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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Setembro 22, 2015

Patti (still) have the power

Miguel Marujo

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Talvez tenha sido o concerto da campanha que anda pelo país. Patti Smith subiu ao palco do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, puxou da folha de papel, cantou, declamou, gritou, reclamou um outro mundo.

People have the power, cantou ela, a pulmões plenos, de garganta enxuta, no hino quase final de um concerto de mais de uma hora e meia em que Patti revisitou na íntegra o seu primeiro álbum, Horses, ícone de uma década, a de 1970, que se tornou resistente ao tempo, sem rugas, o rock de sempre. E que muitos miúdos, apenas miúdos, tomaram como seu e acompanham agora, palavra a palavra. De braços no ar, corpos em uníssono que seguem os versos e os ritmos.

E a palavra foi tudo esta segunda-feira à noite numa Lisboa rendida logo desde os primeiros acordes de Gloria. "Jesus died for somebody"s sins but not mine" é senha e contra-senha para o Coliseu (imagem feita) vir abaixo. Talvez se perceba melhor assim: Patti Smith, a lenda viva, está ali, "feliz por regressar" a Lisboa, a cantar canções de uma vida.

A sequência é a do álbum, com Redondo Beach e (de folhas na mão para recitar e óculos que ajudam à leitura) Birdland. Foi assim que tudo começou, poetisa, jovem, a dizer poesia, enquanto Lenny Kaye - que continua a seu lado - compunha ritmos e sons para as palavras. E depois viria Horses, em 1975, que fecha o seu lado A com Free Money (mas antes Patti precisa de uma bebida, mas afinal, explica entre risos, é apenas "gengibre biológico, limão biológico e água portuguesa biológica").

É o tempo do vinil, e com gestos a performer, como se definiu ao DN, explica como se faz. "Agora viramos o disco para o lado B, metemos a agulha na espira e tocamos o lado B": Kimberly, e depois uma declaração mútua de amor entre Patti e a plateia; Break it Up - dedicada ao anjo Jim Morrison, esculpido no mármore - e logo a seguir Land, que volta a mexer com a mole humana que as luzes revelam compacta a dançar, "c'mon motherfuckers", invetiva Patti da boca do palco, juntando às palavras desta canção um hino de amor a Lisboa, a cidade cheia de energia, a cidade mágica, a cidade poética, a cidade das colinas, onde se pode subir ao topo para observar o mundo que tem de ser mudado.

Ao elogio, a elegia, a canção que se segue, com nova dedicatória, agora para Jimmi Hendrix. Elegie é uma canção que tem 40 anos, "muitos de vocês ainda não tinham nascido", o que a deixa "muito orgulhosa" por hoje estarem ali para a ouvirem, numa plateia onde também se replicam os cabelos grisalhos de Patti e Lenny. Elegie é uma canção dedicada a todos os amigos, familiares e animais que partiram. E o público acompanhará com aplausos a enumeração de alguns dos que já partiram. Hendrix, Morrison, mas também Janis Joplin, Joe Strummer, Amy Winehouse, Kurt Cobain, Fred "Sonic" Smith, Robert Mapplethorpe ou Lou Reed.

Quase uma hora de Horses fica arrumada, mas já com a banda a fazer uma vénia Patti tem tempo para Pissing in a River, antes de Lou Reed subir de novo ao palco. O quarteto que acompanha a americana fica em palco para um medley surpreendente por três temas dos Velvet Underground: Rock and Roll, I'm Waiting For The Man e White Light White Heat. Patti regressará nos acordes finais desta para cantar Beneath the Southern Cross, dedicada à "vida", assim dito em português, ela que durante a tarde se tinha deslocado à Casa Fernando Pessoa, poeta de que gosta e que a surpreendeu pelos livros que tinha.

É a vida que comanda a celebração final em Because the Night, dedicada ao namorado de sempre, Fred "Sonic" Smith ("because the night belongs to lovers, because the night belongs to us", braços abertos, o público em uníssono, o sorriso na cara); em People Have the Power, e todas as palavras de ordem que ouvidas quase 40 anos depois permanecem atuais. "People have the power, vocês tem-no, usem-no", atira já no fim. E fecham-se as luzes, e Patti acena. O Coliseu resiste e o regresso ao palco acontece para um My Generation, dos The Who, cantado cheio de suor, raiva e nervos. "We the people", atira, punho cerrado. Patti tem 68 anos. Really? Patti still have the power.

 

publicado hoje no DN; foto de Orlando Almeida/Global Imagens
[Nota - O jogo de palavras no título do artigo com o título da canção é apenas isso. Bem sei que gramaticalmente não é correto.]

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