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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 02, 2016

a voz que veio do nada

Miguel Marujo

BenjaminClementine.jpg

 

Olhem para as mãos, reparem bem nas mãos longas, dedos esguios, o piano subserviente a essas mãos, a esses dedos, soltando os tons fortes que fazem da voz (e que instrumento senhores!), que fazem da voz, dizíamos, um templo, de um homem de quem os deuses se esqueceram, eu lembro-me de onde vim, eu vim do nada, até alguém ouvir como aquela voz falava de deus - aquele que tem amor no nome.

Olhem para as mãos e entenderão a voz. Esguia, linda, forte, grave, aguda, sussurrada, é esse o homem que se apresenta no palco do Coliseu, quase despojado como quando vivia nas ruas agarrado a um piano que o agarrou à vida. A acompanhar esta voz e piano, a percussão, forte e sincopada, que faz dançar as histórias que Benjamin Clementine canta. E também um quinteto de cordas que não é decorativo, também ele a tomar corpo nas palavras do contador de histórias - e como ele as conta entre as canções, ou nas letras das canções, com um humor inesperado numa noite quente, ainda bem, já estava farto do tempo de Londres.

O humor é também arma para melhor homenagear um público que bebe palavras e acordes sedento, indo buscar Seu Jorge, num português-clementine tão humilde e desarmante que tudo se perdoa. Ou Adiós, repetido em a cappella, para deixar então o palco, depois de dois encores exigidos por um Coliseu sedento (já dissemos), que termina em variação para um derradeiro e cantado obrigado. Olhem para as mãos e ouvirão a voz.

 

[Adiós - editado pelo Ricardo Conceição] 

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