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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 04, 2021

Quando chegou o verão que nos fez sonhar

Miguel Marujo

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Se há geografia para estas canções, essa geografia é a daquelas praias em que acordamos com a ronca do farol a guiar os barcos pelo nevoeiro e a pedir algo mais que a manga curta dos calores desses dias. É um verão sereno, um simples verão, quase melancólico, sem euforias de latitudes tropicais, que pede corpos dolentes — e este verão também se dança.

Se há tempo para estas canções, é este tempo: os primeiros acordes deste Verão, o novo disco dos Gift, revelados [em 22 de março de 2019] no tema-título deste álbum, pareciam mais agarrados ao que tínhamos ouvido em Altar (2017), fruto de uma colaboração com o músico e produtor Brian Eno, que se repete neste álbum, desde esta sexta-feira [29 de março de 2019] disponível nas lojas.

No entanto, Blue, o instrumental com que abre Verão (como Black abria Primavera), remete-nos para um novo campo de sonoridades a explorar por Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, Miguel Ribeiro e John Gonçalves. E se é impossível não pensar em Brian Eno, por entre as suas obras ambientais quase minimalistas, também se reconhecem propostas que já ouvíramos em Altar.

Este é um álbum que se segue a Primavera, o disco de 2012, como nos contam os próprios The Gift, na folha promocional. "Neste verão o preto e branco da Primavera dá lugar ao azul escuro. Neste verão o preto e branco da ausência de cor dá lugar ao vazio de uma sala de estar com luz do sol, ameno, sossegado, impulsivo... Dá lugar ao calor visto desde dentro. Inspira a reflexão. Neste Verão corre apenas uma brisa. Uma suave brisa."

No disco gravado entre Alcobaça, nos Estúdios Casa Azul, e Londres, nos Brian Eno Studios, os Gift trocam-nos a volta: Hammock é cantada em português, Vulcão e Sol trazem-nos palavras em inglês. As canções demoram-se, como em Impressiveness ou Foggy, que seduzem no jogo de cordas e voz, exaltam-se em Cabin, superam-se na luxuriante Lowland e arrebatam-nos em Vulcão. Se Lowland — na voz de Nuno Gonçalves — arrisca-se a entrar no cânone dos temas pop mais reconhecíveis dos Gift, Vulcão já está no panteão dos temas imprescindíveis do grupo originário de Alcobaça, num mantra sonoro que faz deste Verão uma paragem obrigatória.

Não é um verão de tainadas, este. É um verão que faz sonhar, o enorme oceano à nossa frente e a imensidão do espaço, almost like a magic satellite, como cantam em Lowland. Finalmente, chegou o Verão.

 

"Há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos"

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Há 20 anos, os Gift subiram ao palco da Aula Magna, em Lisboa, para um concerto que ficaria registado no imaginário da banda — e do público que ali foi e da comunicação social da época — como "mítico". Seis, sete meses antes, com Vinyl o álbum de estreia de 1998, a banda de Alcobaça tinha tido uma estreia menos apoteótica em Lisboa.

Agora, 20 anos depois, Sónia Tavares, Nuno Gonçalves, John Gonçalves e Miguel Ribeiro regressam a uma sala onde voltaram outras vezes para apresentar o novo disco Verãoacompanhado de uma revisitação de Primavera. Apesar do tempo, esta quinta-feira à noite é doVerão que vamos ter notícias.

Horas antes do concerto desta quinta-feira na Aula Magna, Nuno Gonçalves recorda ao DN que "há 20 anos, a esta hora, estávamos a ficar cheios de nervos". Hoje em dia, olhando para esses dias, o músico explica, numa breve conversa com o DN, o que mudou desde então — e o que se pode esperar hoje [9 de maio de 2019]. (E nos próximos dias 12, na Casa da Música, no Porto, e 17, no Teatro Académico Gil Vicente, em Coimbra.)

Vinte anos depois, este regresso à Aula Magna é um marco?

Sim, é um marco importante. É a uma sala a que já voltámos outras vezes, ao longo destes 20 anos, não é um regresso em primeira mão. Pontualmente visitámo-la, na altura do Film (2001) e do AM-FM (2004), e deu-se o acaso deste disco, deste Verão, ser 20 anos depois dessa mítica noite, que para muitos foi o espoletar dos Gift. Há 20 anos estávamos a esta hora a ficar cheios de nervos.

Para quem não esteve, como é que descreveria o concerto?

Ainda ontem, a Sónia partilhou uma reportagem desse espetáculo e vi o alinhamento que tínhamos tocado. Tínhamos dez canções de alinhamento, mais cinco de encore e no final repetimos o single da altura, o OK! Do You Want Something Simple? — e houve uma explosão de alegria com uma invasão do palco. O concerto ficou marcado por esse momento final, por essa explosão e por esse público.

Na altura era um espetáculo bastante ambicioso. Era uma banda que, na última vez que tinha tocado em Lisboa, tinha sido no São Luiz seis ou sete meses antes, e não tinha esgotado, tinha sido um concerto cheio, mas não tinha sido apoteótico. Foi o lançamento do Vinyl. E seis meses mais tarde esgota uma sala grande em Lisboa, sem nenhuma máquina por trás, sem nenhuma editora, sem nenhuma produtora, e foi sobretudo com isso, com a música dos Gift, e acho que isso é que é notável nesta história!

Uma banda que não era de Lisboa — e isto hoje é muito importante de focar, porque vivemos outra vez muito o que vivíamos nos anos 90: ou vens de Lisboa ou não prestas para nada, ou pelo menos como não te conheço muito bem não sei até que ponto é que vales assim tanto, o que ainda é pior. Esta banda esgota uma sala mítica em Lisboa — e a partir daí as dúvidas ficaram dissipadas. Os Gift marcaram muito mais concertos, tiveram muito melhores críticas, tocaram muito mais na rádio, em seis meses foi uma ascensão apoteótica.

O alinhamento ainda não está definido. Até que ponto se podem esperar por surpresas?!

Gosto muito deste espetáculo porque estamos a fazer uma coisa que quase nunca fizemos. Nós nunca preparamos o alinhamento, o alinhamento é feito entre o ensaio do som e o espetáculo, é feito por mim e é decidido quase de forma impulsiva, consoante o que acho que vão ser os momentos altos e baixos do espetáculo.

Desta vez como também temos esta missão de tocar em revisão o álbum Primavera e o álbum Verão, temos um conjunto de canções forte e intocável destes dois discos. Por um lado, estamos muito excitados por tocar as coisas novas, por outro lado, muito excitados também e motivados por conseguirmos voltar a este disco [Primavera, 2012], que infelizmente não teve espaço no alinhamento ao longo destes anos, porque é um disco bastante solene, feito para teatros, não é para praças ao ar livre, com 10 mil ou 15 mil pessoas a ver. É mais calmo, mais sereno, este é o mote forte do espetáculo.

Uma banda como os Gift já não tem muito a provar, mesmo a nós próprios, interessa-nos essa ideia calma e serena de apresentar as canções. É um espetáculo muito bonito, muito belo, com uma interação muito frágil entre o vídeo e a música que fazemos, com um convite para respirar, numa altura em que tudo é rápido, tudo tem que ser dançável e imediato. Agrada-me imenso. Há uma eletrónica muito mais pausada, relaxada.

Também é um concerto tecnicamente difícil para todos os músicos. Não é fácil juntar todas estas coisas em palco, temos vibrafones, um órgão de fole, o piano sempre presente, muitas vozes, uma bateria muito pouco convencional, que tem muitos samples a disparar, uma guitarra clássica...

Há um trabalho só vosso ou contam com a colaboração de outros?

Contamos com a colaboração de mais três músicos, o Mário Barreiros, o Paulo Praça e o Israel Pereira na guitarra clássica. Acho que o sucesso de uma banda hoje em dia é não haver uma especialização de cada músico: não podes tocar numa banda e ser só baixista ou só guitarrista. Esta ideia de circular por vários instrumentos acaba por ser interessante e estimulante.

E contam revisitar Vinyl, à passagem dos 20 anos?

Não creio, os Gift nunca foram uma banda a olhar para trás, nunca na vida olhámos para trás. Inclusive nesse concerto há 20 anos estreámos uma música, que faria parte do Film em 2001. Gostamos mais de olhar para a frente, não temos essa paixão de nostalgia de revisitar muita coisa, mas não sei ainda. Estamos muito contentes com este disco, por isso não faz sentido roubar tempo ao alinhamento. Na Aula Magna, é preferível apostar em coisas novas, como Vulcão, Lowland ou até Sol.

 

E eles convidaram-nos para a sala de estar deles

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Há 20 anos, a Aula Magna acabou com uma invasão do palco. Agora, os Gift voltaram a juntar os amigos no conforto da sua sala de estar, para um concerto que prometia ser relaxado mas também acabou com o palco invadido. Uma festa!

Aula Magna foi esta quinta-feira à noite uma imensa sala de estar para a qual os Gift convidaram amigos e conhecidos, uns que há 20 anos já ali tinham estado a festejar, de tal forma que invadiram o palco, outros que nem nascidos eram - e que também acabaram a invadir o palco no final da noite de uma imensa festa.

Como amigos que sabem receber, contaram-nos histórias, riram-se e brincaram, elogiaram os Cure e desdenharam do que Madonna anda a fazer, agora que ela até é nossa vizinha, ofereceram-nos duas horas de alegria e melancolia, alguma esperança, sem grandes danças (disseram eles). Mas, no fim, como acontece sempre entre amigos, houve dança e palmas e barulho, e uma nova invasão de palco, 20 anos depois, agora com Big Fish, do álbum Altar.

Para começo de conversa, no "conforto da sala de estar" que foi esta noite a sala da Universidade de Lisboa, os Gift trouxeram-nos o seu Verão, o último álbum, pretexto para a atual digressão, que revisita também Primavera (2012). E é um verão diferente que este disco nos traz, disseram-nos em diálogo Nuno Gonçalves e Sónia Tavares, e é assim: mais calmo e relaxado, a pedir a dolência própria daqueles longos três meses de verão que eram as férias grandes da adolescência de muitos que ali estavam.

Nada se fazia com pressa, nada era urgente, havia tempo para respirar - e a primeira parte do concerto vive muito dessa eletrónica relaxada, como tinha antecipado ao DN Nuno Gonçalves, mesmo quando foram buscar You Will Be Queen ao álbum de 2017, Altar, que contou com Brian Eno na composição e produção.

À solenidade de Blue, o instrumental que abre Verão e com que arrancou o concerto, juntou-se a voz de Sónia, e que voz!, para nos trazer Hammock ou Serpentina, antes de chegar a Verão, a canção-título que, ao vivo, se mostra bastante eficaz, provando assim a escolha acertada para single de apresentação do disco.

De Primavera esta noite hipnótica apresentou-nos Open Window, Primavera, La Terraza ou Meaning of Life, um ciclo interrompido para uma surpresa no alinhamento, como garantiu Nuno Gonçalves, com Fácil de Entender (2006), e para uma segunda viagem a Verão, a metade para lá do meio do disco, mais vibrante, como descreveu Nuno, "mas não muito", como brincou Sónia.

Impossível não ser muito vibrante: Cabin, Lowland ou Vulcão pediram corpos a remexerem-se nas cadeiras largas da Aula Magna. E se os Gift tinham pedido desculpa por fazerem uma festa mais recatada, quando chegaram a Love Without Violins (com Brian Eno a cantar no ecrã) e a Big Fish já ninguém se lembrava dessas desculpas. Os amigos são para as ocasiões e para a festa. E no palco, para além de Nuno e Sónia, de John Gonçalves e Miguel Ribeiro, estiveram ainda Mário Barreiros, Paulo Praça e Israel Pereira.

No encore, houve Big Fish a fechar em delírio, como houve Live To Tell, porque afinal também gostam de Madonna e é uma canção que se cantava naqueles verões longos com tempo para tudo. E houve antes Music, de AM-FM (2004), com Sónia a explicar-nos porque nos receberam tão bem na sua sala de estar: "I'm doing it for music, I'm doing it for love, I'm doing it for everyone around me."

[textos originalmente publicados no DN em 28 de março de 2019, sobre o álbum, e em 9, no caso da entrevista, e 10 de maio de 2019, sobre o concerto; foto do concerto de "há 20 anos" na Aula Magna, © Arquivo DN; foto do concerto de 2019, © C.V.]