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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 17, 2014

Sentir um bloqueio no dia em que veio a Liberdade

Miguel Marujo

 

Há quem comece a sua leitura do jornal pelo fim - vai à última página e regressa até ao princípio. Neste livro, Viver pela Liberdade, biografia de “grandes momentos da História pelos olhos de uma das mais marcantes jornalistas portuguesas”, também se pode fazer isso: ir às páginas finais, aquelas que recuperam as reportagens de Maria Antónia Palla, jornalista, 81 anos, que tantos anos depois (foram escritas entre 1970 e 1979), parecem coladas aos dias de hoje. Em agosto de 1974, as mulheres da Sogantal, uma fábrica têxtil no Montijo, lutavam por um salário digno e melhores condições de trabalho. Abril já ia no seu quarto mês de revolução, mas o patrão (era assim que se escrevia) francês dizia que pagava “sempre o que a lei portuguesa obrigava” e recusava-se a atender às reivindicações das mulheres. Não era só de direitos laborais que se falava nestas páginas escritas com rigor e elegância. Era dos direitos das mulheres.

Neste livro faltam as palavras da reportagem que fez de Maria Antónia Palla um nome maior do jornalismo português - sobre o aborto, que passou na RTP em horário nobre. Em fevereiro de 1976, a liberdade atrapalhava-se com uma reportagem militante: Aborto não É Um Crime. Em tempos de canal (quase) único, a reportagem valeu a suspensão do programa e o julgamento em junho de 1979. Saiu absolvida, em nome da liberdade de expressão.

É a Liberdade, assim com maiúscula, como se escreve nas 268 páginas deste livro escrito por Patrícia Reis, num registo que mistura a (auto)biografia e a reportagem. A Liberdade que sempre procurou e que a fez bloquear no seu dia maior: 25 de Abril de 1974. “Era a primeira vez que escrevia em Liberdade. ‘Sentia um bloqueio imenso’”, confessa. Essa liberdade construiu-a desde miúda, entre as margens do Tejo, na casa dos avós da Margem Sul, por oposição à ordem da casa dos avós maternos. Mesmo que não dissesse mais, percebe-se onde se sentia melhor, livre. Casou-se nova, de vermelho, mas “recusou ir pendurada no braço do pai”. Questionou-se sobre Deus - prevalecia a educação dos avós paternos, em cuja casa “não existiam imagens de santos”. Como não a satisfaziam os empregos que procurou, para garantir a sua liberdade (“se não tiveres o teu dinheiro, nunca serás livre”, dizia a avó), “sentia-se a viver num aquário”. Desde que não lhe tirassem o passaporte. Privou com a elite cultural de uma época (Júlio Pomar, Augusto Abelaira, António José Saraiva). Perdeu uma filha, a primeira, e acarinhou muito o segundo, António Costa. Foi uma das três primeiras mulheres a entrar numa redação portuguesa. “Talvez elas não saibam ainda exatamente o que querem. Mas sabem, seguramente, o que não desejam. O importante é que elas entendam porque se vencem e porque se perdem as batalhas”, rematava Maria Antónia sobre as operárias do Montijo.

[texto publicado na edição de sábado do Diário de Notícias]

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