Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 31, 2021

Obsidian, o país a que nunca fui mas por onde viajo muito

Miguel Marujo

JONSI_SHIVER-PRESS_2_crop.jpeg

 

No solstício do verão de 2016, no dia mais longo do ano, fui literalmente guiado pela Islândia: um carro equipado com uma câmara deu a volta à ilha pela route one, uma estrada da circunvalação pelo país todo. A viagem de 1332 km foi transmitida em direto durante 24 horas, numa emissão para a televisão islandesa e no youtube, com uma banda sonora criada a partir de um software que gerava música a partir do tema óveður dos Sigur Rós, reinventando indefinidamente sons para criar novas e imprevisíveis direções musicais em tempo real. 

Nunca fui à Islândia, e gostava muito (talvez um dia). Mas tenho viajado muito pelo país, seja por aquela emissão de slow TV daquele dia de solstício, seja por culpa de Björk, Múm ou Ólafur Arnalds, entre outros nomes que me levaram tantas vezes pelas paisagens quentes e gélidas da Islândia. 

Agora é Jónsi que nos convida para mais uma viagem. O também vocalista dos Sigur Rós trouxe-nos um disco novo, lançado de surpresa este sábado, dia 30, e — com a chuva e o vento lá fora — mergulhamos neste território frio, despido, cru e rugoso que a terra moldou no meio do Atlântico Norte. Em nome próprio, Jónsi não se afasta por completo do som dos discos do grupo que o revelou ao mundo, até porque o seu registo vocal o torna facilmente identificável, no entanto, há uma viagem sonora que nos agarra a outra terra, mais funda e ambiental, menos pop, por vezes quase industrial, mais feita de água e fogo.

O título do álbum, Obsidian, remete para o “vidro vulcânico natural formado quando a lava expelida de um vulcão arrefece rapidamente com um crescimento mínimo de cristais” — ou seja, trata-se de uma rocha ígnea, palavra de wikipedia. E é para essa atmosfera que nos leva o longo vídeo que Jónsi revelou neste mesmo sábado para acompanhar a audição do disco na íntegra, feito de formas etéreas, poeiras que dançam, partículas que se soltam, pedras que saltitam ou fragmentos que vão caindo, num espesso ecrã a preto e negro. 

Este é no entanto um disco incandescente, com uma voz que tanto nos sussurra como plana sobre o calor gélido de sons que se desprendem das rochas de lava, de géiseres feéricos, de lagos que fervem, de montes que se despenham no mar, de uma estrada monótona que volteia a ilha — onde nunca fui, mas por onde continuo a viajar, também neste Obsidian. Lá fora, o vento faz bailar a chuva.