guerra Civil – Notícias da América do futuro, um livro de 2022, publicado já este ano em Portugal pela Zigurate, o autor ensaie notícias ficcionadas para articular com aquilo que já acontece no terreno.

Esta América em crise é um país fortemente armado, em que há forças milicianas (armadas até aos dentes) empenhadas em derrubar o governo, que odeiam, e é uma sociedade profundamente desigual, hiperpartidarizada, economicamente insustentável, com crises iminentes na segurança alimentar e ambiental das cidades, e em que a cor, a religião, o dinheiro, o género, o território, o clima, tudo é motivo para discussão, também ela bastante polarizada.

Para Marche, de ambos os lados (leia-se: republicanos e democratas), as diferenças de opinião cristalizaram numa mentalidade de cerco. São dois países que convivem nas mesmas fronteiras, entre vermelhos e azuis, ricos e pobres, progressistas e reacionários, Norte e Sul, litoral e interior… Tudo é uma fortaleza: política, sociedade, ideologia, geografia. “Nenhum americano quer ter o outro lado por perto e, sempre que possível, escolhe não ter.”

A Guerra da Secessão, de 1861 a 1865, acabou numa união forjada no ressentimento e na desconfiança. Por isso, nota Marche, “os Estados Unidos já arderam no passado”, uma e outra vez: “A Guerra do Vietname, os protestos a favor dos direitos civis, os assassinatos de John F. Kennedy e de Martin Luther King, o escândalo Watergate, todos foram catástrofes nacionais que permanecem na memória contemporânea.” Mas, e a grande diferença nos dias de hoje é esta, “os Estados Unidos nunca se confrontaram com uma crise institucional como a atual”. Afinal, “a confiança nas instituições era muito maior nos anos 1960 e 1970”. Para o autor canadiano, os EUA precisam de reformar as suas fundações, como a Constituição (“idolatrada como um documento religioso”) ou o sistema eleitoral, e não apenas de caras novas.

Stephen Marche parte de notícias ficcionadas, cinco cenários possíveis, como já se disse, para contar a América atual. E nada parece ficção porque o escritor optou por basear esses cenários “nos melhores modelos de projeção disponíveis”. Só os “incidentes catalisadores” sugeridos no livro “são produtos da imaginação”, “escrupulosa e exaustiva”, mesmo que a realidade se aproxime ou ultrapasse a ficção. Basta pensar na invasão do Capitólio, no dia 6 de janeiro de 2021, a imagem que ilustra a capa do livro.

Não se pense que esta é uma obra de um autor de esquerda a bater em Trump e os seus extremistas. Stephen Marche é um moderado, aponta ao centro, defende o diálogo como ponte necessária para a América dar a volta, tanto critica os conservadores do Tea Party, como os esquerdistas do Occupy Wall Street, mas conclui que a violência armada e organizada mora na ultradireita radical, “patriota antigovernamental”, que põe a mão no peito enquanto canta o hino de um país em que não acredita. Trump é uma distração, como nota Marche: “A coisa mais inteligente que o próprio afirmou acerca da sua carreira política foi dita numa conferência de imprensa em 2017: «Eu não cheguei e dividi o país. Este país já estava gravemente dividido antes de eu cá chegar.» Na melhor das hipóteses, Trump é um sintoma.”

Há uma existência documentada e provada “entre extremismo político e épocas de dificuldades económicas”, como se prova na popularidade do fascismo com as causas mais profundas da Grande Depressão. Hoje, como ontem: “A ascensão da direita radical e o hiperpartidarismo patentes em Washington são também um efeito indireto do colapso do mercado imobiliário em 2008.”

O sintoma que é Trump, e toda a direita patriota antigovernamental, pode ser combatido com uma nota de esperança, argumenta Marche no final, esperando ser levado a sério: “Os Estados Unidos precisam de recuperar o seu espírito revolucionário”, porque as crises que o país vive “exigem um novo começo”. “Uma vez mais, tal como antes, a esperança da América são os americanos.” Terça-feira, 5 de novembro, pode ser um primeiro passo. Para a secessão ou para a esperança.

 

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A Próxima Guerra Civil — Notícias da América do futuro
Stephen Marche (tradução de Ilda Luís)
Livros Zigurate, 2024
224 pp., 19,30€


Artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 2 de novembro de 2024. Imagem: Assalto ao Capitólio, a 6 de janeiro de 2021, por apoiantes de Trump, que queriam impedir a tomada de posse do Presidente Joe Biden. Foto © TapTheForwardAssist, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons. 

Outubro 28, 2024

Um encontro com a alegria e o riso. Senhoras e senhores, Nick Cave em Lisboa

Miguel Marujo

 

 

Este texto foi escrito antes do concerto de Nick Cave & The Bad Seeds, em Lisboa, na noite de domingo. Não seria muito sensato publicá-lo depois, sobretudo quando assistimos a mais um espantamento e estremecimento em forma de concerto — melhorando de cada vez que o vemos, uma e outra vez. Faltando-nos as palavras para o que vimos, um momento tão íntimo quanto gigante, recupero aquilo que antecipava, que Nick Cave iria insistir em semear as melhores bad seeds deste mundo. Foi o caso.

 

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Arregalar os olhos e pôr os ouvidos à escuta: aquilo que se promete para domingo, dia 27, à noite, em Lisboa, é uma celebração da alegria e do riso, a adrenalina do melhor rock-pop que se ouve por aí e que se tem feito de dor, alegria e humor, sobre as ironias da vida e da morte.

É uma promessa já cumprida: Nick Cave traz, com os seus companheiros Bad Seeds, o mais recente disco – e que estará entre os melhores do ano, nas contas de 2024 –, Wild God, resgatando a alegria na vida do cantor, que perdeu dois filhos nos últimos nove anos, e que exorcizou a sua dor em público, em dois notáveis discos (Skeleton Tree, 2015, e Ghosteen, 2019) e tantos concertos memoráveis (e o Porto e Lisboa puderam ver nestes últimos anos toda esta catarse ao vivo). Wild God resgata também para a alegria a composição do músico de origem australiana, destilando a energia que lhe descobrimos sempre em palco, mesmo que haja marcas que permanecem de um passado recente (incluindo apontamentos da sonoridade dos seus dois últimos discos com os Bad Seeds, e também de Carnage, de 2021, a obra composta com Warren Ellis).

“A alegria foi cultivada dentro da mecânica do desgosto. Este registo foi feito por alguém que passou por perdas, mas que está fundamentalmente feliz na existência. Não poderia ter dito isso há cinco anos”, descreveu Nick Cave ao Le Monde, sobre este novo Wild God. E percebe-se.

Este é também um disco que caminha sobre as águas, de Song of the Lake, o arrepiante tema de abertura, a As the Waters Cover the Sea, uma peça delicada que exulta em coros e piano, no final do disco, enquanto se canta And as you wake and turn to me/ Peace and good tidings He will bring/ Good tidings to all things (“E quando acordares e te voltares para mim/ Paz e boas novas Ele trará/ Boas novas a todas as coisas”).

Os coros com reminiscências ao gospel americano já tinham alimentado Conversion, um relato que navega entre um mar chão e a violência das ondas, como uma verdadeira experiência de conversão. E este é ainda o disco em que ouvimos Anita Lane – recuperada de uma gravação feita antes da sua morte – a perguntar a Nick se ele se lembrava de como antes se divertiam mesmo muito. Há alegria e saudades e risos, neste disco.

Ao vivo, Nick Cave é muitas vezes visceral, até nas águas calmas de Into My Arms, a canção com que tem fechado os seus concertos pela Europa. Muito provavelmente será assim em Lisboa, no 21.º concerto europeu da The Wild God Tour. Nesta digressão, têm sido tocados quase todos os temas de Wild God, embora As the Waters Cover the Sea só por seis vezes tenha sido ouvida nos palcos neste ano de 2024. Os temas que sobem ao palco percorrem muitos dos seus discos, em doses únicas, incluindo duas canções de Carnage. Veremos do que se fará a lista de Lisboa.

Será possível antecipar que Nick Cave vai insistir em semear as melhores bad seeds deste mundo – de fato negro e gravata, camisa branca, numa noite apocalíptica e cheia de raiva e amor, profeta e vendilhão do templo, crente e cético, num jogo constante de contradições maiores, como aquele que se ouve no arranque de Frogs, o tema com que o concerto deve começar: Ushering in the week he knelt down/ Crushed his brother’s head in with a bone/ It’s my great privilege/ Oh babe, to walk you home (“No início da semana, ajoelhou-se/ Esmagou a cabeça do seu irmão com um osso/ É meu grande privilégio/ Oh querida, levar-te a casa”).

Ele é o pastor que exorciza demónios e vergonhas, um culto em que se sabe ao que se vai e mesmo assim nos surpreende, e a banda que é um bando de amigos acólitos e o coro naquele altar que dança, bate palmas, grita aleluia, faz a festa, é uma festa, uma imensa fé esta, entre as descargas das sementes ruins e a voz que vocifera just breathe, just breathe, como em I Need You, e todos respiramos, bebemos deste sangue e deste cálice. Deus é selvagem. Senhoras e senhores, Nick Cave chega a Lisboa para um encontro com a alegria e o riso.

 

 

Foto © nickcave.com.

Outubro 25, 2024

Músicas para calar as armas

Miguel Marujo

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A capa do disco Passion Sources, coletânea organizada por Peter Gabriel.

 

No Afeganistão, a música foi proibida, e as mulheres nem em casa podem cantar. Os talibãs têm medo da música, e ainda mais da voz das mulheres.

Há uns anos, por causa de uns cartoons, houve quem sublinhasse a superioridade da civilização europeia e ocidental, e há quem continue a grunhir contra a vida de pessoas de outras paragens ao nosso lado. Nessas alturas, procuro exemplos dessa superioridade — e são muitos dizem-nos, e quase nos convencem: o tratamento das mulheres, a perseguição política e religiosa, as ditaduras, a pobreza classista. Mas será assim? Há um filme egípcio, “Al-Massir” (O Destino), que já, em 1997, nos colocava as questões de hoje, de amanhã, a partir do confronto de ideias entre moderados e radicais nos califados andaluzes do… século XII. Já então o confronto de civilizações, com guerras e aparentes superioridades, se desenhava nos céus da Europa.

Também há quem diga que Johann Sebastian Bach é o maior compositor de todos os tempos. Mas vacilo quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou — deixem-me blasfemar. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo Fang, do norte do Gabão, derrotando discursos de falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena — Bach to Africa, de 1995.)

Arrisquemos nova pauta, antes de retomar a partitura: numa altura em que se democratizou o gosto de viajar, a bagagem não tem lugar para a música — mais ainda quando o streaming já praticamente derrotou o CD. Sobra a nostalgia do vinil. A coisa boa da globalização (e do streaming) é o mundo todo ao virar da esquina na internet.

Deixem-me fazer uma rápida divagação, que não é para mostrar apressados saberes enciclopédicos, mas ajuda a compor o tema — e a desenhar uma geografia contra o ódio. Pode começar-se a viagem com o senegalês filho de pescador Baaba Maal em Call to Prayer ou escutar em silêncio os ventos andinos de um Kyrie da Misa Criolla, tropeçar num casamento klezmer dos Muzsikás, percorrer os desertos sufis com o afegão Mohammad Rahim Khushnawaz ou o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, visitar os banhos do Istanbul Oriental Ensemble ou cair nos braços de Sheila Chandra e das vozes búlgaras em polifonia com António Zambujo. Mas também ouvir os desejos de paz da palestiniana Haya Zaatry em Rahawan.

Num tempo em que nos impingem que quem é diferente (apenas por ser migrante, refugiado, asilado, estrangeiro) deve ficar algures esquecido no seu canto, ou à porta do muro que levantamos ou escorraçado para longe da Europa, talvez possamos reconhecer que estes sons nos levam antes em peregrinação. O que esta viagem nos desenha não é da superioridade das civilizações. É da superioridade da alteridade, da descoberta do Outro, a vitória da civilização do Amor. Mas isto não é música que muitos queiram para estes dias.

Num tempo em que nos impingem que quem é diferente (apenas por ser migrante, refugiado, asilado, estrangeiro) deve ficar algures esquecido no seu canto, ou à porta do muro que levantamos ou escorraçado para longe da Europa, talvez possamos reconhecer que estes sons nos levam antes em peregrinação.

Elias Chacour, que é cristão, palestiniano, árabe, com cidadania israelita (para contrariar as ideias feitas e as definições fechadas), disse-nos: “A palavra guerra significa em hebraico aproximar-se demasiado um do outro, a ponto de não se conseguir respirar. A paz significa afastar-se um pouco, para que eu possa respirar. Hoje, sufocamos.” Podemos descobrir a música afastados apenas o suficiente para respirarmos. E podemos perceber que o mundo precisa de música, em vez de armas.

 

Dois discos que só aparentemente não falam de paz

 

Quando Baaba Maal, filho de pescador, cantor e violinista senegalês, nos convoca para a oração, a voz elevada a uma transcendência emocionante, no ecrã sucede-se a representação da Última Ceia, momento fundador do cristianismo. É, só aparentemente, uma provocação: um cantor educado na fé muçulmana ilustra a sonoridade do momento em que Jesus se senta à mesa com os seus discípulos, antes da sua morte.

É esta também a provocação maior dos dois discos que aqui trazemos, que incluem este Call to Prayer, de Baaba Maal: Passion Sources é uma coletânea que reúne cantores e músicos de diferentes regiões de África, Médio Oriente e Ásia, compilada por Peter Gabriel (o autor da icónica canção anti-apartheid Biko) para acompanhar o seu álbum Passion, a música que compôs para o filme de Martin Scorsese A Última Tentação de Cristo – outra provocação, que pouco importa para este (con)texto. Um e outro disco são peças notáveis que confluem, inevitavelmente, numa linguagem comum, apesar da dispersão geográfica, que é a da música.

 

 

 

Estes dois álbuns não nos falam, aparentemente, da importância da paz. Só aparentemente, também. Na sua amálgama de origens, da Etiópia ao Paquistão, de Marrocos ao Egito, da Arménia à Guiné, passando pela Índia, Irão, Senegal e Turquia, e na sua diversidade de sonoridades, entre percussões e guitarras, vozes que parecem falar com Deus, Peter Gabriel situa todas estas afinidades na Terra Santa da época de Jesus, pintando uma mensagem de cooperação e sem barreiras que rompe com as diferenças.

“Scorsese tinha pedido um novo tipo de partitura que não fosse nem antiga nem moderna, que não fosse um pastiche, mas que tivesse referências claras à região, tradições e atmosferas, mas que fosse em si mesma uma coisa viva”, explicou Gabriel sobre o seu trabalho de composição. Esta coisa viva cruza Nusrah Fateh Ali Khan, uma voz qawwali espantosa, das mais respeitadas no mundo islâmico, à exuberância rítmica de kongas e djembês dos guineenses Fatala, e termina com uma Song Of Complaint, um tema de origem arménia, que é a adaptação instrumental de The Song Of The Emigrant. Como descreveu Peter Gabriel, “a música é tocada num instrumento de palheta dupla chamado doudouk. Esta é uma versão instrumental de uma canção de dor que descreve a emigração forçada de uma pessoa devido à sua pobreza”.

 

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Capa do disco de Peter Gabriel, Passion (Music for The Last Temptation of Christ)

 

É impossível não ver nesta música uma banda sonora também para o que se passa no Médio Oriente, de Israel ao Território Palestiniano Ocupado, passando pelo Líbano e Irão, canções de dor que pedem a cada nota por uma emergência de paz.

 

Peter GabrielPassion (Music for The Last Temptation of Christ), ed. Real World Records
Vários, Passion Sources, ed. Real World Records
(disponíveis no Spotify e outras plataformas digitais)

— textos originalmente publicados no PontoSJ e no 7Margens, a 18 e 6 de outubro de 2024, respetivamente, e aqui reunidos numa única versão.

 

Setembro 06, 2024

1971, um ano de excecional colheita

Miguel Marujo

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Qual a probabilidade de juntarmos numa qualquer playlist José Mário Branco e Tonicha, Sérgio Godinho e Duo Ouro Negro, José Afonso e Marco Paulo, ou ainda Amália Rodrigues, Bonga, Paco Bandeira, Adriano Correia de Oliveira, Quim Barreiros e Carlos Paredes? A resposta está no título que se deve dar a essa banda sonora: 1971, o ano da revolução antes da revolução.

Esta proposta é fácil de fazer, argumenta Luís de Freitas Branco, autor de A Revolução antes da Revolução (edição Livros Zigurate), uma obra essencial e cativante, apresentada cronologicamente, mês a mês, sobre a importância de discos gravados e editados nesse ano. Em cada capítulo, que é um mês, as histórias multiplicam-se para, a partir de um disco ou de um evento específico, contar, contextualizar e cantar o Portugal da ditadura.

Os meses demoram-se nas páginas, nas quais Freitas Branco pega na música para entrar na sociedade e na política, das conquistas da angolana Riquita como Miss Portugal, deixando a metrópole de fora, para nos fazer chegar aos meandros da censura, da pequenez de um país cinzento, com bufos ao virar de cada esquina; para nos fazer assistir às emissões de uma RTP reflexo de um país, para nos meter na insurreição dos povos das então colónias de mãos dadas com a música, também eles a fazerem uma revolução antes das suas independências.

Freitas Branco socorre-se do escritor José Cardoso Pires, que do Brasil, em julho de 1971, diz que “em certos momentos da História de alguns países, é justamente nos momentos mais duros, mais dramáticos e com menos liberdade de expressão que se consegue, talvez por reação a isso, produzir obras válidas”. Tal e qual esse ano de 1971, com a censura do Estado Novo de Marcelo Caetano a mostrar-se cada vez mais bruta e pouco dada a subtilezas.

A lista de “obras válidas” que justificam a revolução de que fala o autor é extensa — e é suficiente cingirmo-nos aos títulos que alimentam cada um dos capítulos: Traz Outro Amigo Também, de José Afonso (que é de 1970, mas dá o mote para o livro), Movimento Perpétuo, de Carlos Paredes, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, de José Mário Branco, Os Sobreviventes, de Sérgio Godinho, Blackground, do Duo Ouro Negro, ou Cantigas do Maio, de José Afonso, fechando o círculo.

Nestas páginas, há também o Festival da Canção (e o furacão que era Ary dos Santos), o Festival Vilar de Mouros, que trouxe Elton John e Manfred Mann a uma então desconhecida aldeia minhota por teimosia de um médico, ou o Jazz de Cascais, “o festival que a PIDE não conseguiu prender”, com monstros sagrados do jazz e um vendaval musical e político (Charlie Haden chegou a ser preso por ter dedicado Song for Ché aos movimentos de libertação das colónias).

Pelo meio, há debates constantes sobre a procura da canção portuguesa, entre o cançonetismo, a balada e uma outra coisa nova e entusiasmante, que a imprensa especializada da época antecipa em Zeca, Sérgio e Zé Mário; sobre a música das então colónias que aparecia na Europa sem a mordaça do Estado Novo; sobre a notícia exagerada da morte do rock português, mas que sucumbiria depois aos anos da canção de intervenção; ou sobre o impasse do fado, colado à ditadura, mas também à procura do seu cravo (e temos o retrato de uma Amália opositora, mas que a crítica teimava em não entender), entre o tradicional e a ânsia de arrojo e democracia.

Há ainda uma atenção às palavras que acompanhavam a melodia, e que fizeram chegar a poesia (de nomes maiores da literatura em português do século XX) a muito mais gente, concentrando uma “rebelião em meia dúzia de linhas” – e desassossegando as pessoas. O autor retoma a tensão entre cançonetistas e baladeiros e os outros, notando que a palavra precisava de música, e não bastava a simplicidade dos acordes de baladas. “A supremacia da literatura na canção foi destronada, as transformações culturais reivindicavam uma obra de arte completa, dos pés à cabeça, da melodia aos versos. A reacção surgiu em Paris, a 1500 quilómetros de Portugal, encabeçada pelo produtor José Mário Branco, que se apresentou como a antítese do cinzentismo das baladas, o maestro da cor quente e audácia de Cantigas do Maio, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades e Os Sobreviventes. E o mundo pula e avança.”

É também em Paris que um homem das baladas encontra refúgio, despojado de emprego e salário, perseguido pela PIDE. Francisco Fanhais, padre, faz do púlpito uma tribuna contra a situação. “Alguém ligado à igreja era onde eles menos esperavam que pudesse haver oposição”, recorda o próprio. Saltou para Paris à boleia de José Afonso e seria acolhido por José Mário Branco e Luís Cília [ver entrevista ao 7MARGENS].

 

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É nesta teia intrincada de histórias que se entrelaçam, de nomes que se cruzam, que sobressai o trabalho de pesquisa e investigação de Luís de Freitas Branco, que não se fica por algumas versões mais ou menos conhecidas, antes desvelando um quotidiano nas artes e na política, nos costumes e na música, e resgatando nomes a um profundo esquecimento, de fadistas, cançonetistas, baladeiros — mas também outros músicos que voaram mais alto em termos estéticos, com uma carreira breve (José Almada e Denis Cintra, por exemplo) ou longa, como é o caso de Luís Cília, a merecerem uma revisitação. 1971 é, sobretudo, o ano do “boom de José Mário Branco”, do “disco-renovação de Adriano Correia de Oliveira” e do “disco-revolução de José Afonso”, como resume José Jorge Letria, e de Sérgio Godinho, que ninguém conseguia dizer de onde vinha.

Este é um livro também bem documentado na imagem, com fotografias de músicos, bastidores, concertos e festivais, instantâneos privados, e que nos traz ainda muitas capas de discos quase nada vistos, e raramente ouvidos. Como também aconteceu com as “duas ou três” mulheres do canto de intervenção — onde se fala de Ana Maria Teodósio, Lídia Rita e Rita Olivaes — que o tempo e o machismo não deixaram vingar.

A atenção às histórias leva-nos pelos bastidores da gravação de discos, pela forma como a ditadura se metia no dia-a-dia de todos, com um José Mário Branco em grande sofrimento a sentir-se impotente no exílio de Paris, “não é a vida, nem é a morte”, mas a procurar sempre pontes para a tradição portuguesa. Ou pela inesperada vontade de criar algo diferente, como fizeram Raul Indipwo e Milo MacMahon no seu Duo Ouro Negro, que usaram recolhas folclóricas angolanas do Museu do Dundo. Como assinala Freitas Branco, “nem o inventivo produtor José Mário Branco ousaria utilizar as recolhas de Lopes-Graça e Giacometti numa gravação”.

Cheirava a revolução na música — e no país. Três anos antes de Abril, em Paris, “quatro amigos abraçados”, José Mário Branco, José Afonso, Francisco Fanhais e Carlos “Boris” Correia, “à moda alentejana, um frio de rachar, sobre a gravilha, a arrastar os pés de madrugada, com o técnico de som agachado para captar o instante, em gravação multipista”, apontavam ao regime — e desse registo nasceram os passos de Grândola, Vila Morena. “Era apenas uma canção, um completo tiro no escuro, quem diria, em cheio na ditadura.” Este livro canta a liberdade em todas as linhas e páginas.

 

 

 

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A Revolução antes da Revolução — O ano que mudou a música popular portuguesa
Luís de Freitas Branco
Livros Zigurate, 2024, 300 pp., 18,80€

[Artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 23 de agosto de 2024. Na foto principal © Carlos Gil: chegada de cantores exilados ao Aeroporto de Lisboa, com familiares e amigos. Da esquerda para a direita: José Jorge Letria, Zeca Afonso, Lucília Branco (tia-avó de José Mário Branco), José Mário Branco, Isabel Alves Costa, José Duarte, Sara Monteiro (mãe), Celeste Fernandes Sá e, atrás, Adriano Correia de Oliveira (segundo legenda da página Antifascistas da Resistência); na foto inserida no texto © Livros Zigurate: o autor do livro, Luís de Freitas Branco, que é trineto do compositor Luís de Freitas Branco e bisneto do musicólogo João de Freitas Branco.]

Agosto 26, 2024

Visite o andar-modelo. Há muitos e bons livros para lembrar Abril

Miguel Marujo

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(ilustração de Nuno Saraiva, para o livro 25 de Abril – No Princípio Era o Verbo)

 

 

Abril, livros mil é o cliché óbvio, e até preguiçoso, para o manancial de edições no mercado livreiro português sobre os 50 anos do 25 de Abril ou que, aproveitando a efeméride redonda da Revolução dos Cravos, se inscrevem na história da ditadura do Estado Novo e da democracia nascida em 1974. O 7MARGENS publicou três (primeiras e breves) propostas que li. Abril é sinónimo de diversidade e as férias (que restam) podem ser ocasião para descobrir mais como se fez a democracia que vivemos há cinco décadas. 

 

 

 

25 de Abril — No Princípio era o Verbo. Este livro é uma festa, avisa-nos logo no seu início, e procura “pintar” nas suas páginas essa festa que foi o dia inicial e limpo e tudo o que se lhe seguiu. Com texto de Manuel S. Fonseca, as ilustrações de Nuno Saraiva (cujo traço único criou um estilo muito próprio, desde Filosofia de Alcova, no velhinho O Independente) trazem-nos a algazarra própria de um povo que tirou a mordaça e soltou o verbo, após 48 anos de ditadura.

No primeiro quarto do livro encontramos uma cronologia horária dos acontecimentos que fizeram a mais improvável das revoluções contra a mais esclerosada das ditaduras de então, que ajuda o leitor mais esquecido ou desconhecedor nos detalhes que levaram o 25 de Abril a derrubar o regime. É esse o principal objetivo deste livro: contar-nos as palavras de ordem, as frases livres, as pichagens que encheram paredes de alegria e provocação, os slogans que fizeram caminho numa democracia que dava os primeiros passos.

É, pois, “um livro livre”, como descreve o autor (e editor) Manuel S. Fonseca, com os 50 anos de Abril a serem pretexto para tamanho desopilanço. “Os 50 anos do 25 de Abril de 1974 têm de ser festejados”, defende. Para logo explicar o óbvio (mas que nestes tempos precisa de ser lembrado): “O 25 de Abril foi uma das mais impressionantes algazarras de liberdade, loucura, e inocente destrambelhamento colectivo que o modesto povo português já viveu.” Bela definição, que tem a melhor das melhores traduções nos restantes 3/4 do livro: “Irrompem frases, palavras de ordem, diálogos que hoje precisamos de nos beliscar para acreditar que não foram inventados pelos irmãos Marx, se Karl Marx me perdoa ser assim secularizado”, aponta Fonseca, que faz notar que “a acompanhar este alucinado desatino das palavras”, as ilustrações de Nuno Saraiva recriam “esse Portugal de cabelos desvairadamente compridos, calças boca de sino, soutiens a serem queimados, ainda tão rural, às vezes involuntariamente quase hippie, esse Portugal a pôr a ávida boca na orgia de novos costumes”. E há exemplares deliciosos de tantas belas palavras, que bebem no socialismo, no anarquismo, no reacionarismo, ou apenas na imaginação mais imaginativa: “O socialismo está em construção, visite o andar modelo”; “Abaixo a foice e o martelo, viva o Black and Decker”; “A terra a quem a trabalha, mortos fora dos cemitérios já!”; “Nem mais um soldado para as colónias! Nem mais uma freira para o céu!”

Este é um livro que se revisita uma e outra vez, e a cada palavra e a cada ilustração solta-se a gargalhada e o sorriso, por um país que é livre e que provou que sabe ser feliz. Sempre.

 

 

 

Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. A historiadora Irene Flunser Pimentel apresenta, com este seu novo livro, “episódios menos conhecidos” do período que percorre o dia da revolução à data que consolida a democracia no país. Não é, diz-nos a autora – reconhecida pelos seus estudos e livros sobre o Estado Novo e a PIDE, a polícia política da ditadura – uma “análise exaustiva” à implantação da democracia, apresentando antes “uma análise pessoal” ao que se passou naquele tempo de 580 dias, optando Irene Flunser Pimentel por destacar o que aconteceu à ex-polícia política e olhar para a ação dos Estados Unidos, da França e da Alemanha.

Este livro estende, no entanto, o seu tempo para lá das datas enunciadas no título, para melhor enquadrar o que se viveu em Portugal, mergulhando nos últimos anos do regime ditatorial e da guerra colonial, com um especial destaque no “Exercício Alcora”, que juntou a ditadura de Lisboa aos regimes racistas e de apartheid da África do Sul e da Rodésia numa “Aliança Contra Rebeliões em África”. E logo por aqui entramos em episódios menos conhecidos daqueles tempos, percebendo como a estratégia militar dura (nomeadamente de Kaúlza de Arriaga, que conduziu a massacres como o de Wiriyamu, em dezembro de 1972) era criticada por responsáveis sul-africanos, por exemplo, por afastar as autoridades portuguesas das populações locais.

Irene Flunser Pimentel debruça-se ainda sobre como as autoridades policiais e de informação dos EUA, França e Alemanha “ajudaram também ao esforço da Guerra Colonial do regime de Salazar e Caetano” e de como, depois do 25 de Abril, os serviços secretos destes três países mantiveram uma “atitude e postura não neutra” nesse “ano e meio português”.

Centrando-se no que aconteceu à ex-polícia política, na ação daqueles três países e na centralidade dos militares no processo revolucionário, a historiadora avalia também a “autonomia do campo político”, deixando de lado um olhar sobre as movimentações populares e resgatando os tais episódios menos conhecidos que a capa do livro regista, no modo rigoroso reconhecido a Irene Pimentel. Obrigatório.

 

 

 

25 de Abril: A transformação nos “media”. Mário Mesquita (1950-2022) é um dos nomes que poderá não dizer muito a novas gerações, até no jornalismo, mas que viu a sua obra (académica e jornalística) ser publicada e estudada com regularidade, tornando-a acessível mesmo aos que desconhecem o seu percurso nos média em Portugal.

É o caso deste livro recente (e póstumo, “uma vontade sucessivamente adiada”) 25 de Abril: A transformação nos media, que traça um panorama amplo sobre o mundo da comunicação social, sinalizando (logo no início) “o papel dos media na consolidação da democracia portuguesa”.

Mesquita estabelece três tempos para o lugar da comunicação social nesta consolidação: 1974-1975, que define de “ideologias”; 1976-1987, que sintetiza em “instituições”; e 1987-1995, com o advento do “mercado”. Cada um destes momentos é dissecado em múltiplos textos, que vão mais fundo na abordagem, recusando a leitura mais simplista ou imediata, apesar dos textos terem sido escritos em momentos diferentes (1984, 1987, 1988, 1989, 1994, 1996, 2004 e 2019 – para se perceber a abrangência) e por motivos diversos. Por exemplo, nos dois primeiros anos quentes da revolução e do PREC, Processo Revolucionário Em Curso, Mesquita sintetiza a comunicação social, de novo em três palavras: “Militantes, porta-vozes e jornalistas”, referindo-se à “tentação do monolitismo ou a ignorância dos limites do poder dos media”. Antecipa-se uma leitura crítica, num tempo em que coexiste uma “experiência original”, a do modelo das democracias políticas com a imprensa estatizada (1976-1983). A leitura do índice é, por si, um excelente resumo (pela acutilância dos títulos) do que se encontra no livro, que também revisita o caso República, como “um incidente crítico” e a recetividade francófona (com a leitura de 100 edições de cinco jornais da imprensa francesa, belga e suíça) à Revolução do 25 de Abril.

Se este é “um livro que faltava” sobre “os media na revolução e a revolução nos media”, como o apresenta Pedro Marques Gomes, por ele passa também o olhar do “anatomista dos media que sonhava com jornais perfeitos”, na definição feliz de Carla Baptista, que nunca se ficou por uma leitura a preto e branco deste universo no seu percurso profissional. As zonas cinzentas também são notícia e, no caso, objeto de estudo por um homem apaixonado pelo jornalismo. O texto final sobre as comemorações dos 30 anos de Abril nas páginas do Jornal de Notícias são disso um exemplo. O título volta a ser um tratado: “Memória e esquecimento na reconfiguração jornalística da Revolução dos Cravos”. O que teria escrito Mário Mesquita sobre os 50 anos, festejados em abril passado, vistos pelos jornais, num tempo em que os saudosos do outro tempo achincalham a democracia, sentados na Assembleia da República? Provavelmente muito do que se lê nestas páginas, que servem de guião para o futuro. Uma leitura essencial.

 

 

 

25 de Abril — No Princípio era o Verbo
Manuel S. Fonseca e Nuno Saraiva
Guerra e Paz, 2024, 188 pp.

Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975. Episódios menos conhecidos
Irene Flunser Pimentel
Temas e Debates, 2024, 471 pp.

25 de Abril: A transformação nos media
Mário Mesquita
Tinta-da-China, 2024, 372 pp.

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 23 de julho de 2024]

Julho 07, 2024

Lembra-me um céu aberto, outro fechado. Morreu-nos Fausto

Miguel Marujo

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Músico, compositor, cantor, talvez maldito, como cantava na “ópera mágica” que nos deixou, Fausto foi o homem que nos levou por um rio acima, para melhor resgatar a música tradicional portuguesa dos mares de mediocridade em que tantas vezes se mete. Fausto foi um génio a cantar o herói anónimo.

 

Fausto Bordalo Dias, que todos nos habituámos a chamar pelo primeiro nome, morreu “de doença prolongada”, na segunda-feira de madrugada, dia 1, sem aviso prévio, porque nunca estamos preparados. Músico, compositor, cantor, talvez maldito, como cantava na “ópera mágica” que nos deixou, Fausto foi o homem que nos levou por um rio acima, para melhor resgatar a música tradicional portuguesa dos mares de mediocridade em que tantas vezes se mete. Fausto foi um génio a cantar o herói anónimo, fez da “fúria dos enganados” e da “razão dos maltratados” uma alquimia de sons e poemas, lembrando miseráveis, penitentes, esquecidos e pobres, o aperto em que estavam todos eles, marinheiros voluntários em infernos malditos infinitos – longe das gestas dos poderosos.

Nascido no mar, a bordo do navio Pátria, em 26 de novembro de 1948, entre Portugal e Angola, também por isso foi sempre o mar que o chamou. Por este rio acima (1982) é uma das obras mais geniais da música portuguesa de sempre, a partir dos relatos de Fernão Mendes Pinto em Peregrinação, que o divertia imenso e era o seu livro de cabeceira. “Em 1979, comecei a compor Por Este Rio Acima. Eu fiz parte da diáspora, os meus pais partiram, isso com certeza que me condicionou, mas não foi um ato consciente, sabe? Eu dei conta de mim a fazer aquilo sem saber porquê.”

Obra-prima, em qualquer parte do mundo, Por Este Rio Acima é o primeiro volume de uma trilogia que nos trouxe o olhar desses muitos que a história teimou em esquecer, e se prolongou por outras viagens com Crónicas da Terra Ardente (1994) e Em Busca das Montanhas Azuis (2011), que foi também o seu último trabalho. Estas viagens trazem morte e dor, escravatura e tortura. “Nas minhas músicas, tentei encontrar o sentido do que a minha Pátria fez, durante os Descobrimentos. Porque me interessava compreendê-lo e adaptar esse sentido aos tempos actuais. Houve quem procurasse apenas glorificar. Eu glorifico o que há para glorificar, mas também conto o outro lado, o da gente que falhou e também matou”, explicava-se em 2011, numa entrevista à Visão.

Em todas as suas obras, as letras são tecidas com uma sabedoria e uma cultura que fazem de cada verso uma paleta de histórias e significados. Em todas as canções, as composições revelam um apurado gosto pela música tradicional, que se cruza com sonoridades africanas, uma e outras sempre reinventadas, e as orquestrações elevam esse gosto a uma polifonia de vozes e instrumentos que fazem destas canções património de todos. Ao ouvir muitas destas composições, é impossível não recordar Sérgio Godinho e José Mário Branco (1942-2019), parceiros e cúmplices de muitas canções, de uns e outros, que se juntaram para Três Cantos(2009), um projeto de palco que ficou registado em disco. Sorte a nossa.

 

Os caminhos de Fausto

 

 

O percurso de Fausto inicia-se em Angola, com os Rebeldes, mas é já em Lisboa que edita o seu primeiro disco, homónimo, que lhe valeu o Prémio Revelação, da Rádio Renascença. No programa Página Um, que passava na emissora católica, o “novato” era um dos “cantautores prediletos”, como sinaliza Luís de Freitas Branco em A Revolução antes da Revolução (Zigurate, 2024). Este musicólogo afirma que “o álbum Fausto apontava um caminho diferente – e porventura mais viável – para o rock português: a integração com a canção de intervenção”. Nem um, nem outro fariam caminho nos caminhos de Fausto: o rock caiu em desuso na sua música e a canção de intervenção foi chama que se esboroou nos finais dos 70, passados os dois primeiros discos em liberdade, Pró que Der e Vier (1974) e Beco sem Saída (1975), e a fundação do GAC – Grupo de Acção Cultural, em sua casa, com José Mário Branco, Tino Flores e Afonso Dias.

A intervenção construiu-se de outro modo, ganhou matizes, fez-se subtil, tornou-se irónica, dispensando a palavra de ordem: desembarcou primeiro em Madrugada dos Trapeiros (1977), que inclui Rosalinda, uma das mais icónicas canções do repertório de Fausto, continuou com Histórias de Viageiros (1979), e já aí o barco saía (para) Por este rio acima. Há 12 álbuns no percurso de cinco décadas de Fausto, e a intervenção fez-se com o tal cantor maldito. A Ópera Mágica do Cantor Maldito (2003) é, porventura, a sua obra menos amada, mas mantém o mesmo olhar para a música e para a palavra, com que Fausto preservou um dos mais belos conjuntos de originais da música portuguesa. Em pleno ano da troika de 2011, Fausto dizia, na referida entrevista, que esta ópera era o seu regresso à canção de protesto e de denúncia, oito anos antes de o FMI e parceiros aterrarem na Portela.

A trilogia das Descobertas foi intercalada por outros discos que merecem a audição: o belíssimo O despertar dos alquimistas (1985, o difícil álbum depois da sua obra maior), Para além das cordilheiras (1987) e A preto e branco (1988), que permitem completar uma história única e muitas vezes subversiva. “Lembra-me um sonho lindo, quase acabado”, canta Fausto, num dos seus mais belos poemas – mas não se acaba a música, o legado maior de Fausto Bordalo Dias. “Lembra-me um céu aberto, outro fechado.” Por todos os rios acima.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, de 1 de julho de 2024]

Junho 14, 2024

Estes textos foram visados pela censura. Além-Mar: a revista suspensa pela ditadura

Miguel Marujo

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O título “Os Missionários e as Pátrias” ficou reduzido a “Os Missionários”. A censura implicava com tudo o que indiciasse um apoio às independências africanas. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

 

Por causa de um texto sobre a visita do Papa Paulo VI a um país de que Salazar não gostava, a Índia, a revista missionária Além-Mar esteve suspensa cinco meses entre 1964-65, tendo depois sido obrigada a sujeitar os seus textos à Censura ditatorial do Estado Novo. Discussões com censores, cartas, cortes absurdos, de tudo a revista e os missionários foram sofrendo. Alusões a independências ou liberdade, textos sobre Luther King ou um “bispo de camisa cinzenta”, frases do Papa ou de bispos que criticavam o poder de uma minoria branca — nada passava no crivo da Censura. Uma história praticamente inédita, aqui contada pelo 7MARGENS a partir dos arquivos da revista, reconstitui o que se passou. 

 

 

Martin Luther King foi morto nos Estados Unidos a 4 de abril de 1968. O pastor batista e ativista americano pelos direitos humanos, em particular da população negra, caiu mas não foi derrotado. “Morto mas não vencido” titulou a revista Além-Mar, dos Missionários Combonianos, nesse ano de 1968. O crivo do lápis azul censor não deixou que fossem publicadas palavras, fotos e mensagens de e sobre Luther King. “Cortado”, lê-se no carimbo em cada uma das três páginas que foram visadas pela Censura. O texto seria para sair no n.º 5 da revista, de maio de 1968, e deu entrada na censura em 18/4/68. Num envelope onde se guardam as provas dessas três páginas, alguém escreveu: “Morte de Luther King – um artigo que não pôde ser publicado…”

Não é de espantar: a ditadura do Estado Novo, regime que mantinha uma guerra contra movimentos que exigiam a independência dos seus países e territórios de África, nunca poderia autorizar que uma revista vertesse palavras de justiça e de dignidade. “O negro precisa de convencer o homem branco que pretende a justiça para ambos; tanto para ele como para o homem branco”, disse Luther King num dos seus sermões, reproduzido de um livro publicado por cá em 1966, Força para Amar (numa edição esgotadíssima da Livraria Morais Editora). Os responsáveis da revista comboniana replicaram estas e outras palavras do reverendo americano, mas a censura não foi de modas: um corte total, sem contemplações.

Na redação da Além-Mar, em Lisboa, há uma gaveta grande de arquivo onde se guardam muitos dos textos cortados a azul. Até 1964, as publicações católicas escapavam ao crivo dos censores. Mas, em 1964, um texto que não agradou ao regime levou à suspensão da revista. O volume que mantém em arquivo os exemplares publicados no ano de 1964 termina em novembro, o de 1965 é retomado em maio. Pelo meio, há cinco meses – de dezembro de 64 a abril de 65 – em que a revista está suspensa, depois da publicação de um artigo sobre o Congresso Eucarístico Internacional, na Índia.

 

Suspensão noticiada no Brasil

 

A notícia da suspensão da revista é dada no Brasil, pelo jornal O Globo, a 16 de novembro de 1964: “O Governo do primeiro-ministro Oliveira Salazar suspendeu, ontem, por tempo indeterminado a revista católica Além-Mar e confiscou sua edição de Novembro, proibindo-lhe a circulação, por haver publicado um artigo sobre o Congresso Eucarístico Internacional, que será instalado no fim do mês em Bombaim.”

 

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A notícia da suspensão da revista não chegou aos seus assinantes, mas foi dada no Brasil,
no dia seguinte à decisão da Censura. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

É por causa do texto sobre a viagem do Papa Paulo VI à Índia que a revista passa a ter de sujeitar os seus trabalhos aos homens do lápis azul. Três anos antes, as tropas da Índia tinham ocupado Goa, Damão e Diu, então colónias portuguesas naquele país. E o ditador não gostou de ver o Papa visitar a Índia, ignorando os protestos de Portugal.

O autor de “Um Congresso para a Índia – Na União Indiana”, Fábio Pimentel, ignora os acontecimentos de dezembro de 1961 e, apesar de fazer um retrato crítico da Índia, “a terra dos esqueletos ambulantes, dos desnutridos, das crianças atacadas de kwashiorkor”, atreve-se a dizer que o Governo de Nova Deli se esforçava por melhorar a situação social da sua população: “O grande problema (…) é o drama da fome. (…) Em Calecute, (…) todos os dias de manhã os bombeiros passam a recolher os que durante a noite faleceram por falta de um punhado de arroz. Não se exagere, porém, pois lentamente o governo está a debelar o flagelo. Embora a população tenha aumentado, em dez anos [de independência], de 361 para 438 milhões de habitantes, o rendimento individual, a alimentação em calorias e a idade média subiram consideravelmente.”

Mais: o articulista sublinha uma preferência pelo regime indiano, num “desafio” entre China e Índia, que “continua afinal mais vivo que nunca”: “A China não desiste de tentar atrair a si o mundo em desenvolvimento. Religiosamente, porém, é mais provável e preferível que seja a União Indiana a ganhar a batalha. A constituição que Nehru forjou é iminentemente favorável à liberdade religiosa. Ele mesmo afirmou um dia: ‘A ideia de um estado inteiramente hindu é totalmente ultrapassada.’ Isto é um factor muito positivo. Outro motivo de esperança é que em todos os estados de que o país se compõe a hierarquia católica está firmemente organizada, contando 50 dioceses, na maior parte administradas por Bispos indianos. Mas o Congresso de Bombaim, organizado sob o signo do Concílio, não alimenta menos as nossas esperanças. Eu creio que ele fará soar finalmente a hora da evangelização da Índia e da Ásia. Os obstáculos (a que não pude referir-me) são muitos mas a escolha de João XXIII não poderá deixar de ser um gesto providencial.”

 

As desculpas do provincial e a censura prévia

 

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Carta do padre Ramiro Loureiro da Cruz, provincial dos Missionários Combonianos:
o gesto de contrição não comoveu as autoridades do regime. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

Parágrafos como aqueles levaram o Governo de Salazar a impor o silêncio à revista. O superior provincial do Instituto Missionário dos Filhos do Sagrado Coração de Jesus, conhecidos por combonianos, tinha admitido a possibilidade de um “exame prévio” à publicação, para evitar a suspensão da revista, mas de nada valeram os seus ofícios junto das autoridades. A 9 de novembro de 1964, o padre Ramiro Loureiro da Cruz envia uma longa carta ao subsecretário da Presidência do Conselho, Paulo Rodrigues, onde expõe a suspensão da revista, ocorrida a 5 de novembro, assumindo logo que “o autor do artigo [“Um Congresso para a Índia”] foi infeliz na maneira de apresentar este acontecimento da Igreja, não tendo em conta os sentimentos do nosso povo em relação àquele país que tanto nos fez e faz sofrer” e pedindo “imensa desculpa pela grande mágoa que o citado artigo causou”. Apesar da contrição, Loureiro da Cruz afirma: “Cumpre-me todavia garantir-lhe que ele não foi publicado com más intenções da nossa parte.”

O provincial insiste em sublinhar a importância da Além-Mar para os combonianos. “A decisão tomada com a nossa revista vem prejudicar vitalmente o nosso Instituto que se destina unicamente à obra das Missões Católicas nas Províncias Ultramarinas e que tem nesta publicação mensal o seu meio de contacto com os seus amigos e benfeitores de quem recebe as esmolas para poder sustentar os seus alunos portugueses, futuros Missionários do Ultramar, não tendo nós alguma outra fonte de subsídios.” Antes de apontar dois caminhos para o regresso imediato da revista, Ramiro Loureiro da Cruz insiste nas desculpas junto de Paulo Rodrigues: “Profundamente penalizado por termos causado este lamentável contratempo, peço humildemente a V.ª Ex.cia se digne autorizar que a Revista do nosso Instituto continue a sua publicação, até para evitar confusão e desorientamento entre os seus 6.000 assinantes que com certeza ficariam surpreendidos por não receberem regularmente os seus exemplares.”

Na carta, Loureiro da Cruz indica ainda: “para evitar, no futuro, desgostos análogos [ao do texto publicado], já substituí o corpo redactorial da Revista dando-lhe novo director e novo redactor e declaro-me absolutamente disposto a acatar quaisquer disposições que os Serviços da Censura hajam por bem indicar-me inclusivamente a censura prévia que até preferiria”. De pouco valem estes gestos do superior dos combonianos. Não há nos arquivos nenhuma resposta do subsecretário de Estado da Presidência do Conselho.

Num breve texto disponibilizado no site do Parlamento, José Venâncio Pereira Paulo Rodrigues, que foi deputado na Assembleia Nacional, é descrito, no seu “perfil político-ideológico” como “católico militante”, “membro da Ação Católica: Presidente geral da Juventude Universitária Católica e Vice-presidente nacional da Juventude Católica Portuguesa; [e] membro das Conferências de S. Vicente de Paula, ficando sempre ligado à obra”. Nem este perfil ajudou. A suspensão mantém-se por mais cinco longos meses.

 

Depois da suspensão, a censura

 

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A censura podia atingir títulos, frases, textos inteiros ou fotografias. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

A partir desse maio de 1965, começa a aventura quotidiana de enviar os textos à censura e de discutir os cortes com os funcionários do lápis azul. “Às vezes deixavam passar na primeira prova e cortavam na segunda, outras cortavam só por causa do título ou porque se falava em países pouco gratos ao regime português”, recordava em fevereiro de 2001, ao jornal Público, um antigo jornalista da Além-Mar, Rogério Nunes. Mas nem só de razões políticas se faziam as objeções dos censores. Textos ou frases que atentassem contra a moral e os bons costumes também eram riscados pelo grosso lápis azul dos zeladores.

O regresso da publicação faz-se sem se mencionar explicitamente a suspensão. No editorial, sob o título “O Novo ‘Além-Mar’”, o articulista inicia o texto com uma breve história: “Um jovem dizia-me há dias: «Já tenho saudades de «Além-Mar».» Após longos meses de letargo «Além-Mar» apresenta-se de novo em público. Este primeiro número abrange forçosamente um longo espaço de tempo.” E segue por aí fora, apontando que, “durante estes meses «Além-Mar» robusteceu-se, (…) mas também tomou consciência de si mesmo. Definiu o seu rumo.” E nesse rumo adivinha-se a continuação da subtil abertura a temas e áreas sensíveis para a ditadura. “«Além-Mar» como órgão de expressão missionária, no desejo único de melhor servir Cristo e a Igreja, quer tomar um lugar bem determinado no grande «Diálogo» entre a Igreja e o Mundo, diálogo que foi reaberto e reforçado por Paulo VI e pelo Concílio em hora feliz oportuna qual suspirada resposta a uma exigência de intercomunicação leal, aberta e confiante. Agora é preciso continuá-lo e alimentá-lo.” E este diálogo passa pelo contacto com as pessoas e os povos da África negra, insiste o editorialista, nomeadamente fazendo sentir “os problemas que os afligem, os pensamentos que os preocupam, as aspirações que querem concretizar. Eles são nossos irmãos, irmãos mais pobres. (…) Afinal têm um ser «ser humano» igual ao nosso, filhos do mesmo Deus a quem ousamos chamar Pai (Pai-Nosso: de nós e deles).”

O ano de 1965 é, dizem-nos os documentos guardados no arquivo comboniano, um ano de vigilância apertada aos textos da Além-Mar. A mudança do corpo redatorial não atenua a abertura da revista a temas sensíveis para o regime. Só a ida ao “exame prévio” da Censura travava a publicação desses textos.

Um artigo crítico da eventual islamização do Sudão, de junho, em que se reproduz um editorial do jornal sudanês em língua árabe, Al-Sahafa, que ataca o Papa, é cortado nesses parágrafos. Depois o corte é levantado. Noutros casos, é “mantido o corte”, como o título de um artigo sobre “Os missionários e as pátrias”, que fica só “Os missionários”. Ou um outro texto breve, que cita Paulo VI na encíclica Ecclesiam Suam. “É necessário que nós nos identifiquemos, até certo ponto, com as formas de vida daqueles a quem desejamos levar a mensagem de Cristo. É necessário, ainda antes de falar, auscultar a voz e mesmo o coração do homem, compreendê-lo e, na medida do possível, respeitá-lo…” Não passou. E apesar de um pedido para rever este corte, o censor não quis saber: “Mantém-se o corte”. Outro texto sobre “o que foi escrito pelos intelectuais africanos nas vésperas do Concílio Vaticano II” é também ele todo riscado. Três páginas que se guardam numa gaveta do arquivo da Além-Mar. “Mantém-se o corte”, repete-se.

 

Um governo zangado com o Papa

 

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Paulo VI fala de liberdade e independência? Corte-se a frase do Papa. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

O Papa Paulo VI é também visado, como já se viu. A notícia da presença de dois bispos de Angola em Kampala (Uganda), por ocasião da visita papal, em 1969, é também cortada. “Contrariamente ao que chegou a ser difundido pela Imprensa, dois bispos da África Portuguesa deslocaram-se ao Uganda por ocasião da visita de Paulo VI”, escreve a Além-Mar, que entrevista Altino Ribeiro Santana. “Cremos que as suas palavras ajudarão a desfazer alguns equívocos.” Nova revisão da Censura: “s/ efeito o corte”.

A atenção a Paulo VI vem de trás, como se viu, por causa da Índia. Depois de levantada a suspensão da revista, em 1965, para o número de agosto, há uma pequena notícia sobre a entrega de credenciais do novo embaixador da Zâmbia ao Papa que é, toda ela, cortada. As palavras de Paulo VI eram impossíveis de passar: “Aproveitamos desta ocasião para dar, mais uma vez, as nossas melhores felicitações à África, o grande continente que está ingressando na liberdade e na independência (…).”

O Governo do Estado Novo continuava zangado com o Vaticano, apesar de se afirmar “como defensor da Igreja Católica”, como recordou o historiador João Miguel Almeida, num texto no 7MARGENS. Estávamos ainda longe da ferida reaberta por Paulo VI ao receber, a 1 de julho de 1970, os três líderes dos movimentos de libertação das então colónias portuguesas – Amílcar Cabral, do PAIGC, Agostinho Neto, do MPLA, e Marcelino dos Santos, pela Frelimo –, mas a política portuguesa de ocupação de territórios africanos colidia com o que a Santa Sé ia afirmando, provocando "incómodo e crispação” ao governo de Salazar.

“A encíclica Pacem in Terris, de João XXIII, fora publicada em Portugal com a referência ao direito de autodeterminação dos povos cortado. A ida de Paulo VI à ONU fora considerada um acontecimento “horrível” por Salazar e a deslocação do Papa à Índia fora qualificada por Franco Nogueira, ministro dos Negócios Estrangeiros, como um “agravo”, por causa da anexação de Goa pelo Estado indiano. No entanto, a hábil diplomacia portuguesa conseguira varrer as sombras da imagem das relações entre Portugal e o Vaticano, explorando a visita de Paulo VI a Fátima em 1967. A chegada de Marcelo Caetano ao poder pareceu anunciar uma melhoria nas relações entre o Estado Novo e a Santa Sé, como fim do exílio de dez anos do bispo do Porto, em 1969”, sintetizou João Miguel Almeida. Em vão. A Censura também aperta nestes anos.

Paulo VI é um dos nomes que mais engulhos causava ao regime, por causa dos ventos que sopravam no Vaticano. E por várias vezes a Além-Mar tinha cortes dos coronéis da Censura nas notícias que dava sobre o Papa. O jornalista César Príncipe, que em 1979 publicou Os Segredos da Censura (Editorial Caminho, 2.ª edição, 1994, entretanto reeditado pela Afrontamento), revelava nessa obra que “milhares de nomes (nacionais e internacionais) constavam dos ficheiros do ostracismo oficial”. Na nomeação de uma ínfima parte dessa lista, César Príncipe identificava “a viúva de Luther King”, Coretta King, mas também vários dignitários da Igreja, “fosse o bispo de Cádis, a hierarquia da Rodésia, do Brasil e do Peru, fosse Paulo VI, em Roma, Bombaim, Hong-Kong ou Kampala”. “O contencioso entre o Estado [português] e a Igreja (mau grado a Concordata e os Acordos Missionários) ia enrolando, na curva descendente do fascismo, em bola de neve ácida: padres e católicos presos, desterrados, torturados e «suicidados», templos «escutados» ou assaltados por polícias e cães, acções empreendidas em defesa da «civilização cristã»”, resumiu César Príncipe.

 

Os cortes das palavras dos bispos da Rodésia

 

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Os bispos da então Rodésia (hoje Zimbabué), críticos do regime da minoria branca,
também não passaram no crivo zeloso dos censores. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

Os bispos da Rodésia também são um alvo a cortar, como tinha notado Príncipe. A Além-Mar coleciona vários exemplos de artigos sobre este país – que é hoje o Zimbabué e que, de 1965 a 1979, foi um Estado não reconhecido, liderado por uma clique de colonos brancos, sob o governo de Ian Smith – que foram alvo de censura, na reprodução de textos do episcopado rodesiano.

Em 1966, por exemplo, o artigo “O problema da Rodésia”, no qual se dá nota da posição dos bispos católicos, é cortado. Um outro, de novembro desse ano, é autorizado com cortes. Uma única frase é extirpada ao artigo: “Não podemos deixar de dizer que o «apartheid», moralmente considerado, é caminho errado, porque «contrário [à] Lei divina», como afirmaram há pouco os Bispos do país.”

Em 1970, há dois artigos com sortes distintas. “Rodésia: de novo a Igreja diz não” é “autorizado com cortes”. Um outro, “Rodésia: «crise de consciência»” é cortado. Começou por ser “Autorizado com cortes”, como se lê no carimbo posto na página, com uma nota manuscrita: “Válidos os cortes a vermelho”. Depois é tudo cortado com lápis azul e carimbos. Num deles lê-se: “Suspenso”. Um só parágrafo descrevia o que era este texto, e deixava adivinhar o corte da Censura: “Gastou-se muita tinta para traçar as dimensões do regime racista de Ian Smith: uma minoria branca (230.000) que domina e subjuga uma minoria negra (mais de 4 milhões). Mas nenhuma tomada de posição foi tão convincente, tão firme e tão clara como a dos bispos rodesianos, que condenaram por mais de uma vez a segregação governativa.”

Em 1972, o artigo “Rodésia – Acordo ou traição” é enviado à Censura em 20 de janeiro, e recebe a autorização de publicação com o corte do último parágrafo: “E, ao fim e ao cabo, quem perderá a partida neste jogo de interesses serão os cinco milhões de negros subjugados, uma vez mais, pelos 250 000 brancos muito ciosos da sua soberania.” Outro artigo merece também substantivos cortes. Em “Rodésia – A Igreja local condena o Acordo anglo-rodesiano”, a “carta pastoral do presidente da Conferência Episcopal da Rodésia e bispo de Umtali, Mons[enhor] Daniel R. Lamont” leva duas grandes talhadas, que vale a pena reproduzir.

“[As duas partes] Em vez de exprimirem um tratamento uniforme de justiça e uma preocupação imparcial pelo bem comum, as propostas reflectem o modo de pensar da minoria que governa e a sua preocupação em assegurar a atual posição de privilégio. E confia-se que a população africana, pouco consultada sobre a matéria, se conforme com aquelas pequenas concessões que os seus amos europeus lhes outorgam… (…)

Além do mais, a escandalosa e injusta distribuição da terra – que historicamente foi fonte contínua de descontentamento onde quer que se tenha imposto – continua ainda a ser essencialmente a mesma, enquanto se podiam ter tentado esforços generosos e iniciativas para a rectificar. Numa palavra: esperar que toda uma população, que ultrapassa os que governam numa proporção de 20 para 1, se sinta satisfeita com uma condição de vida que lhe concede apenas uma existência marginal na vida social, económica, política e cultural do seu país, e a que por razão da sua raça se nega a possibilidade do desenvolvimento integral, é simplesmente multiplicar o descontentamento e provocar o último desastre. Como é possível admitir-se que um povo, com um mínimo sentido de justiça, feche os olhos perante tais iniquidades? Como é possível exigir-se razoavelmente a seres humanos que permaneçam especificamente cidadãos de segunda categoria na sua própria terra? Como é possível que homens e mulheres cristãos se mostrem insensíveis às humilhações que, em nome de uma superioridade racial, se infligem aos seus irmãos?…”

Num país que se dizia defensor da Igreja, a voz de bispos como os da Rodésia não tinha lugar. Afinal, um Estado que segregava a população negra das suas então colónias não podia deixar que fosse publicado um artigo que poderia ser visto como falando, a papel químico, da realidade de Angola, Guiné ou Moçambique, por exemplo. Bastava fazer corta e cola e era Portugal o alvo da crítica.

 

Vigilância constante aos artigos da revista

 

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O editorial do primeiro número depois da suspensão: a paragem forçada não era referida explicitamente, apenas de forma velada. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

A vigilância não abrandaria, ao longo dos anos. A 7 de julho de 1969, o diretor dos Serviços de Censura, escreve ao diretor da revista questionando o facto de não terem sido atendidos todos os cortes que os censores tinham imposto: “Verificando-se pela leitura das 1ª e 2ª colunas da págª 5 do N.º 7 dessa revista, relativo ao mês corrente, que não foram inteiramente cumpridos os cortes efectuados por estes serviços na respectiva prova, solicito a V. Exª que se digne informar-nos do que se lhe oferecer acerca do assunto”.

O padre Carlos Neves Sobrinho responde na volta do correio, a 8 de julho. Os cortes “foram realmente e rigorosamente respeitados”, argumenta. “Apenas tive conhecimento dos cortes, desloquei-me pessoalmente à Sede desses Serviços e solicitei uma audiência do Sr. Director. Fui recebido por um Senhor Oficial a quem expliquei a minha estranheza por tais cortes, tendo obtido o levantamento de alguns deles.” E como prova do que diz, o diretor da revista junta uma fotocópia da “prova censurada da página em causa, onde claramente se podem ler os “Sem efeito” escritos à mão pelo Sr. Oficial que me atendeu na vez do Sr. Director e cujo nome ignoro”.

A Censura recua outras vezes. Um texto de quatro páginas, sobre os dez anos da independência da Guiné-Conacri, escrito pelo comboniano Nazareno Contran, para a edição de maio de 1969, que deu entrada nos serviços a 12 de abril desse ano, é cortado. Depois vem a revisão de um oficial, em nome do diretor: “Autorizado, mas o título do artigo e as gravuras devem ser submetidas a censura prévia”, e assina “Lx. 26-4-969. Pelo director, J Chaves”.

Outras vezes os cortes são quase milimétricos, em breves frases, mas bem cirúrgicos naquilo que se quer esconder dos leitores da revista. Num texto sobre a fome, para o número de março de 1969, o censor mandou retirar duas frases: “Foi este o caso da colonização. Com o colonialismo, chegou a fome aos países do Terceiro Mundo porque os seus recursos foram explorados vergonhosamente por alguns poucos.” E parte de uma outra:“ (…) contra a opressão que há quatro séculos e meio sofrem, desde que começou a colonização, o domínio das potências europeias.”

 

Os leitores escrevem, os censores cortam

 

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“Os leitores escrevem”, como diz o título da secção, mas a revista não pode publicar,
manda a Censura. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

Os responsáveis da Além-Mar questionam muitas vezes os censores sobre os cortes feitos, e insistem no seu levantamento, com mais ou menos sucesso. A 9 de novembro de 1971, o diretor da revista, Carlos Neves Sobrinho, escreve ao “Dr. Geraldes Cardoso, Diretor-geral da Informação”, para protestar por cortes na secção de cartas dos leitores. “Com grande surpresa minha, as duas provas em causa regressaram com duas cartas e duas respostas cortadas. Além disso, uma terceira carta sofreu um corte nos últimos períodos. Não me conformei com os cortes, por os julgar fruto de demasiada severidade da parte do oficial censor, e tentei falar com o Sr. Director dos Serviços de Censura, mas não consegui.” Sem sucesso, os cortes mantiveram-se, por isso Carlos Neves Sobrinho recorria hierarquicamente. “Sinceramente, no momento de entrar em vigor a nova Lei de Imprensa recentemente aprovada pela Assembleia Nacional, parece-me que os cortes feitos à nossa revista revelam um rigorismo exagerado.”

Uma das cartas cortadas era sobre essa nova lei de Imprensa, com um leitor do Funchal, não identificado, a agoirar que a mesma “não garante mais liberdade de expressão de pensamento que a Censura”, pelo que ia deixar de assinar jornais e revistas. E a outra era de um padre de Chaves, a partir de um testemunho de uma senhora que tinha estado em Moçambique, que se queixava que andaria a financiar padres missionários italianos “que coadjuvavam a campanha contra Portugal”. “Se julgando auxiliar as Missões Católicas entre infiéis estou a auxiliar inimigos do meu País, desde já faço marcha atrás e começo a recusar todo o meu auxílio material e moral a tão nefastos agentes da Civilização Cristã!”, indignava-se o padre Adolfo Augusto Magalhães Júnior. A resposta do articulista da Além-Mar a um e outro foi dura. Foi tudo cortado. Não consta do arquivo da revista qualquer resposta de Geraldes Cardoso, diretor-geral da Informação, a interceder pela sua publicação, mas nenhuma destas cartas de leitores foi publicada no número de dezembro de 1971.

Outra leitora que viu a sua carta cortada foi Maria do Rosário Neves Ferro, de Lisboa, que curiosamente surge num outro espólio, o dos “Documentos Felicidade Alves” (disponibilizado pela Casa Comum, da Fundação Mário Soares), com uma carta de maio de 1970, dirigida a Nuno Teotónio Pereira, a solicitar “a junção da sua assinatura ao abaixo assinado dirigido ao Ministro do Interior para a libertação do Padre Felicidade Alves”.

À Além-Mar, Maria do Rosário Neves Ferro dá conta que tomou conhecimento “com grande alegria” de uma “Mensagem do Conselho de Presbíteros da Beira”, assinada em primeiro lugar pelo bispo de Nampula. “Dela me fica uma impressão de amor a Nosso Senhor e aos irmãos, que me fez ter mais esperança de novo. Porque no vosso jornal ainda não vi a mínima referência a este documento, permito-me transcrever algumas partes para reflexão dos leitores.” Não passou, nem uma linha.

 

No estertor da ditadura

 

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O artigo sobre “o bispo da camisa cinzenta” também não resistiu ao lápis azul
e ao carimbo vermelho da Censura. Foto © Arquivo 7MARGENS.

 

O número de abril de 1974 ainda sai visado pela Censura. Nesse n.º 195, do Ano XIX de publicação, o editorial tem sinalizados “cortes apenas a vermelho”: “Há também quem expulse os missionários sob a acusação de colonialismo religioso e cultural ou de interferências nos negócios políticos da nação” – é a frase proibida no estertor da ditadura, numa referência à expulsão, decretada pelo regime, de nove missionários combonianos e do então bispo de Nampula, Manuel Vieira Pinto.

A Além-Mar não foi a única publicação católica a ter de ir ao “exame prévio” da Censura. A Voz Portucalense, criada a 1 de janeiro de 1970, também passou pelo mesmo calvário, em que “as instruções superiores para os agentes da ação censória manifestavam especial atenção a temas como a paz, a justiça social, aspetos da moral comportamental, a violência, a ação governativa, a ação da justiça e mesmo aspetos do universo internacional”. Tal e qual o jornal da diocese do Porto, a revista missionária comboniana via o mais inócuo dos seus textos cortados ou enxertados.

Num artigo a sair no número de abril de 1972, que deu “entrada na censura em 6/3/72”, “Impressões de uma visita às missões dos Capuchinhos em Angola”, há uma frase cortada, na quarta página: “Para subir é preciso passar pelo posto de controlo dos soldados de guarda à zona da barragem.” E mais abaixo, outra: “Pouco antes de Viana, a uns dez quilómetros da capital, deparamos com uma longa coluna militar que vai para o Norte substituir outros militares na zonas mais ameaçadas pelo terrorismo.” O censor evitava referências à guerra. “Autorizado com cortes”.

No ano de 1968, um texto que relata uma visita a D. José Dalvit, um comboniano que é bispo de S. Mateus, uma “pequenina cidade perdida no Estado do Espírito Santo”, no Brasil, é cortado de alto a baixo. O texto de duas páginas não aparenta ter particulares pecados contra a ditadura, mas o carimbo do censor é taxativo: “Cortado”. Título do texto: “O bispo da camisa cinzenta”. O autor, o padre Domingos Andriollo, confessa no final do artigo que não o mostrou antes ao bispo. “Quero que ALÉM-MAR lhe traga esta surpresa”. A censura não deixou.

 

[artigo originalmente publicado no 7Margens, a 7 de maio de 2024]