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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Julho 30, 2015

Caetano e Gil cantam 50 anos de calor, cor, sal, sol e de coração pra sentir

Miguel Marujo

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Lá em Londres, de vez em quando, Gil e Caetano sentiam-se longe daqui, daqui da Bahia, a sua Bahia natal, tinham saudades do Brasil, na ausência de calor, de cor, de sal, de sol, de coração pra sentir, como cantarão os dois amanhã, no Parque dos Poetas, em Oeiras, num concerto que assinala 50 anos de carreira conjunta: “Caetano & Gil - Dois Amigos, Um Século de Música”, assim se chama a tournée europeia, iniciada há pouco mais de um mês na Holanda. E é Back in Bahia que abre o concerto, uma canção que “é do meio caminho, mas aponta para a história toda”, como se explicava há dias Caetano, nas páginas do Público.

Um e outro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, corações vagabundos na capital britânica de 1969 a 1972, exilados políticos não pararam de olhar o Brasil lá longe, com o calor, cor, sal e sol metidos num colete de forças de uma ditadura militar que não gostava daqueles rapazes pretos, quase pretos, a cantarem tropicalismos, áfricas utópicas, sambas, quilombos e bossas novas.

Amanhã à noite, esses rapazes não são mais rapazes e (visto o alinhamento da digressão, que Gilberto Gil disponibilizou na sua conta do Spotify) em pouco mais de hora e meia vão regressar, só de voz e violão, para desfiar 25 canções em que cantam um percurso que foi moldado logo naqueles anos fundadores dos finais de 1960 - da prisão, do exílio, da denúncia social, de errantes navegantes. Como em Terra, dizia Caetano: “Quando eu me encontrava preso/Na cela de uma cadeia/Foi que eu vi pela primeira vez/As tais fotografias/Em que apareces inteira/Porém lá não estavas nua/E sim coberta de nuvens...”

De fora, fica o Haiti (de Tropicália 2, de 1993) que não é aqui, mas bem podia ser, quando tantos são quase pretos, e o mar Mediterrâneo ou o túnel da Mancha feito túmulo desses “quase pretos, ou quase brancos quase pretos de tão pobres”.

O passado de um e outro (e Gil chegou a ministro da Cultura, num governo de Lula) é político. E o presente, também o é. Caetano incomodou-se no programa Fantástico, da Globo. “Quando eu vejo agora na passeata [manifestação] um sujeito pedindo a volta do regime militar, eu fico dizendo o cara não sabe de nada, entendeu? Sabe de nada. Porque isso foi uma porcaria. Aquilo foi uma porcaria.”

Nascidos há 73 e 72 anos (leram bem: Gil nasceu em Salvador, a 26 de junho de 1942, Caetano em Santo Amaro, a 7 de agosto de 1942) trazem um alinhamento em que vão cantando canções de um só ou dos dois, mas sempre com os dois em palco, mesmo que sem tocar. Há músicas em que Caetano fica ali a observar Gilberto a tocar e a cantar, outras em que Gil acompanha Veloso na sua guitarra. Só em três momentos, os dois se socorrem de composições que não são suas: de Maria Bethânia, haverá Marginália II; de Gilberto e Jorge Ben Jor vai ouvir-se Filhos de Gandhi; e de Caetano e Maria Bethânia virá De Manhã. Na versão ao vivo desta canção que Gilberto Gil colocou no Spotify para escuta, Bethânia - nascida em 1946, é a sexta dos sete filhos de Seu Zezinho e Dona Canô, logo depois de Caetano - explica que o seu irmão “faz parte de tudo” da sua vida. “Desde meu nome que foi escolhido por ele, foi ele, compositor, que escolheu minha voz para cantar uma canção dele de um filme da Bahia.”

A Bahia, sempre ela, em redor do Pelourinho ou nas ruas de Santo Amaro, transpira-se no percurso dos dois, mesmo quando os dois experimentam outras línguas, não se tratando de meras concessões a um auditório europeu. Há sempre calor, cor, sal e sol, seja em Come Prima, Tonada de Luna Llena ou Tres Palabras.

Em abril passado, quando foi anunciada esta digressão, Caetano reconhecia que a escolha destas 25 canções era difícil. “É difícil para escolher porque é muito vasto, muita coisa. A gente tem é de encontrar um critério”, afirmava no programa Fantástico, da Globo. Ou como acrescentou ao Público. “Quisemos visitar todos os períodos de nossas carreiras, destacar músicas de relevância para nós nesses anos, e um opinou no repertório do outro.”

O critério, qualquer que ele tenha sido, fica defendido com a história comum. “Eu costumo dizer que é o irmão que eu não tive, né? A amizade toda se desenvolveu a partir desse sentimento básico, de proximidade parental mesmo”, justificou-se Gilberto no mesmo programa.

As canções nasceram assim, com Caetano a aprender a tocar violão com Gil. “Aprendi com ele. Olhando ele, olhando as mãos dele e ouvindo o que tocava. Eu queria deixar de fazer música e ele me pediu para que não fizesse isso.” Agora, nos 50 anos de carreira, percebe-se porquê. Gilberto contou no Fantástico que Caetano “tinha interesses variados, cinema, literatura, pintura, coisas assim. E aí [Gil] disse: ‘mas se você não for continuar a fazer música, eu também não vou fazer’.”

Veloso reconheceu que a música falou mais. “Para mim era a própria música que estava me pedindo. Era a própria música. Porque ele é a música.” E Gil ripostou: “A música não queria ficar pela metade.”

Foi Gilberto quem cantou, na canção que abre amanhã o concerto: “Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar.” Ter ido para o exílio, entranhando nos sons de uma América quase preta as influências de uma transição de décadas que se agitavam na Europa, absorvendo.

“I’m alive, vivo, muito vivo”, canta Caetano em Nine Out of Ten, monumento tropical que vem de Transa, o álbum de 1972 que assinala a saída de Londres para o Brasil. Estão os dois vivos - e o nosso coração não se cansa deste verde esperança.

[hoje no DN, sobre o concerto de amanhã]

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