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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 24, 2025

Lá longe, bem longe: um Fórum Social Mundial para sair para a cidade

Miguel Marujo

Há 16 anos, acompanhei como jornalista, convidado pelos Missionários da Consolata, a edição do Fórum Social Mundial (FSM) de 2009, em Belém do Pará, Brasil. Por estes dias, Belém foi ainda mais central no mundo, com a realização da COP30. Mas os resultados são amargos, sem referências à eliminação de combustíveis fósseis. Recupero esta crónica-notícia, escrita em 2024, sobre um novo FSM, que ecoa também sobre o palco de contradições que também é a conferência anual sobre ambiente — e que foi mais nota de rodapé em telejornais ou notícia pequena nos jornais do que a manchete de um mundo sedento de outro clima.

 

 

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Lá longe, bem longe, no Nepal, e ainda mais longe dos debates que por estes dias fazem a atualidade política portuguesa, decorre desde quinta-feira, 15 [de fevereiro], até segunda-feira, 19 [de fevereir de 2024], o Fórum Social Mundial 2024. À distância, a tentação de vermos este evento como algo meramente folclórico é grande – mas é mais revelador de fortes preconceitos e uma enorme ignorância, do que qualquer outra coisa.

A capital daquele estado asiático, Kathmandu, é palco deste evento que se assume como uma plataforma para a convergência de uma gama diversificada de participantes, incluindo movimentos sociais, trabalhadores, agricultores, grupos da sociedade civil, comunidades marginalizadas e os que são “afetados pelos impactos do capitalismo neoliberal e da privatização”. Assim, sem rodeios. As igrejas também participam – por exemplo, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) marca, mais uma vez, presença no encontro –, em muitos casos a um nível mais basista, com missionários, religiosos ou leigos.

Há [16] anos, em janeiro de 2009, em Belém, junto ao rio Guamá, encostado à imensa bacia do rio Amazonas (e durante muito tempo fixou-se a sua foz nesta cidade), houve um mar de gente que chegou até à capital do estado brasileiro do Pará: foram 133 mil participantes de 142 países, incluindo 1.900 indígenas de 120 nações, para um total de 3.210 atividades previstas. Também por lá andaram três mil crianças e adolescentes, num espaço especialmente preparado para o efeito e a organização do evento envolveu, então, mais 17.500 pessoas no trabalho voluntário de apoio, expositores, artistas, jornalistas – e mais sete mil na segurança, incluindo a Força Nacional de Polícia.

No meio de tanta água (65% do território do município espraia-se por 42 ilhas), os mosquitos tiravam a paciência naquela amálgama de gentes, ideias e vontades. Belém é dona de um charme dolente, com a saudade a impregnar-se em edifícios antigos, havia carros de vidros fumados que gritam “Jesus é sucesso”, a polícia mostrava-se muito no meio de moleques, a manga chegava ao porto depois de horas de viagem, os urubus esvoaçavam sobre os restos do mercado, o elétrico parecia só existir em carris e sinais, e a Rua de Aveiro que existe no mapa, mas que não cheguei a ver. Belém entranhou-se. Sem verdadeiramente se estranhar.

Olhando ao redor, via-se uma quantidade extraordinária de projetos que fervilhavam por todo o mundo. Em Belém, soltavam-se ideologias esclerosadas, havia missionários católicos em Moçambique, na Colômbia ou no Roraima a fazerem aquilo que o Estado ou o mercado, ou quem quer que devia fazer, não fazia. Havia associações que participavam ativamente a definir a vida da sua cidade, da sua região, até do seu país. O orçamento participativo não era verbo de encher páginas de jornais – havia cidades que praticavam esta forma de democracia e de cidadania. Também havia folclore, sim, também resistia um ideário velho e gasto, mas o que surpreendia era o facto de, já nesse tempo, este acontecimento que mexeu então com mais de 130 mil pessoas ser apenas uma nota de rodapé em telejornais ou uma notícia pequena nos jornais.

O Fórum Social Mundial também era (e ainda será) um palco de contradições. Onde se acumulava lixo, quando se discutia um mundo mais limpo. Onde havia automóveis a mais, quando se queria um mundo mais verde. E, então, naquela Belém, fez falta pensar num Fórum para lá do seu território: sair da discussão para a praxis política, sair da tenda para a cidade. Ultrapassar o simples slogan ou a palavra de ordem fácil é sempre uma tarefa mais árdua do que parece. O Fórum cresceu muito naquele 2009 – com os tais 133 mil participantes e mais de cinco mil organizações. Mas necessitava de crescer para o mundo, olhar para quem estava de fora, de lado, na margem, e entender que devia traduzir a riqueza daqueles dias de debates nos intervalos entre fóruns.

Nesse tempo, o Fórum Social Mundial de Belém do Pará era um exemplo: a sua realização aconteceu em dois campos universitários enormes, o da Universidade Federal Rural da Amazónia e o da Universidade Federal do Pará, que obrigavam a caminhar muito. Mas outro tipo de exercício ficou por fazer. Junto às universidades, Guamá e Terra Firme eram uma real imersão naquele Brasil de contrastes, com imensas favelas, caídas à beira da estrada, que deviam interpelar mais quem participava no Fórum. Afinal, havia uma fronteira, impercetível, que separava estes territórios. Um outro mundo é possível, lembrava o outdoor do Fórum. Mas só saindo para a cidade.

[Dezasseis] anos depois, noutro país e noutro continente, o Fórum Social Mundial (FSM) procura manter viva a fórmula e o objetivo de criar um “pensamento reflexivo, um debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a livre troca de experiências e a interligação para ações efetivas”, como descreve o CMI, no seu site. Criado em 2001, em Porto Alegre, no Sul do Brasil, com a visão de “Outro mundo é possível”, a edição de 2024 do FSM tem como tema o apelo “Outro Mundo Agora”. O relógio da Terra deixou de ter tempo para grandes futuros, sem ações imediatas.

Durante este fim de semana, há painéis temáticos sobre “Justiça Climática, Ecologia, Transições Justas, Habitat e Desenvolvimento Sustentável”, ou “Terra, Agricultura, Soberania Alimentar, Agroecologia, Energia e Recursos Naturais”, e no sábado, 18, decorre um evento paralelo sobre o “Jubileu da Dívida em Tempos de Mudanças Climáticas”, no qual, segundo informação do CMI, líderes religiosos e comunitários, bem como especialistas de países vulneráveis ao clima, compartilharão experiências vividas e estudos de caso sobre as interseções entre a dívida externa e as alterações climáticas.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 16 de fevereiro de 2024; imagem: na 9.ª edição do Fórum Social Mundial, em Belém, Brasil, em 2009, povos indígenas da Amazónia lideraram uma marcha pelas ruas da capital do Pará. Foto © Marcelo Schneider/WCC-CMI]