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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Fevereiro 24, 2015

O boné do operário

Miguel Marujo

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Uma semana depois da criação do cardeal de Lisboa, Manuel Clemente, é prematuro antecipar que mudanças trará esta nova responsabilidade ao seu magistério. Há dias, nas páginas do Diário de Noticias, um padre lisboeta, Vitor Gonçalves, recordava que o Papa, vindo de perto do fim do mundo, «quase que transformou o barrete cardinalício num boné operário».

Regressado a Lisboa como patriarca, no dia em que nos Jerónimos cumprimentou um a um os fiéis que celebraram consigo a entrada na diocese, Manuel Clemente disse de si que era «um homem expropriado pela utilidade pública». Agora ao receber o barrete, que o levará a ficar mais perto de Francisco, como seu apoio e sustentáculo, talvez o bispo de Lisboa o assuma como o boné de um operário. O país precisa.

O cardeal-patriarca recordou várias vezes, na sua primeira conferência de imprensa, já investido no cardinalato, na segunda, dia 16 de fevereiro, a homilia do Papa na missa da véspera. E aí o Papa foi duro aos ouvidos dos novos cardeais, pedindo-lhes mesmo que saíssem «da casta»: «Não se sintam tentados a estar com Jesus, sem quererem estar com os marginalizados, isolando-se numa casta que nada tem de autenticamente eclesial».

Francisco quer pois recentrar a prática de uma Igreja, que tem na opção preferencial pelos pobres a chave do seu magistério. E ao pedir aos cardeais que abandonem os seus paços e se deixem inquietar pelos marginalizados, o Papa recordou entre estes os desempregados. Uma realidade demasiado próxima do que se vive no dia a dia em Portugal. Logo: é uma interpelação direta que o cardeal-patriarca terá de aprofundar no tempo e na obra da diocese.

Manuel Clemente parece já ter assumido também esse discurso. Na sua mensagem da Quaresma, o patriarca notou que «mesmo alguns sinais de recuperação económica demoram em repercutir-se na vida e no estado de espírito de muitas pessoas e famílias, que por excessivos encargos e falta de trabalho e perspetivas não conseguem satisfazer necessidades básicas, nem olhar com otimismo o futuro, especialmente os mais jovens». O boné do operário parece ser também o seu.
[texto de opinião publicado em Fátima Missionária]

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