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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 18, 2016

Música para ouvirmos estes dias

Miguel Marujo

 

Cheguei a Sorrow pelo inevitável Nuno Galopim (em escassos dias foram quatro belas descobertas, esta incluída), num texto na Máquina de Escrever que nos conta o que se ouve nestes mais de 50 minutos e nos dá o contexto todo (até como dizer corretamente Górecki). Escreve-se ali que, com este Sorrow – A Reimagining Of Gorecki’s 3rd Symphony, "o saxofonista Colin Stetson mais não faz do que juntar o seu nome a [uma] lista de ilustres intérpretes que “ousaram” (e ousar é sempre bom) olhar para uma obra clássica segundo o seu olhar, refletindo assim, também, as marcas do seu tempo".

Essas marcas, indeléveis, permanecem agarradas aos nossos dias, a estes tempos. Como nota Nuno Galopim, "as memórias do Holocausto e da presença nazi sobre a Polónia, que serviram de inspiração primordial para a Sinfonia Nº 3 de Górecki não estão assim tão distantes no tempo. E do presente chegam-nos, a cada ano, novos exemplos de intolerância e morte. Além disso, o clima toldado por um regime totalitarista – como o que caracterizava a Polónia de 1976 quando Górecki compôs a sinfonia – não é ainda meteorologia política erradicada do planeta".

Ontem, um deputado federal brasileiro ousou louvar um militar-torcionário para humilhar alguém que, independentemente das políticas mais ou menos corretas, foi torturada, cuspindo na democracia que o elegeu e que lhe permite estes dislates que a ditadura que ele venera nunca toleraria em sentido contrário. Hoje, ao descobrir e ouvir Sorrow, chego à conclusão que este lamento é uma banda sonora possível para o Brasil destes dias. Não há samba de uma nota só que lhes valha. E que nos conforte.

 

- o álbum na íntegra, no Spotify: