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Foi lançado esta semana o novo álbum de Dylan, que parece surpreender mais uma vez ao gravar dez temas popularizados por Sinatra. Este é o texto que publiquei na segunda-feira passada no Diário de Notícias.

 

O respeitinho é muito bonito. Quem o diz é Bob Dylan que, aos 73 anos, se atirou a dez canções do cancioneiro americano, imortalizadas na Voz: sim, Bob canta no seu novo álbum dez temas interpretados, algures no tempo, há muito tempo, por Frank Sinatra. Não se esperem facilidades: os clássicos – e são clássicos de que falamos – não são os óbvios, como também não seria óbvio que Dylan surgisse assim, em formato de quinteto (três guitarras, um baixo e percussão) para uma voz despojada, sem disfarces.

“Adoro estas canções, e não vou desrespeitá-las. Estragar estas canções seria um sacrilégio”, admitiu o próprio na primeira entrevista sobre o álbum no site da AARP, a Associação Americana de Reformados. Assim se vê: o respeitinho é muito bonito. “Já todos ouvimos estas canções serem estragadas, e estamos habituados. De alguma forma, queres corrigir o errado”, acrescentou Bob Dylan.

Sim, todos ouvimos, de facto, estas canções estragadas. Mas neste regresso aos discos – é o 36º na carreira de Dylan – o que se ouve em Shadows in the Light, hoje lançado, é aquela voz velha e rugosa, no tom certo e com as palavras adequadas, que reconhecemos em Bob, apropriando-se destas canções também para o seu cancioneiro, naquilo que é o seu trabalho mais recente.

O americano do Minnesota não facilitou na abordagem. De I'm a Fool to Want You a That Lucky Old Sun, são 36 minutos em que Dylan não se livrou de pensar em Sinatra. Nem podia ser de outro modo, como o próprio admitiu na referida entrevista. “Quando começas, tens de ter Frank na cabeça. Porque ele é a montanha. E é a montanha que tens de subir, mesmo que só o consigas em parte.”

Apesar de toda esta reverência, o respeitinho de quem não quer estragar, Dylan ironiza com o facto de se arriscar a gravar estas versões. “Arriscado? Como caminhar através de um campo cheio de minas terrestres? Ou trabalhar numa fábrica de gás venenoso? Não há nada de arriscado em gravar discos.” Nestas comparações, só o crítico do Guardian parece desafinar ao afirmar que Bob se juntou, “talvez inadvertidamente” a um corrente iniciada por... Robbie Williams, quando provou ser possível vender sete milhões de cópias de um álbum de versões. Pedia-se mais respeitinho, neste caso.

Já Bob Dylan, que nesta obra apenas canta, recusa qualquer comparação. De um só fôlego: “Comparar-me a Frank Sinatra? Deve estar a brincar. Ser mencionado na mesma frase que ele deve ser algum tipo de grande elogio.” Modéstia que fica bem, vinda de alguém que sabe dar a volta aos temas e que, não fugindo à interpretação clássica dos clássicos (temos de ser redundantes), se ouvem agora como novos clássicos.

Estes avisos valem o que valem porque, na verdade, ninguém estará preparado para ouvir Dylan assim, em versão crooner, mesmo que o cantor sempre tenha surpreendido nestes mais de 50 anos de carreira, com mais ou menos reconhecimento da crítica e do público. E períodos de aversão quase mútua entre o americano e o público. Hoje, no ano em que passam 50 anos de Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited – também eles hoje verdadeiros clássicos do cancioneiro americano –, Bob Dylan troca às voltas a quem se vinha reconciliando com a sua obra. Há reedições nos escaparates, edições piratas recuperadas para a discografia oficial (com The Bootleg Series), compilações de luxo, o documentário de Martin Scorsese e álbuns que chegaram de novo aos tops. E há este álbum, que não é folk nem rock, mas em que se respira Dylan.

Das dez canções recuperadas agora para este álbum, que quebra um silêncio de Bob de quase três anos em álbuns – não se repetem compositores, só Sinatra é a referência que as une. E Frank é também autor de I'm a Fool to Want You, uma canção de 1951, composta com Jack Wolf e Joel Herro. Entre as (possivelmente) mais reconhecíveis, há Irving Berlin, que perguntou What I'll Do, em 1923, Why Try to Change Me Now, de Cy Coleman e Joseph Mccarthy, que Sinatra popularizou em 1959, e Stay With Me que foi composta por Jerome Moross e Carolyn Leigh e gravada e editada pela primeira vez por Frank Sinatra em 1963. É o cartão de visita do álbum de Bob Dylan.

Não se confunda o registo quase intimista deste conjunto de canções como monotonia. E a produção eficiente e discretamente bonita, entregue ao próprio, sob o pseudónimo já usado de Jack Frost, sublinha todas as notas. Em That Lucky Old Sun – o tal tema que encerra este novo capítulo de Dylan – escrita por Beasley Smith e Haven Gillespie em 1949, a voz sobe, empolga-se, os sopros acompanham a alegria e os versos finais. Bob Dylan rompe, por fim, nos acordes finais do álbum aquilo que até aí é quase ascético, no som e na voz.

Daqui a uns anos, talvez alguém possa dizer como Bob diz de Frank na entrevista já citada. “Eu próprio nunca comprei um disco de Frank Sinatra naquele tempo. Mas ouvia-o de qualquer forma – no carro ou numa jukebox. E certamente que Sinatra não era tão adorado nos anos 1960 como foi nos anos 40”, a década dourada em que as adolescentes suspiravam por Frank. “Mas ele nunca foi embora – enquanto que todas as outras coisas que pensámos que estavam para ficar, acabaram por ir embora.”

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