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Novo álbum dos Mão Morta regista os concertos com o Remix Ensemble. "Duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências", diz Adolfo Luxúria Canibal ao DN. Uma declaração política

Só os mais distraídos podem estranhar o mais recente trabalho dos Mão Morta, resultado de quatro noites de concerto com o Remix Ensemble, a orquestra contemporânea com residência na Casa da Música. Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram é o registo ao vivo em que a banda de Braga revisita o seu repertório num choque entre a garagem e a academia. Em entrevista ao DN, Adolfo Luxúria Canibal recordou que "este bichinho" vinha já de 2012, com uma experiência ensaiada na Guimarães Capital Europeia da Cultura.

"Nós não queríamos pegar no nosso repertório e dar-lhe um ar sinfónico, não o queríamos adornar, queríamos pô-lo em causa, de alguma forma suscitar uma espécie de choque entre duas formas de olhar e fazer música, entre a forma da garagem, a forma popular, ligada ao rock, e a forma académica, erudita, dos conservatórios. Para que acontecesse esse choque e desse frutos, não podíamos estarmos numa posição perfeitamente popular e não podíamos chocar contra alguém perfeitamente fechado no seu academismo. Tinham de ser duas estruturas abertas a trocarem galhardetes e experiências."

Os Mão Morta, desafiados pelo Theatro Circo a encerrar as comemorações dos 100 anos desta estrutura cultural de Braga, em 2016, quiseram fazê-lo com a sinfonieta de 15 elementos, dirigidos pelo maestro Pedro Neves, e arranjos de Telmo Marques. Adolfo não lhes poupa elogios. "O Remix Ensemble é, dentro da música erudita e contemporânea, um agrupamento de exceção. Achámos que o Remix seria o nosso oponente ideal."

Não se esperem adornos ou meros ornamentos, os Mão Morta não se domesticaram. Recordando os primeiros anos, na década de 1980, Luxúria Canibal lembra que "todos os concertos dessa época eram muito mais viscerais". "Na altura arranhávamos muito mal os instrumentos, conseguíamos fazer o que queríamos mas era limitado pelo que sabíamos — e sabíamos muito pouco, fazíamos coisas muito mais rudes e primitivas do que fazemos hoje." Mas "a essência dos concertos dos Mão Morta mantém-se. A forma como interpretamos visceralmente os temas continua a ser idêntica, a sua exteriorização é que já não é a mesma. A forma como encarnamos e como levamos a sério, sem nos levarmos a sério, o que estamos a tocar, continua a ser exatamente o mesmo."

Nós Somos Aqueles Contra Quem Os Nossos Pais Nos Avisaram não é só o título deste álbum, é uma declaração política. Mas Adolfo recusa que esta música seja de intervenção, pelo menos no "sentido em que se cristalizou a ideia" desse género. "Não temos nada a ver com esse tipo de intervenção mais imediato." No entanto, "de alguma forma falamos sobre política, temos um olhar social sobre o mundo, isso temos e não escondemos e fazemos finca-pé em ter a liberdade de o fazer. Não distribuímos palavras, não chamamos as pessoas à ação." E regressa ao choque que é este disco. "Quando chegámos ao fim dos nossos espetáculos, sentimos que tínhamos ultrapassado a diferença, a rutura que existe entre estes dois universos, o olhar o outro como o diferente sem ter receio do outro — que é uma banalidade do quotidiano, basta ver como olhamos para os muçulmanos, para minorias, todo este advento da extrema-direita, do Trump..."

E nós podemos ser aqueles que vos avisamos, tomando as palavras de Adolfo. "Uma pessoa ouve estes temas e não diz, 'ah, isto é o património dos Mão Morta com toquezinhos sinfónicos'. Não, não é, há ali uma revisão completa." E funciona muito bem.

[texto publicado originalmente no DN a 12 de março de 2017]

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escolhas muito pessoais deste ano

por Miguel Marujo, em 17.12.17

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álbuns lá de fora  

LCD Soundsystem - American Dream

Björk - Utopia

Kendrick Lamar - DAMN.

Melanie de Biasio - Lilies

Susanne Sundfor - Music For Pepole in Trouble

Ryuichi Sakamoto - async

St. Vincent - Masseduction

Planetarium - Planetarium

The National - Sleep Well Beast

Cigarettes After Sex - Cigarettes After Sex

 

álbuns cá de dentro

Lula Pena - Archivo Pittoresco

Aldina Duarte - Quando se Ama Loucamente

Tomara - Favorite Ghost

Mão Morta + Remix Ensemble - Ao Vivo no Theatro Circo

The Gift - Altar

[working in progress]

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As canções de tempos sem inocência

por Miguel Marujo, em 02.12.17

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Os U2 não chegam hoje de Berlim com a revolução de Achtung Baby e Zooropa, mas o seu 14.º álbum, que conhece este dia 1 de dezembro a sua edição mundial, traz-nos no seu rock mais imediatamente reconhecido um repositório de canções que é, provavelmente, o melhor da banda irlandesa deste século XXI. E traz-nos um Bono a descobrir que a morte é uma certeza.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr apresentam este Songs of Experience depois da digressão que comemorou os 30 anos dessa outra obra prima que é The Joshua Tree e que acabou por adiar o lançamento deste novo álbum. Verdade seja recordada: a culpa foi de Trump. Com a eleição de Donald Trump para a presidência dos EUA, os U2 quiseram fazer um compasso de espera e recuperar o álbum de 1987, para num fechar de círculo melhor cantarem a distopia do tempo em que vivemos.

Para chegar aqui é preciso olhar ainda um pouco mais para trás, para Songs of Innocence, o álbum anterior, de 2015, que foi lançado com a promessa de um segundo tomo (o álbum que é hoje lançado) e que em determinados momentos assoma à porta de canções deste Experience: American Soul, que conta com Kendrick Lamar a abrir este hino contra a política de Trump, começa onde terminava Volcano; e a fechar o álbum 13 (There Is a Light) é uma reinterpretação de Song for Someone

A pausa foi produtiva entre um e outro disco, com a digressão pelo meio, explicou Bono nas páginas da revista americana Rolling Stone. “A pausa no nosso álbum deu-nos a oportunidade de tocar ao vivo no estúdio estas canções, despindo-as até ao essencial, sem qualquer truque de estúdio, para ver o que realmente tínhamos. Foi um excelente presente para o álbum.”

Não é, ainda assim, um disco para cativar detratores de sempre ou miúdos que só os ouvem a encher estádios, mas também não se acomodam a revisitar a matéria dada sem ponta de novidade. O letrista e vocalista escreveu estas novas canções como uma coleção de cartas dirigidas à família, amigos e à América. Por isso, a intimidade de 13 (There Is a Light) resgata a luz de alguns bons momentos dos U2.

É por Love Is All Have Left que se inicia esta experiência, num tom quase místico de vozes sintetizadas e cordas a vibrarem nas palavras de um Bono que nunca deixa as coisas por menos: Nothing to stop this being the best day ever/ Nothing to keep us from where we should be, avisa, para início de conversa. E depois de Lights of Home entra-se na sequência das canções já mostradas ao mundo, com You’re The Best Thing About Me, Get out of Your Own Way e American Soul. Se na primeira, Bono sabe que The best things are easy to destroy, em American Soul é Kendrick Lamar que nos narra que Blessed are the bullies/ For one day they will have to stand up to themselves/ Blessed are the liars/ For the truth can be awkward

Também mais à frente The Blackout — outra das canções já reveladas — regressa à América de hoje. Bono confessou que este tema “começou por ser mais sobre um apocalipse pessoal”. E explicou-se em setembro na Rolling Stone: esta canção é sobre “alguns eventos na minha vida que me recordaram da minha mortalidade mas seguiu depois para a distopia política para onde estamos a caminhar”. E é o próprio que cita os versos da canção que melhor retratam esta canção: Dinosaur, wonders why it still walks the earth/ A meteor promises it's not going to hurt would — e com humor acrescenta que “seriam versos divertidos sobre uma velha estrela de rock mas menos piada quando estamos a falar sobre a democracia e antigas certezas, como a verdade”. É por isso que os versos seguintes vão diretos ao que está em jogo no mundo, neste momento, como defende Bono: Statues fall, democracy is flat on its back, Jack/ We had it all and what we had is not coming back, Zac/ A big mouth says the people they don't want to be free for free/ The blackout, is this an extinction event we see?

Na capa, os dois jovens fotografados pelo colaborador de sempre, Anton Corbijn, são os filhos adolescentes de Bono e de The Edge. E quando em The Little Things That Give You Away se ouve The air is so anxious/ All my thoughts are so reckless/ And all of my innocence has died, melhor percebemos que a inocência ficou para trás e é a maturidade de uma obra como esta dos U2 que nos ajuda também a ouvir melhor os dias de hoje.

[publicado originalmente no DN de hoje, 2 de dezembro de 2017]

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Já se ouve o órgão quase religioso há 40 segundos quando entra a guitarra dedilhada num ritmo e num som hoje tão característicos, logo depois a bateria sincopada, antecipando a voz, também ela única, a cantar I wanna run, I want to hide/ I wanna tear down the walls/ That hold me inside — e entramos no deserto, na América das paisagens a perder de vista, nas cidades onde as ruas não têm nome, das colinas forjadas no trabalho árduo de mineiros.

É a América que os U2 nos apresentaram há 30 anos, quando a 9 de março de 1987 chegou às lojas o seu disco The Joshua Tree, uma carta de amor pelos Estados Unidos, que nos fez também apaixonar pela América.

Para cantar esta terra imensa, "a poesia deste país", Bono Vox, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. viajaram de caravana para lá das silhuetas de grandes cidades, acompanhados das letras de Tennessee Williams, Allen Ginsberg, Charles Bukowski ou Sam Shepard e dos blues ouvidos nas rádios locais.

É esta América a que o grupo irlandês regressará na sua digressão anunciada para comemorar exatamente estes 30 anos. É também o fechar de um ciclo, como explicou Adam Clayton à revista britânica Mojo: "The Joshua Tree assemelha-se de alguma forma a um espelho das mudanças que estavam a acontecer no mundo no período de Thatcher/Reagan. Parece que completámos o círculo e voltámos a esse período com um conjunto diferente de personagens." Não é preciso perceber do que fala o baixista dos U2: a eleição de Donald Trump para presidente dos EUA, o brexit ou a ascensão dos extremismos na Europa.

Já em 2007, Bono explicava-se na edição especial comemorativa dos 20 anos do álbum: "Eu sempre disse que a América não é apenas um país, é uma ideia, e andámos à procura de como essa ideia se expressava nos anos 1980. Era quando a ganância era boa, era o fenómeno de Wall Street e o filme Wall Street, era ganhar, ganhar, ganhar, sem tempo para derrotados, era a material girl, preços astronómicos no mercado de arte, uma nova forma de prosperidade e o amanhecer de uma idade da informação... e então tivemos de destruir isto tudo descrevendo-o como um deserto."

É o deserto que faz também a icónica capa do álbum (e dos vários singles), com fotografias de Anton Corbijn no inóspito Mojave.

Para levar ao palco (a partir de maio) o álbum, os U2 deixaram de lado, por enquanto, o novo trabalho, Songs of Experience (um segundo tomo para Songs of Innocence, de 2014) que pode ainda ser publicado neste ano. "As novas canções já estavam prontas a sair e, entretanto, o mundo mudou", explicou Bono, nas páginas da Mojo. "E tivemos um daqueles momentos 'para onde vamos? Vamos voltar um bocadinho atrás'. É um álbum muito pessoal, não será um álbum político de um momento para o outro."

Agora, é The Joshua Tree que nos interessa: o álbum abre com o tríptico Where The Streets Have no Name, I Still Haven't Found What I'm Looking For e With or Without You, os três primeiros singles que arrebataram multidões e levaram a obra até à marca de quase 30 milhões de discos vendidos.

Este é também o disco que retrata duas Américas (o nome que Bono pensou para o álbum), de tensão política e social, como em Bullet The Blue Sky ou Red Hill Mining Town (nunca tocada ao vivo) ou na sequência final de Exit e Mothers of the Disappeared. Mas também da terra mítica que é In God's Country. Ou das canções que ficaram fora do álbum (como no lado B de With or Without You, com as geniais Luminous Times e Walk to the Water).

Há uma demo dessas gravações, Desert of Our Love, que parece sintetizar o lugar deste álbum na história da música popular: é no deserto que encontramos o amor.

 

[agora que é publicado o 14.º álbum dos U2 recupero este artigo publicado originalmente no DN de 9 de março de 2017 — dia em que passavam 30 anos da edição de The Joshua Tree, o álbum que obrigou a adiar o lançamento de Songs of Experience]

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Há filme nas salas sobre Morrissey quando era o jovem Stephen, há um disco novo seu e ainda a reedição de luxo da obra-prima da banda de Manchester, The Queen Is Dead. Felizmente a porta da casa de Stephen abriu-se num dia de sol.

Quando se abre a porta do número 384 de Kings Road, em Stretford, Manchester, fecha-se o filme: a história do jovem Steven Patrick Morrissey começa verdadeiramente depois deste último plano de England is Mine, o filme que chegou às salas esta quinta-feira e relata os tempos adolescentes daquele que o mundo veio a conhecer por Morrissey, o carismático e desconcertante líder da banda maior da nossa adolescência, The Smiths. (Sim, haverá outros amores adolescentes, mas a adolescência é assim mesmo.)

Com este filme nas salas, há outros dois motivos para voltarmos a este amor: esta semana há novo álbum de Morrissey, Low in High School, e há uma edição luxuosa que nos traz The Queen Is Dead, com o terceiro trabalho de originais dos Smiths, editado em 1986 e agora remasterizado, acompanhado dos inevitáveis extras, que tornam ainda mais apetecível aquilo que já ouvimos tantas vezes em cassete, vinil ou CD. 

É a primeira vez que a obra de Morrissey, Johnny Marr, Andy Rourke e Mike Joyce merece este tratamento gourmet: o álbum é o que é, um conjunto de canções sem mácula, daquelas que cantámos em coro, a sós, com mais ou menos álcool no sangue, no meio da pista de dança de uma matiné numa discoteca e à volta da fogueira, ao ouvido de alguém ou afundados no sofá a chorar mais uma tampa da miúda gira da turma do lado. Basta dizer que o álbum de 1986 abre com The Queen Is Dead, tem I Know It’s Over, Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Torn In His Side, Some Girls Are Bigger Than Others e, para sempre, a luminosidade incandescente de There Is A Light That Never Goes Out. Neste alinhamento, deixámos de fora quatro canções e só porque são “apenas” muito boas. O banquete desta obra-prima completa-se com um segundo disco de lados B e demos, um terceiro ao vivo em Boston e um DVD áudio com o filme de Derek Jarman para The Queen Is Dead e outros dois vídeos de There Is A Light That Never Goes Out e Panic.

Quando falamos dos Smiths e das suas canções, é disto que nos rezam crónicas de jornais, teses académicas ou o filme que já podemos ver nas salas: estes quatro rapazes de Manchester cativaram uma geração de adolescentes angustiados, com as suas letras sofridas e narcísicas (o corretor do computador sugeriu a palavra narcóticas, e também ia bem) de Morrissey e aquelas guitarras de Johnny Marr. 

Em England is Mine, a biografia realizada por Mark Gill — a que a distribuidora portuguesa acrescentou um redundante e desnecessário Descobrir Morrissey — não há canções dos Smiths (o cantor não deixou) mas sobra o génio convencido do jovem Stephen, cáustico com o que vê à sua volta, deslocado num mundo de trabalho de mangas de alpaca, tímido nas relações, arrogante na sua mudez e fechado numa concha, mesmo quando está num concerto de bloco na mão e cerveja noutra.

Só quando se fecha a porta do seu quarto e em frente ao espelho, Stephen canta por cima de êxitos da Motown, dança de braços abertos e sonha em conquistar Inglaterra, ele é alguém que tem uma “versão incrível de si mesmo”, como se espantou o ator que lhe dá vida, Jack Lowden. Na máquina de escrever solta amargura na sua poesia e destila desprezo sobre as bandas dos concertos que vê (como os Sex Pistols, a quem deseja um dia ganhem o suficiente para comprar roupas que não pareçam que eles dormissem com elas). Os textos envia-os para a New Musical Express, onde um dia mais tarde escrevem erradamente o seu nome, como vocalista de uma banda local de um concerto só, The Nosebleeds. Chamam-lhe Morrisson e o NME desculpou-se quase 40 anos depois — “sorry, Moz”, escrevem na crítica ao filme de Gill.

Na BBC Radio 4 dizia-se que ele permanece outsider’s outsider, o outsider de todos os outsiders. O jornalista britânico Jon Savage notou que The Queen Is Dead (a canção) é um manifesto claro, uma “crítica explícita da monarquia, como pilar do sistema de classes existente”. No seu novo disco a solo, com a capa de um miúdo que segura um machado e um cartaz que diz “Axe the Monarchy”, uma das canções diz-nos no título que Jacky’s Only Happy When She’s Up on the Stage. Tal qual o jovem Stephen, ainda que este tema seja um olhar desencantado sobre o brexit (Jacky será então uma referência à bandeira britânica, a Union Jack). “Jacky cracks when she isn't on stage/ See the effects of sexual neglect/ No script, no crew, no auto-cue/ No audience telling her what to do!/ Exit, exit/ Everybody's heading for the exit, exit”, canta Morrissey. Savage disse que as letras do rapaz de Stretford são “uma explosão de raiva eloquente” (“falas sempre assim com palavras caras”, atira-lhe uma rapariga no filme) “do ponto de vista de um outsider”. 

É este tipo que continua de fora, sem se deixar arrumar em estereótipos ou clichés, que estabelece o fio condutor entre a personagem biográfica de England is Mine (afinal, trata-se do filme de um outro rapaz de Manchester e fã dos Smiths), The Queen Is Dead, a obra-prima de Morrissey e Marr, e Low in High School, o seu 11.º álbum de originais depois do fim da banda.

O filme termina com a porta a abrir-se. É Stephen quem a abre, a sorrir, para Johnny, que o vem convidar para formar uma banda. “Estava um dia de sol”, recordou Marr. Felizmente para nós que assim pudemos ter este amor.

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Numa certa noite, depois de jantar, Neil Tennant e Chris Lowe passeavam pelas ruas do Porto quando entraram num bar, por um dos motivos mais banais deste mundo: Chris precisava de ir à casa de banho. Não havia muita gente no bar, apenas um grupo sentado a ouvir tocar guitarra, mas os dois Pet Shop Boys resolveram ficar mais um bocado. "Foi fantástico. Estava um tipo com uma guitarra a cantar e estava um grupo de pessoas à volta dele e então todos se juntaram em coro. Uma das canções era mesmo boa e então eu perguntei o que é que era." Perante a resposta, Chris agradeceu "as maravilhas da tecnologia moderna", enquanto comprava a canção no iTunes: era As Sete Mulheres do Minho, o tema popular musicado por José Afonso, que o cantor gravou em Fura Fura (1979).

De regresso ao estúdio, onde estavam a gravar Glad all over, os Pet Shop Boys andavam às voltas com aquela canção que tinham ouvido no Porto. "Passávamos a vida a dizer, oh, e há esta canção popular portuguesa", recordou Neil. A vontade aguçou o engenho, mas neste caso sem grande sucesso. Os britânicos procuraram inspirar-se nos acordes de Zeca. "Originalmente começámos a tentar fazer uma versão da canção, mas não conseguimos fazer nada daquilo", argumentou Chris.

Optaram por avançar para aquilo que seria Together, que funcionaria como single de apresentação da coletânea Ultimate, que a editora dos Pet Shop Boys por esses dias - estávamos em 2010 - queria pôr cá fora. E Together acabou por beber mais em sonoridades russas (como explicou Neil) do que na canção popular minhota de Zeca. A letra também foi uma inspiração, defende Neil, que confunde o ano em que a canção foi escrita com o retrato que Zeca faz da revolução da Maria da Fonte em 1846. "Julgo que foi escrita há mais de cem anos como uma canção revolucionária", confunde-se ele, o que não retira uma vírgula à delícia que é esta (quase) inspiração.

Toda esta história é agora revelada pelos dois numa conversa transcrita no booklet que acompanha a edição de Yes+Further Listening. mais um álbum reeditado no plano de edições de toda a obra dos Pet Shop Boys, que estão a revisitar o catálogo completo dos álbuns de estúdio de 1985 a 2012 da Parlophone.

Estas reedições, sob o nome de Catalogue: 1985-2012, iniciaram-se com os três álbuns anteriores a estes — Nightlife (1999), Release (2002) e Fundamental (2006) — acompanhados de muito material extra reunido sob o nome comum de Further Listening. Depois dos sétimo, oitavo e nono álbuns dos Pet Shop Boys (que foi por onde começou este catálogo), o duo britânico recupera agora os seus 10.º e 11.º álbuns, Yes e Elysium.

Yes, publicado em 2009, com Johnny Marr nas guitarras (o ex-Smiths já tinha tocado em Release), Neil e Chris apresentam um punhado de canções de primeira água, em que a pop mais descaradamente pop (abusemos da redundância) se mistura entre temas que fazem o corpo suar, como Love etc. ou Pandemonium, e baladas cheias de elegância, como em King of Rome.

A acompanhar Yes, os dois álbuns extra de Further Listening contam histórias paralelas dos Pet Shop Boys de 2008 a 2010: há I Cried for Us, uma bela canção de homenagem à mãe de Rufus Wainwright, Kate McGarrigle, cuja interpretação mereceu de Nick Cave um só adjetivo: "Imaculada"; há novas versões de canções de Natal, recuperadas do EP Christmas; há Phil Oakey a acompanhar na voz em This Used to Be the Future; há canções infantis de uma peça de teatro, My Dad's a Birdman; há My Girl dos Madness; ou uma versão de Viva la Vida, dos Coldplay, de onde irrompe Domino Dancing. Neil não se recorda porque misturaram os dois temas, Chris lembra que andavam a fazer medleys.

Por falar em medleys, no segundo volume deste Further Listening encontram-se também 11 minutos de algumas das principais canções dos Pet Shop Boys que Neil e Chris misturaram para a cerimónia dos Brit Awards, onde receberam um prémio de carreira, desde Suburbia a West End Girls, passando por Always on My Mind ou Go West — uma luxúria para os sentidos.

Elysium, de 2012, nasceu de uma antiga proposta de Trevor Horn, para a gravação de um disco em Los Angeles, algo "suave e bonito", uma proposta que os intrigou mas que acabou por ser concretizada sem ser cumprida à risca e voltando também aos sons latinos de Bilingual. "Algumas das minhas canções favoritas dos Pet Shop Boys estão neste álbum", reconhece Chris. Esta nova audição pode vir a dar-lhe razão.

[originalmente publicado a 4 de novembro de 2017 no DN]

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music brings hope for a better tomorrow

por Miguel Marujo, em 02.11.17

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[ainda ao meu Pai]

Queimaram-se ontem as velas derradeiras do dia de todos os santos, que o feriado e a tradição popular fazem de memória, celebração e comemoração dos mortos. Afinal, o dia dos finados de hoje transplanta-se para o dia em que se glorificam santos e santas. Os mortos, homens e mulheres, todos e todas, são assim santificados, por calendário, numa subversão eventualmente inconsciente — de vitória da vida sobre a morte. Uma ressurreição da festa. E os vivos que julgam apenas cuidar dos mortos, acabam por cuidar da celebração da sua vida. Na memória dos amigos e familiares mortos lembramos sempre os momentos de alegria, raramente nos recordamos da tristeza, dificilmente se festejam as angústias. Por isso, toda a alegria deve ser festejada — não condenada.

Da aparelhagem ouviram-se os sons da terra que deus sonhou: Johnny Cash canta o repertório de hinos religiosos de um livro da sua mãe (é o disco 4 da absolutamente imperdível caixa "Unearthed"). Cash gravou estes temas já marcado por um cancro, que à medida que avançava lhe debilitava a voz e engrandecia a vida. E é de vida, que esta voz à beira da morte, canta. É de vida que se sonha, com estes temas. Afinal, a mãe sempre lhe ensinou que a música é uma coisa festiva. «I'll just sing 'em, me and my guitar, simple, no adornment, knowing that God loves music and that music brings hope for a better tomorrow», escreve Cash. A música deste tempo pode ser também um Requiem — mas lembrando que a festa da vida celebra-se sobre a morte. Assim os vivos santificam os finados.

[escrito a 1 de novembro de 2005, brevemente atualizado em 2012, revisto, ilustrado e cantado agora]

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As novas polifonias tribalistas

por Miguel Marujo, em 24.10.17

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É quase um fantasma que por instantes deixa o ecrã, fugidio, de vestido pérola, a afastar-se do microfone e a pousar os auscultadores e a sair de copo na mão. Carminho, é ela, a cantora portuguesa, acabou de cantar Os Peixinhos com os Tribalistas e sai de cena - deixando a sós os três loucos, "loucos não, Tribalistas", corrigem eles entre gargalhadas, sentados num alpendre, a noite escura, e eles de óculos escuros. É assim que fecha o filme que acompanha a gravação das dez novas canções do trio que junta Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte, num DVD lançado em simultâneo à edição em CD, 15 anos depois do seu primeiro álbum.

Tribalistas é também de novo o nome do álbum, sem necessidade de dizer mais e é, mais uma vez, uma espantosa combinação de vozes, polifonias soltas e em uníssono, em que Arnaldo é Arnaldo, Marisa é Marisa e Carlinhos é Carlinhos - e depois vem Carminho e é Carminho. Mas destas quatro vozes distintas faz-se uma só, Um só, cantam logo no segundo tema: "1 2 3, somos muitos, quando juntos,/ somos um só, um só".

A guitarra é dedilhada, enquanto se prepara a gravação, e Marisa impacienta-se por começar, "depois a gente vai fazendo outras vozes", e Arnaldo avisa, "depois tem as loucas". Sim tem, concorda Marisa. "Depois que fizerem as de vocês, a gente faz as loucas", e as vozes entram em Diáspora, canção que retrata êxodos destes tempos, onde há migrantes e refugiados - "atravessamos o mar Egeu/ um barco cheio de fariseus/ com os cubanos, sírios, ciganos/ como romanos sem Coliseu/ atravessamos pro outro lado".

Está dado o mote para um álbum onde se canta a política e o amor, eles que há quatro anos se juntaram para cantar Joga Arroz, uma quase-canção em que apoiaram a campanha pelo casamento igualitário, que é como quem diz o casamento alargado a pessoas do mesmo sexo. À época, o casamento civil igualitário, assim chamado no Brasil, já tinha sido regulamentado pelo Conselho Nacional de Justiça mas faltava a sua aprovação no Congresso e os três juntaram-se para fazer "uma música para sensibilizar os deputados, senadores e a sociedade brasileira em nome da liberdade de amar".

Talvez seja por isso que Arnaldo Antunes tenha explicado, em agosto ao jornal Globo, que este disco "não é volta dos Tribalistas, porque os Tribalistas nunca foram". "A gente sempre esteve aí", acrescentou. E Marisa Monte confirmou que os três foram fazendo trabalhos em conjunto nestes 15 anos, encontrando-se para compor, mas sem pensar num disco. "E há um ano e meio surgiu o desejo de fazer um registo juntos. Temos mais músicas juntos, mas essas pareciam mais potentes com a gente junto", contou. Juntos, nestas novas polifonias, de vozes e causas nossas.

O regresso anunciou-se com uma foto nas redes sociais e uma legenda - "Juntos somos um só", como em Um só: "A música fala da convivência com as diferenças. A gente vê um momento que está tudo muito dividido e a gente gosta de poder juntar as coisas e poder conviver com os paradoxos e viver nossas contradições", contou Arnaldo Antunes.

Daí o reencontro, 15 anos depois desse primeiro álbum dos Tribalistas, como se recorda a abrir o DVD: "Arnaldo Antunes, Carlinhos Brown e Marisa Monte se reencontram para gravar suas novas parcerias - dez novas canções, uma canção por dia." "Vamos fazer isso agora, depois faz dez, depois mais dez e mais dez, e aí tem o "Tri", o "ba" e o "lista", a lista da tribo", sintetiza Carlinhos Brown no filme.

Mais à frente, o mesmo Carlinhos insiste em tocar uma flauta. "Tem que inventar algum som com o que tem", diz, "e usar o que tem", para "tirar do meu jeito". E tira do seu jeito qualquer som. Na ficha técnica de cada canção é delicioso ir tomando nota dos instrumentos que Carlinhos Brown toca. Ou com o que tem mais à mão: eletrónicos artesanais, palmas, cajóns, afoxés, karkabou, bacurinha, beatbox, berimbau, shaker, tamborim, conga, bongô, pandeiro, zampogna, ganzá, temple block, wood block, gongo, prato-condução, clave, timbau, pulseira, gã, tumbadora... - numa lista não exaustiva (que só atrapalhou o corretor automático do computador). "Todos os instrumentos têm alma", argumenta Carlinhos.

Este homem dos muitos instrumentos soma o mais importante deste álbum, a voz, à voz dos seus outros companheiros de canção. É essa a mais valia de um álbum que faz de Fora de Memória, Trabalivre (e há um diálogo delicioso no filme que dá conta de como surgiu o nome), Ânima ou Lutar e Vencer temas essenciais (para além dos já citados) deste trabalho.

E há, no fim, já dissemos, Os Peixinhos, uma lullaby de encantar, uma canção de embalar, com percussão de boca, na qual "os peixinhos são/ flores sem o chão/ nadam, boiam, fazem bolhas/ e bolinhas de sabão". E Carminho a puxar este fado-bossanova que nos faz sonhar entre bolhas e bolinhas de sabão. De óculos escuros para melhor sentir os outros sentidos.

[publicado originalmente no DN a 21 de outubro de 2017]

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A banda sonora e as canções que fazem a nova temporada da série de David Lynch revelam um universo onde cabe a pop mais atmosférica, o rock mais pesado e a atmosfera muito própria criada por Angelo Badalamenti. São dois discos que recuperam em sons as paisagens frias e húmidas de Twin Peaks, a cidade onde todos têm algo a esconder

Nos últimos meses, desde que o mundo soube que ia regressar à cidade de Twin Peaks, houve quem arrumasse listas musicais numa Lynchlândia imaginária — o universo de David Lynch não se encerra nos filmes e nesta série já mítica, que regressou para um "longo filme de 18 horas", completa-se e ganha outra dimensão com a banda sonora desta nova temporada de Twin Peaks.

É o próprio realizador que o confessou à revista Pitchfork, ao antecipar que "a música de Twin Peaks foi parte integrante da experiência". "Houve tanto que saiu da música que a série ganhou vida e um estado de espírito" com estas composições, apontou Lynch. Afinal, reconhece o americano, a música acaba muitas vezes por apontar um caminho ou uma ideia, ditar um movimento de um filme. "O mundo está cheio de acidentes bonitos", replicou David.

Com a assinatura inconfundível de Angelo Badalamenti, que acompanha há muito Lynch e assinou em 1990 as composições originais da série (e do filme que se lhe seguiu em 1992, Twin Peaks: Fire Walk with Me), David Lynch propõe-nos dois registos distintos para a série. No primeiro, Twin Peaks (Limited Event Series Original Soundtrack), o palco é quase todo de Badalamenti.

O compositor americano recupera três canções da sua banda sonora de 1990 — Twin Peaks Theme (Falling), Laura Palmer's Theme (Love Theme from Twin Peaks) e Audrey's Dance —, e projeta o seu trabalho recente para a dimensão mais sombria, misteriosa e inexplicável deste opus televisivo criado por David Lynch e Mark Frost.

Nos seus temas, Angelo Badalamenti tanto parece ilustrar o tempo frio e chuvoso de Twin Peaks, numa atmosfera densa de sintetizadores, guitarras ou instrumentos de sopro, como se ouve por exemplo em Accident/Farewell Theme ou Dark Mood Woods/The Red Room, como nos transporta por entre sons mais soltos de percussões jazzísticas, uma influência óbvia na sua obra, como em Grady Groove, num tema que conta com a intervenção de Grady Tate.

Esta banda sonora não se esgota em Angelo Badalamenti: David Lynch ensaia-se em duas colaborações, com Dean Hurley e o próprio Badalamenti, os Chromatics seduzem num instrumental, Saturday, Muddy Magnolias cantam das entranhas American Woman (numa remistura do realizador) e Johnny Jewel não foge muito ao ambiente sonoro que se colou às paisagens de Twin Peaks, no tema Windswept.

A composição Threnody for the Victims of Hiroshima, interpretada pela Orquestra Filarmónica Nacional de Varsóvia e dirigida pelo maestro polaco Witold Rowicki, é mais uma prova do ecletismo de David Lynch, que recusa fechar-se em estereótipos.

No segundo registo musical da série, Twin Peaks (Music from the Limited Event Series), o palco é entregue aos muitos estilos e grupos e músicos que se cruzam neste universo — uma imagem de marca que as bandas sonoras de alguns dos filmes mais populares de Lynch, como Blue Velvet, Twin Peaks: Fire Walk with Me, Lost Highway ou Mulholland Drive, já mostravam à saciedade. Logo no primeiro episódio do regresso da série, o agente do FBI Dale Cooper (interpretado por Kyle MacLachlan) ouvia um aviso sério: "Escute os sons."

Fiquemos então à escuta: este segundo disco é mais desequilibrado, habitado por uns indispensáveis Sharon van Etten, Au Revoir Simone ou os Nine Inch Nails (do colaborador de longa data de Lynch, Trent Reznor), como por uns ZZ Top de quem já não tínhamos saudades ou a esforçada pop de Lissie.

No mais, há (quase) clássicos como Eddie Vedder (já se pode incluir num panteão assim), Otis Redding e The Platters. E também há umas deliciosas Paris Sisters, as irmãs Paris que nos anos 1960 foram produzidas por Phil Spector, aqui em I Love How You Love Me.

Num álbum que abre com o tema principal de Twin Peaks, recuperado da banda sonora original, quase falta Julee Cruise, a voz que nos arrebatava nesse registo de 1990 com Falling, The Nightingale e Into the Night. Os Chromatics recuperam em Shadow algum desse mistério de Cruise, mas felizmente (a fechar este volume) há The World Spins, canção mágica do já longínquo ano de 1989, do seu álbum de estreia, Floating into the Night. É aí que Julee Cruise nos leva a sonhar de forma irresistível a cantar-nos Love/ Don't go away/ Come back this way/ Come back and stay/ Forever and ever. Há amores para a vida — e, com estes dois beijos, Lynch parece saber muito bem como nos conquistar.

[originalmente publicado no DN a 9 de setembro de 2017]

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Com o novo disco "I Tell A Fly", Benjamin Clementine parece querer dar a volta ao texto, ainda que as roupas que veste pareçam as mesmas do muito aclamado álbum de estreia "At Least for Now". As suas palavras desenham um mapa de conflitos e questões sociais entrecortadas com um humor inesperado.

Olhem para as mãos, reparem bem nas mãos longas, as veias dos dedos esguios, as linhas das palmas dessas mãos naquele corpo magro e alto. Olhem para as mãos e entenderão a voz: esguia, linda, forte, grave, aguda, sussurrada, de trejeitos operáticos, por vezes aparentando ser jocosos.

Há um piano, um cravo, a percussão, aqui e ali presenças eletrónicas, instrumentos subservientes às mãos, aos dedos, soltando os tons fortes que fazem da voz (e que instrumento é esta voz, senhores!), que fazem da voz, dizíamos, um templo, santuário de um homem de quem os deuses se esqueceram. "Eu lembro-me de onde vim, eu vim do nada" — contou ele uma vez no Coliseu de Lisboa — até ao dia em que alguém ouviu como aquela voz falava de Deus, aquele que tem amor no nome.

Benjamin Clementine é esta voz, e mãos e dedos e corpo, quase despojado como quando vivia nas ruas agarrado a um piano que o agarrou à vida. O sapatinho desta cinderela no masculino foi esse piano onde Clementine tocava e compunha as canções que explodiram com At Least for Now (2015). Nesse álbum e nas apresentações ao vivo que se seguiram, a voz e o piano eram acompanhados por uma percussão, forte e sincopada, a fazer dançar as histórias que Benjamin Clementine canta, mas também cordas que não se limitam a um papel decorativo, ajudando também elas a formar o corpo de cada canção.

Agora, em I Tell a Fly, Benjamin Clementine parece querer dar a volta ao texto, não se agarrando a uma personagem de maneirismos, ainda que as roupas que veste (ele é hoje um homem chamado para desfiles de moda) pareçam as mesmas de At Least for Now. Não são. As palavras deste contador de histórias britânico, nascido em Crystal Palace, parecem desenhar um mapa de conflitos internacionais e questões sociais e são entrecortadas com um humor inesperado (que já se notava nas prestações ao vivo).

As selvas de Londres e Calais

É o próprio quem o admitiu em conversa com o jornal inglês The Guardian, sobre o tema God Save the Jungle: "Eu tentei usar humor negro para dar aos ouvintes um espaço para adivinharem. As minhas experiências são pequenas, mas afetaram-me por muitos anos. Para as crianças, em Inglaterra, o bullying é o problema número um. Elas podem assistir ao telejornal e ver um bombardeamento, mas parece bastante longe. E devemos trazê-lo para casa. Eu falo de Calais, mas estou realmente a falar de Londres."

Calais é então a selva, numa referência ao acampamento desmantelado em 2016 naquela cidade portuária francesa, onde se acotovelavam migrantes e refugiados à espera de uma aberta para fugirem para as Ilhas Britânicas - e o título da canção, God Save the Jungle, que remete para o hino britânico, só pode ser lido com doses elevadas de ironia. "Welcome to jungle, dear/ Where tensions do amount and kids must grow as quick as possible/ Welcome to jungle, dear/ Risk it on a tooth or bone as you travel along, come and run run to the roads", canta o britânico. E os extremismos nacionalistas franceses, ali ao lado, como os que dá voz em Paris Cor Blimey: "Paris's friend got her little Pen from her daddy before he left."

Londres é a outra selva de que fala Benjamin Clementine, como em Phantom of Aleppoville que cruza as experiências de crianças na guerra e as vítimas de bullying na escola. "For me the difference between love and hate/ Weighs the same difference between risotto and rice pudding/ And the difference between a dog and a stranger/ Weighs the same difference between children and bullying/ Some say, they wonder why you bullied me, but I laugh/ 'Cause I know that you know that we will never never know why they hate the bullyings."

As roupas que Benjamin Clementine veste não são as mesmas. Com este I Tell a Fly, procura outras abordagens musicais, pinceladas de humor no dramatismo que percorria o seu primeiro (e aclamado) álbum e pontuadas de uma biografia tão colorida como inesperada. Mais do que sobreviver em Paris com o seu piano, Clementine fala da sua infância religiosa e casta, em que a cultura pop era quase banida por uns pais ganeses católicos. "Acreditem-me, ainda é possível", escapar a este mundo que borbulha entretenimento por todos os poros. "Olhem para os mórmones. De certa forma aprecio-os porque fui protegido de muitas coisas que de outra forma teria feito."

Talvez por isto se descubram referências tão clássicas e ascéticas num trabalho tão pop. Basta fazer rewind: olhem para as mãos e ouvirão a voz.

[publicado originalmente no DN a 23 de setembro de 2017]

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 A notícia sobre o fim dos LCD Soundsystem foi manifestamente exagerada, já sabemos. Depois de um concerto que seria um longo adeus, em 2011, James Murphy regressou, primeiro com uma canção de Natal, em 2015, depois com concertos aqui e ali e, por fim, o anúncio de que vinha novo álbum, antecipado por três canções.

Há sempre um risco quando se espera muito tempo por algo de que gostamos bastante, mas o compositor, produtor e frontman dos LCD Soundsystem não falhou neste seu renascimento em que revisita o sonho da América, neste novo American Dream. Neste intervalo, Murphy fez muitas outras coisas mas não descurou o seu gosto, apurado nos três (sim, apenas três) álbuns que fazem do grupo uma história maior na música americana — um primeiro disco homónimo (2005), o segundo Sound of Silver (2007) e o terceiro This Is Happening (2010), a que se somam álbuns de remisturas e gravações ao vivo.

Quem conhece estas suas obras anteriores sabe das múltiplas referências musicais, nos estilos e nos nomes, que Murphy bebe e destila para apurar um som e um conceito únicos. Para American Dream foram convocados os nomes de Lou Reed, Leonard Cohen, Alan Vega, dos Suicide, e David Bowie (todos eles morreram nestes últimos anos), mas também os Talking Heads de Once in a Lifetime se fazem ouvir ao som da guitarra de Robert Fripp em Other Voices.

Esta curiosidade pelo mundo dos sons levou James Murphy às propostas mais inesperadas. O homem que chegou tarde à linha da frente do palco (e porque os The Rapture, a banda que se preparava para produzir, foram bater à porta ao lado) chateou à exaustão as autoridades de transportes de Nova Iorque para que o som dos torniquetes do metro da cidade fosse alterado para "uma bela sinfonia eletrónica". Ao jornal britânico The Guardian, um funcionário da empresa explicou com enfado que o ouviram muitas vezes e que lhe responderam repetidamente que não podiam fazer isso.

Será pois um jogo divertido percorrer as estrias de American Dream a adivinhar as influências de um melómano que nunca teve vergonha em cruzar o rock e música das pistas de dança, mas o que este registo revela é um trabalho de filigrana que depura todas essas influências num som muito seu e próprio.

Logo a abrir há a espantosa Oh Baby, que explica-se exatamente assim, depurado, viciante nas suas camadas de um ritmo cadenciado de sintetizadores a acompanharem numa dolência quase sensual a voz inconfundível de Murphy, um sonho mau nos braços do seu amor. Em Other Voices, os LCD Soundsystem abrem a janela e deixam entrar a luz, avançando para um jogo de percussões em que Murphy é acompanhado por Nancy Whang para mais um poema desconfortável sobre as relações — de amizade e amor. Este é um álbum de pessoas comuns, em que se cruzam heróis e uma visão do sonho americano, que é hoje mais amarga (e não, Murphy não precisa de se meter na política para fazer destas letras um olhar desencantado dos tempos de hoje).

O passo seguinte é I Used To em que o nova-iorquino canta "I"m still trying to wake up/ I"m so tired to wake up", num registo que se mantém — seja nos sons como nas palavras — em Change Yr Mind, em que Murphy reconhece que "I ain't seen anyone for days/ I still have yet to leave the bed/ It's impossible/ Feeling safe with it now". Change Yr Mind antecede uma composição intricada que se prolonga por mais de nove minutos, How Do You Sleep, uma canção com tempo para o crescendo de baterias, percussões, sintetizadores e uma voz mais aguda a dar-nos conta de que "You warned me about the cocaine/ Then dove straight in", com uma ténue esperança quase a fechar este tema: "And if I see you, it's like nothing went wrong."

Nada corre mal neste álbum que entra na sua segunda metade com os três temas já conhecidos, que apresentaram o regresso dos LCD Soundsystem: Tonite, Call the Police e American Dream, cada uma à sua maneira, transportam-nos de novo para relações difíceis ("Oh good gracious/ I sound like my mom", lamenta-se com humor) num tempo em que nem aqueles que amamos nos salvam ("I never realized these artists thought so much about dying", diz-nos em Tonite).

O sonho americano parece ainda mais difícil de se viver, como notam os versos de American Dream: "Grab your clothes and head to the doorway/ If you dance out, no one complains/ Find the place where you can be boring/ Where you won't need to explain/ That you're sick in the head and you wish you were dead."

Este desencanto caminha para o fim, com Emotional Haircut a antecipar o mais longo tema do álbum, de 12 minutos, uma canção que é deste tempo: Black Screen canta Murphy no seu ecrã negro do computador, numa canção a meias (em sonhos) com David Bowie.

O The Guardian escreveu que só uma coisa pode ensombrar a genialidade de American Dream: os álbuns precedentes dos LCD Soundsystem. Deem-lhe tempo, ouçam-no muito.

[originalmente publicado no DN a 5 de setembro de 2017 | foto de Artur Machado/Global Imagens, dos LCD Soundsystem em Paredes de Coura em 2016]

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Está já dito: Elizabeth Grant voltou feliz, a dizer-nos que mudou, mesmo que não saiba dizer se está feliz, a falar-nos do verão e a respirar amor nas canções e nas palavras, all you need is love avisa ela em Lust for Life, um título que deixa para trás uma atração pelo abismo, ainda que essa nos parecesse mais encenada que verdadeira.

É inevitável que a cada novo álbum (e está aí o quarto) Lana del Rey — a personagem musical que Elizabeth personifica há seis anos — seja mais discutida por aquilo que parece do que por aquilo que é. Verdade se diga: muito por culpa da própria, enredada em proclamações sobre a morte ou o feminismo. E estas sentenças, repetidas e excessivas, sentenciaram muitas vezes convicções sobre a música sem que se prestasse atenção às músicas, desde a explosão de Video Games (2011), passando por Born to Die, a canção e o álbum de 2012, Ride, National Anthem, Ultraviolence, Honeymoon, God Knows I Tried ou a assombrosa versão de Blue Velvet.

A abrir Lust for Life, Lana canta então o amor, em Love, que é também a celebração da nostalgia, o primeiro e mais arrebatador single do álbum que não traz grandes ruturas com a sonoridade que Del Rey fez sua, tecida entre uma voz tão sussurrada quanto lânguida, grave e serena, num formato assumidamente pop que dialoga com orquestrações rítmicas densas.

Neste quarto álbum, há tempo para a americana piscar o olho ao rhythm'n'blues e subir literalmente ao topo de Hollywood, o letreiro no Mount Lee sobranceiro à cidade de Los Angeles, na companhia do canadiano The Weeknd. "Climb up the H of the Hollywood sign, yeah/ In these stolen moments/ The world is mine/ There's nobody here, just us together/ Keepin' me hot like July forever", e Abel Makkonen Tesfaye a subir e a dançar com ela também no vídeo. Há roupagens e códigos do hip hop a navegarem de forma mais evidente em Summer Bummer com Playboi Carti e A$AP Rocky ou em Groupie Love, também com A$AP Rocky, ou na produção de Metro Boomin, o jovem DJ e produtor do Missouri, sem que se deixe de sentir que o álbum é de Lana del Rey.

Há outras colaborações que resgatam Stevie Nicks para um dueto em Beautiful People Beautiful Problems e Sean Ono Lennon em Tomorrow Never Came, mas em que o registo, que é de Lana, sai valorizado pela vocalista dos Fleetwood Mac e pelo filho de Yoko Ono e John Lennon.

Na capa, não há carros, como houve nos álbuns anteriores, mas há um White Mustang que ele conduz, depois de ela empacotar as coisas todas para o verão. Há as praias da Califórnia que Lana não se cansa de cantar, como em 13 Beaches, metáfora para perseguições de paparazzi, em que a cantora chega à praia deserta que é finalmente sua.

No álbum, há críticas a estes tempos em que Donald Trump é eleito, numa América desencantada, como aquela que canta em God Bless America - And All the Beautiful Women in It: "May you stand proud and strong like Lady Liberty shining all night long", canta o verso, e é impossível não reconhecer uma referência ao presidente americano. "É como que gritar pelas mulheres ou quaisquer outras pessoas que nem sempre se sentem seguras a caminhar pelas ruas à noite. Foi nisso que pensei quando escrevi even when I'm alone I'm not lonely/ I feel your arms around me. Não é sempre como me sinto quando caminho pela rua, mas por vezes na minha música tento escrever sobre um local onde quero chegar", explicou-se em entrevista à Pitchfork.

Nessa conversa com a publicação online americana, Lana del Rey recusa-se com um suspiro a dizer se vê o mundo a cores agora. "Eu realmente não sei como descrever a minha perspetiva no momento." Ou se Lust for Life é uma tentativa para o ver assim, a cores. "Não é. Não sei do que se trata. Não sei o que é." Nova insistência, sobre se pelo menos este álbum procura dizer que Lana quer ser feliz. Nova fuga em frente. "Não. É apenas algo que está a acontecer."

Não é só. A própria canta-o num dos melhores temas do álbum, já quase no final, Change. "Every time that we run, we don't know what it's from/ Now we finally slow down, we feel close to it/ There's a change gonna come, I don't know where or when/ But whenever it does, we'll be here for it." Ou como sintetiza em Get Free, a última canção, num registo de balada delreyniana também ela luminosa: "Finally, I'm crossing the threshold/ From the ordinary world/ To the reveal of my heart." E logo a seguir: "Take the dead out of the sea/ And the darkness from the arts/ This is my commitment/ My modern manifesto."

Lust for Life é então este regresso de quem tem vontade da vida, uma mudança anunciada em Change, quando Lana nos diz desse poder. "Change is a powerful thing, people are powerful beings/ Trying to find the power in me to be faithfull/ Change is a powerful thing, I feel it coming in me/ Maybe by the time Summer's done." Pelo verão está feito, ouvimos uma e outra vez.

[publicado originalmente no DN a 8 de agosto de 2017]

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Primeiro ato. The Whole of the Moon 

O ato é de celebração, as palavras são conhecidas e os gestos já muito ensaiados, mas há algo de refrescante no que ali se festeja: as canções têm 30 anos e ganham todo o sentido cantadas assim, do princípio ao fim, num espetáculo no qual os U2 comemoram os 30 anos do álbum The Joshua Tree. E chegaram há pouco mais de uma semana à Europa para esta digressão sem ponta de nostalgia. Estas canções fazem-se eco da América e do mundo de hoje, nas palavras e sons que são também manifestos políticos, projetados num imenso ecrã.

É com The Whole of the Moon, tema de 1985 dos Waterboys, que se insere a palavra-passe para o início do concerto, depois de Noel Gallagher's High Flying Birds ter entusiasmado a multidão com os sucessos dos Oasis. Larry Mullen Jr. entra para a bateria e marca o ritmo e, com a abertura sincopada de Sunday Bloody Sunday, os outros elementos da banda vão chegando ao palco para interpretar uma canção que é também senha para este concerto. Como explicou The Edge, na Mojo, cantar e tocar este tema de War (1983), logo a abrir, é “para deixar claro que banda é esta”.

As quatro canções com que arranca o concerto — depois de Sunday Bloody Sunday, em Londres ouviram-se New Year's Day, Bad e Pride (In the Name of Love) — são tocadas num palco mais pequeno, uma sombra da árvore de Joshua, que se destaca no ecrã panorâmico e é assim “projetada” no relvado do estádio de Twickenham. 

A lua tenta romper por entre a luz do sol, mas não há imagens no ecrã, remetendo assim para 1987, quando os espetáculos em estádios ainda não faziam uso da capacidade cénica de hoje (e onde os U2 sempre foram pioneiros e ousados). Apresentadas cronologicamente, estas canções de War e The Unforgettable Fire antecipam o álbum de 1987, mas também se inserem na linhagem política da banda irlandesa.

 

Segundo ato. The Joshua Tree

Os tempos de hoje, antecipava a banda antes da digressão, parecem completar um círculo regressando ao período de Ronald Reagan/Margaret Thatcher com diferentes personagens — agora Donald Trump, o brexit, Theresa May. “The Joshua Tree assemelha-se de alguma forma a um espelho das mudanças que estavam a acontecer no mundo”, dizia o baixista Adam Clayton. O ato é, pois, também político: os U2 nunca esconderam que olham de forma crítica para o mundo — e este álbum trintão conta-o por todas as espiras.

O público (no caso, londrino) sabe as letras de cor e salteado e sabe que é por Where the Streets Have No Nameque se inicia o álbum e que depois dessa vem I Still Haven't Found What I'm Looking For e depois With or Without You e depois... Esse reconhecimento poderia jogar contra o espetáculo, mas não. Percebe-se que faz sentido ouvir de novo Where the Streets Have No Name ou Bullet the Blue Sky. Uma e outra vez. “É importante para nós que isto não dependa de nenhum tipo de nostalgia. É um olhar fresco sobre estas canções, uma nova forma de as apresentar e aproveitar uma qualquer qualidade intemporal que tenham. Elas parecem ter ganho uma nova vida agora”, confessava o guitarrista The Edge à Mojo.

Em palco, nas quase duas horas e meia de concerto, a banda também faz da encenação uma forma de luta: no ecrã panorâmico gigante projetam-se curtas-metragens realizadas por Anton Corbijn (responsável pelas fotos que acompanham o álbum de 1987) e filmadas nos californianos parque de Joshua Tree e Zabriskie Point, no vale da Morte. 

São metáforas para estes dias. Em Where the Streets Have No Name, as ruas sem nome são uma longa reta que rasga o deserto com migrantes a caminharem sob o sol (e ali projetado com o sol ainda a fazer-se ver no Twickenham Stadium). Estes filmes são sobre “como pôr The Joshua Tree na América de hoje”, explicou Corbijn à revista Mojo.

Quando arranca a interpretação na íntegra de The Joshua Tree, o ecrã do espetáculo concebido por Willie Williams assume também protagonismo no palco, transportando os cerca de 55 mil presentes para essa América que é a de Donald Trump e de Barack Obama.

Se ao longo destes 30 anos as canções de Joshua Tree foram ganhando outros contextos e mantendo um olhar fresco sobre a América e o mundo, basta chegar a Bullet the Blue Sky, que nasceu de uma viagem de Bono e da mulher à América Central das guerras civis violentas e dos esquadrões da morte dos anos 80 e que hoje podia ser cantada sobre a Síria, o Iémen ou a República Centro-Africana.

Em 1987, “a música falava sobre os tempos e sobre o que estava a acontecer na cultura, de uma maneira que não se faz agora. Talvez no hip-hop haja um pouco mais”, apontou o guitarrista nas páginas da Q

Ouvindo The Edge, é mais fácil de perceber o que se passa no concerto: Exit é antecipado por um excerto de uma série de western onde um Trump, Walter, assusta a população de uma cidadezinha do Texas com a iminente colisão de um cometa a construção e garantindo que a solução mágica passa por construir um “muro magnético” que os protegerá do mal que se anuncia. Sounds familiar? Sim. E é a referência mais explícita a Trump, Donald, que se ouvirá no concerto. 

 

Terceiro ato. Miss Síria

Junte-se Mothers of the Disappeared, por exemplo, logo a seguir, e temos retratos de um mundo que está ainda presente. Ou Miss Sarajevo, já a abrir um encore com sete temas mais recentes dos U2, que acaba por ser uma miss Síria, Omaima, a jovem refugiada de 15 anos do campo jordano de Zaatari que vê os seus olhos abrirem-se no ecrã gigante enquanto uma bandeira com o seu rosto é levada pelos braços do público que compõe as bancadas de Twickenham.

Já antes, a antecipar a canção que celebra a América de forma clara, In God’s Country, Bono deixou uma declaração de amor a Brian Eno, pelo seu trabalho no álbum. “Não haveria um lado 2, ou um lado 1, se não fosse Brian Eno, que está aqui esta noite”, explicou-se o vocalista.

Há um verso neste In God's Country que ajudou Bono a explicar a vontade de tocar Joshua Tree agora na íntegra nos palcos. “We need new dreams tonight.” Precisamos de novos sonhos nos tempos que vivemos. Hoje a digressão, que passou entretanto por Berlim e Roma, chega a Barcelona. Para continuarmos a sonhar outra América — e outro mundo.

 

[texto publicado na Máquina de Escrever, a 18/7/17, elaborado, revisto e aumentado, a partir de uma crónica escrita para o DN, publicada a 15/7/17; o concerto em Londres aqui narrado foi a 9 de julho.]

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Humanz, a banda sonora para o fim do mundo

por Miguel Marujo, em 10.08.17

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O aviso vem em letra de forma na capa de Humanz, o álbum que assinala seis anos depois o regresso dos Gorillaz: "Aqueles que têm medo da música são perigosos." Sabe-se que Damon Albarn pediu a Pusha T, ainda antes daquele mau dia de novembro de 2016, que imaginasse "uma festa para o fim do mundo, como se Donald Trump ganhasse". Trump ganhou a presidência americana e o mundo ganhou a banda sonora para esse fim do mundo como o conhecemos.

Quem há muito anda distraído pode achar que vai encontrar neste alter ego de Damon Albarn um pouco mais de Blur, o grupo a que deu voz na explosão da britpop e na guerra alimentada no espaço mediático com os Oasis, sem cuidar que os seus ouvidos vão mergulhar num mundo que atravessa pontes entre o hip hop, o tecno e o dub (e Albarn prometia canções de "125 batidas por minuto e nada abaixo disso") ou o reggae e a pop.

Esta banda virtual de Damon Albarn e Jamie Hewlett, responsável pela imagem gráfica dos Gorillaz, suga os anos 1980, no encontro com os De La Soul (também eles a viver uma segunda vida, como se pôde ou-ver no ano passado em Lisboa), mas também recuperando gente que seria proscrita, insultada e caricaturada por muitos na década final do século XX, como Jean-Michel Jarre (sim, os seus sintetizadores ressuscitam em três temas), a inesperada Carly Simon ou a sempre enigmática Grace Jones.

Também há Vince Staples, Danny Brown, Pusha T, Mavis Staples, D.R.A.M., Jehnny Beth, das Savages (que se mostraram no Primavera Sound de 2016 no Porto) e Kelela, que também no ano passado se apresentou a solo no Super Bock Super Rock, longe do palco principal dos De La Soul. E com Damon quase sumido nas vocalizações, há ainda a voz de Benjamin Clementine, sempre inclassificável, sempre brilhante, apesar de quase discreta nos tons fortes que fazem desta voz um templo sagrado. E, por fim, Noel Gallagher, um dos irmãos desavindos dos Oasis, também acompanha Damon e Jehnny Beth em We Got the Power, um gesto que motivou a fúria de Liam Gallagher.

Há coisa de três anos, este álbum começou a ganhar forma e, em outubro de 2015, Damon Albarn admitia que já estava a trabalhar em novas canções. Elas deviam transmitir três ideias centrais para este registo: "Dor, alegria, urgência." E Albarn era citado numa entrevista a pedir a festa de um mundo que se desfazia. "Eu disse a todos para imaginarem que estavam na América após a tomada de posse [do presidente] e que pensassem no pior cenário: como se sentiriam naquela noite? Vamos fazer um disco festivo sobre o mundo a ficar doido."

O álbum avança entre canções de corpo inteiro e interlúdios que experimentam palavras de ordem para o ritmo dos corpos. Temos o poder de nos espantar num universo que extravasa a música. Os Gorillaz têm uma existência virtual de quatro personagens animadas, completamente ficcionadas, sem qualquer correspondência com a realidade — apenas emprestam os nomes a vídeos e filmes, como também a instrumentos, como 2-D na voz e teclas, Murdoc Niccals no baixo, Noodle na guitarra e teclas e Russel Hobbs na bateria e percussão.

Já no final do álbum (na versão standard, que se fica pelos 20 temas; há uma edição deluxe que acrescenta mais seis canções de bónus), Jehnny Beth toma a palavra para nos dizer que temos o poder de nos amarmos, sem que mais nada importe: "We've got the power to be loving each other/ No matter what happens/ We've got the power to do that/ On a le pouvoir de s'aimer, okay?" E aqueles que têm medo da música são perigosos.

Num ano em que já tivemos Kendrick Lamar no seu Damn e Thundercat com Drunk, este Humanz ajuda a compor uma trilogia destes tempos modernos de inquietação de que qualquer coisa está para acontecer. É este o fim do mundo como o conhecemos — e sentimo-nos bem. Já se sabe: estas canções hão-de afugentar os perigosos que têm medo da música. É a banda sonora perfeita.

[publicado originalmente no DN a 27/5/17]

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É uma foto destes tempos: dois jovens estendidos no chão beijam-se, com um polícia em primeiro plano e, ao fundo, o caos instalado nas ruas de Vancouver. Scott contou que procurou acalmar a namorada, Alexandra, com o beijo, depois de os dois terem tropeçado numa fuga precipitada da multidão e a polícia lhes ter batido — estávamos em 2011.

Cinco anos depois, os Placebo fizeram desta imagem a sua capa da coletânea A Place for Us to Dream, com que festejam os 20 anos do seu primeiro álbum homónimo, de 1996. Este lugar para sonharmos anda desde outubro último pelos palcos europeus e chega hoje [1/5/17] ao Pavilhão Multiusos de Gondomar e amanhã [2/5/17] ao Coliseu dos Recreios em Lisboa.

A avaliar pelos alinhamentos dos concertos mais recentes, pode esperar-se uma entrada em palco com dois momentos de Without You I"m Nothing, o segundo disco de originais da banda e que a Pitchfork incluiu na lista dos 50 melhores álbuns da britpop. Every You Every Me será projetado nos ecrãs e Pure Morning já contará com Brian Molko e Stefan Olsdal no palco para uma noite em que se espera mais de uma vintena de canções, encores incluídos, entre originais e algumas surpresas — a banda tem fechado os concertos com a sua versão contida de Running up That Hill (A Deal with God), o tema de Kate Bush, e tem interpretado Without You I'm Nothing, com David Bowie (que canta no original) a visitar-nos nos ecrãs.

No palco, garante Stefan Olsdal, as coisas têm corrido bem. "Eu penso que nos aproximámos mais um pouco de um estilo festivo do que em digressões anteriores porque, afinal, sempre é o nosso 20.º aniversário, e em vez de sairmos e de tocarmos com má vontade velhas canções de que não gostamos, preferimos ter uma abordagem que foi a de 'vamos celebrar o nosso passado e vamos aceitar aquilo que nos fez o que somos hoje e nos trouxe até aqui hoje'", confessou o guitarrista-baixista num concerto na Alemanha ao jornal britânico Yorkshire Evening Post. "Chegámos a um acordo com o passado: celebrá-lo e estar gratos pelo que temos, basicamente."

Nestes 20 anos, Stefan reconhece que têm tido "alguns espetáculos, algumas colaborações e alguns momentos", mas que o melhor é manterem as suas armas e não seguir caminhos demasiado rápidos. Afinal, "também vivemos períodos em que estávamos realmente fora de moda e não podemos deixar que isso nos afete".

Para Brian Molko e Stefan Olsdal, o importante foi "fazer o que parecia certo e cumprir a sua própria visão". "Se fizermos isto durante um tempo suficiente, como que crias o teu próprio mundo. Até porque, se andares por aqui muito tempo, as pessoas também não te podem ignorar."

A banda não tem sido ignorada, regista Stefan. Ao longo destes 20 anos tiveram os seus momentos, como a primeira vez em que tocaram na Brixton Academy, em Londres, ou quando colaboraram com alguns dos seus "heróis", como lhes chama Stefan, de Frank Black a Robert Smith e David Bowie. Ou quando tocaram nos templos de Angkor Wat, no Camboja — "nós fomos a primeira banda de rock a fazê-lo". "Posso sentar-me e conversar sobre isto durante um bom bocado."

Na compilação, os Placebo incluíram ainda um inédito, Jesus' Son, que agora têm levado aos concertos, um tema que assenta como uma luva no longo percurso de uma banda desde sempre arrumada nas categorias do rock independente e da britpop. "And I am unafraid and blissful, here I come/ I am unashamed at getting nothing done", canta Brian na canção.

De fora tem ficado Life's what You Make It, a canção inscrita no panteão dos Talk Talk, registada num EP homónimo com temas que lançaram recentemente para ajudar na festa dos 20 anos. Mas aos 20 anos deixa-se a adolescência para trás — e festeja-se o que fazemos da vida.

Antes de iniciarem esta digressão dos 20 anos, os Placebo fizeram uma pequena homenagem a Leonard Cohen e Stefan Olsdal e Brian Molko olharam um para o outro e disseram-se: "Ainda nos temos um ao outro e ainda estamos a fazer isto. Somos abençoados com o que temos."

[publicado originalmente no DN a 1/5/17]

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