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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 01, 2016

Só nesta rusga não há lugar para o cidadão

Miguel Marujo

Faltavam uns 15 minutos para as 15.00 da terça-feira passada, dia 29, quando o autocarro foi ultrapassado por uma caravana da polícia, que bloqueariam o mesmo autocarro 50 metros à frente. A dois dias do fim do ano, a PSP subiu a Rua Maria Pia, em Lisboa, para se deter na Meia Laranja e fazer uma rusga no supermercado da droga que nunca o deixou de ser verdadeiramente, mesmo depois da “limpeza” do Casal Ventoso. A carreira 742 foi assim a primeira a ficar parada de quem sobe de Alcântara, sem possibilidades de se mover. Um agente informou o motorista que os passageiros podiam sair porque a operação podia “demorar um bocadinho”. Mas estes não podiam subir a pé a rua, que era o seu destino, só regressar a Alcântara, numa rua sem outro caminho possível.

Sem poderes adivinhatórios do que significa um “bocadinho” em linguagem policial, eu e muitos outros optámos por ficar e aguardar. Sem perceber porque não podia a polícia abrir uma faixa de rodagem do lado oposto aquele em que decorria a rusga para, pelo menos (os carros podiam inverter a marcha), permitir a circulação dos autocarros (já eram dois bloqueados e não terão sido mais porque o motorista avisou a central), muitos lamentavam-se do atraso com que iam chegar ao trabalho, aos seus afazeres.

Ao fim de 25 minutos, deixaram os peões subir a rua pela esquerda. Quando questionei um primeiro agente porque não tinham feito aquilo mais cedo, a resposta foi a de sempre. Limitavam-se a cumprir ordens. À insistência, veio a ordem para “circular”. Um segundo resolveu provocar: “Bom ano” e “a culpa é do fascismo”, atirou-me. As palavras foram do agente, não minhas. E fizeram ricochete: lembrei-me que só nestas rusgas não há lugar para os cidadãos. E aposto que foi muito aparato para nada. Duvido que a meia hora com que se interrompeu o trânsito (logo a seguir abriram a tal faixa de rodagem) tenha justificado mais do que umas quantas doses apreendidas e uns quantos tipos identificados. Nas paragens seguintes, muitos protestavam com o motorista. Não, a culpa foi mesmo da PSP.

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