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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 26, 2019

Uma zona morta. Como uma série de TV fez crescer um turismo de risco

Miguel Marujo

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Em finais de abril de 1986, os céus da Europa cobriram-se de pequenas partículas poeirentas e radioativas. Na central nuclear sueca de Forsmark, os trabalhadores notaram a acumulação dessas pequenas partículas nas suas roupas e lançaram o alerta para eventuais fugas no local - mas a fonte do mal estava a 1100 km, em Chernobyl, uma central nuclear na cidade de Pripyat, na Ucrânia, então uma república soviética.

Hoje, 33 anos depois, Chernobyl é o que os ucranianos chamam de "uma zona morta", mas é também uma excelente série de televisão (com uma banda sonora a condizer na qualidade), que relata aqueles dias que carregaram mais medo e terror na atmosfera de uma Europa rasgada a meio.

A série, uma produção da HBO, conta uma história conhecida: na noite de 25 para 26 de abril de 1986, um teste de segurança correu mal e o reator nuclear n.º 4 explodiu - era 1.23 da manhã. É por aqui que começa a série, por aquela onda que se propaga, um incêndio que se instala, e as pessoas ao longe que despertam nas suas casas e saem à rua, homens, mulheres e crianças a verem ao longe as tonalidades hipnóticas que se desenham vindas da central. E as tais partículas que enchem o ar, como se fossem pequenos flocos de neve, quando na verdade eram confetis de morte.

Gente como nós

É este rigor estético - sublinhado pelos cenários, guarda-roupa e os espaços físicos quase ascéticos e asséticos -, que prende o olhar do telespectador desde o primeiro instante, somado a uma tensão de quem descobre os bastidores e pormenores deste acidente.

O realizador Johan Renck (autor de outra minissérie, Os Últimos Panteras, ou dos telediscos de David Bowie, Lazarus e Blackstar) faz-se acompanhar de um elenco que inclui Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley, para nos contarem uma tragédia tantas vezes dita, mas tão pouco conhecida. Se conhecemos a história, a série reaviva a memória e conta-nos mais, mostra-nos o dia-a-dia de gente como nós, que trabalhavam e iam para a escola todos os dias sem desconfiar que viviam encostados a uma potencial "zona de morte".

"Um mundo justo é um mundo são e não há nada são em Chernobyl", diz-nos a voz que nos introduz na série, a de Valery Legasov (Jared Harris), cientista russo, que chefiou a comissão de inquérito ao acidente, e se suicidou dois anos depois do acidente, na véspera de publicar os resultados do inquérito.

Paradoxo: sem nada saudável em Chernobyl, como nos avisa Legasov, o sucesso desta minissérie fez disparar o turismo nesta "zona morta", uma fantasmagórica cidade de Pripyat, que foi evacuada 36 horas depois do acidente. E na série, há um rapaz que vê um homem a vomitar num relvado, enquanto um soldado de máscara manda seguir um dos muitos autocarros que transportaram cerca de 49 mil pessoas para fora de um perímetro de dez quilómetros.

Em duas reportagens fotográficas, uma da Reuters publicada no dia 4 [de junho], e outra da agência EPA partilhada este sábado [8 de junho], veem-se visitantes a passearem pela cidade abandonada de Pripyat: como qualquer turista destes dias, há uma mulher que tira uma selfie junto a um autocarro abandonado e outras duas que se fotografam numa ponte (talvez a "ponte da morte" que se vê no primeiro episódio da série), há um homem que observa um camião e pneus deixados para trás, há quem se passeie por prédios que o tempo tratou de ir degradando ou quem fotografe um pequeno dosímetro, que regista os valores de radiação, e uma sala destruída de um jardim-de-infância.

Dezembro 23, 2019

... e viajámos apenas nos sonhos

Miguel Marujo

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Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

No tempo de Júlio, o ritmo era outro: os barcos a vapor, os comboios e as carruagens eram meios de transporte de então (e até mesmo um elefante, na aventura de Phileas Fogg). Agora galgamos países no ar sem nunca lá pôr os pés, atravessamos terras apenas com tempo para reabastecer o carro - é bem mais rápido dar a volta ao mundo.

Voltámos a pensar como seria fazer os tais 80 dias: sem uma qualquer enciclopédia de 30 volumes à mão, pesquisámos ao engano na internet, espreitámos pelo ecrã as terras que fazem o roteiro do livro, tentámos ver quanto tempo se demorava em cada etapa - para ver se de facto Fogg podia ter ganho a aposta de fazer a viagem em menos de três meses. As contas dariam sete dias de Londres ao canal de Suez, mais 13 daqui a Bombaim e três por terras da Índia até Calcutá. Somavam-se mais 13 dias até Hong Kong e seis para chegar a Yokohama, de onde se partia pelo oceano Pacífico durante 22 dias para alcançar São Francisco. Na América, eram sete dias até Nova Iorque e depois outros nove até Londres.

O entusiasmo levou-nos ao óbvio: procurar o original que algures existiria em casa, numa edição porventura comprada há muito com um qualquer jornal, apenas pelo prazer de viajar pela pena de Verne. Não o encontrámos e o sono venceu a excitação da viagem. E tal como Júlio um dia, ela prometeu então viajar "apenas nos sonhos".

[artigo originalmente publicado no DN/1864, em 2 de julho de 2019]

Dezembro 22, 2019

Blasfemos, graças a deus

Miguel Marujo

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Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Além da série, também tivemos os filmes, como A Vida de Brian, que blasfemava, segundo alguns crentes. A estes sobrava em fundamentalismo o que lhes faltava em humor, por não gostarem de ver esta história que se mete com Jesus e os cristãos. No entanto, este Brian desmascarava antes um seguidismo acrítico, uma fé sem vida, quando devia antes levar os cristãos a refletir sobre si próprios. Como na cena da crucificação em que Brian mimetiza Jesus e os ladrões lhe cantam Always Look on the Bright Side of Life.

Este episódio mostra-nos como as canções dos Monty Python são outra possível explicação para a universalidade do seu humor, que se mantém tão atual, como em Every Sperm Is Sacred, do filme O Sentido da Vida, ou Spam, de Flying Circus, que hoje é um termo banalizado no nosso quotidiano.

É este contexto que ajuda a explicar que o reencontro dos cinco Pythons vivos (Graham Chapman morreu de cancro em 1989), em dez espetáculos londrinos realizados em julho de 2014, tenha sido editado num álbum com quatro DVD intitulado One Down, Five to Go.

No funeral de Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin não estiveram presentes, para permitir alguma privacidade à família e enviaram um cartão com o tal pé do genérico de Flying Circus, onde deixaram um post scriptum: "Pisa-nos se estivermos a ser demasiado idiotas." O pé nunca foi usado.

[texto originalmente publicado no DN/1864, em 8 de outubro de 2019]

Outubro 09, 2019

"Uma coisa estranha e maravilhosa" (ou o mais belo álbum do ano)

Miguel Marujo

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Deixemo-nos enfeitiçar: Nick Cave e os seus Bad Seeds apresentaram-nos esta quinta-feira à noite um espírito que voa por entre angústias, medos, esperanças, a paz e a morte a espreitar a cada palavra. O DN ouviu a estreia mundial do seu 16.º álbum de estúdio, no canal do YouTube da banda — e as primeiras impressões são estas, escritas ao correr dos sons.

Este é um disco que pede tempo: vive muito das palavras, como sempre viveu a música do australiano, mas Ghosteen (assim se chama o disco, que se poderia traduzir livremente por "Adolescente fantasma") é musicalmente menos áspero e visceral que qualquer uma das suas obras anteriores. Estão lá os poemas para isso, muitas vezes mais ditos que cantados (num registo em que é impossível não comparar com a referência que é Leonard Cohen).

Ghosteen segue-se a esse luto que foi o brilhante Skeleton Tree, editado há três anos, em setembro de 2016, depois da morte do filho adolescente Arthur, que tinha morrido no ano anterior, aos 15 anos. O nome deste álbum sugere também uma relação com essa morte. "I am beside you, you are beside me, look for me", ouve-se nos versos finais de Ghosteen Speaks. Depois da raiva contida do disco anterior, este novo trabalho parece representar um processo de apaziguamento. "Peace will come, a time will come for us", canta-nos Nick Cave logo a abrir em Spinning Song. "Estou a teu lado, estás a meu lado."

Não há um single óbvio — talvez Waiting for You, o terceiro tema da primeira parte (o disco surge dividido em duas metades) — e a própria estrutura deste duplo álbum traduz essa vontade de apontar um outro caminho, mesmo que seja claro que este é um disco novo de Nick e as suas ervas daninhas. Trata-se de oito canções na primeira parte e duas longas composições ligadas por um poema lido no segundo disco. "As canções do primeiro álbum são as crianças, as músicas do segundo álbum são os seus pais e Ghosteen é um espírito migratório", como explicou o australiano, radicado no Reino Unido, ao antecipar na semana passada o lançamento desta quinta à noite,

O disco pede de facto mais tempo de audição, mas não nos lembramos de Nick Cave cantar como canta neste disco, a voz sofrida mas percorrendo agudos que não suspeitávamos, as teclas de Warren Ellis a acomodarem as palavras. Em Waiting for You, Nick diz-nos que "sometimes it's better not to say anything at all". Felizmente, falha essa promessa. Há mais a dizer. "We would never admit defeat", canta logo depois em Night Raid, num exercício de declamação que abre a porta a coros - de vozes masculinas e femininas, que vão pintando os poemas ao longo dos dois discos, como em Sun Forest ou Leviathan.

Esta composição remete para Leviatã, o monstro marinho bíblico que atormenta Jó, um homem que sofre todas as provas (e provações) de Deus. As percussões de Leviathan, discretas, pontuam versos de uma dor tangível de um pai que perdeu o filho: "Love my baby and my baby loves me."

Na segunda parte, no tema que dá nome ao álbum, Nick Cave introduz uma nota de esperança, ao notar que "este mundo é lindo" e levando o espírito migratório a dançar, dançar e dançar por entre todas as coisas belas.

Em Hollywood, o tema com que encerra o disco, a morte parece pairar, como as estrelas que vivem apressadas na cidade dos sonhos e das ilusões. "And I know my time will come onde day soon", diz-nos Cave, 62 anos. E completa, num círculo que se fecha, como os espíritos que migram: "It's a long way to find peace of mind and I'm just waiting now for my time to come, for peace to come."

Antes ainda há Fireflies, um poema que já conhecíamos de Red Hand Files, o site onde Nick Cave conversa com os seus fãs e onde anunciou este disco. Foi aí, através dessas cartas que, há um ano, o australiano revelou que estava a trabalhar neste Ghosteen, afirmando que era "uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes". E completava: "Estamos sob o seu feitiço." Também nós.

[texto originalmente publicado no DN, em 4 de outubro de 2019, na própria noite em que o disco foi lançado, com o título Nick Cave lançou-nos um feitiço. Já ouvimos "Ghosteen" ]

Setembro 30, 2019

O novo feitiço de Nick Cave espalha-se a 3 de outubro

Miguel Marujo

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Tome nota: às 22.00 da próxima terça-feira, dia 3 de outubro, Nick Cave apresenta ao mundo o seu novo disco com os Bad Seeds, Ghosteen, um duplo álbum que apresenta oito canções na primeira parte e duas longas composições ligadas por uma peça falada (spoken word) no segundo disco.

Já em setembro do ano passado, Nick Cave antecipava esta novidade, numa carta dirigida a uma fã americana: "Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco. É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço."

É esse feitiço que se vai desvelar na próxima semana, antecipou o músico, numa outra carta divulgada nesta segunda-feira, no site onde mantém um diálogo com fãs, The Red Hand Files . O britânico Joe perguntou diretamente ao australiano: "Quando podemos esperar um novo álbum?" - e a resposta surgiu ontem, acompanhada de uma foto de Nick sentado com Warren Ellis: "Podes esperar um novo álbum na próxima semana." Pouco depois divulgava a capa de Ghosteen.

O nome do disco pode remeter para a morte do seu filho Arthur, em julho de 2015. Segundo Nick, "as canções do primeiro álbum são as crianças, as músicas do segundo álbum são os seus pais e Ghosteen é um espírito migratório".

O disco foi gravado em 2018 e no início de 2019, segundo informação hoje disponibilizada no siteoficial, nos estúdios de Woodshed em Malibu e Nightbird em Los Angeles (EUA), Retreat em Brighton (Reino Unido) e Candybomber em Berlim (Alemanha). E foi misturado por Nick Cave, Warren Ellis, Lance Powell e Andrew Dominik em Conway, em Los Angeles.

Para além do YouTube, o novo disco poderá ser ouvido em audições especiais num conjunto de várias cidades - mas Portugal fica de fora. A mais próxima é em Madrid e Barcelona, em Espanha, e o roteiro europeu inclui ainda Amesterdão, Estocolmo, Copenhaga, Oslo, Milão, Bolonha, Nápoles, Lovaina, Gent, Antuérpia, Helsínquia, Londres, Nottingham, Bristol e Brighton.

No dia 4, sexta-feira, Ghosteen fica disponível nas plataformas digitais, mas as edições em vinil e CD só chegam às lojas a 8 de novembro.

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Agosto 20, 2019

Ruas estranhamente familiares que nos enchem a barriga

Miguel Marujo

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Por estes dias, as férias fizeram-se também nas coordenadas de sempre, revisitando os lugares da infância, entre Aveiro, as praias da Barra e da Costa Nova, a Arrancada e outros lugares da freguesia de Valongo, os dias a acordarem de neblina e o sol a romper quente, bolachas americanas e tripas, uma geografia muito própria feita de passagens acidentais, mais ou menos demoradas. Há conta disso lembrei-me desta breve crónica que escrevi há quase um ano no 1864, do Diário de Notícias, com o título As palavras que enchem a barriga, e que agora recupero. Continua atual, apesar do caramujo envergonhado que comi antes do atraso monumental do comboio de volta a Lisboa.

 

De cada vez que regresso a Aveiro, sou transportado como no conto em que Haruki Murakami nos leva por “um passeio a Kobe” (Granta Portugal, n.º 3), cidade onde viveu e onde ia cada vez menos. Aquele grande terramoto de 1995, no meu dia de anos, deixou-o também sem a casa da infância, onde até então viviam os pais. Assim, “descontando todas as recordações” que guardou no seu “íntimo” (“o meu bem mais precioso”), Murakami deixou de ter uma “ligação concreta” com aquela terra, “um profundo sentimento de perda”, como se as lembranças rangessem “de forma vaga, mas audível” dentro dele. E aquelas ruas eram estranhamente familiares, mesmo que não as reconhecesse.

De cada vez que regresso a Aveiro, pareço turista em casa própria, a redescobrir os recantos que foram meus na infância e juventude, a olhar com espanto as mudanças feitas, a temer que se destrua o Rossio porque um autarca quer ali enfiar um parque de estacionamento, como se ainda pensássemos as cidades nos anos 1980, a perder-me como se perdia Murakami nas ruas estranhamente familiares. 

Aveiro é uma cidade onde também já se ouvem queixas sobre turistas, à imagem da sua dimensão, uma escala humana como definiu Miguel Esteves Cardoso, que concluiu numa visita no mês de setembro [de 2018] que “maior que Aveiro é grande demais, mais pequeno que Aveiro é pequeno demais”. 

No tamanho certo querem-se os ovos-moles, que “estão melhores”, como descobriu MEC, que não sabia explicar como “porque já eram perfeitos”; os caramujos que os lisboetas chamam de cornucópias mas não têm aquele doce de ovos que fazem os olhos comer; e os cartuchos que o país descobriu numa reportagem televisiva, uma mistura que dispara massa de cacau com pão-de-ló, ovos-moles (sempre presentes, ámen!) e chantilly. 

As montras das pastelarias da cidade são de comer e chorar por mais, e ainda não falámos das broas e das castanhas de ovos ou das tripas de ovos ou com chocolate regina. 

Se Esteves Cardoso descobriu só agora a doçura de Aveiro e se eu já quase me perco nesta cidade bafejada por uma natureza ímpar que se intromete na bonita malha urbana (apesar das cicatrizes), o melhor mesmo é perdermo-nos no passeio. Por vezes, os afetos e as memórias difusas recuperam-se pela barriga. 

[texto editado a partir do original publicado na revista 1864 do DN, em setembro de 2018; foto de MM, agosto de 2019]

Agosto 17, 2019

A música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar

Miguel Marujo

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Em dezembro de 2011, no suplemento Quociente de Inteligência, do DN, escrevi este ensaio sobre a chamada música infantil, longe das xanas toc-toc ou da escolinha da Sónia, com o título "A música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar". Por um acaso, a pesquisar um texto antigo no site do jornal, redescobri uma referência a este texto que, como quase todos do QI, nunca viram a luz do dia na internet. Por isso, recupero a versão que tinha comigo, levemente editada e corrigida, que mantém a ortografia de então e com os links possíveis. As referências não foram atualizadas, remetendo-se a 2011. No final deixo outras referências lá de fora que não couberam no texto.

 

Era uma vez um grupo de pais com filhos pequenos que lhes resolveram dar música. “Não havia quase nada interessante”, reclamavam os Clã, os pais desta história. E puseram mãos à obra: Disco Voador foi espectáculo em escolas e disco lançado este ano [de 2011]. Nós gostamos, mas reclamamos: há mais coisas interessantes do que se pensa nas histórias cantadas para miúdos. Basta procurar com atenção, para não nos reduzirmos à fórmula que a crítica repete acriticamente – a de que (palavras dos Clã) depois de “José Barata Moura [e Fungagá da Bicharada], de Os Amigos de Gaspar [de Sérgio Godinho] ou de Bom dia, Benjamim!” não havia quase nada. São, de facto, álbuns, histórias, que marcaram gerações, pais de hoje, mas há mais propostas que contam para esta nossa história.

Sabemos como é. “Crescer custa/ Custa muito./ E ser grande/ é um susto./ Ganhei asas/ perdi penas”, canta Manuela Azevedo. Só nesta história de música é que ser miúdo pode ser um susto, por isso deixemos de lado carochinhas e cantigas, que o que aqui se fala é de música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar. “Seguros de que nenhum humano mata totalmente a criança e o adolescente que mora dentro de si, os Clã sabem que este Disco Voador se destina descaradamente a todos os públicos. As aspirações, os desejos, os temores, as inquietudes dos supernovos são sérias e densas. A galeria de figuras que fala nestas canções quer exprimi-las o mais livremente de que é capaz. Ou seja: escutando e dando a ouvir a música das esferas que habita o seu mundo interior.” A nota de intenções é de Regina Guimarães, a autora de quase todas as letras do álbum, que se explica no libreto que acompanha o CD.

Os pais descarados arrumam a pedagogia no canto como os Clã defendem: “Era importante não se sentir distância na linguagem, falarmos de coisas que tivessem a ver com o dia-a-dia deles.” Sem moralismos sobre o bom que é a escola e ou de como a matemática é bela. Sem moralismos – a comer pela boca o que a saúde ou a boa educação desaconselha. “Sou chéché por chocolates/Oh lá lá, melhor que chicha/Ovinhos, línguas de gato/Barras de 20 quilates.” Os Clã têm boa companhia nesta campanha. B Fachada também teve um álbum que É p’ra meninos. Em 2010, os miúdos puderam acompanhar o João a largar a sopa. “Larga a sopa João/ não comas mais/ não dês ouvidos às mentiras dos teus pais” ouve-se em “É p’ra meninos”, que antes abre com conselhos ao Tó-Zé: “fica deitado, não sejas pau-mandado”. Este elogio à preguiça (“que um dia vai chegar a tua vez de produzir, mas até lá Tó-Zé deixa-te dormir”), ou melhor, à infância longe de um certo discurso educativo hoje dominante, é o mote para um álbum malcriado. “To-Zé tu tem cuidado/ não sejas pau-mandado/ antes louco e malcriado que pensar só de emprestado/ toda a vida te vão dar o mundo já bem mastigado/ tu começa a praticar para não ficares moralizado”. 

Digamos de novo: este é um disco longe do politicamente correcto. “Essa ideia de que uma criança bem comportada, boa aluna ou que come bem, é uma criança melhor que as outras, é uma ideia muito falsa”, admitia o próprio ao DN em Dezembro de 2010. “Daí este propósito de fazer uma coisa quase destrutiva. O mundo não está como está porque as crianças hoje em dia são malcriadas. O mundo está como está porque as crianças de há 40 anos atrás eram bem educadas. Este chamamento de fazer um disco para crianças que não seja um disco de pai, para educar, pareceu-me bastante Fachada.” Ou ainda as letras de que se fazem as canções “p’ra meninos”: “Brincar/ fugir e desaparecer/ esquecer a escola e o dever/ fazer as coisas por prazer”. 

Ao terceiro tema do disco, “Questões de Moral”, uma carta de intenções de um rapaz que “tem zero safadeza”, faz a cama, põe a mesa e não se balda à escola. Para logo se questionar: “Às vezes dou por mim com cada mariquice que a família põe-se logo ‘abusar./ Levar com a sexta mordidela e ser bonzinho p’rá cadela já me está a chatear./ Ver a infância passar co’este medo de errar, ‘olha o exemplo, olhas as irmãs’./ Vem a avó e vem a tia; todas pregam todo o dia. Não pedi por mais mamãs.” Desaconselhável a pais sensíveis, o disco não alerta para as letras explícitas: “Porque é que o bom é melhor que o mau?/ Porque é que o Mal é pior que o Bem?”

Mas façamos cair esta fachada, a música para crianças não é tão bem comportada (digamos assim) como o cantor lisboeta nos quer fazer crer. Os Clã cantam o amor homossexual, e em Bom dia, Benjamim!, obra colectiva de 1995, fala-se da morte. Mesmo o livro-CD Sementes de Música (2008) que reivindica outro discurso sobre pedagogias (há mais três livros-CD que merecem a pena ser falados e escutados, mas já lá vamos), canta um jogo tradicional de arreliações e discussões à mesa: “– Ó Arnaldo, come o caldo./– Não o como, que me escaldo./– Arnaldo come a sardinha./– Não como, que tem espinha./– Arnaldo, come bacalhau./– Isso sim, que não é mau!”

Também Nuno Rodrigues tem Luanda Cozetti no seu Canções de Embalar de Dia (2011) a cantar que “a Rita gosta de batata frita”. Antes tinha ido à cozinha para inventar na voz de Jorge Palma um “amor de talher”, nas suas primeiras Canções de Embalar (2001), entre “uma colherzinha pequena de prata/ E um garfo lindo antigo de latão”, que “só de longe é que se olhavam/ Nunca, nunca se encontravam/ Só desarrumados/ É que eles se tocavam”. O final feliz de um amor assim é ameaçado – “Até que o garfinho tão velho ficou/ Que o deitaram fora/ Ninguém se ralou/ E a história triste quase chorou”. A narrativa que se segue parece resgatada de um filme da Disney: “Só que a linda colherzinha/ Que era esperta e pequenina/ Tinha-se escondido escondidinha/ Atrás dele// E finalmente longe de toda a gente// A sós/ O beijou”.

O antigo fundador da Banda do Casaco regressou [em] 2011 — dez anos depois do disco que fez para a filha pequenina que tinha então e outra que estava para nascer — com Canções de Embalar de Dia (e há uma versão instrumental em que a harpa de Ana Isabel Dias nos traz Canções de Embalar de Noite). Nuno Rodrigues, 61 anos, diz que continua “a ser muito miúdo com a idade” que tem — “as crianças e os adultos precisam de ser embalados e só nos faz bem partilhar o mundo imaginário das crianças”, dizia em Julho [de 2011] o “pai de filhos de 41, 31, de 16 e de 9 anos”, além dos netos que já tem. Talvez por isto, em Disco Voador os Clã arrisquem inverter a lógica, preparando o sono e o sonho da mãe. “Dorme bem/ Ó minha mãe/ Também mereces descansar/ Fecha os olhos/ Baixa as mãos/ Agora é hora de voar”, ouve-se logo a abrir esta “Cantiga de Embalar a Minha Mãe”.

É de ideias assim que nascem estes felizes discos. Bom dia, Benjamim! é uma obra colectiva, já se disse, que começou por uma música criada por José Peixoto — guitarrista que andou pelos Madredeus e hoje está no projecto Aduf (com José Salgueiro, que curiosamente também esteve na aventura de Benjamim) — para oferecer à filha Joana, no seu sexto aniversário. Conta Nuno Artur Silva, no seu blogue, em Março [de 2011], quando assinalou os 15 anos de Benjamim: “O José desafiou o Paulo Curado para compor outras canções com ele e desafiou-me a mim para escrever as letras. Eu baptizei o rapaz e convidei o Miguel Viterbo e o Rui Cardoso Martins para escreverem comigo as letras e as pequenas histórias. Depois juntaram-se o João Paulo Esteves da Silva, para compor canções, e o José Salgueiro para também compor e produzir.” Rui Cardoso Martins resume esta múltipla teia tecida em torno da música, mas também do livro e da peça de teatro (que será reposta no CCB em Março e Abril próximos) que se lhe seguiram: “Foi uma personagem construída com vários pais.” 

Este CD e livro – hoje esgotados no mercado (e que deu anos depois origem a uma peça de teatro e a um programa de TV) – são, nas palavras de Nuno Artur Silva, “um conjunto de canções que contavam a história de um dia da vida do Benjamim, um rapaz de 6 anos, desde que acordava até que, de novo, se deitava”. E acrescenta um dos fundadores das Produções Fictícias: “As canções e os pequenos diálogos entre elas reflectiam o universo real e fantasioso da vida das crianças daquela idade, desde a relação com os pais, a ida para a escola, os amigos, até aos sonhos e pesadelos, a morte do gato ou o mistério do Tempo.”

A personagem de Benjamim é cantada por Maria João que joga na voz a vivacidade das histórias do dia do miúdo, como a espreguiçar-se pela manhã. Como Manuela Azevedo a bocejar em Disco Voador, actos idênticos que parecem sublinhar marcas e identidades comuns de projectos separados por 15 anos. 

Mas estes anos todos, são muitos anos para o mundo ter ficado parado: no tempo de Benjamim, o rapaz ainda brinca com o André, o Zé João, o Rui, o Zé, o Nuno e o cão Capitão, no clube onde “só as meninas não entram”: “Um clube que ninguém sabe onde é/ só entra quem for capaz/ de contar de cem para trás/ e for realmente um rapaz”. E no universo das suas brincadeiras ainda cabem o maquinista, o astronauta, o herói, mas também o bandido e o pirata. Em 2011, o amigo é “de carne e osso”, mas as referências imagéticas são outras. “Amigo do Peito” (assim se chama a música) abre Disco Voador com uma letra que é um tratado da amizade em tempos de internet e redes sociais e telemóveis e jogos de computador: 

“O meu amigo é power
O meu amigo é break
O meu amigo é shutdown
O meu amigo é save

O meu amigo não é toc nem delete
O meu amigo não é chat 

Nem retoque em Photoshop
O meu amigo é em carne e osso
Falamos com os olhos 

e vemos com os dedos
Pensamos em voz alta 

nos sonhos e nos medos

O meu amigo é live act
O meu amigo é free pass
O meu amigo é cool down
O meu amigo é peace

O meu amigo não é toc nem delete
O meu amigo não é chat

Nem retoque em Photoshop
O meu amigo é em carne e osso
É em carne e osso
Falamos com os olhos 

e vemos com os dedos
Pensamos em voz alta 

nos sonhos e nos medos

O meu amigo é power
O meu amigo é break
O meu amigo é shutdown”

Já “Arco-íris” é a canção que canta o amor “sem olhar a quem”. E não se esconde descaradamente do que se fala. “Mas então por que razão/ Ainda vês com maus olhos/ O homem que ama outro homem/ A mulher que ama a mulher”, para se rematar com “Amar sem olhar a quem/ Nem ao sexo nem à cor/ Não é vício nem pecado/ Não é mau nem mau olhado/ Amar sem medo ou vergonha/ Amar a torto e a direito/ Amar sem manha nem ronha/ Não é tara nem defeito”.

Afinal de boas pedagogias estão também estas músicas cheias. Mesmo que aparentem não estar. Ao contrário de quatro livros-CD que também estão aí a pedir para serem lidos e ouvidos, que se assumem como instrumentos para as vozes de pais e professores, Para além do já referido Sementes de Música para bebés e crianças (no seu título completo, é editado pela Caminho, com a autoria de Ana Maria Ferrão e Paulo Ferreira Rodrigues e ilustrações de Madalena Matoso), há ainda Cantar Juntos (em dois livros autónomos, com vários autores e ilustrações da editora Planeta Tangerina; um para miúdos até aos 3 anos, o segundo para crianças dos 3 aos 6, editados pela A Par) e Canta o Galo Gordo – Poemas e canções para todo o ano (de Inês Pupo e Gonçalo Pratas e ilustrações de Cristina Sampaio, numa edição também da Caminho). Nuns e noutros casos, qualquer franzir de sobrolho está a mais. A música é irrepreensível, as letras bebem na tradição de rimas e cantares populares ou apresentam originais em que a pitada de humor, ingenuidade e inteligência se equilibram com cuidado. 

No livro-CD em que canta o galo gordo, “às seis da manhã”, B Fachada não entra. O miúdo lava bem os dentes, veste-se depressa, bebe leite como gosta e entra na escola cheio de alegria, “Bom dia! Bom dia!”. Mas há um ponto comum com Fachada: os actos do quotidiano, os dias do ano, as pessoas em volta são ponto de partida para rimar as letras que os miúdos cantam e os pais acompanham. Muda o tom (e as idades dos pequenos que ouvem também): “Acordei cedo que era dia de Natal/ Larguei a chucha não 'tamos no Carnaval,/ Pedi ao velho um babygrow de cabedal/ Uma motinha e um CD de metal”, canta B Fachada sobre o “Dia de Natal”. O “velho” que é o Pai Natal preferia antes ouvir o pai das mil e uma profissões de “O Meu Pai” em Canta o Galo Gordo, que acaba com o elogio que faz sorrir a mais empedernida fachada paternal. “Pais há muitos, e ainda bem,/ Pois cada um tem o seu./ A verdade é sempre a mesma:/ O melhor pai é o meu”. Rima e é verdade, pensam todos os pais.

Os supernovos inquietam-se a sério. Mas divertem-se ainda mais. Daí ver com gosto a preocupação posta em cada um dos objectos que são estes álbuns, mesmo os que vêm embrulhados em simples capas. As ilustrações são parte essencial para a leitura de cada um destes trabalhos: as de Madalena Matoso e da editora Planeta Tangerina (da qual faz parte) nos livros-CD Sementes de Música e Cantar Juntos; as de Cristina Sampaio para Bom dia, Benjamim! (“conseguimos visualizar a personagem”, concretizou Rui Cardoso Martins) e Canta o Galo Gordo; as de Rui Duarte que desenha um jogo na capa de Disco Voador, para dois jogadores (melhor dito: “dois supernovos”) com “um dado apenas”; as imagens de 2020 para o álbum Faz de Conta, de Júlio Pereira (2003), ou dos vários ilustradores que dão cor aos pequenos postais de Contarolando, de João Filipe. 

Tropeçámos nestes dois discos por conveniência: cabem bem nesta nossa procura de coisas que os pais não têm vergonha de cantar com os filhos. Um e outro aproximam-se de um universo mais tradicional de contos e cantos para os mais novos. Júlio Pereira — num emaranhado de nomes que se vão cruzando entre estes discos — recupera sobretudo Eugénio de Andrade, mas também Vinícius, Sérgio Godinho ou António Torrado, para contar fábulas de fazer de conta. E fazer contas: “Era um gato e era um cão/ os dois não cabem na mesma canção/ Era um velho e uma rapariga/ os dois não cabem na mesma cantiga/ Era uma pedra e era um pote/ os dois não cabem no mesmo caixote/ Era uma tesoura, era uma trança/ as duas não cabem na mesma aliança/ Era uma pulga, era uma dama/ as duas não cabem na mesma cama/ Era uma laranja, era um melão/ os dois não cabem na mesma estação/ Uns são assim, outros assado/ nem todos dormem para o mesmo lado”.

Contarolando (não é erro de impressão, é com contos que se cantarola) insiste nos temas de um imaginário infantil com a dose certa de subversão e ternura. “A bruxa que não era assim tão má” promete uma mulher que já meteu no caldeirão “morcegos e pernas de rã” e um “bom rapaz” que foge do caminho para manter-se longe do mau olhado, para acabarem os dois “cansados” e “à beira do lar dormiram descansados./ De manhã, ao acordar, estavam muito admirados.../ Os dois, de cabeça no ar, tinham dormido abraçados.”

É neste mundo da canção tradicional e popular que surge também um álbum inesperado, no segundo ano de uma experiência inusitada: Leopoldina apresenta clássicos infantis (edição Continente). Esqueçam os Queijinhos Frescos, o conceito que aqui se ouve aproxima-se mais de revisitações do musicário infantil ao pegar em conhecidas canções para crianças, mas neste caso dando-lhes voz pelas vozes de músicos reconhecidos. A Disney já tinha feito isso, por exemplo, com Stay Awake – Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films (1988), em que Tom Waits se metamorfoseava em sete anões a cantar “Heigh Ho” ou Los Lobos entravam na selva e diziam “I Wan’na Be Like You”, na música dos macacos.

A Leopoldina ensaia soluções idênticas. Se em 2010 a experiência incluiu Pedro Abrunhosa e David Fonseca, Xutos & Pontapés e Deolinda, neste ano de 2011 é possível ouvir os GNR a atirarem o pau ao gato, Rui Veloso a gingar com a bola do Manel ou os Clã (sim, eles que deram o mote para este texto) a cantarem “Ou isto ou aquilo”. Prova acabada vinda do supermercado: a loja do mestre Hermeto, que os Clã levam no seu Disco Voador, diz-nos que “tudo junto em sintonia assim se faz a harmonia”. É só procurar, abrir ouvidos – e juntarmo-nos aos miúdos a cantar.

 

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Outros exemplos de fora: 
Lullabies. A editora Ellipsis Arts editou uma extraordinária coleção de álbuns com canções de embalar de diferentes origens geográficas. Um achado.

Adriana Partimpim. Adriana Calcanhotto vestiu a pele de Partimpim para nos trazer um imaginário infantil delicioso.

Natalie Merchant. A antiga vocalista dos 10000 Maniacs, dona de uma voz singular e de uma sólida carreira musical, atirou-se a poemas sobre a infância dos cancioneiros americano e britânico para cantar à sua filha. Uma maravilha.

Disney Silly Songs. As canções tolas da Disney que ouvimos nos desenhos animados. Um roteiro pelas vozes inconfundíveis de Mickey ou Pateta ou tantos outros.

Agosto 14, 2019

Pink Floyd na Lua feita de queijo verde

Miguel Marujo

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Quando os Pink Floyd chegaram ao lado oculto da Lua, esse Dark Side of the Moon lançado em março de 1973, já traziam na bagagem uma outra viagem lunar.

Quase quatro anos antes, a 20 de julho de 1969, nos estúdios de televisão da BBC, os produtores do programa colocaram de um lado do estúdio um painel de cientistas e do outro quatro rapazes prontos a improvisar em conjunto ao vivo música para aquela emissão, em direto, da chegada à Lua da Apollo 11.

Moonhead é porventura dos temas menos conhecidos de Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright, os quatro Pink Floyd que naquela noite aceitaram o desafio da televisão britânica para esta sessão. "Era uma programação mais solta por aqueles dias e, se um produtor de um programa fosse mais ousado, eles eram capazes de fazer algo assim, mais fora da caixa", contou há dez anos Gilmour.

Esta banda sonora especial para a emissão espacial quase se perdeu no tempo, uns seis, sete minutos, nunca tendo sido editada em disco pela banda. Alguém a resgatou em duas bootlegs, With/Without e Wavelenghts, e mais ainda, alguém a publicou no YouTube, sobrevivendo a memória. Conta-se que a peça instrumental é conhecida também como Trip on Mars, mas nunca viajou para Marte.

Gilmour explicou que a BBC tinha pensado em meter pelo meio alguns intervalos na transmissão em direto da alunagem com a banda a tocar. Em estúdio estavam ainda atores que liam frases e poemas alusivos à Lua. Na descrição do floyd, Moonhead "é um blues agradável, atmosférico e espacial de 12 compassos". Confere: é uma trip psicadélica, onde nos sentimos com a cabeça na Lua, como pensaram os quatro no momento em que tocaram.

Por causa disto, a banda usou uma frase numa digressão digna do seu feito: "Pink Floyd — still first in space." Também o programa de televisão tinha um nome muito adequado às muitas histórias que se contavam naquele tempo, com a devida dieta de humor britânico. "Mas e se for feita de queijo verde?!" A Lua, claro.

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, em 29 de junho de 2019]

Agosto 13, 2019

Apenas o suficiente para respirarmos

Miguel Marujo

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Deixem-me blasfemar: Johann Sebastian Bach é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma vacilo. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo fang, do norte do Gabão, derrotando discursos das falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena — Bach to Africa.)

Arrisquemos nova pauta, antes de retomar a partitura: numa altura em que se democratizou o gosto de viajar, a bagagem não tem lugar para a música - mais ainda quando o streamingquase derrotou o CD. A coisa boa da globalização (e do streaming) é o mundo todo num clique na internet.

Pode começar-se a viagem com Baaba Maal em Call to Prayer ou escutar em silêncio os ventos andinos de um Kyrie da Misa Criolla, tropeçar num casamento klezmer dos Muzsikás, percorrer os desertos sufis com o afegão Mohammad Rahim Khushnawaz ou o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, visitar os banhos do Istanbul Oriental Ensemble ou cair nos braços de Sheila Chandra e das vozes búlgaras em polifonia com António Zambujo e adormecer, por fim, ao som do violão de Ricardo Cobo.

Esta divagação não é para mostrar apressados saberes enciclopédicos. Num tempo em que nos impingem que quem é diferente (apenas por ser migrante, refugiado, asilado, estrangeiro) deve ficar algures esquecido no seu canto, talvez possamos reconhecer que estes sons nos levam antes em peregrinação. Elias Chacour, que é (num mundo de definições fechadas) palestiniano, árabe, cidadão israelita, cristão, disse-nos: "A palavra guerra significa em hebraico aproximar-se demasiado um do outro, a ponto de não se conseguir respirar. A paz significa afastar-se um pouco, para que eu possa respirar. Hoje, sufocamos." Podemos descobrir a música afastados apenas o suficiente para respirarmos.

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, com o título Peregrinação Interior, em 11 de maio de 2019; imagem de Tony Canton e Jean-Pierre Caporossi, La Tour de Valse]

Agosto 04, 2019

Beijos que enchem o mar

Miguel Marujo

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Não é a página em branco, vazia de palavras, que assusta o jornalista. É a falta de palavras exatas para contar o que se viu e ouviu e tocou e cheirou e provou. Deixemos os cinco sentidos assim, na cadência da conjunção, evitando as vírgulas abruptas, que nos ensinam a respirar entre as palavras mas tiram o prazer de ir somando palavras enquanto nos lembramos de cada um dos cinco sentidos. De novo, não é a página vazia que assusta. Cada um dos sentidos preenche um espaço na página branca e vai dando corpo ao texto.

Num sábado, 6 de julho, fomos despertados do torpor de uns dias de férias com a notícia: "Morreu João Gilberto." E mais uma vez apressámo-nos em obituários que se devoram nas redes sociais (pelo menos é uma colorida página de necrologia) até ao próximo morto. Acaba por faltar sempre tempo, daquele que vivíamos nas longas férias do verão azul da infância (e nunca os dias sem fazer nada eram dias vazios), enquanto levávamos a bicicleta pelos defensões das marinhas (ainda havia montes de sal) para ouvir o restolhar das águas e dos pássaros. E já nos estávamos a perder de novo.

Falta sempre tempo — para saborear, para ir ouvir de novo, ler as palavras que acompanham o violão, tatear os discos, cheirar os corpos. "Melhor do que o silêncio, só João", arrumou Caetano Veloso. E assim nos ensinou como nunca ganha o vazio, qualquer vazio.

Damos outro salto no tempo — e não há nenhum vazio entre este tempo e esse, em Manchester, quando, em maio de 2017, no final de um minuto de silêncio de homenagem pelas vítimas do atentado no concerto de Ariana Grande, a voz de uma mulher irrompeu na multidão a cantar Don't Look Back in Anger, e um a um todos em volta se foram juntando e cantando a canção dos Oasis. A música salva, sabemos, por isso quando João nos sussurrou Chega de Saudade, percebemos que vazio algum nos ganha. "Vai minha tristeza/ E diz a ela/ Que sem ela não pode ser", e logo à frente nos enche tudo de futuros. "Mas se ela voltar, se ela voltar/ Que coisa linda, que coisa louca/ Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos/ Que eu darei na sua boca."

[crónica publicada no 1864, suplemento do DN, em 30 de julho de 2019; imagem de Beppe Giacobbe, Made in Italy]

Junho 29, 2019

Roubaram os Radiohead. Sorte a nossa!

Miguel Marujo

Radiohead.jpgOs Radiohead em 1997. Fotografia de Danny Clinch

 

Há coisas assim: este texto é um esboço do que seria um artigo ainda mais longo para o DN, a publicar até hoje. Já se sabe: no meu dia-a-dia sou jornalista de política do DN e, de quando em vez, dou uma perninha em coisas diferentes, como música, um prazer de escuta e escrita. Ao longo de uns 15 dias fui ouvindo e compondo ideias para o que seria um texto sobre os minidiscs dos Radiohead que foram pirateados — mas não o consegui terminar a tempo. Agora não faz sentido publicá-lo no DN: os 18 minidiscs estiveram disponíveis durante 18 dias, deixaram de estar este sábado e esgotou-se a possibilidade de os leitores do jornal serem também ouvintes destes sons. Fica o esboço de um texto que infelizmente não teve tempo para ganhar outra projeção. [E fica o link para um texto que numa pesquisa recente descobri no The Guardian: o jornalista britânico conseguiu ter tempo para ouvir e escrever um texto delicioso e onde é possível ouvir um dos minidiscs na íntegra, o MD115.]

 

Umas 18 horas de experiências com canções pelo meio

Quando piratearam os minidiscs de Thom Yorke saiu-nos a sorte grande. Do período de OK Computer, essa obra maior do cânone da música popular, os Radiohead disponibilizaram agora, por um breve período de 18 dias, material que permanecia praticamente inédito de 1995 a 1998.

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Ironizando com o roubo, a banda diz-nos que disponibilizam o material para que os seus fãs possam avaliar se estas quase 18 horas valem de facto 150 mil libras, o resgate pedido pelo hacker anónimo. Duvidamos que valha esse dinheiro. Mas o que se ouve é um precioso documento sonoro, de uma banda a reinventar-se, a ensaiar novos caminhos, rasgando formatos e convenções. Como estas canções já andam por aí podem muito bem ser postas cá fora, defendem os Radiohead. “Até que todos fiquemos entediados e seguimos em frente”, disparam. 

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Estas horas de “ideias e sons”, como descreve Thom, podem exigir paciência para evitar o tédio — não estamos perante 18 álbuns lineares, com uma produção cuidada, um alinhamento estudado, o que aqui está e que não era suposto ver a luz do dia é “apenas tangencialmente interessante e muito muito longo”, como lembrou Jonny Greenwood, guitarrista e baixista da banda. “Não [é] muito interessante”, explicou-se de forma mais seca Yorke.

Enganam-nos os rapazes dos Radiohead (sobretudo enganam os seus fãs mais empedernidos). É verdade que aquilo que ouvimos é, muitas vezes, apenas uma ideia, um som picado algures, uma canção abruptamente interrompida, como se a agulha do disco saltasse para uma nova faixa, samples curtos ou que se prolongam em gravações roufenhas, caseiras, esboços que mostram as possibilidades de explorar um tema, de construir uma canção, ou apresentações ao vivo, para testar canções que ganhariam vida própria e hoje pertencem ao panteão dos Radiohead — e da pop.

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Este lado experimental pede uma audição de garimpeiro, à espera da descoberta da pepita, como no minidisc 117, depois de uma sucessão de “loops”, como o próprio Thom intitula as “composições” que se ouvem, quando nos deparamos com uma versão crua de Karma Police, guitarra, bateria e voz, e quase sem pausas se segue I need a job, numa sonoridade com que OK Computer e Kid A viriam a romper.


[e o texto que Thom partilhou na conta bandcamp, agora indisponível]

we’ve been hacked 
my archived mini discs from 1995-1998(?) 
it’s not v interesting 
there’s a lot of it 

if you want it, you can buy the whole lot here 
18 minidisks for £18 
the proceeds will go to Extinction Rebellion 

as it’s out there 
it may as well be out there 
until we all get bored 
and move on 
Thmx

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Junho 04, 2019

2003

Miguel Marujo

Este blogue faz hoje 16 anos. Não é número que arredonde a celebração mas, na sua serena quietude de uma casa que serve hoje como memória de afetos e trabalhos, é número que se festeja pela resiliência. Se nunca nenhum blogue nos salvou, já as palavras continuarão por aqui.

Maio 03, 2019

Gaiteiros abrem livro de bestas quadradas, diabos e baleeiros. "É uma outra coisa"

Miguel Marujo

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Bestiário marca o regresso dos Gaiteiros de Lisboa, ao fim de sete anos. Com nova formação e a mesma vontade de sempre de experimentar sons e um humor cáustico. Entrevista com Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho.

Há diabos que se agradam de hidromel, essa bebida de anjos, há a gaita do diabo que soa endiabrada, há baleeiros que vão vencer marés e assombração, há uma padeira que foi guerreira sem saber e nas horas vagas ou há aquela besta quadrada que se põe na alheta, um aldrabão, fazedor de vilezas e canalheira até mais não, que desfia um cardápio de nomes feios prontos a usar: aventesma, abécula, cavalgadura, energúmeno, estafermo, morcão, verdugo, trampolineiro, foge cão que já és barão, vai com os porcos, para te ires catar...

Senhoras e senhores, eis Bestiário, o novo álbum dos Gaiteiros de Lisboa, um regresso que tem tanto de inesperado como de familiar, que nos serve uma sonoridade que, quase 25 anos depois da estreia com Invasões Bárbaras (1994), continua a surpreender-nos pela ironia, pelo humor cáustico, pela alegria dos sons, em que não cabem instrumentos harmónicos.

Quando surgiram, estes Gaiteiros eram "uma outra coisa". E hoje ainda se reconhecem nessa definição, confessam Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho, em entrevista ao DN. "Quem é outra coisa nunca deixa de ser outra coisa", ri-se Carlos, o homem dos sete instrumentos, como lhe chamava Sérgio Godinho. "Há uma coisa que é fundamental que faz que sejamos outra coisa" — e Guerreiro ensaia uma explicação: "Quando começámos, foi na ressaca de todo um movimento reinterpretativo da música tradicional, que já vinha de trás, do GAC, da Brigada Victor Jara. Foi um caminho que já tinha sido percorrido e que já estava de certa forma esgotado e precisava de ideias."

Os projetos que surgiam, às vezes, "era juntando mais coisas". Os Gaiteiros preferiram tirar. "O grande segredo do som deste grupo, o que fez que este grupo fosse outra coisa, foi nunca abandonarmos a gaita-de-foles como o instrumento central do grupo. Como tínhamos tocado muitas polifonias tradicionais da Beira, do Alentejo, do Minho, fazíamos harmonias sem termos instrumentos harmónicos — e isso foi outro segredo. Se nós metêssemos uma guitarra ou um piano, a coisa era redutora", sintetiza Carlos Guerreiro.

Esta aparente desarmonia transformou-se numa sonoridade, num som característico, a tal "outra coisa", que vive também de um registo polifónico muito próprio. "Juntar um clarinete com uma gaita-de-foles com uma sanfona e pôr isso tudo a harmonizar, a dar um timbre. O que mais nos caracterizou começou por ser o som, o som ser diferente, ser outra coisa, lá está", aponta Carlos.

"O primeiro disco, por exemplo, foi gravado num ambiente praticamente laboratorial: tínhamos um estúdio à disposição, íamos para lá, compúnhamos, gravávamos, ouvíamos, gravávamos, ouvíamos, que é um método usado por tantas bandas internacionais... E, quando se chega ao fim de uma série de ensaios, depois é só misturar, que o disco está feito. A coisa foi muito, muito laboratorial... E isso foi a construção dos alicerces daquilo que o grupo é hoje", explica Carlos Guerreiro.

Nem sempre isto foi bom. "Houve uma dinâmica que se instalou, que funcionava, mas que também não era o grande motor do grupo - nos últimos dez anos, antes destes elementos mais radicalmente terem saído, o grupo andou em águas mornas: tínhamos vida, fazíamos concertos, fazíamos coisas, mas a certa altura entrou em velocidade de cruzeiro e essa velocidade era baixa porque nós estávamos no panorama musical português, mas não fazíamos nada por conquistar um lugar especial. Por isso é que agora estou um bocado surpreendido por ver que de repente estamos a renascer, provocando a mesma curiosidade que provocámos no princípio."

O percurso distinto de cada um — havia gente que vinha da música tradicional, outros do jazz ou do rock — ajuda a compor este grupo que abala as tradições da música tradicional portuguesa. Paulo Marinho, que muitos recordarão da Sétima Legião, diz que essa foi uma "experiência pop importantíssima", que lhe permitiu ter "uma visão alargada do que era estar em palco, de ter um certo conceito de espetáculo e do que era a música de raiz". E de repente o rapaz, que era fã do GAC ou de José Mário Branco, vê-se a trabalhar com os seus ídolos. Paulo põe aspas na expressão e brinca com Carlos Guerreiro: "Depois fiquei desiludido." Os dois riem-se.

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"Somos fãs do Quim Barreiros"

O humor das letras, que parece colar-se ao humor da sonoridade que emprestam às músicas, "não é pensado, é natural", defende Guerreiro. A tradição ainda é o que era, garantem os dois músicos, que invocam os exemplos mais inesperados em defesa desta tese. "Esta parte cómica, cáustica", como define Paulo, tem muito que ver com "as desgarradas, os segundos sentidos, os despiques". O gaiteiro concretiza: Leite de Vasconcelos, linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo, "fala de recolhas que fez, porque eram muito importantes para a cultura, fazem parte da nossa cultura, mas não podia publicá-las por causa da linguagem, muitas vezes explícita". Como Bocage, que "não terá inventado um estilo, tem uma forma mais cuidada, mas há coisas da tradição que passavam muito por aí". "Nós não fomos a esse nível tão explícito", defende-se Marinho, para logo deixar cair um exemplo inesperado entre risos: "Nós somos fãs do Quim Barreiros!"

"As pessoas ficam um bocado escandalizadas, isso é música pimba", acrescenta Carlos Guerreiro, que se socorre do espetáculo de Bruno Nogueira e de Manuela Azevedo para pedir "deixem o pimba em paz". E completa: "Quim Barreiros é o herdeiro legítimo e direto de uma tradição do Alto Minho, das desgarradas nos casamentos, nos batizados, nas festas, em que o pessoal se embebeda e canta." "Era uma forma de resolver problemas sem ser à tareia", replica Paulo, para Carlos entrar no despique, recordando as festas de Santo Cristo, nos Açores, onde "o canto tradicional tem muita importância" e as pessoas se juntam para cantar ao desafio. "É uma coisa que existe pelo país... Quase todas as culturas têm isso, na Córsega é o chiama è rispondi. A gente quer é rir-se."

O riso também vive de um imaginário muito próprio dos Gaiteiros: bestas, monstros, sátiros, macaréus, uma galeria muito própria de monstros e animais. "Se perguntares porque é que é assim, não sei dizer", ri-se Carlos Guerreiro.

O humor cáustico também se veste de "crítica social", defende Paulo Marinho. Em Brites de Almeida, uma canção sobre a padeira de Aljubarrota, como o nome indica, o remate é desconcertante, puxando para a atualidade, brincando com uma padeira que não sabia marcar golos e falhou o Panteão.

Guerreiro pega na forma e molda as canções: "Uma das características dos nossos temas é que nenhum é inócuo, estão todos de certa forma armadilhados. Todos têm uma história para contar, todos têm alguém de quem falar, todos são dedicados a alguém, todos têm um qualquer convidado, não é um debitar de coisas. Há quem faça isso muito bem... Aliás, essa é a forma mais normal até de fazer as coisas, uma coletânea de temas, as coisas não têm de ter sempre um objetivo comum ou conceptual." Com os Gaiteiros não é assim, já se percebeu.

Este sexto disco de originais, Bestiário, rompe com um silêncio prolongado. Avis Rara, o anterior disco de originais, data de 2012. "Nunca fiz essas contas. Sete anos, já?!", espanta-se Carlos Guerreiro. Com a saída dos seus elementos anteriores há uns três anos, Carlos e Paulo equacionaram o que fazer. "Acabamos? Nem pensar, disse o Paulo." Decidiram continuar, fizeram castings, começaram "a juntar gente aos poucos". E Guerreiro completa: "Foi assim uma almofada muito importante para o renascimento do grupo. Este renascimento nunca se daria com maus músicos, seria impossível porque nunca teria pachorra para começar do princípio outra vez. Houve elementos que entraram e voltaram a sair... Andámos a moer muito no início, quando tudo começou, não íamos voltar a moer."

Para desmoer melhor, os Gaiteiros de Lisboa rodeiam-se de amigos e velhos conhecidos. "Fazemos questão de não estar sozinhos", explica Carlos Guerreiro, num disco que conta entre os convidados com Filipa Pais, João Afonso, José Medeiros, Pedro Oliveira, Rui Veloso ou o coletivo feminino Segue-me à Capela.

Há dois anos fizeram a síntese do percurso anterior com a compilação A História, de que recuperam o tema então inédito Roncos do Diabo. "Isso", a tal coletânea, "foi graças a uma cumplicidade com a Uguru, que neste momento é quem distribui o nosso disco. Eles resolveram apoiar-nos, não nos deixar cair, sobretudo quando eu e o Paulo ficámos sozinhos a olhar um para o outro [risos]."

Mesmo em versões mais tradicionais como Canto do Coração, Flecha ou Chamateia, o original de Luís Bettencourt, aqui nas vozes de Filipa Pais e de João Afonso, quem conhecer os trabalhos para trás vai reconhecer este Bestiário como só podendo sair deste coletivo. "Talvez porque eu fosse um dos elementos mais ativos em termos de composição, talvez porque houvesse alguma simbiose, pelo menos no princípio, entre mim e o José David, houve coisas que se calhar se tomaram como definitivas em relação ao som do grupo, como o uso da gaita e de instrumentos de palheta", admite Carlos Guerreiro.

O realejo que é um mamarracho

"Só aí há logo uma definição sonora, continuar a usar gaitas e aerofones de palheta, e não usar instrumentos harmónicos, faz logo a diferença." E inventando também instrumentos, algo que aconteceu por curiosidade. "Nós não inventamos instrumentos para ser interessante, precisávamos de algumas sonoridades e lá dizíamos "deixa lá ver o que isto dá, se eu juntar um tubo não sei quê com uma palheta não sei que mais e fizer os buracos, como é que isto soa?"."

"Muitas vezes fiz temas para os instrumentos, também fiz instrumentos para os temas... Todas as combinações são possíveis." Como neste álbum, em que Guerreiro foi buscar "um realejo de cartões, de manivelas", que lhe apeteceu "fazer há uns anos". "Estava lá em casa para um canto, nunca tinha pensado em usá-lo fosse para o que fosse. Aliás também não vou andar com aquilo na estrada, é um mamarracho enorme..." E riem-se.

Senhoras e senhores, este é um belo e divertido monumento da música portuguesa.

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A padeira que não marcava golos e não foi para o Panteão

Há uma imensa ironia, um humor tremendo e um experimentalismo sonoro incessante nos Gaiteiros de Lisboa, que trazem agora, 25 anos depois da sua estreia em disco, o sexto álbum de originais, Bestiário. Prova disso é Brites de Almeida — a canção que é um hino à padeira de Aljubarrota com que antecipam o novo disco — de um humor delicioso que nos prende nas palavras como na música.

Este é o grupo que experimenta, em cada novo trabalho, resgatar a música tradicional portuguesa com uma releitura contemporânea que nunca abastarda a sonoridade popular de cada canção.

A exigência de Carlos Guerreiro, Miguel Quitério, Miguel Veríssimo, Paulo Tato Marinho, Paulo Charneca e Sebastião Antunes, é singular: já criaram instrumentos não convencionais, como túbaros de Orpheu, o cabeçadecompressorofone, clarinetes acabaçados, o orgaz, o espátulofone, a serafina ou mesmo um tubo estriado com búzio e um balde de gelo chinês.

Do tradicional mantêm uma atenção aos tempos de hoje, de "língua afiada", como descreve Carlos Seixas no prefácio a Bestiário. Basta lembrar Avejão, de Avis Rara (o anterior álbum de originais de 2012), sobre a terra dos patos bravos, que mais parece um vespeiro em que andam todos à bicada para chegar ao poleiro. Ou Proparóxitonias do mesmo álbum, onde "também os frades canónicos exploram recursos hídricos".

Ou esta nova canção que, entre os tradicionais sopros, percussões e cordas, nos recorda que "Brites de Almeida/ seja história ou seja lenda/ revelou-se na contenda/ modelo de liberdade/ fazia pão, broa de milho e bolos/ não sabia marcar golos/ não foi para o Panteão".

[entrevista e texto sobre o single publicados em 26 e 2 de abril, respetivamente, no DN; fotos de António Brázio]

Maio 02, 2019

Com tanta estrada para andar, Palma conta-se de novo

Miguel Marujo

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O Jorge Palma que se pôde descobrir, ver e ouvir, num documentário na RTP1, é muito do que o cantor, compositor e músico quis contar na primeira pessoa, confidenciou ao DN um dos autores do programa, o jornalista Nuno Galopim. É uma marca da própria série Vejam Bem.

"A linha narrativa procura seguir o modelo que temos usado ao longo desta série, embora cada episódio acabe sempre por refletir muito da personalidade e obra do entrevistado", contou Nuno Galopim. "Ou seja, o ritmo, o discurso, a própria condução da narrativa, é definida pela figura, o seu percurso e, claro, o seu modo de falar, já que as histórias de vida e obra que procuramos retratar na série Vejam Bem têm como o maior denominador comum o facto de ser o próprio protagonista a partilhar ideias e memórias pelas suas palavras."

Para o documentário sobre Jorge Palma, a entrevista foi filmada "num fim de tarde" no Grande Auditório do CCB, onde ele mesmo já atuou ao vivo. E o resultado é também obra de Palma. "Tendo o Jorge visto o episódio dedicado a José Mário Branco, tinha já a noção de como podia alinhavar as memórias que ali ia evocar. Seguimos então as pistas que o discurso sugeriu, caminhando entre histórias pessoais e vivenciais e o modo como estas acabaram por se refletir na sua própria música", explicou Galopim, que já foi jornalista no DN.

Ainda que haja muita estrada para andar, como o próprio canta em A Gente Vai Continuar, Palma aqui conta-se de novo. "Mais do que procurar histórias nunca antes contadas - e do Jorge Palma há já uma boa biografia publicada em livro - observámos o seu modo de nos contar as narrativas. E a força da voz, o seu ritmo, é quase como o de uma canção falada em que, ao contrário de outras em que ficciona, afinal ali é a de quem olha para si", notou o coautor. "E fá-lo com gosto de partilhar connosco, e com franqueza, aquilo por que passou e quem é...", completou.

Este episódio de Vejam Bem tem como título Jorge Palma - Quem és Tu, de Novo, uma escolha que Nuno Galopim justificou pelo facto de, "no fundo", o título sugerir "um reencontro com histórias", mas que, neste caso, "são contadas de outra maneira". Os títulos "partem sempre de uma canção do protagonista", notou. A escolha recaiu num dos temas menos óbvio da obra de Palma, que se pode encontrar, lembrou Galopim, no álbum de 2001 Jorge Palma, "aquele tantas vezes referido como Prohibido Fumar, sim, com o 'h', como se vê na foto da capa".

A construção do episódio passou também pelo "recurso a uma série de imagens de arquivo, na sua maioria verdadeiros tesouros da nossa memória que encontramos no arquivo da RTP". E insistiu o jornalista: "A ideia desta série é a de alinhavar histórias narradas na primeira pessoa. E criar assim um coro que nos pode ajudar a fixar, através de memórias de figuras marcantes na história da música portuguesa cujo tempo de vida e obra se cruza com a história da própria televisão, um olhar panorâmico sobre a história da música portuguesa dos últimos 60 anos."

Sem exclusão de géneros e feitios: os anteriores episódios desta série da RTP Memória para a RTP1 foram dedicados a Simone de Oliveira, José Mário Branco e José Cid. "São histórias de música, algo que se ouve... Mas são todas elas histórias para ver. Porque nos fazem olhar para quem as conta e abrem janelas, através das imagens de arquivo, para os lugares, os factos, as canções, as atuações, os outros nomes, que cada um vai evocando", defendeu ao DN Nuno Galopim.

"Em cada episódio deixamos claro que estas histórias são como um retrovisor, ou seja, que ajudam a ver para trás, mas connosco a olhar em frente. Tenho dividido a construção de cada episódio um parceiro criativo diferente, o que ajuda também a vincar esta vontade de, sobre uma matriz comum, podermos sugerir nuances diferentes", contou. Neste caso, acrescentou, "o trabalho (que é sempre uma produção da Inovação RTP) foi partilhado com o Daniel Mota, que tinha já coassinado o episódio dedicado a Simone de Oliveira.

 

Jorge Palma: Quem és Tu, de Novo
de Daniel Mota e Nuno Galopim
[estreou a 1 de março, 23.30, na RTP1, publicado originalmente no DN nesse dia, com foto de Orlando Almeida / Global Imagens]

Abril 30, 2019

Dois álbuns entre os melhores do ano-que-ainda-não-tinha-acabado

Miguel Marujo

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The Goon Sax e Spiritualized trouxeram-nos no tempo frio dois álbuns que acabaram por entrar nas listas dos melhores do ano. Percebe-se porquê. Basta ouvir.

 

Com o ano de 2018 a fechar somaram-se os balanços do ano, preencheram-se páginas de listas com os melhores do ano, uma tradição que os anglo-saxónicos levam tão a peito que no final de novembro já há resumos e sentenças. E é sempre uma boa oportunidade para redescobrir o que já tínhamos arrumado na prateleira da memória, recuperar algo que só ouvimos de fugida ou espantarmo-nos com alguma descoberta de fim de ano que, por vezes, arriscam entrar nos melhores do ano-que-ainda-não-acabou.

A tempo do Natal*, o que aqui se deixa é antes breves apontamentos sobre dois álbuns que fomos ouvindo nos últimos tempos, e que inevitavelmente surgem nas listas do ano de várias publicações da especialidade. Para podermos fazer a nossa, é melhor deixar acabar o ano.

 

The Goon Sax, We're Not Talking

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Setembro foi o mês de recomeços, em que se arrumaram os amores de verão, pegou-se na mochila e regressou-se à escola ou à universidade para embarcar em novas aventuras, agora mais frescas, em dias que vão ficando mais curtos.

Nesse mês de setembro, de Brisbane, na longínqua Austrália, chegaram as canções de dois rapazes e uma rapariga, James Harrison, Louis Forster e Riley Jones, que fizeram estes dias curtos voltar aos tempos adolescentes de quando se regressava às aulas.

Para nos alegrar basta ouvir, logo na abertura do novo e segundo álbum, We're Not Talking, a pop deliciosa de Make Time 4 Love: "I felt happy when you said you don't need me", cantam-nos eles na primeira linha sobre um manto de guitarras e percussões - e estamos conquistados.

E se o leitor fizer o favor de continuar, e for ouvindo Losing Myself, We Can't Win ou Til The End, ficará tão conquistado quanto nós, entranhando e estranhando tamanha familiaridade com alguma coisa que teremos ouvido algures lá atrás no tempo, noutros tempos adolescentes. Sim, o rapaz Forster é filho de Robert Forster, um dos fundadores dos Go-Betweens, sim, os mesmos de Streets of Your Town, que nos deram tantas alegrias pop. E quem sai aos seus...

 

Spiritualized, And Nothing Hurt

Também da fornada de setembro, o regresso dos Spiritualized surpreendeu pela capacidade de nos voltar a espantar e encantar com o novo And Nothing Hurt, seis anos depois de Sweet Heart, Sweet Light.

Talvez tenha ajudado o tom caseiro (ou íntimo) que Jason Pierce imprimiu ao trabalho de gravação, mesmo quando as canções se transformam em opulentas sinfonias. Sem dinheiro para grandes estúdios, o frontman britânico tocou tudo num computador e também as cordas foram sampladas.

É inevitável não alinharmos nos elogios que couberam a este And Nothing Hurt, onde Pierce prossegue o seu caminho a flutuar por sobre todas as coisas, com estas nove canções a pairarem num espaço de afetos e ternos, como em A Perfect Miracle e Damaged, ou quando parecemos voar numa chuva de asteróides em On the Sunshine.

Não admira pois que este oitavo álbum dos Spiritualized — que nos chega 21 anos depois desse clássico que é Ladies and Gentlemen We Are Floating In Space (e A Perfect Miracle estabelece uma ponte galática para a canção homónima desse álbum de 1997) — esteja agora incluído em algumas listas dos melhores do ano.

[* — texto originalmente publicado no DN de 15/12/2018]

Abril 14, 2019

A íntima partida

Miguel Marujo

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É o mais belo indicativo da rádio: aquela guitarra dedilhada, a flauta assobiada, um Mar d'Outubro que nos abre a porta para o programa de rádio que mais vezes terei ouvido, não sei bem desde quando, e que a internet resgatou ao silêncio que entretanto lhe tinham imposto. E estava de novo "no ar", na Radar. Francisco Amaral alimentou durante 35 anos a mais bela íntima fracção que nos trazia palavras e sons na justa medida dos desejos e dos sentidos.

Um dia, o facebook permitiu-me dizer-lhe o quanto gostava do programa, ser seu "amigo", segui-lo, receber de prenda vários ficheiros disponibilizados de emissões antigas. Na noite de ontem, no carro, ouvi a voz da Radar a anunciar as horas do programa, e pensei que gostava de voltar a ouvi-lo na rádio como antes fazia: deitado, às escuras e aquelas notas a invadirem o sonho. A morte de Francisco é prematura. Na emissão dos 35 anos do programa, ele disse-nos: "Só se possuem eternamente os amigos de quem nos separamos." Obrigado.

Fevereiro 04, 2019

É bom ter de novo um caderno cheio de palavras — a criação de Nick Cave por ele próprio

Miguel Marujo

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É num corpo de letra courier, uma fonte tipográfica que imita a batida de uma máquina de escrever (e que replicamos neste post), que Nick Cave escreve as cartas de resposta aos fãs que lhe deixam perguntas sobre a sua criação, a poesia ou a música, a sua vida, a morte do filho e a sua fé ou os sonhos de que não se lembra — retomando os temas que percorrem o seu longo percurso criativo de 40 anos, em que o amor, a morte, o sexo e a religião se cruzam de forma quase omnipresente. 

Cada uma destas cartas tem sempre com a mesma assinatura de despedida, “love, Nick”. E é um gesto de amor aquele que o escritor de canções australiano, radicado na Grã-Bretanha, nos apresenta em The Red Hand Files, o site que já vai em 11* capítulos, com uma atualização regular, e que nos desvela os segredos de Nick Cave em ficheiros nada secretos — e desconcertantes, como também é Nick.

Depois do lançamento do seu álbum Skeleton Tree, em 2016, cuja gravação ficou marcada pela morte de Arthur, no verão de 2015, Nick Cave arrumou a cabeça e expiou o luto também numa digressão que, ao longo de 2017 e 2018, o levou aos palcos da América, Oceânia e Europa. E escrevendo, escrevendo muito.

A primeira questão de todas, escolhida por Nick, foi colocada pelo polaco Jakub, e e relaciona diretamente o luto com o processo criativo. Jakub recorda-lhe que em One More Time with Feeling, o documentário que acompanhou as sessões de gravação de Skeleton Tree, Nick admitia que tinha perdido o controlo sobre a escrita durante algum tempo e pergunta-lhe se estaria mudar como compositor. O cantor australiano admite que sim, que durante “um ano foi difícil descobrir como escrever” — tudo tinha desmoronado, o centro da sua vida e da vida de Susie, a mulher, tinha morrido. Susie e Nick sentiam-se “uma espécie de estrangeiros flutuando num espaço profundo”.

“A boa notícia”, respondeu Cave a Jakub, “é que no ano passado senti-me intensamente ligado à minha escrita”. E acrescentou: “Algo definitivamente mudou e escrevi muitas coisas novas. Não posso dizer-te o alívio que foi. Eu estou a escrever muito mais e é algo forte e focado, na minha opinião.” 

O desmoronamento na vida de Nick Cave não foi apenas o da perda física de um dos seus filhos. Aquilo que está no centro da sua vida é ainda, “no caso de um artista”, “um sentimento de espanto”. “Talvez seja o mesmo para todos”, admite o músico. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho.”

Ouvindo Skeleton Tree, composto durante esse tempo de dor, sabemos que há um espanto permanente em cada uma das suas canções, um sobressalto indizível e um arrebatamento por uma polifonia de afetos. O brilho está lá. Nick Cave revê-se nas palavras de S., uma fã que lhe escreve de Londres, sobre o processo criativo, de que é sempre algo que se vê de forma imperfeita ou apenas pelo canto do olho.

“Eu gosto muito da sua descrição do processo criativo: ver algo imperfeito ou pelo canto do olho. É isso mesmo. Uma boa ideia de música nunca se aproxima de ti, nunca te olha nos olhos, nunca se anuncia — pelo menos não na minha experiência. Ideias líricas são tão ilusórias quanto pirilampos: eles são espíritos que voam entre as árvores. No momento em que lhes dás atenção, eles foram-se.”

Na Califórnia a gravar novo álbum

Nick Cave vai além do que lhe perguntam, dá notícias do que está a fazer ou do que poderá acontecer, parece deixar cair a armadura de quem desafia a natureza quando sobe a um palco. 

Em setembro passado, na segunda carta, Jenn, de Boston (EUA), pergunta-lhe se tem animais em casa — tem dois cães: “Um cão lunático gentil de olhos tristes e com cancro chamado Otis e um pequeno salsicha psicótico chamado Nosferatu, cujo único grande empreendimento na vida é morder-me.”

Antes de falar dos cães, Cave começa por dar uma novidade. “Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco.” E desvela um pouco do que está a acontecer: “É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço.”

Em tempos em que as mediações tradicionais são postas em causa todos os dias, através das redes sociais — com atores e atrizes, músicos, modelos, um sem mundo de famosos e antes intocáveis a interagirem com os seus admiradores e detratores, Nick Cave surpreende-se com a reação que o site teve logo no primeiro instante. “Tenho sido inundado com perguntas. A adesão a The Red Hand Files apanhou-me completamente desprevenido. Por isso, muito obrigado a todas e a todos.”

O australiano sempre foi um magnífico contador de histórias, como provam também as suas canções (e os romances a que já deu vida) ou as prosas breves deste site. Como quando Irina, de Londres, questiona se no “bloco-notas cheio de palavras” de Nick grava peças do seu subconsciente e atreve-se a perguntar como serão os sonhos e como influenciam eles a escrita do australiano.

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A resposta é desconcertante: “Assassinos cruéis sequestraram o Warren. Os sequestradores enviaram-me uma lista de exigências. Eu tive que escrever uma carta de volta concordando com essas exigências. A carta que eu estava a compor tinha exatamente o mesmo formato de uma edição do Red Hand Files, com a mesma fonte cambria de vermelho sangue, o mesmo fundo de cor creme. O problema era que eu estava a ter um problema técnico em formatar a carta. As letras continuaram a lutar. A fonte continuou a mudar. O pequeno logotipo da mão vermelha não ficava de pé. O tempo estava a esgotar-se. E eu acordei, a tremer.” Era um sonho, bem se vê, mas pelo sim pelo não Nick telefonou a Warren. “Parece-me que ele está bem.”

Warren Ellis, que foi o responsável pela direção musical de Skeleton Tree, começou a colaborar com Nick Cave na gravação de Murder Ballads, e desde então tem ganho preponderância na definição do som do australiano e da sua banda. E tornou-se um amigo, concorda Cave, em resposta a vários fãs que o questionaram sobre… Ellis. “Há uma certa santidade nessa amizade, na medida em que ela atravessou todos os tipos de problemas nos últimos vinte e poucos anos, mas permanece resiliente como sempre. A nível profissional, desenvolvemos um estilo de composição baseado quase exclusivamente num tipo de intuição e improvisação espiritual que, como diz Henry Miller, parece calmo, alegre e imprudente.”

Foi com o texto em que falou explicitamente da morte do filho que estes Red Hand Files se projetaram no espaço mediático. A americana Cynthia conta-lhe que experimentou a morte do pai, da irmã e de seu primeiro amor nos últimos anos e que sente que, “de algum modo, mantém a comunicação com eles através de sonhos”. E Nick e Susie vivem o mesmo?, pergunta-lhe então. 

“Sinto a presença do meu filho, por todo o lado”, diz-lhe Nick Cave. “Parece-me que se amamos, sofremos. É esse o pacto. O amor e o luto estarão para sempre ligados”, escreve o músico. “O luto é o lembrete terrível das profundezas do nosso amor e, tal como este, não é negociável.”

A dor, conta-nos ainda, “ocupa o núcleo do nosso ser e estende-se dos nossos dedos até aos limites do universo. Dentro dessa volta existem todo o tipo de loucuras: fantasmas, espíritos, sonhos, tudo o que na nossa angústia desejarmos existir.”

Há uma espiritualidade que atravessa música e a poesia de Nick Cave e quando questionado sobre Deus — por um ateu, por exemplo, que lhe pede que explique a sua fé —, o australiano prolonga a resposta para lá do óbvio. “Há décadas que ando às voltas da ideia de Deus. Tem sido um lento arrastar pela periferia de Sua Majestade, com a caneta na mão, tentando escrever ao Deus vivo. Às vezes, acho que quase consegui. Quanto mais me torno disposto a abrir a minha mente para o desconhecido, a minha imaginação para o impossível e o meu coração para a noção do divino, mais Deus se torna aparente. Acho que temos aquilo que estamos dispostos a acreditar e que a nossa experiência do mundo se estende exatamente aos limites de nosso interesse e credibilidade. Estou interessado na ideia de possibilidade e incerteza. A possibilidade, pela sua própria natureza, estende-se além dos factos prováveis, e a incerteza impulsiona-nos para a frente. Eu tento encontrar o mundo com uma mente aberta e curiosa, insistindo em nada mais do que a liberdade do olhar para lá do que achamos que sabemos.”

E perante outra questão, sobre se Deus existe, a resposta dada é aquela que ouvimos nas suas canções. “Eu não tenho nenhuma evidência, mas não tenho a certeza de que essa seja a pergunta certa. Para mim, a questão é o que significa acreditar.” E acrescenta: “Acho impossível não acreditar, ou pelo menos não estar envolvido na procura disso, o que de certa forma é a mesma coisa. A minha vida é dominada pela noção de Deus, seja a Sua presença ou ausência. Eu sou um crente — na presença de Deus e na Sua ausência. Acredito na procura em si, mais do que no resultado dessa procura. Como extensão dessa crença, as minhas músicas são perguntas, raramente respostas.”

[Artigo publicado originalmente no DN, em 10 de dezembro de 2018, ligeiramente revisto; * — à data da publicação do artigo original, agora já são 23 capítulos]

Dezembro 18, 2018

Este outono que se ouve no feminino

Miguel Marujo

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Há novos álbuns no feminino que nos apontam três direções substantivamente diferentes mas dos quais retiramos idêntico prazer no posto de escuta. O outono ganha mais calor com as novas edições de Marianne Faithfull, Cat Power e Julia Holter. Abrimos o apetite.

Marianne Faithfull. Coração aberto na mesa de operações

Ainda miúda, com 17 anos, Marianne Faithfull revelou que seria mais fã dos Beatles do que dos Stones, um Benfica-Porto como tantos com que a música anglo-saxónica gosta de alimentar os nossos ouvidos. Ao 21.º álbum, com 71 anos, Marianne parece desdizer aquilo que confessava em 1964, ano em que cantou uma canção de Mick Jagger e Keith Richards, As Tear Go By, que a projetou para a fama e para a carreira.

Basta ouvir As Tear Go By, de novo, agora na sua voz envelhecida, rouca e sofrida. "Este é o disco mais honesto que já fiz. É uma cirurgia de coração aberto, querido", confidenciou à jornalista do Guardian, em setembro passado, no seu apartamento de Paris.

A voz rugosa de Marianne que ouvimos em Negative Capability, assim se chama este álbum, apresenta-nos uma viagem que nos fala de dor, tristeza e solidão, como aquela perda imensa que perscrutamos nos últimos álbuns de Johnny Cash, mas também de forma nítida noutro man in blackque canta com Marianne neste disco: Nick Cave. (E também há Warren Ellis, o homem que ajuda a dar textura às sombras de Cave em Skeleton Tree, que produz este disco com Rod Ellis, parceiro de PJ Harvey, e Head.)

Se o single que nos trouxe este longa duração, The Gypsy Faerie Queen, com Nick Cave na segunda voz, era já um excelente cartão de visita para o que agora nos é revelado (com toques muito próximos do cancioneiro do australiano), há canções que não enganam o envelhecimento, num diálogo pessoalíssimo sobre solidão e amor, como admitiu na entrevista ao jornal britânico. A canção de abertura, Misunderstanding, diz-nos isso mesmo: "Then you find yourself alone/ No explanation you can give... such a shame, no way to live."

Podemos voltar a As Tears Go By, nos versos que nos falam do ocaso do dia, e ver como aos 71 anos esta canção é diferente daquela que lhe ouvimos com 17: "It is the evening of the day/ I sit and watch the children play/ Doing things I used to do/ They think are new/ I sit and watch as tears go by". O coração está aberto na mesa de operações.

Marianne Faithfull, Negative Capability (Panta Rei)

 

Cat Power. Bendita nega

A americana Cat Power também abriu o seu coração em Wanderer, um disco em que Chan Marshall, o seu nome de batismo, respira serenidade em cada poro e a cada sopro, seis anos depois de Sun. Este disco nasceu de uma nega: a sua editora de há muito, a Matador, não gostou do que Cat lhes mostrou e recusou a sua edição. E também nasceu de uma revelação: Chan descobriu-se com uma doença, logo depois da edição de Sun, e logo depois ficou grávida.

Era impossível que este álbum fosse indiferente a estes acontecimentos tão antagónicos - e não é. Wanderer é terno, seduz pela voz, que ganha uma centralidade que não havia na pop que flirtava com a eletrónica no disco anterior.

Para ajudar mais ainda, outra femme terrible, Lana del Rey (que este ano já nos trouxe dois temas num registo muito seu) junta-se a Cat Power no excelente dueto que é Woman, um manifesto pessoal e libertador - e que se tornou um grande sucesso a fazer roer de inveja os executivos da Matador. E há também Stay, uma versão do tema de Rihanna que se despe para só contar a voz de Cat. Na medida exata, como é todo o álbum.

Cat Power, Wanderer (Domino Records)

 

Julia Holter. Estranha-se e entranha-se

Quem for ouvir Aviary à espera de algo como Sea Calls Me Home ou Feel You, canções maiores que nos apresentaram Have You in My Wilderness, de 2015, desengane-se: três anos depois, Julia Holter eleva a sua pop, que se equilibrava até aqui entre o lo-fi e a eletrónica, a um experimentalismo que pede uma audição atenta e demorada. Sem concessões.

Turn The Light On, o tema de abertura, é um excelente exemplo de como este é um disco a pedir tempo: há uma voz que plana por cima de sons que se prolongam, há fragmentos que se interrompem, procuram outras direções.

É impossível, nesses fragmentos, não ouvir ecos de Kate Bush ou Tori Amos, mas também a magia de Julianna Barwick e, sobretudo, uma voz a arriscar algumas amplitudes polifónicas de Meredith Monk. Arrisque-se o cliché: primeiro estranha-se, depois entranha-se.

Julia Holter, Aviary (Domino Records)
[Publicado originalmente no DN, em 23 de novembro de 2018]

Dezembro 17, 2018

Uma festa verdadeiramente dionisíaca

Miguel Marujo

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O regresso dos Dead Can Dance faz-se da forma dionisíaca a que nos habituaram Brendan Perry e Lisa Gerrard, por entre ritmos encantatórios, percussões hipnóticas e a beleza de sons recolhidos na Natureza.

Neste seu nono álbum de estúdio, Dionysus, o primeiro em seis anos desde Anastasis, os australianos voltam a transportar-nos por entre experiências folclóricas, onde ouvimos o mistério das vozes búlgaras, o transe lânguido oriental ou um canto que nos remete para polifonias corsas.

A sua sonoridade continua a fazer a ponte entre a antiguidade e a modernidade sem qualquer dificuldade - e que já há muito reconhecemos na obra dos Dead Can Dance, sobretudo desde os espantosos The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990).

Dionysus, que mostra na capa uma máscara nativa mexicana, divide-se em dois "atos" e sete "movimentos". Há uma solenidade na sua música que já arriscou mais, ao longo de um percurso de 37 anos (Brendan e Lisa juntaram-se em Melbourne em 1981), mas este Dionysus, que parte dos mitos do deus grego Dionísio, mantém intactas a aura misteriosa e a voluptuosidade com que o dueto vai desenhando as suas composições, como se ouve em Dance of the Bacchantes ou The Moutain.

Convocados os espíritos (o álbum foi lançado a 2 de novembro), os sete temas de Dionysus incorporam sons de colmeias da Nova Zelândia, o chamamento de pássaros de florestas da América Latina ou de um pastor dos Alpes suíços e do seu rebanho, passeiam-se por entre berimbaus brasileiros, flautas aztecas ou as cordas de uma gadulka búlgara e de uma balalaica russa.

Na sublime The Invocation, por entre ritmos que remetem para haréns de impérios otomanos ou persas, Gerrard é acompanhada pelas cantoras búlgaras (que também se fazem ouvir noutros temas), com quem tem andado em digressão - depois da edição de BooCheeMish, álbum do grupo Le Mystère Des Voix Bulgares com Lisa, num mantra de dafs iranianos ou tambores davul turcos.

Toda esta amálgama de ritmos pode deixar o ouvinte mais desatento de pé atrás, mas nestes quase 40 anos de percurso (e que Lisboa poderá comprovar em dois concertos já esgotados em maio de 2019), a maestria dos Dead Can Dance tem sido exatamente a de construir um som que se revela coerente, equilibrado, grandioso, eloquente e sempre misterioso. A transcendência mora aqui.

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[Publicado originalmente no DN, em 18 de novembro de 2018]