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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 15, 2015

Evocar o 25 de novembro. Com um governo apoiado pela esquerda

Miguel Marujo

25-11-1975.jpg

 

O líder parlamentar do CDS, Nuno Magalhães, anunciou já há duas semanas (estava ainda o confronto parlamentar mergulhado apenas em retórica) a vontade do partido evocar o 25 de novembro de 1975, por se assinalarem 40 anos. "O 25 de Abril deu-nos a liberdade, o 25 de Novembro confirmou-a perante ameaças de regimes totalitários. Creio que, na casa da democracia que é a Assembleia, é fundamental que se possa fazer uma evocação o mais consensual possível e com a dignidade que essa data e esse aniversário merece", explicou-se.

É uma justificação plausível. Os 40 anos - um número mais redondo - assinalam-se este ano, não antes. É verdade que há quem, mais à direita, só goste de assinalar o 25 de novembro, esquecendo o 25 de Abril, quando só a Revolução dos Cravos acabou com a ditadura. Só o 25 de Abril. Como escreve Manuel Carvalho, na introdução de um bom dossier na revista 2 do Público sobre a data

"a 25 de novembro de 1975, Portugal viveu o momento definidor das incertezas da revolução de Abril. Para trás ficaram dias de medo, esperança e radicalismo. Chegou-se a temer a guerra civil. A democracia liberal ou burguesa triunfou, mas esse tempo de sonhos radicais deixou marcas."

 

No extenso dossier do Público percebemos como o PCP, há 40 anos, 

(em 1975, antes da Constituição, antes dos governos constitucionais, antes do fim do Conselho da Revolução, antes da adesão à CEE, antes da vitória do primeiro Presidente civil, Mário Soares, antes da queda do muro de Berlim, antes da coligação de esquerda em Lisboa, antes da normalização democrática, antes das dissidências comunistas, antes do tempo que foi passando, antes do país que se modernizou, europeizou, fundocomunitarizou e inchou) 

tinha um projeto que tropeçou naqueles dias. O 25 de novembro significou, como se escreve atrás, o triunfo da democracia liberal, e nesse triunfo Ramalho Eanes, Melo Antunes e Mário Soares (entre outros) tiveram um papel fundamental porque incluíram o PCP na democracia que acabava de triunfar, não o excluíram. Se em 1975 a inclusão do PCP na democracia foi ponto de honra dos vencedores desse dia, 40 anos depois um governo do PS, apoiado pelo BE e pelo PCP, é o culminar de um ciclo, é fechar o Documento dos 9, é rematar a vitória da democracia liberal. Não haverá melhor evocação do 25 de novembro, tenho de concordar com Nuno Magalhães.

 

[Manuel Carvalho também escreve: "Talvez um Presidente mais conciliador e mais hábil politicamente fosse capaz de atenuar o clima de cisma iminente que se começa a desenhar na jovem democracia...". Para depois concretizar: "... logo em julho de 1974. O marechal António de Spínola não era nem uma nem outra coisa." Por momentos, achei que estava a falar de Cavaco Silva.]
[foto Público]

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