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Harpas, órgãos, sintetizadores, ábacos, pianos, ukulelés, tambores, pandeiretas ou um cavaquinho. Desafiado a festejar os seus 50 anos com 50 canções, Stephin Merritt não deixou a coisa por menos. Pegou em mais de cem instrumentos, grande parte tocados pelo próprio, alinhou ano a ano letras autobiográficas e reuniu cinco discos numa caixa épica e conceptual, 50 Song Memoir, e sob o nome pelo qual é mais conhecido o seu múltiplo trabalho — Magnetic Fields.

A empreitada remete logo para outro disco com que Stephin Merritt fechou o século XX: então em 1999, também sob o nome de Magnetic Fields, o canadiano apresentou-nos um épico triplo álbum de amor, 69 Love Songs, literalmente 69 canções de amor divididas por três discos.

Dezoito anos depois, chegados a 2017, Merritt estabelece a ponte entre os seus dois discos: "Penso neste álbum como parte de uma resposta a 69 Love Songs, no qual era tudo ficção, mais ou menos, pelo menos no sentido em que as canções de amor são ficção ou não. Em 50 Song Memoir é tudo não ficção, mais ou menos, pelo menos no sentido em que uma autobiografia é extremamente construída...", explicou-se numa conversa que acompanha a edição desta nova caixa. E aí volta a dizer que "é a pessoa menos autobiográfica que provavelmente encontrarão", antecipando que a sua velha discrição pessoal deve regressar. "Provavelmente não vou escrever mais nenhumas canções verdadeiras depois disto como fiz antes, mas foi interessante trabalhar nisto."

A história deste 50 Song Memoir é conhecida: Robert Hurwitz, o presidente da sua editora, a Nonesuch, levou Stephin Merritt ao Oyster Bar na Grand Central Station, em Nova Iorque, e desafiou o mentor dos Magnetic Fields a fazer o tal álbum de 50 canções pelos "50 anos de Stephin no planeta" — "e fazer disso uma extravagância".

É um homem que gosta de complicar o que é aparentemente simples. Ao uso de mais de cem instrumentos, impôs-se a regra de que cada canção não teria mais do que sete. No passado lançou um trabalho em que todas as canções tinham como inicial a letra "i" (e o álbum chamava-se obviamente i). Ou outro, inspirado nos escoceses The Jesus and Mary Chain, em que as pessoas sabem musicalmente ao que vão: Distortion.

Talvez se expliquem estas manias com o texto "The Formulist Manifesto", que Merritt elaborou para explicar que "toda a arte aspira à condição do Top 40 bubblegum pop". Mastiga e deita fora? Não, neste caso.

Talvez seja por isto que este novo álbum dos Magnetic Fields navegue por territórios cujas sonoridades se reconhecem e remetem para trabalhos anteriores de Stephin Merritt, nomeadamente o já referido 69 Love Songs. Mas até chegar ao amor, neste 50 Song Memoir, há a infância de descobertas e memórias (também musicais, como quando aos 5 anos foi a um concerto dos Jefferson Airplane com a mãe).

Stephin nasceu em 1965 e a primeira canção é de 1966, no seu primeiro aniversário (as canções são identificadas pelos anos, até 2015, quando fez 50 anos). Em 1971, tinha sonhos próprios dos seus 6 anos: "Eu penso que farei um outro mundo e vou enchê-lo com tudo o que quiser", diz em I Think I'll Make Another World.

As ilusões parecem esboroar-se nos anos 1980, depois da explosão do disco e das idas à danceteria. Em 1985, em Why I Am not a Teenager, a sida assoma à porta, quando se ouve "When you never get paid/ And you never get laid/ And you're full of these stupid hormones/ And just then they come out with AIDS". Cinco anos depois, é o fim da inocência, que se joga em Dreaming in Tetris: "All the young dudes of 25/ Caught diseases, few survived/ Dreaming in Tetris/ We expected nuclear war/ What should we take precautions for?"

Mergulhados no Tetris, à espera da guerra nuclear dos anos 1980, quando se instalavam mísseis nucleares nas fronteiras da Europa dividida, as precauções foram nulas. Merritt mergulha num boletim clínico de "estranhas doenças" que o afetaram, de "quistos renais realmente dolorosos" à "hiperacusia", uma intolerância a determinadas frequências sonoras que o aflige desde 1992.

Já o amor toca-lhe agora na frequência certa. Em Somebody's Fetish, a fechar o álbum, Merritt diz-nos: "Nothing's too strange for somebody's palate / Some spank the maid, and some wank the valet." Ou, como confessou ao The Guardian, não é só aí que se diz apaixonado. "Eu estou enamorado noutros lugares do álbum, mas acho que a mensagem é mais podermos encontrar um final feliz no rio da vida. Eu podia dar-lhe um final trágico. Há várias coisas em que nos podemos concentrar — na política americana, por exemplo."

[publicado originalmente no DN a 25/3/17]

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