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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 26, 2021

Scott já tinha ouvido Rodrigo sem saber que um dia lhe ia dar voz

Miguel Marujo

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Life Is Long é o álbum que Rodrigo Leão e Scott Matthew escreveram por e-mail. Australiano colabora com português desde 2011 e ouviu-o aos 17 anos nos Madredeus. Agora que Rodrigo regressa com novo disco, Estranha Beleza da Vida, onde se ouvem outras colaborações, recuperamos dois artigos de 2016, uma entrevista e a crónica de um concerto.


Era um rapaz nos seus 17 anos, vivia no meio do campo, num sítio onde era muito difícil ter acesso a música, mas chegou-lhe às mãos uma cassete na qual descobriu uma canção que o encantou. "Talvez durante um bom ano" ouviu O Pastor, assim se chamava essa canção dos Madredeus (do álbum Existir, de 1992).

"Fiquei completamente marcado por essa canção e devo tê-la ouvido, talvez durante um bom ano, a toda a hora, era uma das minhas experiências favoritas de sempre", recorda Scott Matthew, o jovem que muitos anos depois, em 2011, seria desafiado pelo músico e compositor Rodrigo Leão a emprestar a sua voz e palavras a uma canção. "Quando me convidou para fazer alguma coisa com ele, fiquei encantado...", confessa Scott, à conversa com o DN, com Rodrigo ao seu lado. "No início não fiz logo a associação", entre o compositor português e a canção que ouviu à exaustão na adolescência. "Mas cinco minutos no Google e, de repente, "oh, wow", é ele..." - e os dois riem-se.

Foi assim que se iniciou a viagem que agora se concretiza com Life Is Long, o disco a quatro mãos que é hoje lançado. A cumplicidade de Rodrigo e Scott salta à vista: sentados na esplanada da Casa Independente, ao Intendente, em Lisboa, os dois músicos explicam que o seu processo de criação é "natural".

Fizeram "tudo por e-mail". "Pode parecer estranho para as outras pessoas, mas para nós foi bastante natural. Quero dizer: nós os dois vivemos em diferentes partes do mundo", o australiano em Nova Iorque, o português em Lisboa, "mas não sentimos uma forte necessidade de comunicar sobre o que estávamos a fazer ou sobre o que estávamos a tentar alcançar. Foi mais uma resposta emocional a uma peça musical. Eu tive uma resposta emocional a isso, escrevia e enviava-lhe de volta. Não foi nada stressante, de todo", explica-se Matthew.

Rodrigo completa: "Nós não conversámos muito acerca de... Foi só comunicar através da música." Scott acrescenta que foi um processo "mais intuitivo" e o português acrescenta. "Quando começámos a falar em fazer um álbum completo, em conjunto, pensei que talvez devêssemos falar sobre o que iríamos fazer, mas depois acabámos por não o fazer..." - e riem-se de novo. "Continuámos a fazer da mesma maneira que tínhamos começado a fazer."

O processo foi "longo": o álbum foi gravado em junho de 2014 e misturado em janeiro deste ano. "Penso que, por causa disso, foi um processo agradável porque não tínhamos a pressão do tempo, não tínhamos uma data-limite autoimposta ou imposta pela editora. Tivemos muito tempo para escrever as canções. Foi agradável", descreve Scott.

Sem quase mexer no que registaram. "Não mudámos muito entre as gravações e as misturas", recorda Rodrigo. "Pensei, algures, que podíamos mudar mais do que aquilo que acabámos por mudar. Nós queríamos algo simples, nada de demasiado trabalhado, com muitos arranjos. Mas temos o apoio das cordas, três sopros, a bateria, os baixos, as guitarras..."

As letras apareceram sempre depois da primeira ideia da canção, conta o português. "Por vezes pensei, quando estava a tentar compor, na voz de Scott, claro... mas noutras canções só estava a tentar fazer alguns coros... Estava a tentar fazer algo para ser cantado", argumenta o compositor, que tem uma vasta obra instrumental. Neste disco, "só há dois pequenos instrumentais. É um álbum de canções com voz".

A voz masculina que acompanha Rodrigo é melancólica, como são as suas letras. O australiano prefere não falar em "tristeza". "Não gosto da palavra, porque me parece muito forte para aquilo que fazemos. Gosto de "melancolia" - e penso que há muita beleza na melancolia", responde. "A minha história de escrita de canções lida - há muito tempo já - com a melancolia, a perda e o abandono e tudo isso sobre amor e perda." Como a música de Rodrigo, que "tem essa atmosfera".

Scott sacode qualquer "depressão". "Nós ouvimos as canções, antes de iniciar estas entrevistas, e fiquei surpreendido com a quantidade de canções que têm uma mensagem positiva." Como a primeira canção, The Child, que lhe parece uma lullaby. "Eu inspiro-me naquilo que a música me diz, naquilo que deve ser, e em particular nessa soou-me exatamente como uma canção de embalar", diz.

Desligado o gravador, fechada a entrevista, com o calor de Lisboa a apertar, o australiano começa a cantarolar O Pastor...

 

É a vida. A melancolia em palco

Português e australiano apresentaram o seu Life Is Long no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, no âmbito do Misty Fest.

 

Scott Matthew chega-se ao microfone e diz aquilo que todos já ouviram: "Não sou conhecido por fazer canções muito felizes." Mas logo atalha que vai cantar uma canção de amor, algo "positivo", e ainda estamos quase no início deste domingo à noite, no Coliseu dos Recreios, onde o australiano e o português Rodrigo Leão - mais o quinteto que os acompanham - se apresentam com Life Is Long, o álbum que os dois lançaram no final de setembro.

Quando Scott fica sozinho em palco, já mais a meio, para interpretar duas canções, vai ao seu álbum de versões buscar Smile, de Charlie Chaplin, o palhaço triste que cantou "Smile, what's the use of crying?" - e o australiano fá-lo sem artíficios, a voz e a guitarra dedilhada. E logo depois, sozinho com a mesma guitarra, convida o público a acompanhar os coros de I Wanna Dance with Somebody, o hit de Whitney Houston, mais uma nota de humor que se solta. Como também quando reinterpreta o original com um "don't you want to dance with me boy... girl... someone... I don't care", e provoca risos ao público e ao próprio.

Quando se ouve Life Is Long, sabemos porque se explica Scott. Já ao DN, em entrevista, o australiano tinha recusado dizer que escrevia letras tristes, preferindo a palavra "melancolia". Mas é uma melancolia que transporta esperança, com espaço para resgatar, pelos arranjos vivos do violoncelista Carlos Tony Gomes, uma pitada mais do som que Rodrigo Leão há muito tece, entre a síntese da Sétima Legião e dos Madredeus, que fundou nos anos 1980, e o classicismo cinéfilo que pontua a sua carreira a solo. A banda que o acompanha traduz este caldeirão: há uma guitarra e baixo, um trompete e uma bateria, sintetizador e órgão, mas também o violoncelo e o violino.

O público sabe ao que vai: rendido à voz de Scott, familiarizado com os instrumentais que Rodrigo recupera de Cinema, aplaudindo os agradecimentos de um e outro para a família que está na plateia. Percebe-se melhor que é uma imensa família, um grande grupo de amigos. Life Is Long, a fechar antes do encore, que Scott apresenta como a canção de que mais gosta do álbum, é de facto a chave para esta saudade que se desprende de cada palavra e de cada tom.

No regresso ao palco, repete-se That's Life. "Grateful, no need for you explain/ no need for this to spell pain/this may not be a failure/this lose can be a gain." É a vida. E sabe bem ouvi-la interpretada assim neste palco.

[entrevista originalmente publicada no DN de 30 de setembro de 2016; e crónica do concerto publicada em 7 de novembro de 2016]