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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 09, 2020

"So". E Peter Gabriel acertou na fórmula

Miguel Marujo

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Avancemos logo para a segunda canção do álbum – e logo aí começa a explicação de como, com o seu quinto álbum a solo, Peter Gabriel tinha acertado na fórmula: ao elogio da crítica somava o sucesso comercial em So. A canção que se ouvia logo depois da faixa de abertura seria o primeiro single e o seu videoclip é, ainda hoje, um marco na história dos telediscos: Sledgehammer.

Ouvir de novo So é entrar num universo com o qual Peter Gabriel se reinventou. Está lá (ouvem-se) as doses de experimentalismo que também marcam os seus primeiros quatro álbuns a solo, como se ouve em We Do What We’re Told (milgram’s 37), depois dos anos com os Genesis, mas também a abertura aos sons sem fronteiras que acompanharão a sua aventura posterior em Passion (1989) – a banda sonora original que compôs para A Última Tentação de Cristo, de Martin Scorsese – que espreitam por exemplo em In Your Eyes (e não é por acaso que nos créditos encontramos a voz convidada do senegalês Youssou N’Dour).

Ao regressarmos ao alinhamento, percebemos que, hoje, 30 anos depois, So é uma obra que coleciona clássicos na obra de Peter Gabriel. Sledgehammer é antecedido por Red Rain, que abre o disco numa canção gravada com a banda toda no estúdio, e precedido por Don’t Give Up, o dueto com uma Kate Bush, também ela em estado de graça com o seu Hounds of Love (1985).

Há ainda Mercy Street, uma “peça bem mais atmosférica” como a explica Peter Gabriel, bebida na poesia de Anne Sexton (e as palavras na discografia deste músico sempre foram essenciais), Big Time, que retoma o universo dançante de Sledgehammer (e até os vídeos são complementares), mas também This Is The Picture (excellent birds), o segundo dueto do álbum, aqui com Laurie Anderson, que não foi incluído no alinhamento original e é uma releitura da versão disponibilizada no álbum da artista americana Mister Heartbreak (1984) com o título de Excellent Birds. E o quadro fica completo com That Voice Again.

Peter Gabriel defende que So “funciona tão” bem porque os membros da banda dispararam os seus instrumentos mas, no final, o que se ouve é o contrário de uma amálgama de sons sem sentido, resultado de uma excelente produção de Daniel Lanois – também ele num período excecional de trabalho (tinha produzido os U2, com Brian Eno, em The Unforgettable Fire, de 1984, e repetiria a dupla em The Joshua Tree da banda irlandesa, nos meses imediatos à edição de So). “O excelente som e a equipa de produção” resultaram num álbum que é “compacto no processo e na forma como foi posto em conjunto”.

É isso que se nota, [mais de] 30 anos depois, ao ouvir constantemente um álbum que fica como um marco pop dos anos 1980: um som que não ganhou uma única ruga e palavras que não se perderam no tempo.

Na edição box set, com que se assinalou o 25º aniversário de So, há um extra: a edição de Live In Athens 1987, síntese das três noites de concertos no Lycabettus Theatre, e final da digressão This Way Up – e mais uma prova de como o nome de Peter Gabriel é incontornável na história da música dos últimos 50 anos.

[texto incluído num artigo sobre "dez álbuns de 1986", originalmente publicado na Máquina de Escrever, em 25 de janeiro de 2016]