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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 25, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 5

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

José Mário Branco: FMI

Este disco está aqui por culpa do Olímpio. Ele que tratou de nos ensinar a olhar as coisas de modo diferente, quando nos demorávamos em noites longas a ler livros, maliciosos e deliciosos, ou a ouvir discos quase clandestinos (e este era-o, à época), houve uma geração do MCE que lhe deve este FMI, de José Mário Branco, trauteado como senha e contra-senha em tantos outros encontros e contextos. Por causa disso, o meu gosto musical moldou-se também entre a intervenção e a palavra. 

É verdade que já ouvia Zeca Afonso das baladas ao mato, que Sérgio Godinho fazia o nosso salão de festas, que Fausto nos levava rio acima, mas FMI transportou-me também para descobrir em profundidade outras canções de intervenção (Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira…) e o que era a obra de José Mário Branco, incluindo o coletivo do GAC, os trabalhos como produtor-compositor, as obras para cinema e teatro, e mais tarde, já nestas últimas décadas, a viagem pelo fado — de Camané a Kátia Guerreiro. E assim se tecem outros gostos que fui compondo na minha viagem musical.

A visceralidade de José Mário Branco em FMI será recuperada em 1996 com a reedição de Ser Solid(t)ário, que inclui o máxi editado originalmente em 1982, deixando a clandestinidade com que o ouvíamos anos antes. E essa visceralidade estará sempre presente na sua obra original, até Resistir é vencer, de 2004, um extraordinário disco de palavras e sons que nos mostram que a intervenção não se arrumou nos anos da Revolução. E tudo começou com aquele "pedaço" da "vida" de José Mário Branco, "um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro", que o Olímpio nos mostrou.