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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 12, 2025

Sei Miguel. O disco que ganhei graças ao Miguel Cadilhe

Miguel Marujo

 

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Nos finais de 1980, em Aveiro, que era na província (e a coisa naquele tempo era mesmo assim), a música chegava com atraso. Lisboa estava longe, a A1 ainda ficava na Mealhada e a CP já se atrasava na altura, as rádios eram feitas de hits, apesar das noites longas do fm estéreo e do António Sérgio, ouvidos uma vez por semana no rádio que fazia às vezes interferência, e só o Blitz (género masculino, jornal em papel) caía às terças no balcão do Duarte dos Jornais — e lá arranjava uns trocos, bem puxados esses trocos (talvez 50 escudos, pá) para o comprar.


E também houve o LP, jornal efémero que saía num dia que não me lembro, e que escolheu os melhores discos da década de 1980, no final de 1988, deixando de fora 1989. Num e noutro jornal lia nomes que, por vezes, conseguia ouvir pelas mãos do Hélder e dos tipos da discoteca Estúdio Um (que hoje seria loja de discos) no último piso do Oita, ali ao cimo das escadas, antes de arremetermos aos melhores croissants da minha rua e do nosso mundo. Divago. Mas também lia nomes nesses jornais de que nunca tinha ouvido nada, só tocavam em Lisboa em salas que nem sei nem vi, o RRV, o Frágil, o Johnny Guitar.


Numa semana em que comprei o LP, jornal, vinha o desafio para ganharmos um disco: Songs Against Love and Terrorism, de Sei Miguel, trumpetista, jazzman, de que nada sabia a não ser o que tinha lido (era assim, e havia escribas que me faziam comprar discos às cegas, como o MEC fez com Os Dias da Madredeus). Dizia: o LP desafiava os leitores a mandarem um exemplo que ilustrasse o nome do álbum — e eu escrevi dois nomes num papel pequenino, e mandei a carta de Santarém (estava num encontro do MCE) para a redação, no limite do prazo: "Miguel Cadilhe e Maria Antónia Cadilhe." (Antigos entenderão: ele era ministro das Finanças, no cavaquismo, e frequentavam um jetset tão parolo como a embrulhada do imposto da casa do casal nas Amoreiras. Um poço de moralidades, o cavaquismo.)


Hoje, o disco mora ali na estante, difícil de ouvir, livre em tudo, e Sei Miguel foi sempre um tipo que fiz questão de acompanhar, e que descobri depois nos créditos de canções que sempre foram muito cá de casa, como Querelle dos Pop Dell’Arte. Morreu agora, soube-se ontem, terça-feira. Não tornou os murais das redes sociais num mantra de saudade, mas eu tenho de voltar a ouvir Songs Against Love and Terrorism.