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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 22, 2022

Os (meus) discos ouvidos em 2022 (3)

Miguel Marujo

Esta não é a lista dos melhores do ano (ainda falta muito e muita música). É (será) uma lista em atualização, nestas semanas, do que mais tenho ouvido e mais tenho gostado ao longo deste ano, e que pode até ser de outros anos. Discos, canções, que por algum motivo passaram pelo meu radar. 

 

 

The Gift, Coral

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Este Coral arrisca muito. As polifonias não são coisa estranha à obra dos Gift — de que gosto desde a primeiríssima hora, com Vinyl (1998). A banda de Sónia Tavares e Nuno Gonçalves já tinha ensaiado algumas belas abordagens corais, como em Open Window de Primavera (2012). É um risco este disco: a pop viciante de um grupo que sempre se manifestou pela linguagem da dança como cartão de visita, apresenta-se aqui com um conjunto de temas orquestrados e corais — e a abertura com Noir - Adagio Doloroso é um breve arroubo, a antecipar o belíssimo Noir, um tema a incluir (aposto) no cânone giftiano. A eletrónica continua lá, e Cancun, por exemplo, parece talhada para as pistas, mas deixa-se envolver, sem qualquer pudor, fazendo respirar estas polifonias contemporâneas e de registo clássico. (E antes que alguém mais desatento ou apenas maledicente se lembre, não, não há sombra dos Enigma dos anos 1990 nesta aventura.)

A voz de Sónia e as composições dos Gift encontram conforto e amparo num diálogo que é tudo menos cómodo e instalado. Ouça-se Única, um espanto de quase cinco minutos e meio: às vozes masculinas que se impõem no final (já vos falei de Primavera, não já?), por entre os Pauliteiros de Miranda, há sempre o coro de 48 vozes que nos ajuda a construir imagens de uma cinefilia imaginária (e eles também gravaram um disco chamado Film, em 2001). Ouça-se Adagio (outra para o cânone), 7 Vezes ou Passa-se o Tempo, e estamos perante um disco com lugar cativo nos álbuns do ano de 2022. 

Para lá dos seus sons de sempre, os The Gift arriscaram muito, mas ouvindo bem há uma beleza sempre presente — e isso é muito deles, de sempre.

* *

Tal como fiz nos álbuns de que já falei, aqui em baixo, sem qualquer obrigação jornalística de contar quase tudo sobre um disco, só depois de escrito este texto, vertido em página quase de rajada depois de audições intensas, fui saber um pouco mais: 

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fichas técnicas, para descobrir a presença de três vozes dos Gaiteiros de Lisboa (provavelmente o mais revolucionário projeto folk da música atual portuguesa), José Manuel David, Carlos Guerreiro e Rui Vaz; um coro clássico de 48 vozes; os Pauliteiros de Miranda; e o compositor Bernat Vivancos e o produtor Bogdan Raczynski, colaborador de Björk; 

declarações dos membros do grupo: “O disco saiu sem aviso. Saiu-nos de dentro. Não estávamos à espera. O músico de hoje tem de seguir instintos, mas sobretudo respeitar os impulsos. Nada se organiza com tempo. As coisas saem. Ou se aproveitam, ou não.” E falam de uma folha em branco, e da busca do som. Tudo isso… já se ouviu.
[22/11/2022]

 

 

Lambchop, The Bible

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Há discos assim: na aparência, muito certinhos e arrumadinhos, a prometerem uma música de câmara com uma voz grave, bem postos ao pôr-do-sol enquanto se beberica um gin tónico, mas logo tudo se desarruma, um instrumento a puxar para ali, outro a dizer-nos um novo caminho, com sopros e piano e eletrónicas e coros (quase gospel, muito soul) a comporem uma belíssima salada pop, sem concessões. 

Há discos assim: os Lambchop, de Kurt Wagner, trazem-nos com este The Bible o seu livro dos livros, um cântico dos cânticos — e a morte a beber nas palavras (Wagner está nos 64 anos), e os sons a desconstruírem ideias preconcebidas. 

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E apesar da solenidade que se ouve nos 50 minutos do disco (em A Major Minor Drag, por exemplo), há tudo menos aprumo na forma como se arrumam as sonoridades deste XX álbum de originais dos rapazes (e basta nomear Little Black Boxes e Police Dog Blues para romper com essa solenidade).

Na Pitchfork invoca-se Grouper ou Angelo Badalamenti, na procura de referências para um disco como este, mas quando ouço Wagner a cantar-nos “We are clumsy and may trample too much/ Turn my face to the words/ Were always better, not so sad as foolish”, a fechar a belíssima Every Child Begins the World Again, não preciso de mais nada. O inverno já pode vir: esta Bíblia vai confortar-nos nas noites longas deste hemisfério.
[12/11/2022]

 

 

The Unthanks, Sorrows Away (2022)

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As irmãs Unthanks são uma pedra preciosa que, há quase 20 anos, vêm polindo alguma da melhor música vinda das ilhas de sua majestade. Navegando nas águas da tradição, frequentemente coladas à folk britânica, The Unthanks é antes um projeto em que a palavra ganha uma especial expressão numa musicalidade que, bebendo muito no dito som tradicional, é resgatada para uma modernidade tão cativante como arrebatadora. 

Sorrows Away — publicado já neste mês de outubro — volta a ser uma gema rara, de vozes que nos contam histórias mágicas, sopros que enchem os espaços entre a inspiração e a expiração, uma sonoridade tão delicada quanto cuidada, mãos que tecem as redes para lançar ao mar, um amor que é tão apaixonante como à primeira audição. 

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Nascidas para a música como Rachel Unthank and the Winterset, uma banda exclusivamente feminina ao início, e que teve com Cruel Sister (2005) uma estreia de ouro (melhor Folk Album do ano, para a Mojo), foi com a terceira (excelente) obra, Here's the Tender Coming, de 2009, que as irmãs e companhia (agora não apenas feminina) passaram a publicar como The Unthanks. Atuando ao vivo como uma banda de cinco ou 11 elementos, The Unthanks já nos trouxeram discos dedicados a composições de Molly Drake, a mãe de Nick Drake, ou a canções de Robert Wyatt e Antony & The Johnsons (dois dos cinco álbuns que compõem a série Diversions, com interpretações de diferentes cancioneiros, em estúdio e ao vivo); uma trilogia com canções inspiradas em três perspetivas femininas ao longo do tempo: a escritora Emily Brontë, poetas da Primeira Guerra Mundial e uma pescadora de Hull, Lillian Bilocca. 

E este 2022 ficou bem mais bonito com Sorrows Away.
[24/10/2022]

Setembro 25, 2022

A dança é um lugar estranho

Miguel Marujo

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A dança é uma linguagem que me é estranha — talvez pela inabilidade muito pessoal em dar sentido e ritmo a este corpo. E também por isso a dança fascina-me, mesmo que no dia a dia não a absorva (ou consuma) como com outras artes. Paro por vezes, aos sábados à noite na RTP2, a ver bailados contemporâneos ou clássicos, entre o fascinado e o intrigado: que me dizem aqueles movimentos, os ritmos, os corpos? Sei que, como em todas as artes, o gosto não se impõe, antes discute-se e aprende-se, e estes programas ou alguns (poucos) espetáculos vistos vão ajudando a formar o meu próprio gosto pela dança. Nem sempre incondicional, nem sempre fácil.

Esta noite, Olga Roriz apresentou no CCB um espetáculo que criou com a Companhia Nacional do Bailado (e que repete este domingo), integrado no centenário de Saramago — e o arrebatamento aconteceu(-me). Dos corpos presos na engrenagem, fechados, inquietos e carnais, do amor refletido de Blimunda e Baltazar, dos braços erguidos de punho cerrado, dos risos que soltam os gestos, Deste Mundo e do Outro é um espanto feito espetáculo. E devia ter guia de marcha para todos os palcos do país.

 

[foto CNB]

Dezembro 06, 2020

A música não se quer apressada. Mas eles teimam em acelerar o ano

Miguel Marujo

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Estamos ainda no início de dezembro, mas as revistas britânicas especializadas de música já nos foram dando a conhecer os melhores de… 2020. É um clássico que nem a pandemia refreou. O Spotify seguiu o mesmo caminho: no início de dezembro mostrou como tinha sido o nosso ano de 2020. De 6 a 31 de dezembro, ainda há quase quatro semanas inteirinhas nas quais poderemos ouvir muito mais música e baralhar um pouco as contas. Eles não querem saber. 

As revistas já têm os melhores do ano, o Spotify já nos deu o wrap de 2020. Manda a prudência que não seja assim. É como nos acontecimentos do ano. Lembram-se do tsunami de 2004? Aconteceu a 26 de dezembro, já todos os jornais tinham escolhido os seus eventos… desatualizados.

O meu ano musical no Spotify (ainda houve muito mais vinis e discos compactos que fizeram os sons dos dias) reflete trabalho: a morte de Ennio Morricone, em 6 de julho, que depois contei em texto para o 7Margens, levou-me a ouvir à saciedade muitas das suas bandas sonoras. Mas há uma que recorrentemente me acompanha, a do filme The Mission, e não é de agora — já noutros anos o Spotify notou essa particular obsessão. Aliás, como sintetiza muito bem o wrap que me foi preparado, one song helped you get through it all: On Earth As It Is In Heaven. É isto mesmo: esta canção ajuda-me muito a ir vivendo isto tudo. (Curiosamente, a primeira vez que o streaming me deu a ouvi-la, este ano, foi a 17 de janeiro, o dia do meu aniversário.)

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Agora, a morte do compositor italiano apenas tornou mais omnipresente as músicas do filme de Roland Joffé: os cinco temas mais ouvidos são mesmo deste disco. E ao sexto tema, descubro outra banda sonora original: Frozen II, na versão portuguesa com Há coisas que não mudam, fruto da audição insistente da pequenita cá de casa. Ele há coisas que não mudam. 

Também não espanta muito: as bandas sonoras sempre foram uma presença significativa na música que ouço. Nos 19222 minutos (mais de 320 horas) que estive no Spotify em 2020, há lugares para muitas outras e, dos cinco músicos mais ouvidos, também lá está Ryuichi Sakamoto — que tem algumas das bandas sonoras que mais me acompanham há muito, como Merry Christmas Mr. Lawrence, The Last Emperor ou The Sheltering Sky, muitas delas reunidas no álbum Music for Film. E também lá estão os Radiohead (omnipresentes e omniscientes, ámen) que nos deram o melhor cartão de despedida em Romeo+Juliet de Baz Luhrmann com Exit music (for a film). Fitas minhas: o cinema pode ser uma excelente porta de entrada na música.

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Uma surpresa neste meu top 5 de audições (e logo em 2º!) é a presença dos americanos His Name Is Alive, nome do catálogo da 4AD, que estrearam a década de 1990 nesta editora fundamental e me cativaram então com os seus dois primeiros objetos musicais não identificados (numa multidão de influências, criando atmosferas algures entre o shoegaze, a eletrónica, e pitadas de metal). O Spotify traz-nos esta possibilidade de retomarmos algures o caminho perdido de quem deixámos de seguir o rasto há muito — por vezes, percebemos que não perdemos nada, noutros regressamos com gosto a uma discografia que mereceria outra atenção, como descobri (e percebi) com estes His Name Is Alive.

Por fim, John Cale, nome maior dos Velvet Underground, que se cruzaria por exemplo com Brian Eno e tantas vezes é apontado como uma influência de músicos da cena indie. A sua discografia é uma banda sonora muito constante da minha vida. Na sua carreira a solo poucos saberão apontar-lhe grandes êxitos ou sucessos orelhudos, mas é um porto seguro em cada trabalho que apresenta, como foi a revisitação e atualização em 2016 dessa obra prima que é Music For a New Society em M:FANS, uma leitura de roupagens eletrónicas que não envergonha o original de 1982.

Este streaming não é só para velhos, fiquem já a saber. Segundo as contas do Spotify, em 2020 ouvi 409 novos artistas, alguns certamente no modo toca-e-foge-cruz-credo, e cruzei-me com 423 géneros, 224 deles novos. Não estava ciente de tantos géneros musicais desde o tempo do jornal Blitz, nos anos 80, mas não é de nos admirarmos muito, a avaliar pela classificação que encontro no meu top 5. Os géneros que mais ouvi nestes 11 meses do ano da pandemia foram “art pop”, “rock”, “soundtrack”, “melancholia” e “compositional ambient”. Isso, melancolia... 

Também fui um “pioneiro” (“you're a pioneer”): ouvi Vinte Vinte (Branko, Ana Moura e Conan Osíris) antes de atingir os 50 mil streams. Pioneer, not an influencer. Outros dados deste wrap spotifyano são mais óbvios, dado o contexto dos discos mais escutados. A década mais ouvida foi a de 1980 (que é a de The Mission) e Ennio Morricone foi “quem mais esteve a meu lado”, de um total de 1247 artistas ouvidos. É: valha-nos a música. Eles aceleram o ano, mas a música não se quer apressada.

 

[E podem espreitar as 100 mais ouvidas em 11 meses de 2020]

Imagem: Jeremy Irons em A Missão, de Roland Joffé.

Abril 30, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 10

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

The Smiths: The Queen Is Dead

Ao contrário de tantos outros, é difusa a minha memória sobre a primeira epifania com os Smiths, com edições constantes naqueles anos da nossa adolescência em que trocávamos cassetes, discos e cd, sedentos de novidades. 

The Queen Is Dead é de junho de 1986, a coletânea The World Won’t Listen é de março de 1987 e, logo em setembro desse ano, saía esse espanto que é Strangeways, Here We Come. E talvez para melhor responder ao desafio dos discos que influenciaram o meu gosto musical devesse incluir esta trilogia de descoberta e paixão.

Este The Queen Is Dead é o que é, um conjunto de canções sem mácula, daquelas que cantámos em coro, a sós, com mais ou menos álcool no sangue, no meio da pista de dança de uma matiné numa discoteca e à volta da fogueira, ao ouvido de alguém ou afundados no sofá a chorar mais uma tampa da miúda gira da turma do lado. Basta dizer que este álbum abre com The Queen Is Dead, tem I Know It’s Over, Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Torn In His Side, Some Girls Are Bigger Than Others e, para sempre, a luminosidade incandescente de There Is A Light That Never Goes Out. 

Um verdadeiro banquete que completava-se com lados B como Asleep, provavelmente uma das minhas três canções favoritas de sempre de Morrissey, Marr e companhia. Não admira que, com tanto para nos contar em tão curto espaço de tempo, The Smiths tenham sido a banda maior da nossa adolescência. Dos amores que ficam para a vida.

Abril 29, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 9

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Radiohead: OK Computer

Gosto de Creep, daquelas guitarras sujas e da voz que cresce, gosto de pegar nos auscultadores numa loja de discos e ouvir a canção, como no filme, gosto deste britpop que não ficou fechado nos quatro cantos das ilhas e se abriu, curioso, a sonoridades distintas e distantes.

Por causa de Creep (e de Pablo Honey e The Bends) cheguei, claro, a OK Computer e tudo fez sentido: em 1997, quando vinha aí a correr o século XXI, os Radiohead anteciparam-se ao milénio para nos cantarem logo como ele era – OK Computer, nascido entre 1996 e 1997, fechou-nos em casa, dias a fio assim, a ouvir o álbum que profetizava a idade digital que vivemos sem o adivinharmos, uma revolução em forma de disco, uma das suas obras maiores (e a mais icónica).

Thom Yorke dizia que andava a preparar um álbum “positivo”, mas faltou em otimismo o que sobrou em claustrofobia e nem as suspeitas guitarras que abrem Airbag, no início do disco, disfarçam o que logo se ouve: este álbum seria diferente, romperia com a britpop em que já estavam arrumados estes rapazes de Oxford. Se dúvidas houvesse, Paranoid Android, a segunda canção, desfazia-as de uma assentada, com a voz sempre aparentemente frágil e perdida de Thom Yorke a deambular por entre personagens que nos assustam; ou Karma Police, outra canção que entrou num panteão onde o difícil é indicar alguma que fique de fora. This is what you'll get, When you mess with us, canta Thom.

Este disco é, já se percebeu, a porta de embarque para uma viagem ancorada no que melhor se fez da britpop e mais além: mais do que aquele benfica-sporting que se alimentava nas páginas dos jornais britânicos, ao que parece por conta de uma rapariga, foi pelos Blur (e derivados como Gorillaz, The Good, the Bad and the Queen ou Damon Albarn a solo), Pulp e Suede que mais naveguei, e só depois os Oasis. Mas no final do dérbi, regressei sempre aos Radiohead.

Abril 28, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 8

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

U2: The Joshua Tree

No tempo dos telediscos, em que a música também se via, aqueles rapazes divertiram-me em cima de um prédio até serem chamados pela polícia. Já disse que se ganha quando se é o irmão mais novo – e se ouvem coisas que os mais velhos trazem para casa. Foi o caso com os U2: Sunday Bloody Sunday e Bad já eram hinos para mim quando chegou um novo álbum, The Joshua Tree.

É o álbum da América, depois de The Unforgettable Fire, é a descoberta de uma América que os U2 nos apresentaram há 33 anos, quando a 9 de março de 1987 chegou às lojas esta carta de amor pelos Estados Unidos e que nos fez também apaixonar por essa América, de espaços a perder de vista.

É também para muitos o derradeiro disco que vale a pena ouvir dos irlandeses, esquecendo esses muitos que a banda se soube reinventar como poucos em Achtung Baby e Zooropa, o genial díptico berlinense, do início dos 90, e que nunca baixou a guarda, fosse no extraordinário Original Soundtracks 1, com Brian Eno, em Pop ou No Line on the Horizon, ou no modo inventivo como souberam transportar cada um dos álbuns, incluindo os menos conseguidos e mais fustigados pela crítica, para os palcos, como as derradeiras digressões de Songs of Experience e Songs of Innocence o demonstram.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. já nos contaram a sua história em 14 discos originais e muitas outras obras ao vivo ou em participações especiais e deixaram uma marca de génio que tanto moldou o meu gosto musical.

Foi a partir deles – e isto soará a sacrilégio para muitos! – que descobri os universos sonoros de Brian Eno e Daniel Lanois, que me embrenhei mais na América de Bruce Springsteen e Bob Dylan ou na poesia de Leonard Cohen (os irmãos também já tinham ajudado, mas os U2 convenceram-me), que me apaixonei pela voz de Johnny Cash e que me rendi a Lou Reed e a Siouxsie and the Banshees. Foi no deserto que encontrámos o amor.

Abril 27, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 7

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Marcel Cellier apresenta: Le Mystère des Voix Bulgares

Nos álbuns que influenciaram o meu gosto musical constam obrigatoriamente uns quantos de geografias muito diferentes, arrumados sob uma etiqueta tão genérica como surpreendente: músicas do mundo, a world music, que para os anglos-saxónicos inclui também o fado ou a bossa nova. (E estas geografias arrumo-as de outro modo.)

À cabeça há um disco absolutamente extraordinário, que nos chega da Bulgária, foi revelado ao mundo antes da queda da cortina de ferro, por um produtor suíço, Marcel Cellier, e que a britânica 4AD Records (de que falámos no post anterior) resgataria do nicho onde vivia, amplificando para todos estas “vozes que falam com Deus” (nome de um disco de produção portuguesa, sobre os Segredos da Música da Bulgária, registado em 1988).

O título dado à primeira recolha de Cellier impregnou-se de tal modo que Le Mystère des Voix Bulgares se tornou uma marca indelével e única e que, como todas as receitas de sucesso, foi copiada e multiplicada em muitas derivações, umas mais conseguidas que outras, com guerras em tribunal para registo do nome.

Neste caso trago-vos aqui o primeiro volume, como podia trazer ainda o segundo (há ainda mais dois a merecerem o nome e a atenção). Pilentze Pee é o tema de abertura que define o registo: vozes que nos sussurram como logo se elevam, numa dança de sons destes coros femininos que, para mim, se entranharam na forma como a música se foi moldando na minha vida.

(Não é de espantar que estas vozes se encontrem depois em discos de Kate Bush – outro nome incontornável no meu gosto – ou que nos arrepiem numa versão de Chamateia de António Zambujo.)

Nas músicas do mundo, eu viajo do sufista Nusrat Fateh Ali Khan, do Paquistão, às Nouvelles Poliphonies Corses, que Hector Zazou resgatou da Córsega, do transe dos congoleses Konono n.º 1 à sensualidade do Instanbul Oriental Ensemble, dos voos da indo-britânica Sheila Chandra aos ritmos da terra dos Drummers of Burundi, com passagens pelos campos da Irlanda, pelas estepes de tundra da Sibéria, pelas margens do rio Nilo ou pela floresta densa da Amazónia.

Podia juntar aqui o álbum Passion Sources, onde Peter Gabriel revelou a sua inspiração para a banda sonora do filme A Última Tentação de Cristo, ou esse monumental documento etnomusical que é Voices of Forgotten WorldsTraditional Music Of Indigenous People, e tantas outras coletâneas (já vos disse que gosto deste tipo de discos, que nos abrem uma polifonia de descobertas?!), mas optei pelas vozes encantatórias da Bulgária. Há muito mundo para viajar, já se percebeu.

Abril 26, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 6

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Various Artists: Lonely Is An Eyesore

Houve um tempo em que o selo de uma editora era garantia de que se podia ouvir (e comprar) um disco quase cegamente. Pelo menos para mim. Les Disques du Crépuscule, Real World, a marca Made To Measure, da Crammed Discs, eram (são) algumas das labels em que praticamente nem pestanejava na hora de picar um disco. 

Depois havia a 4AD, a editora que Ivo Watts-Russell criou para durar a década de 1980 (mas que, felizmente, apesar de ter perdido a importância desses tempos, mantém a sua atividade), e na qual fui descobrir alguma da melhor música que ainda hoje ouço. Foi aqui que gravaram os Birthday Party, Matt Johnson dos The The, os Pixies ou os Bauhaus, os Xmal Deutschland ou His Name Is Alive…

Apesar de todos estes nomes, de que já ouvia algumas coisas, à 4AD cheguei por causa de um programa de música na TV, o Music Box with Simon Potter, que passava no espaço da Europa TV, na RTP2. 

O tal do Simon dedicou uma emissão a passar os vídeos de uma coletânea (e sempre gostei muito de boas coletâneas) chamada Lonely Is An Eyesore (nome retirado de um verso de uma canção dos Throwing Muses, incluída no álbum), que juntava alguns dos principais nomes da editora: Cocteau Twins, de que já andava a ouvir o genial Victorialand, Dead Can Dance, The Wolfgang Press, Clan of Xymox, Dif Juz, This Mortal Coil, com Acid, Bitter and Sad, ou as já referidas muses de Kristin Hersh e Tanya Donnely.

Tudo somado, apaixonei-me pelos ritmos encantatórios e hipnóticos dos Dead Can Dance, sobretudo em The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990), pelos lirismos que voam de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins, pelas guitarras e vozes de Throwing Muses, e mais ainda pela diversidade misteriosa do coletivo This Mortal Coil, que juntava músicos de bandas da editora, apercebendo-me então que aquela belíssima Song To The Siren que já tinha ouvido, na interpretação de Fraser e Robin Guthrie, era de um dos mais espantosos discos da 4AD (melhor dito, da música em geral): It'll End in Tears.

Tudo somado: thank you, Simon Potter!

Abril 25, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 5

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

José Mário Branco: FMI

Este disco está aqui por culpa do Olímpio. Ele que tratou de nos ensinar a olhar as coisas de modo diferente, quando nos demorávamos em noites longas a ler livros, maliciosos e deliciosos, ou a ouvir discos quase clandestinos (e este era-o, à época), houve uma geração do MCE que lhe deve este FMI, de José Mário Branco, trauteado como senha e contra-senha em tantos outros encontros e contextos. Por causa disso, o meu gosto musical moldou-se também entre a intervenção e a palavra. 

É verdade que já ouvia Zeca Afonso das baladas ao mato, que Sérgio Godinho fazia o nosso salão de festas, que Fausto nos levava rio acima, mas FMI transportou-me também para uma descoberta em profundidade de outras canções de intervenção (Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira…) e do que era a obra de José Mário Branco, incluindo o coletivo do GAC, os trabalhos como produtor-compositor, as obras para cinema e teatro, e mais tarde, já nestas últimas décadas, a viagem pelo fado — de Camané a Kátia Guerreiro. E assim se tecem outros gostos que fui compondo na minha viagem musical.

A visceralidade de José Mário Branco em FMI será recuperada em 1996 com a reedição de Ser Solid(t)ário, que inclui o máxi editado originalmente em 1982, deixando a clandestinidade com que o ouvíamos anos antes. E essa visceralidade estará sempre presente na sua obra original, até Resistir é vencer, de 2004, um extraordinário disco de palavras e sons que nos mostram que a intervenção não se arrumou nos anos da Revolução. E tudo começou com aquele "pedaço" da "vida" de José Mário Branco, "um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro", que o Olímpio nos mostrou.

Abril 23, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 4

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Nick Cave and The Bad Seeds: The Good Son

Foi num filme que o ouvi, quando o rapaz no palco se entrega a The Carny, ainda não conhecíamos esta canção, e pensa para si que só “mais uma canção e acabou, mas não lhes vou falar de uma rapariga, não lhes vou falar”, mas ao microfone diz o contrário: “Vou falar-vos de uma rapariga” – e a banda começa a tocar.

É Nick Cave and The Bad Seeds num palco em Berlim, no filme Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, a tocarem The Carny e From Her To Eternity. E é por causa desta cena que fui à procura deste australiano, que se mostrou ao mundo nos Birthday Party, que há muito vive no Reino Unido.

Descobri Your Funeral… My Trial (1986), fui até From Her To Eternity (o primeiro álbum, de 1984), mas é com The Good Son (1990) que tudo mais fez sentido: é neste disco que inicia uma inflexão, depois da visceralidade dos cinco primeiros discos, para um lirismo hipnotizante que o foi acompanhando, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos arroubos carnais.

Podia nomear ainda Murder Ballads (1996) ou The Boatman's Call (1997), outros marcos na construção do meu gosto pessoal, até às três últimas obras-primas (Push The Sky Away, Skeleton Tree e Ghosteen), mas foi com The Good Son que percebi que Nick Cave era verdadeiramente um filho pródigo.

Abril 22, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 3

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Virginia Astley: Hope In a Darkened Heart

Não me recordo o que me fez comprar este que foi o primeiro disco que comprei com dinheiro amealhado por mim. Talvez uma crítica lida num jornal, talvez a breve audição na rádio ou mesmo na loja de Some Small Hope, a canção que Virginia Astley canta com David Sylvian, envoltos em teclas que nos soam a sinos. 

Sei que ouvi Hope In a Darkened Heart intensamente e o vinil revela hoje as marcas desses tempos de escuta extasiada — e que este álbum me levaria à descoberta da escassa discografia da britânica, sobretudo dessa obra-prima que é From Gardens Where We Feel Secure. 

O dueto com Sylvian transportou-me para outra descoberta absolutamente fundamental que é o universo do antigo frontman dos Japan e que influenciaria em absoluto o meu gosto musical. Por isso, o superlativo Secrets of the Beehive é um dos discos da minha vida, sempre ouvido com renovado prazer, mas também por isso me deixo sempre fascinar pelas sonoridades e texturas mais ou menos experimentais de quem arrisca uma Pop Song que é uma “antipopsong” ou nos conduz pelas Forbidden Colors com Ryuichi Sakamoto — e o japonês, que esteve na produção do disco de Virginia Astley, é também ele uma descoberta desta época. Santíssima trindade!

Abril 21, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 2

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Madredeus: Os Dias da MadreDeus

Um texto no Blitz (quando ainda era um jornal semanário em papel) de Miguel Esteves Cardoso (quando escrever MEC era quanto baste para o apresentar), provavelmente lido algures em 1987, introduziu-me a um mundo mágico. Falava das gravações e ensaios de um grupo de músicos numa antiga igreja em Xabregas, em Lisboa, acompanhados de uma voz que fazia sonhar (não sei se eram estes os termos, mas foi isto que me ficou gravado na memória) – e gostei do grupo só pelas palavras do MEC.

Para alguém que vivia numa cidade pequena, com duas discotecas (quando as lojas de discos se chamavam assim), e um acesso curto na carteira para discos e imprensa, a prenda daquele Natal foi um sonho: o LP duplo de Os Dias da MadreDeus (quando o grupo ainda não se apresentava como Madredeus, e me fez insistir naquele nome longo e bonito durante muito tempo) confirmou todas as minhas expectativas, da voz que nos fazia sonhar, de instrumentos impregnados de beleza, de músicas tão ingénuas quanto fantásticas. Meses depois, confirmaria tudo isto num concerto único, daqueles que nos marcam para a vida, no Teatro Aveirense, a meia casa, ainda longe do reconhecimento que muitos dariam aos Madredeus e onde esgotaram as canções ensaiadas nos encores e cantaram O Brasil a pedido da plateia (e eu fui um deles, claro).

A descoberta deste disco enquadrou-se nas várias descobertas que tive então, na música portuguesa, incluindo a Sétima Legião, de Mar D'Outubro, que me levou mais para trás ao genial A Um Deus Desconhecido, e que porventura também podiam estar no lugar deste Os Dias da MadreDeus – não fosse um certo texto de jornal me ter transportado para aquela antiga igreja às voltas com uma coisa velha.

Abril 20, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 1

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Genesis: The Lamb Lies Down On Broadway

Quem tem irmãos mais velhos, com diferenças significativas de anos e em idades que definem o gosto, é-se necessariamente influenciado por esse seu gosto. É o caso. Ouvi até à exaustão os Genesis, sem grande distinção entre as fações Peter Gabriel vs Phil Collins, mas é este duplo LP (que marcou o fim de Gabriel no grupo britânico) que sempre mais e melhor me ajudou a definir o gosto (insista-se na palavra) por um certo rock operático, progressivo e conceptual.

Nos anos 80 e 90, os Genesis foram muito maltratados, mas hoje, apesar dos amores e ódios que ainda provocam, têm um lugar reconhecido na música — e este álbum é o seu melhor cartão-de-visita. E por causa desta influência fraternal, cresci a ouvir tantos e tantos outros prog rock, dos Pink Floyd aos Jethro Tull, dos Tantra a José Cid, sim, ele, em 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.