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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 29, 2019

Roubaram os Radiohead. Sorte a nossa!

Miguel Marujo

Radiohead.jpgOs Radiohead em 1997. Fotografia de Danny Clinch

 

Há coisas assim: este texto é um esboço do que seria um artigo ainda mais longo para o DN, a publicar até hoje. Já se sabe: no meu dia-a-dia sou jornalista de política do DN e, de quando em vez, dou uma perninha em coisas diferentes, como música, um prazer de escuta e escrita. Ao longo de uns 15 dias fui ouvindo e compondo ideias para o que seria um texto sobre os minidiscs dos Radiohead que foram pirateados — mas não o consegui terminar a tempo. Agora não faz sentido publicá-lo no DN: os 18 minidiscs estiveram disponíveis durante 18 dias, deixaram de estar este sábado e esgotou-se a possibilidade de os leitores do jornal serem também ouvintes destes sons. Fica o esboço de um texto que infelizmente não teve tempo para ganhar outra projeção. [E fica o link para um texto que numa pesquisa recente descobri no The Guardian: o jornalista britânico conseguiu ter tempo para ouvir e escrever um texto delicioso e onde é possível ouvir um dos minidiscs na íntegra, o MD115.]

 

Umas 18 horas de experiências com canções pelo meio

Quando piratearam os minidiscs de Thom Yorke saiu-nos a sorte grande. Do período de OK Computer, essa obra maior do cânone da música popular, os Radiohead disponibilizaram agora, por um breve período de 18 dias, material que permanecia praticamente inédito de 1995 a 1998.

radiohead_11.jpg

 

Ironizando com o roubo, a banda diz-nos que disponibilizam o material para que os seus fãs possam avaliar se estas quase 18 horas valem de facto 150 mil libras, o resgate pedido pelo hacker anónimo. Duvidamos que valha esse dinheiro. Mas o que se ouve é um precioso documento sonoro, de uma banda a reinventar-se, a ensaiar novos caminhos, rasgando formatos e convenções. Como estas canções já andam por aí podem muito bem ser postas cá fora, defendem os Radiohead. “Até que todos fiquemos entediados e seguimos em frente”, disparam. 

radiohead_16.jpg

 

Estas horas de “ideias e sons”, como descreve Thom, podem exigir paciência para evitar o tédio — não estamos perante 18 álbuns lineares, com uma produção cuidada, um alinhamento estudado, o que aqui está e que não era suposto ver a luz do dia é “apenas tangencialmente interessante e muito muito longo”, como lembrou Jonny Greenwood, guitarrista e baixista da banda. “Não [é] muito interessante”, explicou-se de forma mais seca Yorke.

Enganam-nos os rapazes dos Radiohead (sobretudo enganam os seus fãs mais empedernidos). É verdade que aquilo que ouvimos é, muitas vezes, apenas uma ideia, um som picado algures, uma canção abruptamente interrompida, como se a agulha do disco saltasse para uma nova faixa, samples curtos ou que se prolongam em gravações roufenhas, caseiras, esboços que mostram as possibilidades de explorar um tema, de construir uma canção, ou apresentações ao vivo, para testar canções que ganhariam vida própria e hoje pertencem ao panteão dos Radiohead — e da pop.

radiohead_12.jpg

 

Este lado experimental pede uma audição de garimpeiro, à espera da descoberta da pepita, como no minidisc 117, depois de uma sucessão de “loops”, como o próprio Thom intitula as “composições” que se ouvem, quando nos deparamos com uma versão crua de Karma Police, guitarra, bateria e voz, e quase sem pausas se segue I need a job, numa sonoridade com que OK Computer e Kid A viriam a romper.


[e o texto que Thom partilhou na conta bandcamp, agora indisponível]

we’ve been hacked 
my archived mini discs from 1995-1998(?) 
it’s not v interesting 
there’s a lot of it 

if you want it, you can buy the whole lot here 
18 minidisks for £18 
the proceeds will go to Extinction Rebellion 

as it’s out there 
it may as well be out there 
until we all get bored 
and move on 
Thmx

radiohead_17.jpg

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