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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 18, 2023

E se celebrássemos o Natal como neste funeral?

Miguel Marujo

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As imagens que nos chegaram da Igreja de St. Mary of the Rosary, em Nenagh, Irlanda, deste dia 8 de dezembro, merecem que as guardemos: há aquelas de Nick Cave sentado ao piano, com a companhia de outros músicos, a cantar A Rainy Night in Soho, há um outro momento em que Glen Hansard e Lisa O’Neill interpretam Fairytale of New York, entre sorrisos e danças na plateia. E palmas, muitas palmas, num e noutro momento.

 

 

O funeral de Shane MacGowan, que morreu no dia 30 de novembro, foi uma festa, emotiva, como se ouve no piano e na voz de Nick Cave, e uma verdadeira celebração da vida, quando se vê a alegria de quem chora um dos seus na mais bela canção de Natal que é Fairytale of New York. Este funeral do vocalista da banda irlandesa The Pogues, que tinha nascido no dia de Natal de 1957, só podia ser assim: a vida celebrada pela música e pela dança. Um bonito tempo de Advento.

 

 

Já sabemos como é: este tempo que antecipa o Natal leva-nos a uma correria por entre as luzes, compras, jantares, fogareiros de castanhas, demasiados carros e a inevitável chuva. E em cada esquina, cada canto, cada loja, tropeçamos numa torrente de canções de Natal, debitadas muitas vezes em decibéis desproporcionados.

O mais difícil no Advento é conseguir escapar a All I Want For Christmas is You, a canção de Mariah Carey que nos apanha desprevenidos na rádio ou no shopping – e há concursos pela net a ver quem está mais tempo sem ouvir este tema de 1994. No meu concurso pessoal junto outra canção, já de 1984, Last Christmas, dos Wham!, e aqueles versos iniciais que me fazem sair do sítio onde estou: Last Christmas I gave you my heart/ But the very next day you gave it away/ This year, to save me from tears

Desculpem-me os fãs, mas para nos safarmos de lágrimas, este ano, podemos mesmo recuperar o exemplo do funeral de MacGowan e alinhar em escolhas menos óbvias para uma playlist que fuja a Mariah ou aos Wham!.

 

 

Podemos começar por recuperar os Pogues e dançar com Fairytale of New York. E para ouvirmos os clássicos de Natal, como Silent Night, Amazing Grace, o Holy Night, Let it Snow ou Jingle Bells, e tantos outros, o melhor cartão-de-visita é a irreverência de Sufjan Stevens, que em tempos publicou duas caixas com cinco discos, cada uma, e cerca de 100 canções, nas quais o americano ofereceu ao mundo o que já tinha dado aos seus familiares e amigos. Cansado de prendas sem sentido, fez o que sabe melhor: gravou temas de Natal em produções caseiras com que presenteou os seus e em 2006 e 2012 reuniu os discos para quem quisesse ouvir (é possível fazê-lo nos serviços de streaming). Como escreveu então a BBC, Sufjan Stevens tornou o Natal ainda melhor, entre polifonias e sussurros, no meio de explosões de alegria ou de um tempo melancólico, em que o tradicional encontra a mais estranha das excentricidades, como definiu um crítico.

Também o Vince Guaraldi Trio pegou nos clássicos e tocou-os como sabe tão bem em A Charlie Brown Christmas (1965). Sem excentricidades, mas também sem reverências, os Peanuts são conduzidos pelos ritmos do jazz num álbum que é uma pérola de Natal, recuperada em vinil nos anos mais recentes.

 

 

Regressando à pop, procuremos outra pérola: A Very Special Christmas (de 1987) propõe-nos sonoridades que vão do rock ao rap, trazendo-nos leituras mais ou menos reverenciais, como Santa Baby, um fascinante exercício pop de Madonna, os Run D.M.C. a dispararem Christmas in Hollis, os U2 a despacharem Christmas (Baby Please Come Home) ou Bruce Springsteen e a sua E Street Band a desejarem Merry Christmas Baby.

Se a música salva, o Natal não tem de ser um funeral de má música. Shane deixou-nos um belo testemunho, com Fairytale of New York, e com a alegria das suas cerimónias fúnebres.

 

[artigo originalmente publicado no Ponto SJ, em 15 de dezembro de 2023]

Dezembro 04, 2023

Há bar aberto nos céus da música

Miguel Marujo

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Dois nomes maiores irlandeses da música deixaram-nos em 2023. Depois da morte de Sinéad O’Connor, em julho, agora foi Shane MacGowan, o poeta de dentes podres e de voz inconfundível que, entre copos de whiskey, cerveja preta e muitos cigarros, compôs com a sua banda The Pogues belas canções rock de travo folk irlandês, como Dirty Old Town, Rainy Night in Soho, The Band Played Waltzing Matilda, If I Should Fall from Grace with God, ou a mais bela canção de Natal, Fairytale of New York, num dueto com Kirsty MacColl. A lista peca por muito incompleta.

Nascido a 25 de dezembro de 1957, Shane MacGowan morreu esta quinta-feira, dia 30 de novembro, às 3h30, com 65 anos, depois de um longo período doente. Foi a mulher Victoria que o anunciou nas redes sociais. “Shane será sempre a luz que tenho diante de mim e a medida dos meus sonhos e o amor da minha vida… Sinto-me abençoada, para lá das palavras, por tê-lo conhecido e o ter amado e por ter sido tão infinita e incondicionalmente amada por ele”, escreveu.

Os Pogues de Shane MacGowan foram um punk feito poema de amor, inspirando-se em influências maiores nos inícios dos anos 80, dos Clash a Tom Waits, ou no ativismo político e social de um Billy Bragg, e inscrevendo-se numa linhagem de músicos que souberam revitalizar a tradição musical irlandesa, como Van Morrison, The Dubliners — com quem também gravaram juntos Irish Rover ou Whiskey in the jar, entre outros temas — ou The Chieftains. Mas Shane imprimiu nos seus poemas uma dose saudável de literatura, mitologia e Bíblia, como descreveu Laura Snapes, no jornal The Guardian, sem nunca abdicar de uma forte leitura política e social.

Remexeram nas raízes, puxaram da raiva e da emoção e deram de beber a um público acomodado na pop, explicava-se Shane, à New Musical Express, em 1983, citado no artigo do Guardian. Daí uma sonoridade de banjos e harmónicas, gaitas de foles e acordeões, que pedia sempre festa e muitos copos, com piscadelas de olho a outras geografias, como em Turkish Song of the Damned ou no delírio acelerado de Fiesta.

Dos sete discos de originais da banda (os dois últimos já sem Shane), Rum, Sodomy and The Lash é a obra essencial de uma genial discografia, que se foi afundando na adição cada vez mais descontrolada de Shane no álcool e nas drogas. Os relatos de concertos em Lisboa e Porto, de finais dos 1980, demoram-se na descrição de equilíbrios improváveis em palco e de um anel desaparecido.

Despedido da sua banda, no início dos 1990, MacGowan ensaiou regressos com os The Popes, sem a lucidez e o sucesso dos Pogues, ou em duetos e participações especiais. Em 1992, Nick Cave estendeu-lhe a mão para uma versão deliciosa de What a Wonderful World, num single acompanhado de duas versões de Lucy e Rainy Night in Soho. E em 1994, Sinéad juntou-se a Shane e aos Popes para cantarem Haunted. “I want to be haunted by the ghost/ of your precious love”, diziam um ao outro. Assombrados pelo fantasma de um amor precioso e maior — a música que fica, neste caso.

 

P.S. — Depois de ter escrito este texto, tropecei numa carta em que, interpelado por um leitor dos seus Red Hand Files, Nick Cave evoca Sinéad e Shane: "Sinéad disse uma vez sobre Shane: ‘Ele é um anjo. Um anjo de verdade’. Se é esse o caso ou não, quem é que pode dizer? Mas Shane foi abençoado com um espírito incomum de bondade e um profundo sentido do que é verdade, que foi estranhamente amplificado na sua fragilidade, na sua humanidade. Podemos dizer dele com toda a certeza: ‘ele era amado na terra’, e de Sinéad também — ambos verdadeiramente amados e de quem temos muitas saudades."

 

[artigo originalmente publicado no 7Margens, a 1 de dezembro de 2023; foto de Andrew Catlin, publicada no site oficial de Shane]

Julho 12, 2023

Milan Kundera, a valsa do adeus

Miguel Marujo

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Milan Kundera foi a minha companhia na viagem de comboio por uma certa Europa em 1988, de Aveiro a Oostmalle. Aos 16 anos, tinha sede de ler A Insustentável Leveza do Ser, antes do filme com que me apaixonei por Juliette Binoche. O livro ficou-me, gravado também na memória pelas imagens de Philip Kaufman, e depois percorri as estantes dos irmãos mais velhos em busca de A Brincadeira, A Imortalidade, o Livro do Riso e do Esquecimento ou a Valsa do Adeus. Houve outros, e também houve aquele tempo em que Kundera passou a ser alguém que devorei na juventude. Há autores que nos fazem viajar. Até na sua morte. Esta noite, o céu apresentou-se assim. E eu terei de regressar aos seus livros.

 

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Abril 14, 2023

O silêncio caiu nas teclas de Ryuichi Sakamoto

Miguel Marujo

 

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(1952-2023)

Na hora da morte, as palavras tornam-se acessórias: duas datas num fundo de tonalidades cinzentas, 17 de janeiro de 1952 – 28 de março de 2023. E uma imagem que sobressai depois, um piano carcomido pelo tempo, deixado ao abandono, as teclas em sobressalto, gastas, velhas, partidas. E sem som algum a acompanhar – o silêncio é música, também na hora da morte.

Ryuichi Sakamoto morreu na terça-feira, dia 28 de março, soube-se no domingo, 2 de abril, e o anúncio foi feito daquele modo simples nas suas páginas das redes sociais. Já se esperava: em 11 de dezembro, o compositor e músico japonês tinha dado um concerto para 30 países em streaming, antecipando a sua última prestação “ao vivo” e um disco, anunciado para 17 de janeiro, data do seu aniversário. A doença minava-o.

Nesse dia, foi divulgado 12, o nome do que é afinal o seu testamento, um novo disco de 12 canções, uma obra de quem sabia que a sua vida vivia o ocaso mas continuava a espantar-se e a espantar-nos com a beleza das coisas. 

O disco pede recato, paciência e silêncio (como nesta hora do ocaso), numa “impressionante tapeçaria de teclados, elétricos e acústicos, misturando [música] ambiental e clássica”, “um soberbo ensaio introspetivo”, no qual Ryuichi “examina a morte”, como definiu o crítico da Qobuz Magazine. O silêncio sempre a cair sobre este disco.

Este é um registo que mora bem mais próximo do que se espera da sua obra para cinema ou dos registos pop – da Yellow Magic Orchestra a discos como Neo Geo ou Beauty. Sakamoto é, para muitos, o piano e a composição de Feliz Natal, Mr. Lawrence, com David Sylvian a cantar Forbidden Colours, uma das mais belas pérolas da pop, mas também o compositor de parte da banda sonora de O Último Imperador e das composições de Um Chá no Deserto/The Sheltering Sky, dois filmes de Bernardo Bertolucci.

 

Entre discos em nome próprio e bandas sonoras, o japonês também colaborou com muitos outros músicos, instrumentistas e compositores, como o músico alemão Alva Noto, com quem partilhou vários discos (notáveis), David Sylvian, com quem gravou um conjunto de canções extraordinárias (e já falámos de Forbidden Colours), Virginia Astley, que reuniria Sylvian e Sakamoto no belo disco Hope in a Darkened Heart, ou Jaques e Paula Morelenbaum, com quem partilhou Casa, um projeto com música de Tom Jobim (e Jaques também se junta a Sakamoto em 1996 e Three). 

Muitos outros passaram pelo radar e pelos discos do japonês, como Robert Wyatt, Youssou N’Dour ou os Talking Heads – e todas estas referências são curtas. Ao Público, em 2006, admitia: “Às vezes as colaborações são mais inspiradoras. Trabalhar com outros coloca-nos em confronto com aspetos de nós próprios que muitas vezes estão ocultos. É mais surpreendente.” Afinal, “compor para filmes, encetar colaborações ou criar álbuns a solo é o mesmo”.

O francês Claude Debussy era a sua influência, o seu “herói”, e disse-o até ao fim. “A música asiática influenciou fortemente Debussy, e Debussy influenciou-me fortemente. Assim, a música dá a volta ao mundo e fecha o círculo”, explicou-se em 2010. E com esta ideia o próprio foi definindo a sua música. Ao ouvir-se Ryuichi, nota-se que há uma forte curiosidade no seu percurso, há muita música do mundo, de vários mundos, há muitas vozes de tantas partes do globo, e o que se ouve é, na sua longa discografia, uma música que soube escutar e absorver sonoridades e foi ganhando um corpo próprio e uma voz única, fosse a solo, em orquestras, ensembles ou colaborações a dois.

Na mesma entrevista ao Público, questionado sobre se o excesso de música no espaço público se tinha tornado no seu principal inimigo, dizia que era “possível”. E acrescentava: “No nosso estilo de vida, a música é mais um produto de consumo. O excesso de música faz com que estabeleçamos com ela uma relação de quase indiferença. Pelo excesso, nivelamo-la de igual forma – a boa e a medíocre. Precisamos de silêncio, como na peça [4’33”] que John Cage compôs nos anos 50. Não sei se estamos próximos desse espírito, mas há sombras de Cage a atravessar a nossa música. Temos que reaprender a ouvir. Saber estar no silêncio, é o princípio.”

Talvez tenha sido esta ideia, de reaprender a ouvir, que levou Sakamoto a abordar o chef de um restaurante japonês em Nova Iorque, onde ia com muita frequência quando vivia na cidade americana, para lhe sugerir que ele próprio faria a playlist (sem cobrar por isso) do restaurante em Murray Hill, por não suportar o que ouvia durante as refeições. Ben Ratliff contou a história nas páginas do New York Times, em 2018, e escrevia que não era tanto o facto de a música estar alta que incomodava Ryuichi, mas que a mesma “era irrefletida”.

Na descrição do jornalista, não havia temas de Sakamoto. Havia solistas de piano, “de várias tradições indistintas; algumas melodias que poderiam ter sido composições de bandas sonoras de filmes; um pouco de improvisação”. E acrescentava: “Onde havia voz, geralmente não era em inglês. Reconheci uma faixa do disco Native Dancer de Wayne Shorter, com Milton Nascimento, e uma pianista que soava como Mary Lou Williams, embora não tivesse a certeza. Não era uma música que estabelecesse uma marca, ou do tipo que dá vontade de gastar dinheiro; representava o profundo conhecimento, a sensibilidade e as idiossincrasias de um cliente dedicado. Eu senti-me espantado e acolhido com sensibilidade. Senti-me em êxtase.”

Sakamoto preferia o silêncio, ou fugir dos sítios onde não gostava da música que ouvia. No seu caso, dois cancros na última década – um primeiro, na garganta, de que recuperou, e um segundo no intestino – foram prolongando os seus tempos de silêncio. O disco que ouvimos em janeiro (e terá edição física nas próximas semanas) nasceu de quase um acaso, um esforço mais do compositor e músico, com os 12 temas a receberem o nome dos dias em que foram gravados.

“Depois de finalmente ‘voltar para casa’, para o meu novo alojamento temporário após uma grande operação, dei por mim a pegar no sintetizador. Não tinha intenção de compor algo, só queria ser inundado de som”, confessou. E inundou-nos de vida. Arigatō, Ryuichi. Sayōnara.

 

 

Janeiro 12, 2023

Perder, ganhar, viver

Miguel Marujo

Morreu-nos Pelé, e por causa dele também me recordei de Sócrates, o doutor que espalhava magia nos relvados, e da tal tarde quente do verão de 1982, e por entre pesquisas por aqui nesta casa, que chegará aos 20 anos este ano, redescobri um texto espantoso de Drummond de Andrade, que o Ivan Nunes tinha publicado na sua Praia (por recomendação de Pedro Lomba). E resolvi resgatá-lo a um blogue já inativo, para este onde ainda se publicam coisas, daquelas que me interessam. Como aquele jogo de futebol, aqui tão bem contado.

 

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Perder, ganhar, viver

por Carlos Drummond de Andrade

Vi gente chorando na rua, quando o juiz apitou o final do jogo perdido; vi homens e mulheres pisando com ódio os plásticos verde-amarelos que até minutos antes eram sagrados; vi bêbados inconsoláveis que já não sabiam por que não achavam consolo na bebida; vi rapazes e moças festejando a derrota para não deixarem de festejar qualquer coisa, pois seus corações estavam programados para a alegria; vi o técnico incansável e teimoso da Seleção xingado de bandido e queimado vivo sob a aparência de um boneco, enquanto o jogador que errara muitas vezes ao chutar em gol era declarado o último dos traidores da Pátria; vi a notícia do suicida do Ceará e dos mortos do coração por motivo do fracasso esportivo; vi a dor dissolvida em uísque escocês da classe média alta e o surdo clamor de desespero dos pequeninos, pela mesma causa; vi o garotão mudar o gênero das palavras, acusando a mina de pé-fria; vi a decepção controlada do Presidente, que se preparava, como torcedor número um do país, para viver o seu grande momento de euforia pessoal e nacional, depois de curtir tantas desilusões de governo; vi os candidatos do partido da situação aturdidos por um malogro que lhes roubava um trunfo poderoso para a campanha eleitoral; vi as oposições divididas, unificadas na mesma perplexidade diante da catástrofe que levará talvez o povo a se desencantar de tudo, inclusive das eleições; vi a aflição dos produtores e vendedores de bandeirinhas, flâmulas e símbolos diversos do esperado e exigido título de campeões do mundo pela quarta vez, e já agora destinados à ironia do lixo; vi a tristeza dos varredores da limpeza pública e dos faxineiros de edifícios, removendo os destroços da esperança; vi tanta coisa, senti tanta coisa nas almas...
Chego à conclusão de que a derrota, para a qual nunca estamos preparados, de tanto não a desejarmos nem a admitirmos previamente, é afinal instrumento de renovação da vida. Tanto quanto a vitória, estabelece o jogo dialético que constitui o próprio modo de estar no mundo. Se uma sucessão de derrotas é arrasadora, também a sucessão constante de vitórias traz consigo o germe de apodrecimento das vontades, a languidez dos estados pós-voluptuosos, que inutiliza o indivíduo e a comunidade atuantes. Perder implica remoção de detritos: começar de novo.
Certamente, fizemos tudo para ganhar esta caprichosa Copa do Mundo. Mas será suficiente fazer tudo, e exigir da sorte um resultado infalível? Não é mais sensato atribuir ao acaso, ao imponderável, até mesmo ao absurdo, um poder de transformação das coisas, capaz de anular os cálculos mais científicos? Se a Seleção fosse à Espanha, terra de castelos míticos, apenas para pegar o caneco e trazê-lo na mala, como propriedade exclusiva e inalienável do Brasil, que mérito haveria nisso? Na realidade, nós fomos lá pelo gosto do incerto, do difícil, da fantasia e do risco, e não para recolher um objeto roubado. A verdade é que não voltamos de mãos vazias porque não trouxemos a taça. Trouxemos alguma coisa boa e palpável, conquista do espírito de competição. Suplantamos quatro seleções igualmente ambiciosas e perdemos para a quinta. A Itália não tinha obrigação de perder para o nosso gênio futebolístico. Em peleja de igual para igual, a sorte não nos contemplou. Paciência, não vamos transformar em desastre nacional o que foi apenas uma experiência, como tantas outras, da volubilidade das coisas.
Perdendo, após o emocionalismo das lágrimas, readquirimos (ou adquirimos, na maioria das cabeças) o senso da moderação, do real contraditório, mas rico de possibilidades, a verdadeira dimensão da vida. Não somos invencíveis. Também não somos uns pobres diabos que jamais atingirão a grandeza, este valor tão relativo, com tendência a evaporar-se.
Eu gostaria de passar a mão na cabeça de Telê Santana e de seus jogadores, reservas e reservas de reservas, como Roberto Dinamite, o viajante não utilizado, e dizer-lhes, com esse gesto, o que em palavras seria enfático e meio bobo. Mas o gesto vale por tudo, e bem o compreendemos em sua doçura solidária. Ora, o Telê! Ora, os atletas! Ora, a sorte! A Copa do Mundo de 82 acabou para nós, mas o mundo não acabou. Nem o Brasil, com suas dores e bens. E há um lindo sol lá fora, o sol de nós todos.
E agora, amigos torcedores, que tal a gente começar a trabalhar, que o ano já está na segunda metade?



[Crónica publicada no Jornal do Brasil na sequência da derrota futebolística mais dolorosa da vida de milhões de pessoas, incluindo a minha. Esse fatídico Brasil-Itália de 5 de Julho de 1982, em Barcelona, pode ser hoje integralmente visto aquiPublico este texto por sugestão do Pedro Lomba, que mo mostrou.]

— foto: Menino chorando retratou o sentimento dos brasileiros naquele instante, de Reginaldo Manente.

Dezembro 31, 2022

Bento XVI, 1927-2022

Miguel Marujo

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Foi um homem de contradições, ortodoxo cardeal que abriu caminhos inesperados como papa, tendo um gesto raro ao renunciar ao pontificado, sem forças para enfrentar o mais grave escândalo de uma Igreja que precisa de ser renovada. Foi um homem usado por ultraconservadores, quando já retirado, como papa de arremesso contra o magistério de Francisco, o homem que veio do fim do mundo para abanar os alicerces da Igreja. Ratzinger morre e deixa um legado, que só o tempo ajudará a avaliar na sua totalidade.

[texto originalmente publicado na minha página do Facebook; Bento XVI fotografado no jardim do mosteiro onde viveu retirado no Vaticano © Fondazione Vaticana Joseph Ratzinger-Benedetto XVI]

Dezembro 30, 2022

O Rei. Num parágrafo e cinco capas

Miguel Marujo

Morreu Pelé.

"Examino a ficha de Pelé e tomo um susto: dezassete anos! Há certas idades que são aberrantes, inverosímeis. Uma delas é a de Pelé. Eu, com mais de quarenta, custo a crer que alguém possa ter dezassete anos, jamais. Pois bem: verdadeiro garoto, o meu personagem anda em campo com uma dessas autoridades irresistíveis e fatais. Dir-se-ia um rei, não sei se Lear, se imperador Jones, se etíope. Racialmente perfeito, do seu peito parecem pender mantos invisíveis. Em suma: ponham-no em qualquer rancho e a sua majestade dinástica há de ofuscar toda a corte em derredor. O que nós chamamos de realeza é, acima de tudo, um estado de alma. E Pelé leva sobre os demais jogadores uma vantagem considerável: — a de se sentir rei, da cabeça aos pés."  (Nélson Rodrigues, citado por Rui Frias, no DN)

 

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Dezembro 28, 2022

Linda de Suza. E, entretanto, crescemos

Miguel Marujo

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Linda de Suza, 1948-2022

 

Em 1995, numa viagem pela Costa do Marfim, fiquei alojado numa instituição que acolhia crianças e jovens deficientes abandonados pelas famílias. Estávamos em Bouaké, bem no interior do país. Ao pequeno-almoço, no primeiro contacto com os que lá moravam, aquela mulher cega, que nunca tinha saído dali (era a única "deficiente" adulta, deixada na rua quando bebé, por ter nascido cega), de riso expressivo e conversa desenvolta, soltou uma gargalhada quando ouviu de onde eu vinha. "Ah, Portugal! Lindá de Suzá! Ouço muito na rádio" — e começou a cantarolar uma canção da portuguesa da "valise en carton". Há malas de cartão que nos deixam marcas, mesmo que na nossa adolescência fossem apenas um nome para piadas fáceis. Entretanto, crescemos.

[texto originalmente publicado na minha página do Facebook]

Dezembro 08, 2022

45 anos

Miguel Marujo

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O Avô Albertino deixou-nos a sua nogueira e, mais do que nozes, a árvore traz-nos memórias — e estas são difusas, ténues: não me lembro da voz, mas dos olhos azuis água, do cabelo branco e de um bigode tão clássico como fora de uso, dos rebuçados que pareciam brotar dos bolsos para os seis netos, do chapéu sempre impecável sobre o cabelo branco. Nasceu na monarquia, morreu na democracia, viveu sobretudo sob a ditadura. O Avô Albertino era homem com ar sério, mas também seria um homem triste, que a esta distância não lhe sei decifrar os olhos azuis água nem os sentimentos, um pai que perdeu dois filhos, num tempo em que essas notícias eram comuns, e ficou viúvo cedo — e os dois tão soturnos no retrato. Aguentou-se no ofício de mestre-de-obras e carpinteiro, e aquela oficina cheia de ferramentas eram uma delícia para olhos miúdos. Há 45 anos, feriado da Imaculada, ouviam-se os sinos da capela da Senhora da Conceição, talvez três badaladas, há sempre um código para o número de badaladas que os da terra sabem, e a Teresa exclamou “morreu alguém”, era o Avô, e na confusão desse dia só me lembro do choro da minha Mãe. E nunca mais tivemos rebuçados vindos daqueles bolsos.

Setembro 06, 2022

"Lá em casa ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má"

Miguel Marujo

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Esta entrevista nasceu com um pretexto: um novo livro de crónicas do DN, que ia ser publicado à época, em 2016. Na altura, o mote era só o livro, mas a direção do DN pediu-me, depois da primeira conversa, que alargasse o âmbito e estendesse para um retrato de vida. Assim foi: a dois tempos, a conversa fluiu como se de um só momento se tratasse. E o registo de uma manhã e de uma tarde sairia em junho desse ano, percorrendo o seu percurso político, cívico e académico, recordando quando esteve detido no Aljube (um episódio que o próprio desvalorizou, por saber do que outros tinham sofrido às mãos da ditadura naquela cadeia), onde conheceu Mário Soares e que ia jantar nessa noite a sua casa, de quando foi ministro do Ultramar no início dos anos 1960, do ressentimento que nunca teve pelo exílio no Brasil, ou do caminho democrático do país. Pelo meio, um homem de cultura e com um saber que nunca soa presunçoso, que questiona, que interpela, mesmo que não concordemos. E para lá da conversa publicada, os longos momentos de diálogo que não foram para a entrevista - e que navegaram à volta do ISCSP, dos filhos, da Academia das Ciências e da sua bela bliblioteca... Adriano Moreira faz hoje 100 anos. 

 

No seu gabinete de todas as manhãs, na Academia das Ciências de Lisboa, Adriano Moreira recebeu o DN, numa conversa que se prolongou a dois tempos, para desfiar histórias e nomes, numa memória que raramente se atrapalhou. O professor universitário jubilado tem um livro novo que reúne as crónicas do DN e outro na calha. Da janela do gabinete vê-se o Passos Manuel, onde fez o liceu e para onde ia a pé desde Campolide. Foi por onde começou a entrevista...

Veio "criança de colo para a cidade grande", mas ao mesmo tempo sentia-se um transmontano a viver em Campolide. Esses dois mundos completavam-se, ou havia grandes diferenças?

Nesse tempo, Campolide era uma espécie de aldeia anexa a Lisboa, eu por exemplo andei neste liceu e eu vinha a pé de Campolide até aqui [e aponta pela janela].

Com um grupo de colegas.

Sim, eram dois. Depois voltávamos ao fim das aulas, eram quilómetros de caminho. Era um meio que também tinha alguma coisa de aldeia. Acontece que os transmontanos eram, e são, muito solidários. Todos os amigos do meu pai e da minha mãe eram transmontanos que estavam em Lisboa, e eu sempre fui passar as férias grandes com o meu avô para a aldeia. Eram três meses, três meses de liberdade, isso fez de mim muito mais transmontano do que lisboeta - não só a gente com quem nos dávamos. Aqui tem como é que eu fiquei transmontano. Uma coisa curiosa: quando tive de ter funções públicas, a qualquer um dos sítios onde eu chegava havia logo transmontanos, vinham logo ter comigo.

Ainda vai a Grijó de Vale do Infante, a aldeia onde nasceu?

Vou. Sabe o que significa Grijó? Quer dizer igrejinha, por isso há vários em Portugal. Eu vou lá de vez em quando por várias razões - primeiro porque estão lá enterrados o meu pai e a minha mãe. Eu tenho sempre um afeto permanente pelos meus pais. Um pai que é filho de um empregado de um moinho, vem para Lisboa e faz serviço militar e, como era costume da migração lá de cima, eles tinham oportunidade na polícia, na Guarda Republicana e nos elétricos. O meu pai acabou a vida como subchefe da polícia do Porto de Lisboa. Este homem, com estas dificuldades, resolveu que tinha um filho e uma filha e que os dois tinham de ter um curso superior - imagina o sacrifício? A minha irmã é médica e eu sou esta pessoa, licenciado em Direito e sou doutor em não sei quantas coisas.

Falava da ligação com o seu pai.

Tenho sempre uma fotografia do meu pai comigo [puxa da carteira para a mostrar] e no meu escritório. Em casa também, na sala de estar, um retrato que um amigo meu, que é pintor, pintou e fez-me uma surpresa.

A sua mãe?

A minha mãe também era da aldeia, ficava em casa mas fazia trabalhos de costureira. Aquela gente era especial porque o pai da minha mãe já era assim uma pessoa que tinha estado no Brasil, dois anos (teve uma zaragata com a administração pública em Macedo de Cavaleiros e depois teve de emigrar). Depois voltou para a aldeia. Era um homem muito lido, recebia jornais, como O Século, que lia todos os dias num banco de pedra.

É esse avô de quem diz que só por o ter conhecido valeu a pena já ter vivido?

É. Era um homem extraordinário, sensato, muito lúcido e muito inteligente, aliás, a minha mãe ficou com a inteligência dele. A vida na aldeia era terrível, ele teve oito filhos e enterrou cinco com tuberculose, mas nunca o ouvi queixar-se. Era rijo, com carácter, nada de se queixar. É uma coisa simples. Eu tive uma vida muito simples, fiz o curso secundário a ir a pé, depois fiz o curso universitário a ir a pé para o Campo de Santana e a voltar para Campolide sempre.

O seu mundo, na juventude, é também o mundo da Segunda Guerra Mundial. Aquilo que chegava da Europa até cá ajuda-o a moldar-se politicamente?

Eu devo dizer que, na altura, a política não me interessava.

Mas junta-se em 1945 a uma lista do MUD (Movimento de Unidade Democrática, de oposição).

Não. Isso foi porque no escritório onde estava a fazer o estágio toda a gente assinou essa lista - e eu também. Eram eleições livres e eram o que pediam. Eu formei-me com 21 anos e estava naquele escritório e toda a gente assinou.

Não é a Segunda Guerra Mundial que o muda politicamente?

Eu entrei na Faculdade de Direito com 16 anos. A grande inquietação que nós tínhamos eram as notícias sobre o avanço das tropas alemãs que já estavam nos Pirenéus, e a invasão da península era uma coisa possível. O sentimento da população em geral era contra os alemães. Não é que o povo soubesse o que era o nacional-socialismo, mas o homem estava a destruir a Europa, isso era bastante para ter medo e até a nível moral ser contra. Como eu tive toda a minha juventude com necessidade e esforço físico, a política não me interessava realmente. Só muito tardiamente é que comecei a interessar-me, sobretudo quando enveredei pela vida universitária. Houve duas coisas - a que eu chamo as minhas quedas no mundo - que me levaram a interessar a sério pelas coisas: fui convidado para ser professor da Escola Superior Colonial. E [o ministro do Ultramar] Sarmento Rodrigues pediu-me para estudar o problema prisional do Ultramar. Fui a todas as colónias de África e escrevi um livro, que foi a minha tese de concurso, sobre O Problema Prisional do Ultramar. Ganhou um prémio da Academia das Ciências, que nesse tempo era nem mais nem menos do que 80 contos, e dei-o todo à minha mãe para reconstruir a capela da aldeia.

A pedido da sua mãe?

Não, ela não pediu, não foi preciso, eu sabia da capela, foi um gosto muito grande para mim, a minha mãe era muito crente e vi que era uma coisa que poderia fazer, de maneira que, com esse prémio, paguei.

Voltando à tese...

Eu fiz isso e inspirou a "reforma Sarmento Rodrigues" no regime prisional. Ainda hoje acho que a reforma foi boa. A minha inspiração principal veio de um médico que havia no Congo, que era um homem que além de médico era teólogo e músico e resolveu adaptar o hospital à cultura nativa. O que interessava eram as populações nativas, eu disse que só podia haver campos de trabalho para que tivessem uma atividade em que fizessem a sua agricultura e com bom comportamento podia significar juntar a família. Comecei a interessar-me por aquilo e digo que foi a minha primeira queda do mundo porque conhecia o Direito, era o que eu ensinava, mas vi que não era o Direito que estava em vigor. Depois vem o problema de Portugal entrar nas Nações Unidas: o chefe da delegação foi o Dr. Paulo Cunha, que era um grande professor, tocava violino, era alegre, e foi-me buscar à Escola [Superior Colonial]. Fui com ele, era gente muito nova e todos de grande categoria, como Franco Nogueira, ainda jovem conselheiro.

Estamos em 1957.

Por aí. É a minha segunda queda no mundo. Eu sabia muito bem o que era a Carta das Nações Unidas e a Declaração de Direitos Humanos, tudo do Direito, mais uma vez, feitas por ocidentais, mas foi a primeira vez na história da humanidade que ouvimos representantes de áreas culturais diferentes, que tinham sido colonizados, a falar ao mundo em função dos seus valores. O Raul Ventura, que era o ministro que se seguiu a Sarmento, organizou um centro de estudos do Ultramar e eu é que fiquei diretor. Fizemos uma data de missões de investigação e é aí que eu começo a defender as teses de que o estatuto do indigenato tem de acabar.

Teses que vai aplicar quando chega a ministro do Ultramar.

Apliquei tudo. Eu mandava um relatório meu para o Ministério do Ultramar e vim a verificar que eles o liam porque dois anos depois o Dr. Salazar manda-me chamar para falar comigo. Quando lá cheguei o Dr. Salazar disse-me: "O senhor escreveu um relatório para o Ministério do Ultramar e disse que em 1961, mais ou menos, haveria revolta, como é que adivinhou isso?" E eu respondi: "Porque tive uma professora na primária que me ensinou a fazer contas", "então como é isso?", "é simples, Portugal não seria condenado enquanto tivesse um terço dos votos das Nações Unidas e eu fiz as contas à entrada dos países e verifiquei que se perdia o terço nessa data, éramos condenados, eles tinham o apoio internacional de todos os lados e a previsão era essa", e então ele disse-me: "O senhor tem razão para dizer que não ao que eu lhe vou perguntar, mas quer vir pôr essas reformas em vigor?", e eu disse "não posso responder assim porque não pertenço a nenhuma política nem sequer fui da Mocidade Portuguesa e, para me meter numa coisa dessas, quem é que me apoia?", e diz ele "apoio eu", e eu disse "não chega, preciso de gente técnica". Depois ele ainda disse: "Eu sei que o senhor tem razões para me dizer que não por causa da questão do Santos Costa", e eu disse-lhe "senhor presidente, desculpe, mas não é o único português que põe os interesses do país acima das suas discordâncias". E aqui tem como é que eu entrei.

Esse episódio é de 1948, quando defende a família de um general num processo de homicídio voluntário, que faz um pedido de habeas corpus, o primeiro de todos, e acaba preso no Aljube.

Essa história nunca a abordo muito porque já morreram as pessoas, mas sim, fui preso. António Ribeiro, que era advogado da Standard Elétrica - que foi onde eu comecei a trabalhar -, ele é que me encarregou de tratar desse assunto. Um dia chamaram-me à PIDE, o inspetor conhecia-me de miúdo porque o meu pai era subchefe da polícia, quando eu entrei, disse: "Tu é que meteste aquela velhota num sarilho?" e eu disse "qual velhota?", "a viúva do general Mouzinho", e eu disse "não a conheço", "mas ela fez a queixa em nome dela e disse que falou contigo", "não", "então quem é que falou contigo?", e eu disse "isso é segredo profissional, não posso dizer". Ele foi ao telefone e depois voltou e disse: "Olhe, eu falei com o ministro da Justiça, que foi teu professor, não foi?", e eu disse "foi", "ele disse que não podia esperar outra resposta tua mas que te prendesse", "tudo bem, cumpra as ordens".

Esteve ainda dois meses detido?

Quase. Salazar mandou pedir o processo que metia o Santos Costa e arquivou o processo e disse "ponha o rapaz em liberdade, que é o único que se portou com dignidade". Quem interveio logo a seguir foi a Ordem dos Advogados, naquele tempo ser advogado era uma coisa a sério. O ambiente da advocacia era muito diferente de hoje, eu conheci advogados espantosos nesse tempo, ainda fiz tribunal, defesas, e não correram mal. O poder da palavra pode vencer a palavra do poder, era o conceito desse tempo.

Foi um mês e meio complicado para si?

Não, os que estavam presos eram todos comunistas, de maneira que eu era uma pessoa à parte.

Conheceu Mário Soares no Aljube?

Sim, e ficávamos amigos. Ainda hoje [no dia da entrevista] vou jantar a casa dele. Ele é um ano mais novo do que eu, eu tinha lá ao meu lado, na minha camarata, a História da Filosofia do Hegel e tinha O Príncipe [de Maquiavel], que é um livro muito célebre. Ele chega ao pé de mim, diz que se chama Mário Soares e diz "você lê uma literatura toda reacionária" e eu: "Estou a fazer estudos para miguelista" - e ficámos amigos até hoje.

Esteve preso por quase suspeitas?

Sim, "quase suspeitas", e por isso é que Salazar me disse "o senhor tem razões para me dizer que não", que é quando lhe digo "o senhor não é o único português que mete os interesse do país acima das discordâncias".

Acabar com o indigenato significava exatamente o quê?

A relação dos colonizadores, quando começa no século XVI, é de senhores para escravos. Quem acaba primeiro com a escravatura nesta metrópole chama-se Marquês de Pombal, depois no Ultramar é o Sá da Bandeira, mas logo a seguir veio o estatuto do indígena, que era a negação da cidadania, que permitia abusos do ponto de vista selváticos. Além de revogar o indigenato, fiz um código de trabalho rural que foi considerado o mais avançado de África. Depois, é claro, instalei o ensino superior e foi uma luta. Fiz o que pude naquele período todo, mas para isto foi uma fadiga muito grande.

Oliveira Salazar pede-lhe então para mudar de política.

Em determinado momento. Isto, como calcula, atingiu interesses brutais, mudou-se uma estrutura. Eu tenho um filho que é advogado, o João, que esteve em Moçambique, e tinha um colega africano que um dia lhe perguntou se era filho do Adriano Moreira, e ele disse que sim, e ele disse "então vou dizer-te uma coisa: o meu pai africano disse que só teve o primeiro dia de felicidade na vida, já tinha 70 anos, quando lhe deram o bilhete de identidade por causa do decreto do teu pai", portanto veja o que representava para eles. O próprio Salazar começou a sentir reações das bases de apoio dele. Ele chamou-me e disse-me: "Quando o chamei disse-lhe que apoiava as suas reformas, tenho cumprido ou não?", e eu não fazia ideia para que era a conversa, disse "sim, até agora tem cumprido". E disse ainda: "Mas devo dizer-lhe o seguinte, as reações são de tal ordem que eu próprio não estou seguro de poder continuar chefe do governo, temos de mudar de política", e eu com convicção disse assim: "Vossa excelência acaba de mudar de ministro", e ele disse "eu já estava à espera que me respondesse isso", e vim-me embora. Foi sempre atenciosíssimo comigo e, daí por diante, nunca mais tive qualquer atividade política, como não tinha tido antes. Até que veio a Revolução e fui saneado como toda agente.

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Nem essas divergências manifestadas com as estruturas do regime o livraram de saneamentos, na empresa e na universidade.

Na universidade até devo dizer que foi onde tive as reações mais inesperadas, mas eu não estava cá, estava no Brasil em serviço. Quem me disse que não voltasse foi o almirante Pinheiro de Azevedo, que tinha sido meu aluno, e eu disse "então mas como não volto se tenho aí a minha mulher e três filhos?", e ele disse "eu trato disso, eles vão ter consigo". Mas não tratava era da minha vida - passei dois meses difíceis. Conhecia muita gente no Brasil, mas nunca fui de andar a pedir coisas. Um dia veio um professor da Católica, que me encontrou, foi a minha casa, estava numa casa bastante humilde, enfim não chovia lá dentro, e disse-me "ando há dois meses à sua procura para o convidar para catedrático da Universidade Católica do Rio de Janeiro". Quem me mandou reintegrar foi o Eanes, com efeito retroativo, no Instituto Superior Naval de Guerra e na Universidade. Ainda hoje tenho gratidão e respeito pelo general Eanes.

Esse tempo viveu-o com ressentimento no Brasil?

Não, eu não sou de ressentimentos.

No fundo, aquilo que lhe estava a acontecer era explicado pelo contexto da história?

Sim. Depois voltei, fui professor da Marinha, ainda outro dia me fizeram uma festa e disseram que eu entrei para a Marinha há 60 anos, todos os chefes do Estado-Maior que estão reformados foram meus alunos, portanto esta coisa do Eanes comoveu-me muito.

Quando regressa, é convidado por Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e Narana Coissoró...

Sim, o Narana que tinha sido meu assistente na Universidade.

E é convidado para o CDS?

Sim. Eu achei que esse momento era muito difícil para o país. [Antes do 25 de Abril] é a tropa que vai avisando que a guerra não se ganha. Segunda coisa: o grande suporte do regime eram as Forças Armadas, e houve avisos de que era preciso mudar. Depois aparece um grupo de Margão, que pede uma constituição federal porque não quer ser invadido pela União Indiana, ninguém aceitou, e houve um movimento para Cabo Verde serem ilhas adjacentes... Eu aí não tinha intervenção nenhuma, mas sei que isso era assim e alguma projeção que eu mantive é porque eles sabiam as coisas que eu tinha escrito. Quando vem o 25 de Abril, a primeira fase chama-se golpe de Estado (que, tecnicamente é quando um elemento da estrutura se afasta), a revolução começa depois. Há [então] um debate e devemos muito ao general Eanes nesse aspeto - a constitucionalização do regime - que ou se tem uma via revolucionária de extrema-esquerda ou se tem uma constitucionalização europeia, que é o que o general Eanes consegue orientar, e também o Freitas do Amaral e o Jorge Miranda. Eles vão ter comigo e convidam-me pelas coisas anteriores que eu tinha feito e que tinha dito e eu, mais uma vez, aceito pelo interesse nacional. Agora era interessante que, tendo a Europa sido feita pelas democracias cristãs, o país onde a democracia cristã não vingou era o país mais católico - é interessante.

São tempos de trincheira. Ou acha que, apesar de todas as diferenças ideológicas que eram fortes naquela época, eram tempos em que o diálogo era possível?

Na Universidade, foi sempre possível, e se você foi estudante ali [no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas], encontrou esse espírito, a pessoa fala livremente.

A democracia foi uma aprendizagem para todos?

É evidente que mudar de regime tem de mudar as pessoas, tem de mudar os hábitos. Mas não se teria feito isso se não houvesse homens lúcidos, e o principal, a meu ver, foi o Eanes e o Jorge Miranda e essa gente, que conduziram isto em termos de constitucionalizar o país no modelo europeu. Foi uma grande batalha que eles ganharam.

A ideia de aderir à União Europeia, a CEE de então, por Mário Soares, também ajuda a consolidar a democracia?

Tudo isso. O Partido Socialista teve um papel fundamental nisso: o comício da Fonte Luminosa [a 19 de junho de 1975] é um facto histórico fundamental. A linha constitucionalista europeísta ganhou mas foi uma batalha. Devo dizer que gostei de estar no Parlamento durante todo aquele tempo, e acho que a cerimónia da saída não foi má [e sorri].

Depois da sua liderança no CDS, num tempo difícil em que o partido estava reduzido a uma dimensão mínima...

Até com uma ação de despejo no Caldas [sede do partido].

Depois disso, e depois da sua primeira experiência política ainda no Estado Novo enquanto ministro, refugiou-se na universidade. Esta era um refúgio importante para si?

Não era um refúgio, para mim é uma vocação.

E a política foi uma desilusão?

Não neste sentido. Eu achei que fazia aquilo que em consciência devia ao país. Agora, foi um esforço que não resultou. Mas eu tenho algumas provas, depois disto tudo. Por exemplo, há uma universidade em São Vicente [Cabo Verde] e eu devo ser o primeiro doutor honoris causa depois da independência. Aqui há tempos ajudei a fazer aquele tratado de Cabo Verde com a União Europeia porque o embaixador que estava cá veio pedir-me, a mim e ao Mário Soares. Fizemos isso, passado algum tempo foi a minha casa a ministra dos Negócios Estrangeiros de São Tomé e disse-me: "Olhe, eu vinha pedir a sua ajuda porque o senhor ajudou a fazer uma coisa para Cabo Verde que nós também precisávamos." Eu disse-lhe: "Ajudo, mas primeiro tem de tomar um compromisso comigo, não mudam o nome da rua que lá têm." Sabe qual é o nome da rua? Rua Ex-Adriano Moreira" [risos]. Ela, coitada, é que depois mudou, passado pouco tempo deixou de ser ministra.

Esperava ver uma das suas filhas, Isabel, chegar à política? Foi uma coisa que cultivou em casa?

Não, isso é uma decisão dela. Eu procurei educar os meus filhos com um certo sentido de liberdade e responsabilidade - e a mim também ninguém me encaminhou. Segui muito o meu pai e os exemplos dele. Esta filha tem comigo uns cuidados e um afeto que é uma coisa... Uma vez um jornalista perguntou-lhe "faz estas coisas e então e o seu pai?", "o meu pai é o homem da minha vida" [sorriso largo].

Conversam muito sobre política lá em casa?

Então não?! À vontade. Ninguém se zanga com a política. A cozinha não é má [risos]. Sabe quantos netos tenho? Tenho 14. De vez em quando, quando se juntam todos, é uma festa.

 



[Entrevista originalmente publicada no Diário de Notícias, em 18 de junho de 2016. Fotos © Orlando Almeida/Global Imagens]

Março 15, 2022

a gosto [in memoriam Jorge Silva Melo]

Miguel Marujo

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algures num verão de Lisboa, apaixonei-me por estas histórias de agosto, na Arrábida, filmadas por Jorge Silva Melo, a quem cheguei por causa do Olímpio, sempre ele, nestas coisas — o teatro, os filmes, os livros, os textos nos jornais... na morte abrupta do Olímpio, Jorge Silva Melo escreveu um belíssimo texto sobre este nosso grande amigo, e (como bem recordou, na noite de ontem, a Mariana Pinto Dos Santos) terminava dizendo "não seremos jamais órfãos, sempre seremos herdeiros"... sorte a nossa, esta de sermos herdeiros de Jorge Silva Melo.

 

 

 

 

Janeiro 07, 2022

Peter Bogdanovich, a última sessão

Miguel Marujo

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Peter Bogdanovich morreu aos 82 anos. É dele The Last Picture Show (A Última Sessão, em Portugal)filme magnético — com Cybill Shepherd — e que escolhi entre os dez que mais impacto tiveram em mim, naqueles exercícios sem explicações e de mera vaidade no Facebook. Ou como recordou Francis Ford CoppolaI’ll never forgot attending a premiere for The Last Picture Show. I remember at its end, the audience leaped up all around me bursting into applause lasting easily 15 minutes. I’ll never forget although I felt I had never myself experienced a reaction like that, that Peter and his film deserved it. May he sleep in bliss for eternity, enjoying the thrill of our applause forever.”
De Texasville para a históriawith the touch of restless young genius, he seemed to reinvent pulp crime, the western, the road movie and the screwball comedy – in short order.


Na foto: Cybill Shepherd and Peter Bogdanovich photographed outside the Plaza Hotel in New York City, circa 1974 Photograph: Images Press/Getty Images, publicada no The Guardian.

Outubro 15, 2021

O homem da fuga planeada em mortalhas

Miguel Marujo

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Preso em Caxias, António Tereso passou "para o outro lado", o que lhe valeu ser ostracizado pelos camaradas do PCP. Afinal preparava uma fuga. Há quase 60 anos, "no dia 4 de dezembro de 1961, pelas 9h35, sete reclusos que se encontravam no fosso interior do reduto norte do Forte de Caxias na hora do recreio, auxiliados por outro recluso da sala de trabalho do mesmo Forte (a sala dos rachados), levaram a cabo uma espectacular e audaciosa fuga". Recupero o texto do obituário de Tereso, para recordar esta história que, na América, já teria dado um filme, como me dizia Domingos Abrantes na altura da morte do seu camarada.

 

As mortalhas do tabaco foram a maneira encontrada por aqueles homens para discutirem e prepararem a sua fuga da prisão de Caxias, durante a ditadura do Estado Novo. Era a única comunicação com António Alexandre Tereso, o "rachado", nome dado no PCP aos que traíam camaradas. Durante 18, 19 meses foi "ostracizado pelos presos", quando afinal estava a encenar essa traição, para ganhar a confiança de guardas e da direção da prisão para observar possíveis hipóteses de fuga.

Este herói para os comunistas morreu aos 89 anos a 7 de janeiro [de 2017], no dia em que desapareceu Mário Soares, o que obliterou referências à morte do "fulano excecional, de dedicação e abnegação", como o classificou Domingos Abrantes, militante do PCP, seu companheiro na fuga.

Motorista da Carris, Tereso é o nome que se destaca na fuga dos oito detidos da prisão nos arredores de Lisboa, às 9.35 de 4 de dezembro de 1961. Militante do partido, tinha sido detido a 27 de fevereiro de 1959 pelo envolvimento na "grande luta" dos trabalhadores da Carris. José Magro, dirigente do PCP também preso em Caxias, "propôs esse rasgo de Tereso: passar para o outro lado", recordou Abrantes ao DN. "Passou a ser rachado", apesar da desconfiança de camaradas e carcereiros. "Não tinha o perfil de rachado, que é uma pessoa abatida e o Tereso tinha feito vasqueiro no julgamento."

Encenando uma discussão numa refeição na cadeia, o motorista bateu à porta, traindo os camaradas. "Ninguém lhe falava", só dois presos, José Magro e Afonso Gregório, sabiam. Todos "cortaram com ele". Os companheiros da Carris "deixaram de lhe pagar o salário", eles que se quotizavam para ajudar as famílias de camaradas presos. "Era um troféu de caça para a polícia ter um comunista que se tinha passado para o outro lado", explicou Domingos. "Nem a mulher dele sabia que era tudo encenação", disse.

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A sua função era ter a confiança dos carcereiros, com liberdade de movimentos. As hipóteses eram discutidas por mensagens escritas nas mortalhas do tabaco. "Ele tinha de esperar que todos adormecessem na sala dos rachados para escrever as mensagens. Toda a fuga foi discutida por mortalhas", contou Abrantes.

António Tereso descobriu um carro blindado, na chapa e no vidro, com pneus de câmara dupla. Havia dois automóveis: um Mercedes, cuja manutenção era feita por um pide que andava sempre com a chave, "e este Chrysler que tinha a chave na ignição". Foi uma ideia "de uma audácia tramada", exclamou Domingos. "Bater-lhe na cabeça que se podia fugir com o carro." Tereso precisou de "ganhar confiança para poder andar com o carro - convidou o diretor para uma volta, tornou-se normal circular de carro pela prisão", mas ali, ao recreio onde estavam os outros sete camaradas nunca tinha ido. "Éramos 11", recordou o também conselheiro de Estado, fugiram oito: "Foi feita uma avaliação dos quadros que mais interessavam ao partido." O carro não levava todos. "Aliás houve um erro que veio por bem", avaliou Domingos Abrantes. "Na nossa imaginação o carro tinha uma porta que não tinha. A distribuição dos lugares era em função de três bancos. Ainda bem que a gente se enganou. Com dois bancos se calhar não tínhamos ido tantos."

Na fuga de 5 segundos para entrar no carro, os homens foram às camadas, "como se fossem numa lata de sardinhas, seis no banco de trás e um à frente com o Tereso". O blindado que tinha sido de Salazar rebentou com o portão e protegeu-os dos disparos das espingardas dos guardas. Foram saindo dois a dois já em Lisboa e passaram à clandestinidade.

O motorista fugiu para a Checoslováquia e França, onde se fez torneiro mecânico. Regressou com o 25 de Abril. Domingos que só contactou com ele no dia da fuga, voltou a vê-lo apenas depois da revolução. E Tereso ensinou-o a conduzir. Reintegrado na Carris, depois reformado, Tereso ajudava sempre no partido. "Transportava camaradas, acabou por ser motorista aqui no partido. Ia a muitos sítios explicar a fuga, falava com jovens, era uma história atrativa. Agora, no fim, já estava muito debilitado. Não teve uma vida fácil."

 

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[Artigo originalmente publicado no DN de 22 de janeiro de 2017, com o título "António Tereso. Morreu o homem da fuga planeada em mortalhas". Foto do Chrysler Imperial, 1937 - que esteve ao serviço de Salazar - usado na fuga retirada do site do Museu do Aljube. Foto da ficha de preso encontrada na internet. Foto de António Tereso, com a imagem do carro atrás de si ©Global Imagens.]

Setembro 10, 2021

Jorge Sampaio. "Este ocaso da vida é magnífico"

Miguel Marujo

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Desta vez, Jorge Sampaio não chorou. "Este ocaso da vida é magnífico"


No dia da sua morte, recupero uma reportagem minha quando dos seus 80 anos. Sampaio nasceu a 18 de setembro de 1939, no dia de anos do meu Pai, e morre dias depois da minha Mãe. Era um homem bom. Sempre foi.

PS homenageou antigo presidente da República e líder socialista no dia dos seus 80 anos [celebrados a 18 de setembro de 2019]. Sampaio respondeu com humor: "Não costumo fazer isto sem chorar um pouco." Costa sublinhou a "intranquilidade" da vida do socialista.


Jorge Sampaio avisou com uma pitada de humor. "É muito agradável estar aqui convosco e não costumo fazer isto sem chorar um pouco", atirou com um sorriso o antigo Presidente da República. O "aqui" é o Largo do Rato, sinónimo da sede do PS, e "isto" é uma homenagem que os socialistas fizeram questão de fazer nesta quarta-feira, dia 18 de setembro, no seu 80.º aniversário.

Sampaio não chorou - e fez questão de o lembrar, já quase no final das suas palavras. "Atenção: não chorei até agora e agora já é tarde." Só não é tarde para continuar a lutar, disse. "No ocaso da vida", como definiu este tempo que está a viver, é importante "ter a sensação de que é preciso sempre ir para a frente e nunca desistir, nunca desistir".

O secretário-geral socialista, António Costa, apontou isso mesmo: "Jorge Sampaio podia já estar a gozar a tranquilidade da vida, mas a verdade é que a vida lhe provoca sempre intranquilidade." E é essa intranquilidade que o leva a manter-se atento aos problemas do mundo e que o fez criar uma plataforma de apoio aos estudantes sírios que queiram estudar, fugindo à guerra.

O antigo Presidente e antigo líder do PS reconheceu-o: "Tudo está em aberto, este é que é o grande dilema e a complexidade dos nossos tempos" - e nessa complexidade inscreve-se a necessidade de "descobrir novas formas de agir" porque, avisou Sampaio, "o capitalismo financeiro vai tratar das crises da mesma maneira que sempre tratou".

O Sampaio estudante, advogado, político, secretário-geral do PS, Presidente da República, esteve inscrito nas palavras de todos - como num vídeo com imagens que passou instantes antes das intervenções - a começar pelo próprio que sublinhou "a fidelidade aos valores" em que foi educado. "E a felicidade que tive em cumprir estes 80 anos!"

O socialista confessou que se sente bem no Largo do Rato, onde não tem de justificar nada. Fez um parêntesis, de novo com humor. "É certo que me esqueci das escadas e agora subo escadas com imensa dificuldade", apontou. Depois defendeu que, no PS, há um "espírito aberto", também "para aquilo que deve ser discussão viva" ou "a discordância", mas onde "não pode caber a conspiração". Entre soaristas, guterristas ou sampaístas presentes nos jardins do Palácio Praia, a sede do PS, Sampaio ironizou ainda com aqueles que "andam todos a medir-se" na sua social-democracia.

Se a voz está mais frágil, como o corpo, as ideias saem com mais fluidez. "Devo ser daqueles que estão a adorar os debates", revelou sobre a pré-campanha para as eleições de 6 de outubro, notando que "despertou algum interesse", "discutiu-se algumas coisas fundamentais para o que há de vir". É a intranquilidade de que falou Costa.

O primeiro-ministro, na pele de secretário-geral do PS, sacudiu as notícias do dia, de uma demissão no seu governo, para dizer que este é um "dia feliz" para os socialistas. "Estamos aqui a festejar o aniversário, os 80 anos do Jorge Sampaio."

A "homenagem a um dos mais ilustres militantes do PS" também aconteceu pela militância de Sampaio na "defesa dos direitos humanos", apontou Costa - e, antes, os presentes ouviram o testemunho de Tamin, refugiado sírio, que agradeceu ao antigo Presidente a oportunidade que este lhe deu para "uma vida melhor", a ele, à sua mulher e à filha dos dois, que nasceu na Grécia e hoje todos os dias vai para a escola em Portugal.

O "homem tranquilo, fleumático, britânico" que é Sampaio, na definição de Costa, foi capaz de "decisões de rutura que tomou num determinado momento e marcaram a sua vida". E o atual líder socialista - que esteve sempre ao lado de Sampaio nas lutas internas do partido - enumerou-as, do 24 de março de 1962, quando "ergueu a sua voz" em defesa dos estudantes (na crise académica de 62), a 1989, quando avançou para a liderança do PS e se apresentou como candidato à Câmara de Lisboa e conseguiu unir a esquerda, incluindo o PCP de Álvaro Cunhal, em torno dessa candidatura; "e depois, anos depois", em 1995, quando desafia Cavaco a candidatar-se numa entrevista ao Expresso, "para o motivar a candidatar-se", e "foi a sua candidatura que motivou uma grande maioria de portugueses". Costa deixou de fora a bomba que Sampaio largou no seu mandato presidencial, quando demitiu o governo PSD-CDS de Santana Lopes, em 2004.

"O cidadão comprometido com a sociedade e com o mundo em que vive, sempre preparado para uma vida de intranquilidade", recebeu das mãos do líder socialista uma reprodução da primeira página do jornal oficial do PS, o Acção Socialista, quando foi eleito líder do partido. Na capa, Sampaio está de punho esquerdo erguido, o mesmo que nesta quarta-feira ergueu no final da sua intervenção, para agradecer os aplausos que lhe dispensaram.

Cantaram-se os Parabéns, cortou-se o bolo, num jardim em que a noite já caía, com vários ministros e secretários de Estado na assistência, e outras figuras do partido, como Ferro Rodrigues, Manuel Alegre, João Cravinho ou Jorge Coelho. "Agradeço-vos esta companhia neste ocaso da vida, que é um ocaso magnífico", tinha dito Sampaio a fechar o seu discurso.

[artigo originalmente publicado no Diário de Notícias, de 19 de setembro de 2019; foto de Daniel Rocha, no Público, março de 2005]

Junho 27, 2021

O trompete que foi tocar em surdina para o quarto mundo

Miguel Marujo

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"Devo muito ao Jon. Na verdade, muita gente deve muito ao Jon. Ele semeou uma poderosa e fértil semente cujos frutos ainda hoje colhemos. Parece impossível que alguém tão essencial tenha passado ao lado de tanta gente. Mas a sua revolução foi sempre sem sangue, em surdina, abafada tal como o som do seu trompete mutante."

Roubei estas palavras a Brian Eno, que li num texto promocional do Teatro Maria Matos, em 2009, no qual tropecei à pesquisa de uma foto. Cá em casa, há um disco em nome próprio, que ficou demasiadas vezes abafado na prateleira, mas descubro-o ainda e ao seu trompete em Brilliant Trees, de David Sylvian, em The Passion, a notável banda sonora original que Peter Gabriel criou para A Última Tentação de Cristo, ou em The Million Dollar Hotel (mais uma essencial aventura musical de Wim Wenders), onde surge em nome próprio e na "banda do hotel". E talvez haja ali por mais algum trompete discreto, sem sangue e em surdina, a tecer sons que nos mergulham noutros mundos, ele que desvendou um "quarto mundo". Jon Hassell morreu este sábado, 26. Tinha 84 anos.

"As Jon is now free of a constricting body, he is liberated to be in his musical soul and will continue to play in the fourth world. We hope you find solace in his words and dreams for this earthly place he now leaves behind. We hold him, and you, in this loss and grief", escreveu-nos a família.

 

 

Abril 28, 2021

"Jesus almost got me". Morreu Anita Lane

Miguel Marujo

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[Anita Lane, 1959-2021*]

Love is cruel/ Love is truly absurd/ Jesus almost got me/ I don’t know how many prayers he overheard.

Escassas informações apontam para a morte de Anita Lane, a voz vertiginosa que nos embalou em tantas canções com os Birthday Party, Bad Seeds, Nick Cave, Mick Harvey ou a solo. E vive na música.

* - É um mistério de vida na hora da morte. Não é claro o ano de nascimento de Anita: o Público toma como boa a data de 1959, que a Wikipedia refere como "c. 1959", já o site The Quietus, disponível num dos links deste post, começou por apontar 1962, mas corrigiu para 1959, com "62 anos", atribuindo a informação a fonte da editora. Para o jornal britânico The Guardiano mistério é sintetizado numa frase sobre esta natural de Melbourne: "No cause of death was given, and her age – believed to have been in her early 60s – could not be immediately confirmed."

Dezembro 09, 2020

Another flower: Harold Budd (1936–2020)

Miguel Marujo

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Ainda hoje ouvi o novíssimo álbum de Robin Guthrie com Harold Budd, Another Flower, editado no dia 4. E esta noite a notícia: Budd morreu aos 84 anos (1936–2020).

Ele há coisas. 

 

"Harold Budd, minimalist and avant-garde musician who helped pioneer the genre of ambient music, has died. He was 84. Budd's solo compositions and collaborations with Brian Eno, Daniel Lanois, and the Cocteau Twins inspired a generation of electronic and experimental musicians.
E atualize-se, com esta viagem do Nuno Galopim pela obra de Harold Budd, no Gira-Discos (é seguir o link).

Dezembro 22, 2019

Blasfemos, graças a deus

Miguel Marujo

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Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Além da série, também tivemos os filmes, como A Vida de Brian, que blasfemava, segundo alguns crentes. A estes sobrava em fundamentalismo o que lhes faltava em humor, por não gostarem de ver esta história que se mete com Jesus e os cristãos. No entanto, este Brian desmascarava antes um seguidismo acrítico, uma fé sem vida, quando devia antes levar os cristãos a refletir sobre si próprios. Como na cena da crucificação em que Brian mimetiza Jesus e os ladrões lhe cantam Always Look on the Bright Side of Life.

Este episódio mostra-nos como as canções dos Monty Python são outra possível explicação para a universalidade do seu humor, que se mantém tão atual, como em Every Sperm Is Sacred, do filme O Sentido da Vida, ou Spam, de Flying Circus, que hoje é um termo banalizado no nosso quotidiano.

É este contexto que ajuda a explicar que o reencontro dos cinco Pythons vivos (Graham Chapman morreu de cancro em 1989), em dez espetáculos londrinos realizados em julho de 2014, tenha sido editado num álbum com quatro DVD intitulado One Down, Five to Go.

No funeral de Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin não estiveram presentes, para permitir alguma privacidade à família e enviaram um cartão com o tal pé do genérico de Flying Circus, onde deixaram um post scriptum: "Pisa-nos se estivermos a ser demasiado idiotas." O pé nunca foi usado.

[texto originalmente publicado no DN/1864, em 8 de outubro de 2019]