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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 01, 2020

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

Miguel Marujo

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É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Em Mateus 27, 61 (e não 51, como aponta Nick, numa provável gralha), sintetiza-se esse instante. “Maria de Madalena e a outra Maria permaneceram em frente à sepultura.”

“Eu acho que esta frase única e assombrada é provavelmente o meu momento favorito da Bíblia”, comenta Nick Cave, no seu site The Red Hand Files que já vai nas 90 atualizações, onde o músico, cantor e compositor se dedica a responder a perguntas de leitores sobre o seu processo criativo, a poesia que lê ou a música que ouve e faz, a sua vida e os animais lá de casa, a morte do filho adolescente e a sua fé e espiritualidade ou os sonhos de que não se lembra, e sobre temas que assombram as canções e a sua escrita, como o amor e a morte, o sexo e a religião, muitas vezes a religião.

É o próprio quem o reconhece, também a propósito da pandemia que se espalha pelo mundo. Radicado na Grã-Bretanha, Nick Cave regista-o, modesta e ironicamente, num dos mais recentes textos: “Os Red Hand Files sempre foram um espaço no qual eu pude oferecer noções existenciais duvidosas, meditações religiosas, conselhos infundados, senilidades milenares e aborrecimentos gerais, e, ao mesmo tempo, espero estender um pouco de bondade e compaixão humanas. No entanto, esse tipo de ruminações veio de uma época mais privilegiada e feliz, quando tínhamos oxigénio para refletir e tocar. As coisas mudaram, estamos diante de um inimigo comum — imparcial, insensível e de uma magnitude incomensurável — e não é mais o tempo de abstrações. Agora é a hora de ser cauteloso com as nossas palavras e as nossas opiniões.”

Dias antes tinha publicado, também neste site, o anúncio do adiamento da sua digressão europeia, que se iniciaria em 19 de abril em Lisboa — como tantas outras atividades que foram suspensas, canceladas ou adiadas em cidades cada vez mais desertas. “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades”, descreveu agora o Papa Francisco. Estas trevas “apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares”.

Quando da morte do filho de 16 anos, o processo criativo de Nick Cave ficou suspenso. Talvez agora como então, o australiano sofra com isto. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho”, sintetizou.

Antes destas sombras, Nick Cave preferia o brilho de Maria Madalena, defronte do túmulo. Afinal, aquela mulher foi “mal julgada pela história e a sua importância fundamental na história cristã minada pelo patriarcado religioso”. Mas ele vê nela um papel central nos textos evangélicos. “Maria Madalena continua a ser o núcleo subversivo em torno do qual a história do Evangelho gira.”

Para Cave, “Maria Madalena é o símbolo mais comovente do amor verdadeiro e resiliente, tanto terrestre quanto espiritual. Ela ‘permanece’ na entrada da sepultura, a principal testemunha entre dois eventos monumentais — a crucificação e a ressurreição — que se imprimiram na história e moldaram não apenas o pensamento ocidental, mas também a essência do que somos, gostemos ou não disso”.

“Maria Madalena, para sempre parada na porta do túmulo numa vigília fiel, contemplando para lá da história, está embutida no nosso subconsciente. Ela é o verdadeiro ícone do luto feminino — complexo, elementar, paciente, empático e cheio de tristeza, e uma manifestação de amor físico e transcendente — o verdadeiro herói humano da história cristã”, conclui.

Agora que a pandemia de covid-19 levou Nick Cave a adiar a sua digressão europeia, é com as palavras que o australiano continua presente — e com a música de qualquer um dos seus álbuns. Uma amiga sua comparou este “nosso novo mundo” a um “navio fantasma” — “e talvez ela esteja certa”, admitiu. “Recentemente, ela perdeu alguém querido e reconhece agudamente o sentimento premonitório de um mundo prestes a ser destruído — e que precisaremos nos recompor novamente, não apenas pessoalmente, mas socialmente.” Com o espanto daquela mulher defronte do túmulo, a contemplar para lá da história.

[texto ligeiramente adaptado de uma publicação original no Sete Margens, de 30 de março de 2020; foto: a personagem de Maria Madalena, interpretada por Monica Bellucci, no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

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