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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 03, 2014

À luz da peculiar família de Nazaré – o Sínodo sobre a família

Miguel Marujo

“O amor de Deus resplandece de maneira peculiar na família de Nazaré, ponto de referência seguro e de conforto de cada família. Nela refulge o amor verdadeiro para o qual todas as nossas realidades familiares devem olhar para haurir luz, força e consolação.” É este o remate da Instrumentum Laboris de preparação do Sínodo dos Bispos. São 58 páginas sobre “Os Desafios Pastorais da Família no Contexto da Evangelização” – que sintetizam os resultados do inquérito lançado há quase um ano pelo Papa Francisco sobre a família, a sexualidade e a Igreja – mas também parecem ficar aquém da família de Nazaré. A seu modo, era ela também peculiar: uma mãe que “não conhecia homem”, um pai que assumia um filho que não era seu e um filho que chamava Pai a Deus. A seu modo, esta família de Nazaré espelha também “todas as nossas realidades familiares”, que o documento sinodal tenta abordar.

Talvez as expectativas tenham sido exageradas: a novidade que o magistério de Francisco tem trazido – a cada dia, a cada semana, há gestos e palavras que parecem, pelo menos, apontar caminhos diferentes – também foi sublinhada com a notícia do inquérito promovido junto das comunidades cristãs, em novembro de 2013. Os jornais pegavam então pelo lado óbvio do Vaticano querer saber, junto dos leigos e párocos, sobre o divórcio, a contraceção ou o casamento homossexual. Sobre quem vive no dia a dia estas questões. Quase um ano depois, as respostas não são ainda conhecidas. A Instrumentum Laboris dá pistas do que poderá ser o caminho a seguir pelos bispos no seu Sínodo – e aí uma linguagem cifrada (sem a análise exaustiva das respostas ou a publicitação estatística dessas respostas) não abre porta a grandes novidades.

Tome-se o exemplo da contraceção, em que a prática vive a anos-luz do ensinamento do magistério. A Encíclica Humanae Vitae (HV) do Papa Paulo VI é apontada pelo seu “significado indubitavelmente profético” por aí se “confirmar a união inseparável entre o amor conjugal e a transmissão da vida”. Sabendo-se hoje que a Comissão Pontifícia sobre a População, Família e Natalidade (criada pelo Papa João XXIII, a 27 de abril de 1963, seis meses depois do começo do Concílio Vaticano II) se pronunciou por clara maioria, já no pontificado de Paulo VI, para que fosse revista a doutrina tradicional da Igreja Católica nas questões da contraceção, é de estranhar que este novo documento, apresentado em 2014, sublinhe que do “ponto de vista pastoral as respostas” dos bispos, “em numerosíssimos casos, indicam a necessidade de uma maior difusão – com uma linguagem renovada, propondo uma visão antropológica coerente – do que se afirma na Humanae Vitae, sem se limitar aos cursos pré-matrimoniais, mas inclusive através de percursos de educação para o amor”. Concede-se a “linguagem renovada”, mas insiste-se (citando “algumas respostas”) “que a apresentação dos métodos de regulação natural da fertilidade tenha lugar em colaboração com pessoas verdadeiramente preparadas, tanto do ponto de vista médico como pastoral”.

O Papa Paulo VI rasgou o parecer da Comissão Pontifícia sobre a População, Família e Natalidade. Mas os bispos sinodais terão pela frente um texto que alerta que “já Paulo VI, publicando a Carta Encíclica Humanae Vitae, estava consciente das dificuldades que as suas afirmações poderiam ter suscitado naquela época” e o próprio bispo de Roma admitia então que era “de prever que estes ensinamentos não serão, talvez, acolhidos por todos facilmente: são muitas as vozes, amplificadas pelos meios modernos de propaganda, que estão em contraste com a da Igreja. Para dizer a verdade, ela não se surpreende de ser, à semelhança do seu divino fundador, ‘objeto de contradição’; mas, nem por isso ela deixa de proclamar, com humilde firmeza, toda a lei moral, tanto a natural como a evangélica” (HV 18).

O objeto de contradição percorre ainda assim as páginas da Instrumentum Laboris. Mas sempre a medo. Afinal, “algumas Conferências Episcopais observam que o motivo da resistência aos ensinamentos da Igreja sobre a moral familiar é a falta de uma autêntica experiência cristã, de um encontro pessoal e comunitário com Cristo, que não pode ser substituído por apresentação alguma, mesmo se correta, de uma doutrina”. E depois sintetiza-se o que falha, por “unanimidade nas respostas”, para explicar os “motivos de fundo das dificuldades na aceitação do ensinamento da Igreja”.

Façamos a longa citação: “As novas tecnologias difusivas e invasivas; a influência dos mass media; a cultura hedonista; o relativismo; o materialismo; o individualismo; o crescente secularismo; a prevalência de conceções que levaram a uma excessiva liberalização dos costumes em sentido egoísta; a fragilidade das relações interpessoais; uma cultura que rejeita escolhas definitivas, condicionada pela precariedade, pelo provisório, típica de uma «sociedade líquida», do «usa e deita fora», do «tudo e já»; valores apoiados pela chamada «cultura do descarte» e do «provisório», como recorda frequentemente o Papa Francisco.” Esta “unanimidade” choca de frente com razões mais fundas de muitos leigos, na forma como vivem a sua sexualidade, como lidam com o corpo, como se relacionam com a contraceção, mesmo numa vida de um casal.

A vida a dois ocupa também uma longa dissertação do documento que será debatido no Sínodo, mas centrando-se no “tema da lei natural”. É natural que assim seja, quando se estabelece que “no contexto do acolhimento do ensinamento da Igreja sobre matrimónio e família é necessário ter presente o tema da lei natural”, um “vocabulário” que “hoje apresenta dificuldades”. Reconhece-se que “o conceito” é hoje “bastante problemático, ou até incompreensível”, mas insiste-se como “digna de relevo a proposta de situar e aprofundar o conceito, de inspiração bíblica, de «ordem da criação», como possibilidade de reler de modo existencialmente mais significativo a «lei natural»”.

Pôr tudo na ordem: “Das respostas emerge a convicção generalizada do facto que a distinção dos sexos possui um fundamento natural no âmbito da existência humana. Por conseguinte, existe uma força da tradição, da cultura e da intuição, o desejo de manter a união entre o homem e a mulher.” Por oposição ao facto de, a “não consideração do conceito de lei natural tende a dissolver o vínculo entre amor, sexualidade e fertilidade, entendidos como essência do matrimónio”, levando a que “muitos aspetos da moral sexual da Igreja hoje não são compreendidos”. E um assomo crítico a setores da Igreja: “Radica-se sobre isto uma certa crítica à lei natural também da parte de alguns teólogos.” E a prática dos católicos a contestar a lei natural, com a “prática maciça do divórcio, da convivência, da contraceção, dos procedimentos artificiais de procriação, das uniões homossexuais”.

A desordem dos dias de hoje, já se vê, chega também pelas “famílias alargadas”, “sobretudo devido à presença de filhos tidos de diversos partners” [estranha opção esta da tradução portuguesa do documento recorrer a alguns anglicismos desnecessários]. A recomposição das famílias tem diferentes matizes: “Na sociedade ocidental, já são numerosos também os casos nos quais os filhos, além dos pais separados ou divorciados, recasados ou não, se encontram também com avós na mesma situação. E ainda, sobretudo na Europa e na América do Norte (mas também entre os Estados da Ásia oriental), existem casos em evidente aumento de uniões matrimoniais não abertas à vida, assim como de indivíduos que orientam a sua vida como singles. Também as famílias monoparentais estão em evidente aumento. Nos mesmos continentes assiste-se ainda a uma vertiginosa aumento da idade matrimonial. Muitas vezes, sobretudo nos estados da Europa do Norte e da América setentrional, os filhos são considerados como um obstáculo para o bem-estar da pessoa e do casal.”

Das famílias à rejeição das uniões de facto ou casamentos homossexuais vai um passo. “Todas as Conferências Episcopais se expressaram contra uma ‘redefinição’ do matrimónio entre homem e mulher, através da introdução de uma legislação que permita a união entre duas pessoas do mesmo sexo.” Prefere-se antes falar num “equilíbrio entre o ensinamento da Igreja sobre a família e uma atitude respeitosa e não julgadora em relação às pessoas que vivem nestas uniões”. Sem cuidar que são também elas famílias, apesar de se notar “que as reações extremas a tais uniões, tanto de condescendência como de intransigência, não facilitaram o desenvolvimento de uma pastoral eficaz, fiel ao Magistério e misericordiosa para com as pessoas interessadas”.

Mostrar essa “atitude respeitosa e não julgadora em relação a estas pessoas”, apostando numa “pastoral que procure acolhê-las”, não quer dizer – escreve-se no texto sem quantificar respostas –, “que os fiéis estão a favor de uma equiparação entre matrimónio heterossexual e uniões civis entre pessoas do mesmo sexo”. Mais: “As respostas recebidas pronunciam[-se] contra uma legislação que permita a adoção de filhos por parte de pessoas em união do mesmo sexo, porque veem em perigo o bem integral do filho, que tem direito a ter uma mãe e um pai, como foi recordado recentemente pelo Papa Francisco (cf. Discurso à Delegação do departamento internacional católico da infância, 11 de Abril de 2014)”.

“O amor de Deus resplandece de maneira peculiar na família de Nazaré.” Talvez devêssemos antes começar por perguntar quem era essa peculiar família de Nazaré – Maria, José e Jesus.

[texto escrito para a revista Cáritas, a propósito do Sínodo dos Bispos, que se inicia em Roma no domingo.]

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