Novembro 14, 2025
Concerto às camadas para vozes, sequenciadores e violoncelo
Miguel Marujo

A tempestade tentou entrar de rompante no Teatro São Luiz, em Lisboa, com o vento a fustigar uma porta com violência, mas Julianna Barwick e Dobrawa Czocher trouxeram outras camadas à noite de 13 de novembro. Uma e outra, em diferentes registos, desenharam paisagens em que a voz — e que voz! — de Barwick ou o violoncelo e voz de Czocher — e que intérprete! — agarraram uma atenta audiência (que não enchia a sala). Foi uma noite de encantamentos. Por partes.
De pé, vestida de preto, Julianna Barwick trouxe para o palco a sua voz que o sequenciador foi multiplicando em sucessivas vozes, construindo camadas de coros que circulam e pairam nas planícies de sons que alimentam as imagens mais ou menos abstratas que vão sendo projetadas no fundo do palco.
A voz única da compositora e música americana multiplica-se até terrenos sublimes, como em Inspirit, Melted Moon ou St. Apolónia, que dos pouco mais de dois minutos do tema do álbum Will (2015) se estendeu por mais tempo. Um exercício de sobreposições, loops, voltas e camadas que delicia os ouvidos.
Nove anos depois de ter estado em Portugal, Julianna Barwick regressou a uma Lisboa que adora, manifestando no final o desejo de não estar tanto tempo sem voltar, lembrando que há dez anos gravou o tema Sta. Apolónia no estúdio dos “amigos Paus”, uma referência quase improvável, quando se ouve uns e outra, mas que explica também a invulgaridade das propostas de Julianna.
Dobrawa Czocher é outra referência a seguir com atenção. Polaca, companheira de aventuras de Hania Rani (que se traduziu mais recentemente no sublime Inner Symphonies, de 2021), a violoncelista apresentou-se no palco com Natalia Czekala, que nos sintetizadores complementou a sonoridade particular que Czocher nos trouxe no seu trabalho a solo, Dreamscapes (2023), entre o classicismo do seu instrumento e a experimentação no jogo das cordas ou da voz.
Também aqui a voz de Dobrawa Czocher (e num dos temas acompanhada por Czekala) se desdobra em camadas, para acompanhar o violoncelo que a tecnologia também multiplica, numa construção que torna o concerto de um só violoncelo num ensemble de cordas próximo da perfeição.
Percorrendo os temas de Dreamscapes, a noite no São Luiz planou entre o quase sussurro das composições de Czocher e um som arrancado às entranhas do violoncelo, cativando uma audiência que deixou para trás a tempestade e se deixou encantar com estas vozes muito únicas. Uma noite perfeita.