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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Setembro 04, 2022

Fucking, Nick

Miguel Marujo

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O gajo insiste em semear as melhores bad seeds deste mundo — de fato negro, camisa branca, fucking obrigado e uma noite visceral, apocalíptica e cheia de raiva e amor, há contradições maiores, e sobe ao palco à hora certa e logo nos pede que nos preparemos, get ready for love, e nem o alinhamento igual ao da véspera em Málaga, que vamos antecipando no pequeno ecrã, retira uma linha à surpresa de uma interpretação emotiva, que se sente na voz, no humor, nos parabéns à Paula, nos olhos que se emocionam, I need you, 'Cause nothing really matters, I need you, Just breathe, just breathe, no coração que bate, motherfucker, bum-bum-bum, é um tiro e outro e outro, e é sangue que bombeia o coração, sentes o coração bater, pergunta-nos, e há a história que ele nos conta de uma rapariga, como se fosse a primeira vez, e uma e outra vez que ele respira, ao piano, Come sail your ships around me, And burn your bridges down, sempre esta proximidade, abraços e regressos, That she will keep returning, Always and evermore, Into my arms, olhares e ficar a seu lado, I am beside you, I am beside you, Look for me, look for me, esperando sempre o regresso, talvez de um filho pródigo, And it's bringing my baby right back to me, Well there are some things too hard to explain, e depois os olhos marejados, e o obrigado, Lisboa, para sacudir o piano, a tristeza, para logo abrir os braços como o profeta bem acolhido nesta casa, o pastor que exorciza demónios e vergonhas, Tupelo's shame, O God help Tupelo!, um culto em que se sabe ao que se vai e mesmo assim se surpreende, e a banda que é um bando de amigos acólitos e o coro saído daquela igreja que dança, bate palmas, grita aleluia, faz a festa, é uma festa, e é uma fé enorme esta, entre as descargas das sementes ruins e a voz que vocifera just breathe, just breathe, e todos respiramos, bebemos deste sangue e deste cálice. 

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Não me peçam que saiba descrever com palavras precisas a emoção maior que foi (que é) este concerto de Nick Cave & The Bad Seeds — no seu regresso a Lisboa. Foi o último desta fucking digressão de três meses pela Europa. Nunca sairá da nossa memória. Fucking, Nick, bem nos divertimos.

 

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[Fotos de João Amaro Correia]