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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Março 01, 2024

A tragédia do autocarro que é a tragédia de dois povos

Miguel Marujo

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Um dia na vida de um pai à procura do filho que seguia num autocarro que sofreu um acidente é uma síntese aparentemente banal de uma história trágica e pessoal. Seria o caso de Um Dia na Vida de Abed Salama, não fosse Abed um palestiniano residente na Cisjordânia, Palestina. À tragédia pessoal de Abed, do seu filho Milad, da sua família e de todos os que têm filhos e familiares naquele autocarro, junta-se uma tragédia maior: a de viverem num território esquartejado por um muro e postos de controlo, entrincheirados ao sabor de bilhetes de identidade que definem por onde circularem, que escolas frequentarem e a que hospitais recorrerem. 

Um Dia na Vida de Abed Salama – Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém é uma notável reportagem – da autoria do jornalista americano Nathan Thrall – vertida em livro e que nos leva a percorrer as ruas de angústia, num dia de fevereiro de 2012, de uma forte tempestade, com muita chuva, por entre “um labirinto de obstáculos físicos, emocionais e burocráticos”, na síntese certeira da contracapa do livro. 

Abed está do lado do muro em que todas as coisas se complicam, em que percorrer escassas centenas de metros é um calvário moderno de ódio, racismo ou de fria burocracia a condicionar a vida de todos: na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, no amor e no divórcio. 

Este livro atual, publicado nos inícios de outubro do ano passado (em simultâneo nos EUA e em Portugal) ganhou uma maior acuidade com os ataques do Hamas a 7 de outubro de 2023, lançando para o abismo dois povos vizinhos e inimigos, numa espiral que parece longe de qualquer fim, e mais ainda de qualquer centelha de paz. 

Os dias do livro são os dias das intifadas, a primeira e a segunda, quando os jovens palestinianos lançaram mão de pedras para lutar contra a presença israelita cada vez mais asfixiante nos territórios ocupados da Cisjordânia e da Faixa de Gaza. 

Nisso, o relato de Nathan Thrall é de uma secura extraordinária: por entre a trágica história particular de Abed, o jornalista americano tece com paciência e muita informação aquilo que é um conflito de décadas. Vai à História para nos dar as histórias do quotidiano de milhões de palestinianos, que vivem uma tragédia coletiva que se repete, num ciclo obsceno de violência. Em abril de 1948, recorda Thrall  ao contar-nos a vida de pessoas que vão surgindo naquele dia do acidente –Milad“bombardearam as casas palestinianas e os mercados da Baixa. Haifa sucumbiu em apenas um dia”. Através da rádio e de altifalantes, foram dadas instruções para uma evacuação imediata. Parece-se demasiado com as notícias daquelas semanas de outubro e novembro de 2023, e que se prolongam por 2024.

O destino de Milad continua suspenso, ao longo de páginas em que se narra a história do seu pai, da família de Abed, de como as terras dos Salama foram sendo ocupadas para ali se instalarem colonos israelitas, de como o jovem Abed amava Ghazi mas casou com Haifa e Asmahan, de como foi militante da Frente Democrática para a Libertação da Palestina (FDLP), a ala marxista-leninista da Organização para a Libertação da Palestina (OLP)  e estas siglas parecem-nos viver numa cápsula do tempo já distante.

Nathan Thrall traça nestas páginas os caminhos sinuosos que vão marcando a vida do povo palestiniano e dos seus vizinhos israelitas, entre a breve esperança dos Acordos de Oslo, o rápido desencanto de uma cada vez mais intensa ocupação, e as circunstâncias das vidas que lutam todos os dias. Também por causa do seu ativismo Abed será preso e torturado, e passa por Naqab, uma prisão onde se amontoam “jornalistas, advogados, médicos, professores, estudantes, sindicalistas, líderes da sociedade civil, defensores da não-violência, membros de grupos de diálogo entre Israel e OLP, que eram ilegais”, num retrato de como todo um país luta contra o opressor. Com pedras na mão, ou bombas, com diálogo ou com a não-violência: todos são metidos no mesmo saco.

Já o pequeno Milad, 5 anos, sonhava com aquela viagem a um parque temático nos arredores de Jerusalém, e implorou aos pais para poder ir na visita. Os pais de Milad acederam, como outros, reticentes à última hora, por causa da tempestade daquela manhã que assustava muito.

A chuva que não parava de cair, não lavou a memória da tragédia. Kayed divorciou-se de Nansy, culpando-a pela morte de Salaah. Todas aquelas famílias ficaram destruídas, enquanto iam e vinham entre os hospitais de Ramalah e Jerusalém, à procura de notícias dos seus filhos. Esta é também a história de Radwan, o motorista do autocarro escolar que ficou com a vida destroçada, ou de Huda, Nader, Eldad, Salem, Dubi, e todos os que convergiram naquela estrada nas proximidades de Jaba – médicos, técnicos de emergência, bombeiros, militares, ou apenas curiosos.

A morte daquelas crianças e professores chocou de frente com o ódio instalado: houve jovens israelitas, miúdos, que espalharam pelas redes sociais comentários de alegria e sarcasmo, celebrando a morte de dez palestinianos, quase todos crianças pequenas. “É só um autocarro cheio de palestinianos. Nada de especial. É pena que não tenham morrido mais.” Este livro é uma ferida aberta. Obrigatório para entender a tragédia de dois povos.

 

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Um Dia na Vida de Abed Salama – Anatomia de uma Tragédia em Jerusalém
de Nathan Thrall (tradução de Sara Veiga)

Livros Zigurate
outubro de 2023
208 págs

 

Artigo originalmente publicado no 7Margens, a 25 de fevereiro de 2024. Foto de Abed Salama a segurar um retrato do filho Milad, de Ihab Jadallah / Nathan Thrall, in People's World.

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