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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 16, 2025

E um pingo de vergonha, tem?

Miguel Marujo

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Diz-nos a Wikipédia que Fernando Manuel de Almeida Alexandre é um professor e político português. Tem sido Ministro da Educação, Ciência e Inovação desde 2024, agora no XXIV Governo Constitucional, liderado por Luís Montenegro. Acrescenta a pesquisa, que nasceu a 4 de janeiro de 1972, na Gafanha da Nazaré (Ílhavo), a meia dúzia de quilómetros de minha casa. Terá frequentado as mesmas escolas que eu. Estudou depois na Universidade de Coimbra e depois na Universidade de Londres.

O ministro é mais velho que eu 13 dias. Não sei qual o contexto social e económico da família dele, nem me interessa. Aquilo que ele diz, hoje, enquanto governante é que me leva a escrever isto. Vivi numa residência universitária, quando fui viver para Lisboa. Era uma antiga messe militar, se a memória não me falha, transformada em residência: um apartamento grande, com quartos que albergavam três camas em cada um, três armários metalizados individuais e mesinhas de cabeceira; uma sala despida de comodidades e uma cozinha básica, para uso comum. As casas de banho eram coletivas.

A morada desta residência da Universidade Nova de Lisboa não enganava: Zona J de Chelas. Longe da cidade, quando o gueto era ainda mais gueto, um bairro com duas únicas entradas e saídas. Os meus amigos lisboetas espantavam-se quando me davam boleia até lá: “Isto é Lisboa?”

Nunca naquele tempo em que lá vivi se viu qualquer manutenção da residência. Nunca naquele tempo em que lá vivi alguém estragou ou deteriorou o que fosse. O desgaste próprio do uso de um apartamento por uma dezena e meia de pessoas era o normal. O desgaste que senti sempre era o de um Estado que nunca tratou bem os seus alunos universitários. Talvez o ministro da Educação sonhe com alunos milionários a pagarem residências a preços proibitivos. Mas talvez valesse a pena, antes, a este Governo, pensar no que não faz para cuidar de ter alunos de estratos sociais mais baixos na universidade, proporcionando uma verdadeiro e efetivo apoio social. Talvez valesse a pena pensar em como os alunos das classes médias dificilmente conseguem pagar quartos em cidades médias, por causa dos preços das casas. Talvez valesse a pena a estes governantes terem empatia. E já agora, ao ministro da Educação, ter um pingo de vergonha, e demitir-se.

 

[atualização: o ministro veio esclarecer o que disse, negando o que lhe ouvimos dizer. Sigamos então o que disse para se explicar]


Apanhado em falso, pela intervenção trapalhona, o ministro desdobrou-se em entrevistas nos vários canais para atacar jornalistas, esquecendo que o mensageiro só passou a mensagem. Faltou-lhe dignidade e humildade para pedir desculpa, dizer que se tinha explicado mal e que não era aquilo que queria dizer, e então explicar-se corretamente. Mesmo que a explicação seja um alijar de responsabilidades espantoso: para responder à necessidade de ter mais alojamento para alunos deslocados, que a especulação imobiliária atirou para preços obscenos, o ministro quer retirar a prioridade aos bolseiros no acesso a residências universitárias. Porque, e o porque é relevante, se tivermos residências só com pobres, “os gestores” não cuidam devidamente desses espaços. Quando as instituições públicas recebem os mais pobres abandalham-se?

É uma teoria social que anda por aí, agora, na boca de todos os defensores do ministro, mas esconde o óbvio: o lavar de mãos do ministro sobre a necessidade dos “seus” gestores cuidarem bem do património público, dotando os serviços de ação social com um financiamento digno para a criação de residências e para a sua manutenção. Talvez isto explique muito o que este governo está a fazer ao SNS. Isto tudo só será resolvido quando houver uma aposta séria na criação de residências e a manutenção deixar de ser vista como um custo dispensável e passar a ser tratada como uma política pública essencial e preventiva. E isto nada tem a ver com o rendimento dos estudantes que utilizam esses serviços.

Não penso que tenha sido uma conversa de comadres (como lhe chamou um amigo meu) porque o tema é muito importante e relevante — a do apoio social no ensino superior, que é miserável e que é tratado de forma assistencialista por este governo. E, nisto, a conversa de comadres foi importante: destapou uma realidade que raramente se fala. Pode ser que haja jornalismo por estes dias que vá mostrar mais a fundo esta realidade.

 

[atualizado a 17/12/25, com o comentário às explicações do ministro]