Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 25, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 5

Miguel Marujo

FMI-José-Mário-Branco.jpg

Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

José Mário Branco: FMI

Este disco está aqui por culpa do Olímpio. Ele que tratou de nos ensinar a olhar as coisas de modo diferente, quando nos demorávamos em noites longas a ler livros, maliciosos e deliciosos, ou a ouvir discos quase clandestinos (e este era-o, à época), houve uma geração do MCE que lhe deve este FMI, de José Mário Branco, trauteado como senha e contra-senha em tantos outros encontros e contextos. Por causa disso, o meu gosto musical moldou-se também entre a intervenção e a palavra. 

É verdade que já ouvia Zeca Afonso das baladas ao mato, que Sérgio Godinho fazia o nosso salão de festas, que Fausto nos levava rio acima, mas FMI transportou-me também para descobrir em profundidade outras canções de intervenção (Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira…) e o que era a obra de José Mário Branco, incluindo o coletivo do GAC, os trabalhos como produtor-compositor, as obras para cinema e teatro, e mais tarde, já nestas últimas décadas, a viagem pelo fado — de Camané a Kátia Guerreiro. E assim se tecem outros gostos que fui compondo na minha viagem musical.

A visceralidade de José Mário Branco em FMI será recuperada em 1996 com a reedição de Ser Solid(t)ário, que inclui o máxi editado originalmente em 1982, deixando a clandestinidade com que o ouvíamos anos antes. E essa visceralidade estará sempre presente na sua obra original, até Resistir é vencer, de 2004, um extraordinário disco de palavras e sons que nos mostram que a intervenção não se arrumou nos anos da Revolução. E tudo começou com aquele "pedaço" da "vida" de José Mário Branco, "um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro", que o Olímpio nos mostrou.

Abril 23, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 4

Miguel Marujo

NCTBS.jpeg.jpg

Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Nick Cave and The Bad Seeds: The Good Son

Foi num filme que o ouvi, quando o rapaz no palco se entrega a The Carny, ainda não conhecíamos esta canção, e pensa para si que só “mais uma canção e acabou, mas não lhes vou falar de uma rapariga, não lhes vou falar”, mas ao microfone diz o contrário: “Vou falar-vos de uma rapariga” – e a banda começa a tocar.

É Nick Cave and The Bad Seeds num palco em Berlim, no filme Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, a tocarem The Carny e From Her To Eternity. E é por causa desta cena que fui à procura deste australiano, que se mostrou ao mundo nos Birthday Party, que há muito vive no Reino Unido.

Descobri Your Funeral… My Trial (1986), fui até From Her To Eternity (o primeiro álbum, de 1984), mas é com The Good Son (1990) que tudo mais fez sentido: é neste disco que inicia uma inflexão, depois da visceralidade dos cinco primeiros discos, para um lirismo hipnotizante que o foi acompanhando, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos arroubos carnais.

Podia nomear ainda Murder Ballads (1996) ou The Boatman's Call (1997), outros marcos na construção do meu gosto pessoal, até às três últimas obras-primas (Push The Sky Away, Skeleton Tree e Ghosteen), mas foi com The Good Son que percebi que Nick Cave era verdadeiramente um filho pródigo.

Abril 22, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 3

Miguel Marujo

VA.jpg

Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Virginia Astley: Hope In a Darkened Heart

Não me recordo o que me fez comprar este que foi o primeiro disco que comprei com dinheiro amealhado por mim. Talvez uma crítica lida num jornal, talvez a breve audição na rádio ou mesmo na loja de Some Small Hope, a canção que Virginia Astley canta com David Sylvian, envoltos em teclas que nos soam a sinos. 

Sei que ouvi Hope In a Darkened Heart intensamente e o vinil revela hoje as marcas desses tempos de escuta extasiada — e que este álbum me levaria à descoberta da escassa discografia da britânica, sobretudo dessa obra-prima que é From Gardens Where We Feel Secure. 

O dueto com Sylvian transportou-me para outra descoberta absolutamente fundamental que é o universo do antigo frontman dos Japan e que influenciaria em absoluto o meu gosto musical. Por isso, o superlativo Secrets of the Beehive é um dos discos da minha vida, sempre ouvido com renovado prazer, mas também por isso me deixo sempre fascinar pelas sonoridades e texturas mais ou menos experimentais de quem arrisca uma Pop Song que é uma “antipopsong” ou nos conduz pelas Forbidden Colors com Ryuichi Sakamoto — e o japonês, que esteve na produção do disco de Virginia Astley, é também ele uma descoberta desta época. Santíssima trindade!

Abril 21, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 2

Miguel Marujo

MadreDeus.jpg

Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Madredeus: Os Dias da MadreDeus

Um texto no Blitz (quando ainda era um jornal semanário em papel) de Miguel Esteves Cardoso (quando MEC bastava para o apresentar), provavelmente lido algures em 1987, introduziu-me a um mundo mágico. Falava das gravações e ensaios de um grupo de músicos numa antiga igreja em Xabregas, em Lisboa, acompanhados de uma voz que fazia sonhar (não sei se eram estes os termos, mas foi isto que me ficou gravado na memória) – e gostei do grupo só pelas palavras do MEC.

Para alguém que vivia numa cidade pequena, com duas discotecas (quando as lojas de discos se chamavam assim), e um acesso curto na carteira para discos e imprensa, a prenda daquele Natal foi um sonho: o LP duplo de Os Dias da MadreDeus (quando o grupo ainda não se apresentava como Madredeus, e me fez insistir naquele nome longo e bonito durante muito tempo) confirmou todas as minhas expectativas, da voz que nos fazia sonhar, de instrumentos impregnados de beleza, de músicas tão ingénuas quanto fantásticas. Meses depois, confirmaria tudo isto num concerto único, daqueles que nos marcam para a vida, no Teatro Aveirense, a meia casa, ainda longe do reconhecimento que muitos dariam aos Madredeus e onde esgotaram as canções ensaiadas nos encores e cantaram O Brasil a pedido da plateia (e eu fui um deles, claro).

A descoberta deste disco enquadrou-se nas várias descobertas que tive então, na música portuguesa, incluindo a Sétima Legião, de Mar D'Outubro, que me levou mais para trás ao genial A Um Deus Desconhecido, e que porventura também podiam estar no lugar deste Os Dias da MadreDeus – não fosse um certo texto de jornal me ter transportado para aquela antiga igreja às voltas com uma coisa velha.

Abril 20, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 1

Miguel Marujo

genesis-lamb-lies-down-on-broadway.jpg

 

Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Genesis: The Lamb Lies Down On Broadway

Quem tem irmãos mais velhos, com diferenças significativas e em idades que definem o gosto, é-se necessariamente influenciado por esse seu gosto. É o caso. Ouvi até à exaustão os Genesis, sem grande distinção entre as fações Peter Gabriel vs Phil Collins, mas é este duplo LP (que marcou o fim de Gabriel no grupo britânico) que sempre mais e melhor me ajudou a definir o gosto por um certo rock operático, progressivo e conceptual.

Nos anos 80 e 90, os Genesis foram muito maltratados, mas hoje, apesar dos amores e ódios que ainda provocam, têm um lugar reconhecido na música — e este álbum é o seu melhor cartão-de-visita. E por causa desta influência fraternal, cresci a ouvir tantos e tantos outros prog rock, dos Pink Floyd aos Jethro Tull, dos Tantra a José Cid, sim, ele, em 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

 

Abril 01, 2020

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

Miguel Marujo

passion.jpg

É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Em Mateus 27, 61 (e não 51, como aponta Nick, numa provável gralha), sintetiza-se esse instante. “Maria de Madalena e a outra Maria permaneceram em frente à sepultura.”

“Eu acho que esta frase única e assombrada é provavelmente o meu momento favorito da Bíblia”, comenta Nick Cave, no seu site The Red Hand Files que já vai nas 90 atualizações, onde o músico, cantor e compositor se dedica a responder a perguntas de leitores sobre o seu processo criativo, a poesia que lê ou a música que ouve e faz, a sua vida e os animais lá de casa, a morte do filho adolescente e a sua fé e espiritualidade ou os sonhos de que não se lembra, e sobre temas que assombram as canções e a sua escrita, como o amor e a morte, o sexo e a religião, muitas vezes a religião.

É o próprio quem o reconhece, também a propósito da pandemia que se espalha pelo mundo. Radicado na Grã-Bretanha, Nick Cave regista-o, modesta e ironicamente, num dos mais recentes textos: “Os Red Hand Files sempre foram um espaço no qual eu pude oferecer noções existenciais duvidosas, meditações religiosas, conselhos infundados, senilidades milenares e aborrecimentos gerais, e, ao mesmo tempo, espero estender um pouco de bondade e compaixão humanas. No entanto, esse tipo de ruminações veio de uma época mais privilegiada e feliz, quando tínhamos oxigénio para refletir e tocar. As coisas mudaram, estamos diante de um inimigo comum — imparcial, insensível e de uma magnitude incomensurável — e não é mais o tempo de abstrações. Agora é a hora de ser cauteloso com as nossas palavras e as nossas opiniões.”

Dias antes tinha publicado, também neste site, o anúncio do adiamento da sua digressão europeia, que se iniciaria em 19 de abril em Lisboa — como tantas outras atividades que foram suspensas, canceladas ou adiadas em cidades cada vez mais desertas. “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades”, descreveu agora o Papa Francisco. Estas trevas “apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares”.

Quando da morte do filho de 16 anos, o processo criativo de Nick Cave ficou suspenso. Talvez agora como então, o australiano sofra com isto. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho”, sintetizou.

Antes destas sombras, Nick Cave preferia o brilho de Maria Madalena, defronte do túmulo. Afinal, aquela mulher foi “mal julgada pela história e a sua importância fundamental na história cristã minada pelo patriarcado religioso”. Mas ele vê nela um papel central nos textos evangélicos. “Maria Madalena continua a ser o núcleo subversivo em torno do qual a história do Evangelho gira.”

Para Cave, “Maria Madalena é o símbolo mais comovente do amor verdadeiro e resiliente, tanto terrestre quanto espiritual. Ela ‘permanece’ na entrada da sepultura, a principal testemunha entre dois eventos monumentais — a crucificação e a ressurreição — que se imprimiram na história e moldaram não apenas o pensamento ocidental, mas também a essência do que somos, gostemos ou não disso”.

“Maria Madalena, para sempre parada na porta do túmulo numa vigília fiel, contemplando para lá da história, está embutida no nosso subconsciente. Ela é o verdadeiro ícone do luto feminino — complexo, elementar, paciente, empático e cheio de tristeza, e uma manifestação de amor físico e transcendente — o verdadeiro herói humano da história cristã”, conclui.

Agora que a pandemia de covid-19 levou Nick Cave a adiar a sua digressão europeia, é com as palavras que o australiano continua presente — e com a música de qualquer um dos seus álbuns. Uma amiga sua comparou este “nosso novo mundo” a um “navio fantasma” — “e talvez ela esteja certa”, admitiu. “Recentemente, ela perdeu alguém querido e reconhece agudamente o sentimento premonitório de um mundo prestes a ser destruído — e que precisaremos nos recompor novamente, não apenas pessoalmente, mas socialmente.” Com o espanto daquela mulher defronte do túmulo, a contemplar para lá da história.

[texto ligeiramente adaptado de uma publicação original no Sete Margens, de 30 de março de 2020; foto: a personagem de Maria Madalena, interpretada por Monica Bellucci, no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]

Março 23, 2020

— música para estes tempos incertos (breves registos)

Miguel Marujo

1024px-Kristin_Hersh_Electric_Trio_concert_(485856

Senhora de uma voz peculiar, entre o sussurro e a garra que se colam à vez a guitarras viscerais, que a acompanham desde os Throwing Muses (que nos prometem um novo disco, já com canção nova, para maio próximo), Kristin Hersh é um porto seguro para acostar nestes tempos incertos. 

Crooked, o seu último trabalho, é de 20 de setembro de 2018, e recupera uma primeira edição de um livro multimédia de 2009. E, antes, tínhamos tido Possible Dust Clouds (em 5 de outubro de 2017) e foi neste disco que tropeçámos ao sétimo dia de "quarentena social" — e a partir dele voltámos a navegar nestas águas turbulentas mas também envolventes. Ouça-se, por exemplo, o espanto dialogado de violoncelo e guitarra de Flooding, em Crooked, com uma extraordinária interpretação vocal de Kristin.

Com uma já longa carreira a solo (desde Hips and Makers, de 1994, um breve tratado de excelentes canções), que se traduz em 11 álbuns, Kristin respira cada sílaba, pontuada por riffs e cordas dedilhadas de forma assertiva, como as que nos canta em Breathe In, do álbum de 2017: "Breathe in/ 'Cause breathing is what you do/ You're rawer than you were/ You punctured your cocoon." Respiremos, pois.

[foto: James O'Keefe/Wikimedia Commons]

Março 07, 2020

São Pessoas. Histórias com gente dentro

Miguel Marujo

ADRIANO-MARIA-GRAÇA-AFONSO.jpg

Há um tanque de lavar roupa. Há uma cozinha. Há o poço e as mãos que lançam um balde. Há uma sombra que foge. Há o poste de eletricidade que ilumina as casas frágeis. Há o quadro pendurado em que um coração pede “Deus te ajude”. Há a campa e a eterna saudade. E há uns tapetes gastos. Em cada uma destas fotos só se adivinham os rostos, os olhos, as rugas, as mãos rugosas, as bocas, as pessoas que habitam estes lugares.

Este é um livro de lugares habitados, um livro cheio de pessoas, mesmo nas páginas em que apenas adivinhamos a presença dessas pessoas. Por vezes, há legendas que nos ajudam, como naquela página de um quarto que se adivinha desconfortável. “Às 8:30 recebo o RSI e às 9 pago o quarto. Fico logo sem dinheiro para o resto do mês.”

São Pessoas, assim se chama a proposta dos fotógrafos Adriano Miranda e Paulo Pimenta, jornalistas do Público, que regista em livro a exposição que esteve no Porto (e seguirá para outros lugares) e nos transporta para o quotidiano de Monteiro, Tiago, Francisco, Maria, Bento, Isabel, Arlinda, Laurinda, Ângela, Conceição, Neide, Higínio, Bráulio, Natália, Sara, Ismael – e outros 27 nomes, pessoas concretas com nome.

Os autores retratam um Portugal que resiste na pobreza e sobrevive numa luta diária. “Sabes o que é abrir o frigorífico e não ter nada lá dentro? Não sair de casa porque não tenho dinheiro para um café? Ir ao supermercado comprar um litro de leite e um pão, pois não tenho dinheiro para mais?”, questiona-se uma destas pessoas.

Num dos textos que acompanha as imagens, o também jornalista Camilo Soldado situa o tempo e o modo do projeto de Adriano Miranda e Paulo Pimenta. “O dito país profundo, que começa à porta dessas mesmas cidades, encolheu, viu sair serviços e vê sumir gentes, sem que pareça haver solução para tão estranho problema em tão pequeno país. Se o pior parece já ter passado, sabemos também que dificilmente vamos recuperar o que perdemos naqueles turvos anos.”

O país que se turvou é o dos anos da troika. Sobraram vidas perdidas, destroçadas, agarradas a uma pobreza resiliente, que resiste a uma economia melhor, gente que “não conseguiu voltar a levantar-se” ou que “nunca conheceu outra vida que não de privação”, como descreve Camilo Soldado. É esta privação que se prova neste livro, que serve “para dar força a todos esses rostos através da fotografia de alguns, para os resgatar da sombra para onde foram empurrados e para nos lembrarmos de que o caminho a percorrer ainda é longo, neste país de 10 milhões com mais de 2 milhões de pobres dentro”.

Adriano Miranda e Paulo Pimenta trazem-nos estas pessoas, numa composição espantosa que resgata a fotografia como um poderoso olhar para este país e as suas gentes. São pessoas, pois. E estas histórias merecem ser vistas.

São Pessoas
Autores: Adriano Miranda e Paulo Pimenta

160 páginas; o livro inclui códigos QR para aceder aos ficheiros áudio e vídeo com os testemunhos
saopessoas2020@gmail.com

[publicado originalmente no jornal online Sete Margens, em 17 de fevereiro de 2020; Foto © São Pessoas, Maria Graça Afonso. Foto © Adriano Miranda, cedida pelo autor ao Sete Margens]

Janeiro 04, 2020

A casa que perdeu o chão

Miguel Marujo

Apúlia.jpg

É uma casa que já perdeu o chão. O mar veio e galgou areias e pedras e a casa lá ficou, suspensa no ar, inclinada enquanto resiste à queda definitiva. Quem ali vivia já desistiu mas há alguns que resistem, em casas nas dunas, algumas de pescadores - que esses são cada vez menos e a faina já não rende - outras de habitação de veraneio, do tempo em que se permitiam todos os devaneios. E há restaurantes na beira da estrada mas o mar já se abeira deles em dias alterados.

Chega-se à casa sem chão na praia da Apúlia e no horizonte a norte, em direção a Esposende, há mais casas com o mar a fustigar as dunas que são os seus alicerces. Anda por ali muita gente, uns políticos de Lisboa vieram ver o que se passa naquela língua de areia que se prolonga até à restinga da foz do Cávado e, sem que ninguém lhes pergunte, falam das alterações climáticas. Aquela gente que vê o mar vir para terra não lê certamente ensaios falhados de antigos humoristas encartados no ceticismo militante contra estas mudanças, mesmo que na hora de defender os seus argumentos garanta - a pés juntos, como se o chão não lhes fugisse - que o mar não avança.

Todos têm uma ideia de como resolver a coisa, entre o sonho de repetir os diques que impedem o oceano de avançar nos Países Baixos aos homens que já se resignaram à força do mar. "Vamos ter de desocupar o litoral", dizia um, antecipando o pior dos cenários. "Se o essencial for retirar da costa, que se retire da costa", disse outro. "A comunidade científica mundial diz que o melhor é retirar, gaste-se a proteger bens e pessoas", completou. Outro deixou um pedido angustiado. "Façam qualquer coisa para defender a costa e não venham para cima dos desgraçados." Um dos políticos concluiu salomonicamente que "contrariar as alterações climáticas é como travar o vento com as mãos" mas as populações também não podem ser deslocalizadas. A casa sem chão já mostrou que o mar quer ter uma palavra.

[artigo originalmente publicado no DN/1864, em 12 de março de 2019; foto MM, na Apúlia, em 18 de fevereiro de 2019]

Janeiro 03, 2020

Às malvas com as convenções

Miguel Marujo

Nuovo-Cinema-Paradiso-54.jpg

Quando Salvatore recebe a notícia da morte de Alfredo, o projecionista do pequeno cinema da sua aldeia natal, a sua vida passa-nos no grande ecrã: desde os tempos da infância, quando o pequeno Totó, como chamavam a Salvatore, se apaixonou pela magia do cinema, à adolescência em que se enamora de Elena. Mas a melhor síntese da sua vida está num pequeno filme que Alfredo lhe deixou e que não é mais do que uma extraordinária montagem de cenas cortadas dos filmes que eram exibidos no Cinema Paradiso e o padre mandava censurar ao som de um sino.

São beijos e beijos e beijos, e alguns nus, que não passavam no crivo do senhor de batina. É um dos mais belos hinos à história do cinema - e ao beijo!

Às malvas com as convenções, quando aqueles beijos se mostram naquelas películas enxertadas. O cinema sempre nos deu um beijo chamado desejo: quando nos lembramos de Burt Lancaster e Deborah Kerr, deitados na praia, em From Here to Eternity; quando o Homem-Aranha de cabeça para baixo beija Mary Jane; ou quando a misteriosa Rita toca nos lábios da inocente Betty em Mulholland Drive; e ficávamos aqui a ocupar páginas e páginas com exemplos destes. É esse também o sonho do cinema.

Há tratados sobre isto, páginas de filosofia, o beijo contado ao longo da história, fotografias, pinturas, livros, mas nada nos prepara para o momento em que mandamos um recado à professora da nossa filha e ela nos explica o que devemos escrever. "E depois terminas com beijinhos." Não, filha, não se mandam beijinhos à professora. Talvez no cinema.

[texto originalmente publicado no DN/1864, em 16 de abril de 2019]

Dezembro 26, 2019

Uma zona morta. Como uma série de TV fez crescer um turismo de risco

Miguel Marujo

chern.jfif

Em finais de abril de 1986, os céus da Europa cobriram-se de pequenas partículas poeirentas e radioativas. Na central nuclear sueca de Forsmark, os trabalhadores notaram a acumulação dessas pequenas partículas nas suas roupas e lançaram o alerta para eventuais fugas no local - mas a fonte do mal estava a 1100 km, em Chernobyl, uma central nuclear na cidade de Pripyat, na Ucrânia, então uma república soviética.

Hoje, 33 anos depois, Chernobyl é o que os ucranianos chamam de "uma zona morta", mas é também uma excelente série de televisão (com uma banda sonora a condizer na qualidade), que relata aqueles dias que carregaram mais medo e terror na atmosfera de uma Europa rasgada a meio.

A série, uma produção da HBO, conta uma história conhecida: na noite de 25 para 26 de abril de 1986, um teste de segurança correu mal e o reator nuclear n.º 4 explodiu - era 1.23 da manhã. É por aqui que começa a série, por aquela onda que se propaga, um incêndio que se instala, e as pessoas ao longe que despertam nas suas casas e saem à rua, homens, mulheres e crianças a verem ao longe as tonalidades hipnóticas que se desenham vindas da central. E as tais partículas que enchem o ar, como se fossem pequenos flocos de neve, quando na verdade eram confetis de morte.

Gente como nós

É este rigor estético - sublinhado pelos cenários, guarda-roupa e os espaços físicos quase ascéticos e asséticos -, que prende o olhar do telespectador desde o primeiro instante, somado a uma tensão de quem descobre os bastidores e pormenores deste acidente.

O realizador Johan Renck (autor de outra minissérie, Os Últimos Panteras, ou dos telediscos de David Bowie, Lazarus e Blackstar) faz-se acompanhar de um elenco que inclui Jared Harris, Stellan Skarsgård, Emily Watson e Jessie Buckley, para nos contarem uma tragédia tantas vezes dita, mas tão pouco conhecida. Se conhecemos a história, a série reaviva a memória e conta-nos mais, mostra-nos o dia-a-dia de gente como nós, que trabalhavam e iam para a escola todos os dias sem desconfiar que viviam encostados a uma potencial "zona de morte".

"Um mundo justo é um mundo são e não há nada são em Chernobyl", diz-nos a voz que nos introduz na série, a de Valery Legasov (Jared Harris), cientista russo, que chefiou a comissão de inquérito ao acidente, e se suicidou dois anos depois do acidente, na véspera de publicar os resultados do inquérito.

Paradoxo: sem nada saudável em Chernobyl, como nos avisa Legasov, o sucesso desta minissérie fez disparar o turismo nesta "zona morta", uma fantasmagórica cidade de Pripyat, que foi evacuada 36 horas depois do acidente. E na série, há um rapaz que vê um homem a vomitar num relvado, enquanto um soldado de máscara manda seguir um dos muitos autocarros que transportaram cerca de 49 mil pessoas para fora de um perímetro de dez quilómetros.

Em duas reportagens fotográficas, uma da Reuters publicada no dia 4 [de junho], e outra da agência EPA partilhada este sábado [8 de junho], veem-se visitantes a passearem pela cidade abandonada de Pripyat: como qualquer turista destes dias, há uma mulher que tira uma selfie junto a um autocarro abandonado e outras duas que se fotografam numa ponte (talvez a "ponte da morte" que se vê no primeiro episódio da série), há um homem que observa um camião e pneus deixados para trás, há quem se passeie por prédios que o tempo tratou de ir degradando ou quem fotografe um pequeno dosímetro, que regista os valores de radiação, e uma sala destruída de um jardim-de-infância.

Dezembro 23, 2019

... e viajámos apenas nos sonhos

Miguel Marujo

round-the-world-in-80-days.jpg

Quando a memória da leitura se perde no tempo, nada como regressar aos livros com a miúda, aqueles livros que fizeram a nossa infância, agora que ela também vai descobrindo as palavras encadeadas umas nas outras. Há tempos, depois de ter visto um espetáculo de dança que relatava a viagem de 80 dias à volta do mundo, a partir da obra que Júlio Verne tinha escrito em 1872, contei-lhe algumas dessas peripécias, a partir do relato parcelar que a dança tinha reavivado. Teve uma única pergunta para me fazer: consegue dar-se a volta ao mundo em 80 dias? Se isto é tão grande, é mais do que legítima a questão, pensei. Que sim, que hoje em dia até se pode fazer em menos tempo.

No tempo de Júlio, o ritmo era outro: os barcos a vapor, os comboios e as carruagens eram meios de transporte de então (e até mesmo um elefante, na aventura de Phileas Fogg). Agora galgamos países no ar sem nunca lá pôr os pés, atravessamos terras apenas com tempo para reabastecer o carro - é bem mais rápido dar a volta ao mundo.

Voltámos a pensar como seria fazer os tais 80 dias: sem uma qualquer enciclopédia de 30 volumes à mão, pesquisámos ao engano na internet, espreitámos pelo ecrã as terras que fazem o roteiro do livro, tentámos ver quanto tempo se demorava em cada etapa - para ver se de facto Fogg podia ter ganho a aposta de fazer a viagem em menos de três meses. As contas dariam sete dias de Londres ao canal de Suez, mais 13 daqui a Bombaim e três por terras da Índia até Calcutá. Somavam-se mais 13 dias até Hong Kong e seis para chegar a Yokohama, de onde se partia pelo oceano Pacífico durante 22 dias para alcançar São Francisco. Na América, eram sete dias até Nova Iorque e depois outros nove até Londres.

O entusiasmo levou-nos ao óbvio: procurar o original que algures existiria em casa, numa edição porventura comprada há muito com um qualquer jornal, apenas pelo prazer de viajar pela pena de Verne. Não o encontrámos e o sono venceu a excitação da viagem. E tal como Júlio um dia, ela prometeu então viajar "apenas nos sonhos".

[artigo originalmente publicado no DN/1864, em 2 de julho de 2019]

Dezembro 22, 2019

Blasfemos, graças a deus

Miguel Marujo

MP.jpg

 

Os Monty Python entraram algures nos ecrãs da RTP, talvez ainda a preto e branco - falha-se-me a memória e o Dr. Google não ajuda -, com aquele pé a esmagar um homem num genérico que antecipava já o humor desconcertante de travo surrealista e maluco, verdadeiramente louco, que ainda hoje nos faz rir a bandeiras despregadas. Monty Python's Flying Circus está cheio de episódios desses, como a Inquisição Espanhola, Spam ou as Avozinhas do Inferno, entre dezenas e centenas de outros, que ocupariam páginas e páginas.

Além da série, também tivemos os filmes, como A Vida de Brian, que blasfemava, segundo alguns crentes. A estes sobrava em fundamentalismo o que lhes faltava em humor, por não gostarem de ver esta história que se mete com Jesus e os cristãos. No entanto, este Brian desmascarava antes um seguidismo acrítico, uma fé sem vida, quando devia antes levar os cristãos a refletir sobre si próprios. Como na cena da crucificação em que Brian mimetiza Jesus e os ladrões lhe cantam Always Look on the Bright Side of Life.

Este episódio mostra-nos como as canções dos Monty Python são outra possível explicação para a universalidade do seu humor, que se mantém tão atual, como em Every Sperm Is Sacred, do filme O Sentido da Vida, ou Spam, de Flying Circus, que hoje é um termo banalizado no nosso quotidiano.

É este contexto que ajuda a explicar que o reencontro dos cinco Pythons vivos (Graham Chapman morreu de cancro em 1989), em dez espetáculos londrinos realizados em julho de 2014, tenha sido editado num álbum com quatro DVD intitulado One Down, Five to Go.

No funeral de Chapman, John Cleese, Terry Gilliam, Eric Idle, Terry Jones e Michael Palin não estiveram presentes, para permitir alguma privacidade à família e enviaram um cartão com o tal pé do genérico de Flying Circus, onde deixaram um post scriptum: "Pisa-nos se estivermos a ser demasiado idiotas." O pé nunca foi usado.

[texto originalmente publicado no DN/1864, em 8 de outubro de 2019]

Outubro 09, 2019

"Uma coisa estranha e maravilhosa" (ou o mais belo álbum do ano)

Miguel Marujo

ghosteen.jpg

Deixemo-nos enfeitiçar: Nick Cave e os seus Bad Seeds apresentaram-nos esta quinta-feira à noite um espírito que voa por entre angústias, medos, esperanças, a paz e a morte a espreitar a cada palavra. O DN ouviu a estreia mundial do seu 16.º álbum de estúdio, no canal do YouTube da banda — e as primeiras impressões são estas, escritas ao correr dos sons.

Este é um disco que pede tempo: vive muito das palavras, como sempre viveu a música do australiano, mas Ghosteen (assim se chama o disco, que se poderia traduzir livremente por "Adolescente fantasma") é musicalmente menos áspero e visceral que qualquer uma das suas obras anteriores. Estão lá os poemas para isso, muitas vezes mais ditos que cantados (num registo em que é impossível não comparar com a referência que é Leonard Cohen).

Ghosteen segue-se a esse luto que foi o brilhante Skeleton Tree, editado há três anos, em setembro de 2016, depois da morte do filho adolescente Arthur, que tinha morrido no ano anterior, aos 15 anos. O nome deste álbum sugere também uma relação com essa morte. "I am beside you, you are beside me, look for me", ouve-se nos versos finais de Ghosteen Speaks. Depois da raiva contida do disco anterior, este novo trabalho parece representar um processo de apaziguamento. "Peace will come, a time will come for us", canta-nos Nick Cave logo a abrir em Spinning Song. "Estou a teu lado, estás a meu lado."

Não há um single óbvio — talvez Waiting for You, o terceiro tema da primeira parte (o disco surge dividido em duas metades) — e a própria estrutura deste duplo álbum traduz essa vontade de apontar um outro caminho, mesmo que seja claro que este é um disco novo de Nick e as suas ervas daninhas. Trata-se de oito canções na primeira parte e duas longas composições ligadas por um poema lido no segundo disco. "As canções do primeiro álbum são as crianças, as músicas do segundo álbum são os seus pais e Ghosteen é um espírito migratório", como explicou o australiano, radicado no Reino Unido, ao antecipar na semana passada o lançamento desta quinta à noite,

O disco pede de facto mais tempo de audição, mas não nos lembramos de Nick Cave cantar como canta neste disco, a voz sofrida mas percorrendo agudos que não suspeitávamos, as teclas de Warren Ellis a acomodarem as palavras. Em Waiting for You, Nick diz-nos que "sometimes it's better not to say anything at all". Felizmente, falha essa promessa. Há mais a dizer. "We would never admit defeat", canta logo depois em Night Raid, num exercício de declamação que abre a porta a coros - de vozes masculinas e femininas, que vão pintando os poemas ao longo dos dois discos, como em Sun Forest ou Leviathan.

Esta composição remete para Leviatã, o monstro marinho bíblico que atormenta Jó, um homem que sofre todas as provas (e provações) de Deus. As percussões de Leviathan, discretas, pontuam versos de uma dor tangível de um pai que perdeu o filho: "Love my baby and my baby loves me."

Na segunda parte, no tema que dá nome ao álbum, Nick Cave introduz uma nota de esperança, ao notar que "este mundo é lindo" e levando o espírito migratório a dançar, dançar e dançar por entre todas as coisas belas.

Em Hollywood, o tema com que encerra o disco, a morte parece pairar, como as estrelas que vivem apressadas na cidade dos sonhos e das ilusões. "And I know my time will come onde day soon", diz-nos Cave, 62 anos. E completa, num círculo que se fecha, como os espíritos que migram: "It's a long way to find peace of mind and I'm just waiting now for my time to come, for peace to come."

Antes ainda há Fireflies, um poema que já conhecíamos de Red Hand Files, o site onde Nick Cave conversa com os seus fãs e onde anunciou este disco. Foi aí, através dessas cartas que, há um ano, o australiano revelou que estava a trabalhar neste Ghosteen, afirmando que era "uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes". E completava: "Estamos sob o seu feitiço." Também nós.

[texto originalmente publicado no DN, em 4 de outubro de 2019, na própria noite em que o disco foi lançado, com o título Nick Cave lançou-nos um feitiço. Já ouvimos "Ghosteen" ]

Setembro 30, 2019

O novo feitiço de Nick Cave espalha-se a 3 de outubro

Miguel Marujo

nick warren.jpg

Tome nota: às 22.00 da próxima terça-feira, dia 3 de outubro, Nick Cave apresenta ao mundo o seu novo disco com os Bad Seeds, Ghosteen, um duplo álbum que apresenta oito canções na primeira parte e duas longas composições ligadas por uma peça falada (spoken word) no segundo disco.

Já em setembro do ano passado, Nick Cave antecipava esta novidade, numa carta dirigida a uma fã americana: "Enquanto escrevo isto, estou sentado num estúdio com Warren na Califórnia a trabalhar no novo disco. É uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes. Estamos sob o seu feitiço."

É esse feitiço que se vai desvelar na próxima semana, antecipou o músico, numa outra carta divulgada nesta segunda-feira, no site onde mantém um diálogo com fãs, The Red Hand Files . O britânico Joe perguntou diretamente ao australiano: "Quando podemos esperar um novo álbum?" - e a resposta surgiu ontem, acompanhada de uma foto de Nick sentado com Warren Ellis: "Podes esperar um novo álbum na próxima semana." Pouco depois divulgava a capa de Ghosteen.

O nome do disco pode remeter para a morte do seu filho Arthur, em julho de 2015. Segundo Nick, "as canções do primeiro álbum são as crianças, as músicas do segundo álbum são os seus pais e Ghosteen é um espírito migratório".

O disco foi gravado em 2018 e no início de 2019, segundo informação hoje disponibilizada no siteoficial, nos estúdios de Woodshed em Malibu e Nightbird em Los Angeles (EUA), Retreat em Brighton (Reino Unido) e Candybomber em Berlim (Alemanha). E foi misturado por Nick Cave, Warren Ellis, Lance Powell e Andrew Dominik em Conway, em Los Angeles.

Para além do YouTube, o novo disco poderá ser ouvido em audições especiais num conjunto de várias cidades - mas Portugal fica de fora. A mais próxima é em Madrid e Barcelona, em Espanha, e o roteiro europeu inclui ainda Amesterdão, Estocolmo, Copenhaga, Oslo, Milão, Bolonha, Nápoles, Lovaina, Gent, Antuérpia, Helsínquia, Londres, Nottingham, Bristol e Brighton.

No dia 4, sexta-feira, Ghosteen fica disponível nas plataformas digitais, mas as edições em vinil e CD só chegam às lojas a 8 de novembro.

ghosteen.jpg

 

Agosto 20, 2019

Ruas estranhamente familiares que nos enchem a barriga

Miguel Marujo

68606339_421159478493861_1463222059835326464_n.jpg

Por estes dias, as férias fizeram-se também nas coordenadas de sempre, revisitando os lugares da infância, entre Aveiro, as praias da Barra e da Costa Nova, a Arrancada e outros lugares da freguesia de Valongo, os dias a acordarem de neblina e o sol a romper quente, bolachas americanas e tripas, uma geografia muito própria feita de passagens acidentais, mais ou menos demoradas. Há conta disso lembrei-me desta breve crónica que escrevi há quase um ano no 1864, do Diário de Notícias, com o título As palavras que enchem a barriga, e que agora recupero. Continua atual, apesar do caramujo envergonhado que comi antes do atraso monumental do comboio de volta a Lisboa.

 

De cada vez que regresso a Aveiro, sou transportado como no conto em que Haruki Murakami nos leva por “um passeio a Kobe” (Granta Portugal, n.º 3), cidade onde viveu e onde ia cada vez menos. Aquele grande terramoto de 1995, no meu dia de anos, deixou-o também sem a casa da infância, onde até então viviam os pais. Assim, “descontando todas as recordações” que guardou no seu “íntimo” (“o meu bem mais precioso”), Murakami deixou de ter uma “ligação concreta” com aquela terra, “um profundo sentimento de perda”, como se as lembranças rangessem “de forma vaga, mas audível” dentro dele. E aquelas ruas eram estranhamente familiares, mesmo que não as reconhecesse.

De cada vez que regresso a Aveiro, pareço turista em casa própria, a redescobrir os recantos que foram meus na infância e juventude, a olhar com espanto as mudanças feitas, a temer que se destrua o Rossio porque um autarca quer ali enfiar um parque de estacionamento, como se ainda pensássemos as cidades nos anos 1980, a perder-me como se perdia Murakami nas ruas estranhamente familiares. 

Aveiro é uma cidade onde também já se ouvem queixas sobre turistas, à imagem da sua dimensão, uma escala humana como definiu Miguel Esteves Cardoso, que concluiu numa visita no mês de setembro [de 2018] que “maior que Aveiro é grande demais, mais pequeno que Aveiro é pequeno demais”. 

No tamanho certo querem-se os ovos-moles, que “estão melhores”, como descobriu MEC, que não sabia explicar como “porque já eram perfeitos”; os caramujos que os lisboetas chamam de cornucópias mas não têm aquele doce de ovos que fazem os olhos comer; e os cartuchos que o país descobriu numa reportagem televisiva, uma mistura que dispara massa de cacau com pão-de-ló, ovos-moles (sempre presentes, ámen!) e chantilly. 

As montras das pastelarias da cidade são de comer e chorar por mais, e ainda não falámos das broas e das castanhas de ovos ou das tripas de ovos ou com chocolate regina. 

Se Esteves Cardoso descobriu só agora a doçura de Aveiro e se eu já quase me perco nesta cidade bafejada por uma natureza ímpar que se intromete na bonita malha urbana (apesar das cicatrizes), o melhor mesmo é perdermo-nos no passeio. Por vezes, os afetos e as memórias difusas recuperam-se pela barriga. 

[texto editado a partir do original publicado na revista 1864 do DN, em setembro de 2018; foto de MM, agosto de 2019]

Agosto 17, 2019

A música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar

Miguel Marujo

bom_dia_benjamim-2-13.jpg

Em dezembro de 2011, no suplemento Quociente de Inteligência, do DN, escrevi este ensaio sobre a chamada música infantil, longe das xanas toc-toc ou da escolinha da Sónia, com o título "A música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar". Por um acaso, a pesquisar um texto antigo no site do jornal, redescobri uma referência a este texto que, como quase todos do QI, nunca viram a luz do dia na internet. Por isso, recupero a versão que tinha comigo, levemente editada e corrigida, que mantém a ortografia de então e com os links possíveis. As referências não foram atualizadas, remetendo-se a 2011. No final deixo outras referências lá de fora que não couberam no texto.

 

Era uma vez um grupo de pais com filhos pequenos que lhes resolveram dar música. “Não havia quase nada interessante”, reclamavam os Clã, os pais desta história. E puseram mãos à obra: Disco Voador foi espectáculo em escolas e disco lançado este ano [de 2011]. Nós gostamos, mas reclamamos: há mais coisas interessantes do que se pensa nas histórias cantadas para miúdos. Basta procurar com atenção, para não nos reduzirmos à fórmula que a crítica repete acriticamente – a de que (palavras dos Clã) depois de “José Barata Moura [e Fungagá da Bicharada], de Os Amigos de Gaspar [de Sérgio Godinho] ou de Bom dia, Benjamim!” não havia quase nada. São, de facto, álbuns, histórias, que marcaram gerações, pais de hoje, mas há mais propostas que contam para esta nossa história.

Sabemos como é. “Crescer custa/ Custa muito./ E ser grande/ é um susto./ Ganhei asas/ perdi penas”, canta Manuela Azevedo. Só nesta história de música é que ser miúdo pode ser um susto, por isso deixemos de lado carochinhas e cantigas, que o que aqui se fala é de música dos miúdos que os pais não têm vergonha de gostar e cantar. “Seguros de que nenhum humano mata totalmente a criança e o adolescente que mora dentro de si, os Clã sabem que este Disco Voador se destina descaradamente a todos os públicos. As aspirações, os desejos, os temores, as inquietudes dos supernovos são sérias e densas. A galeria de figuras que fala nestas canções quer exprimi-las o mais livremente de que é capaz. Ou seja: escutando e dando a ouvir a música das esferas que habita o seu mundo interior.” A nota de intenções é de Regina Guimarães, a autora de quase todas as letras do álbum, que se explica no libreto que acompanha o CD.

Os pais descarados arrumam a pedagogia no canto como os Clã defendem: “Era importante não se sentir distância na linguagem, falarmos de coisas que tivessem a ver com o dia-a-dia deles.” Sem moralismos sobre o bom que é a escola e ou de como a matemática é bela. Sem moralismos – a comer pela boca o que a saúde ou a boa educação desaconselha. “Sou chéché por chocolates/Oh lá lá, melhor que chicha/Ovinhos, línguas de gato/Barras de 20 quilates.” Os Clã têm boa companhia nesta campanha. B Fachada também teve um álbum que É p’ra meninos. Em 2010, os miúdos puderam acompanhar o João a largar a sopa. “Larga a sopa João/ não comas mais/ não dês ouvidos às mentiras dos teus pais” ouve-se em “É p’ra meninos”, que antes abre com conselhos ao Tó-Zé: “fica deitado, não sejas pau-mandado”. Este elogio à preguiça (“que um dia vai chegar a tua vez de produzir, mas até lá Tó-Zé deixa-te dormir”), ou melhor, à infância longe de um certo discurso educativo hoje dominante, é o mote para um álbum malcriado. “To-Zé tu tem cuidado/ não sejas pau-mandado/ antes louco e malcriado que pensar só de emprestado/ toda a vida te vão dar o mundo já bem mastigado/ tu começa a praticar para não ficares moralizado”. 

Digamos de novo: este é um disco longe do politicamente correcto. “Essa ideia de que uma criança bem comportada, boa aluna ou que come bem, é uma criança melhor que as outras, é uma ideia muito falsa”, admitia o próprio ao DN em Dezembro de 2010. “Daí este propósito de fazer uma coisa quase destrutiva. O mundo não está como está porque as crianças hoje em dia são malcriadas. O mundo está como está porque as crianças de há 40 anos atrás eram bem educadas. Este chamamento de fazer um disco para crianças que não seja um disco de pai, para educar, pareceu-me bastante Fachada.” Ou ainda as letras de que se fazem as canções “p’ra meninos”: “Brincar/ fugir e desaparecer/ esquecer a escola e o dever/ fazer as coisas por prazer”. 

Ao terceiro tema do disco, “Questões de Moral”, uma carta de intenções de um rapaz que “tem zero safadeza”, faz a cama, põe a mesa e não se balda à escola. Para logo se questionar: “Às vezes dou por mim com cada mariquice que a família põe-se logo ‘abusar./ Levar com a sexta mordidela e ser bonzinho p’rá cadela já me está a chatear./ Ver a infância passar co’este medo de errar, ‘olha o exemplo, olhas as irmãs’./ Vem a avó e vem a tia; todas pregam todo o dia. Não pedi por mais mamãs.” Desaconselhável a pais sensíveis, o disco não alerta para as letras explícitas: “Porque é que o bom é melhor que o mau?/ Porque é que o Mal é pior que o Bem?”

Mas façamos cair esta fachada, a música para crianças não é tão bem comportada (digamos assim) como o cantor lisboeta nos quer fazer crer. Os Clã cantam o amor homossexual, e em Bom dia, Benjamim!, obra colectiva de 1995, fala-se da morte. Mesmo o livro-CD Sementes de Música (2008) que reivindica outro discurso sobre pedagogias (há mais três livros-CD que merecem a pena ser falados e escutados, mas já lá vamos), canta um jogo tradicional de arreliações e discussões à mesa: “– Ó Arnaldo, come o caldo./– Não o como, que me escaldo./– Arnaldo come a sardinha./– Não como, que tem espinha./– Arnaldo, come bacalhau./– Isso sim, que não é mau!”

Também Nuno Rodrigues tem Luanda Cozetti no seu Canções de Embalar de Dia (2011) a cantar que “a Rita gosta de batata frita”. Antes tinha ido à cozinha para inventar na voz de Jorge Palma um “amor de talher”, nas suas primeiras Canções de Embalar (2001), entre “uma colherzinha pequena de prata/ E um garfo lindo antigo de latão”, que “só de longe é que se olhavam/ Nunca, nunca se encontravam/ Só desarrumados/ É que eles se tocavam”. O final feliz de um amor assim é ameaçado – “Até que o garfinho tão velho ficou/ Que o deitaram fora/ Ninguém se ralou/ E a história triste quase chorou”. A narrativa que se segue parece resgatada de um filme da Disney: “Só que a linda colherzinha/ Que era esperta e pequenina/ Tinha-se escondido escondidinha/ Atrás dele// E finalmente longe de toda a gente// A sós/ O beijou”.

O antigo fundador da Banda do Casaco regressou [em] 2011 — dez anos depois do disco que fez para a filha pequenina que tinha então e outra que estava para nascer — com Canções de Embalar de Dia (e há uma versão instrumental em que a harpa de Ana Isabel Dias nos traz Canções de Embalar de Noite). Nuno Rodrigues, 61 anos, diz que continua “a ser muito miúdo com a idade” que tem — “as crianças e os adultos precisam de ser embalados e só nos faz bem partilhar o mundo imaginário das crianças”, dizia em Julho [de 2011] o “pai de filhos de 41, 31, de 16 e de 9 anos”, além dos netos que já tem. Talvez por isto, em Disco Voador os Clã arrisquem inverter a lógica, preparando o sono e o sonho da mãe. “Dorme bem/ Ó minha mãe/ Também mereces descansar/ Fecha os olhos/ Baixa as mãos/ Agora é hora de voar”, ouve-se logo a abrir esta “Cantiga de Embalar a Minha Mãe”.

É de ideias assim que nascem estes felizes discos. Bom dia, Benjamim! é uma obra colectiva, já se disse, que começou por uma música criada por José Peixoto — guitarrista que andou pelos Madredeus e hoje está no projecto Aduf (com José Salgueiro, que curiosamente também esteve na aventura de Benjamim) — para oferecer à filha Joana, no seu sexto aniversário. Conta Nuno Artur Silva, no seu blogue, em Março [de 2011], quando assinalou os 15 anos de Benjamim: “O José desafiou o Paulo Curado para compor outras canções com ele e desafiou-me a mim para escrever as letras. Eu baptizei o rapaz e convidei o Miguel Viterbo e o Rui Cardoso Martins para escreverem comigo as letras e as pequenas histórias. Depois juntaram-se o João Paulo Esteves da Silva, para compor canções, e o José Salgueiro para também compor e produzir.” Rui Cardoso Martins resume esta múltipla teia tecida em torno da música, mas também do livro e da peça de teatro (que será reposta no CCB em Março e Abril próximos) que se lhe seguiram: “Foi uma personagem construída com vários pais.” 

Este CD e livro – hoje esgotados no mercado (e que deu anos depois origem a uma peça de teatro e a um programa de TV) – são, nas palavras de Nuno Artur Silva, “um conjunto de canções que contavam a história de um dia da vida do Benjamim, um rapaz de 6 anos, desde que acordava até que, de novo, se deitava”. E acrescenta um dos fundadores das Produções Fictícias: “As canções e os pequenos diálogos entre elas reflectiam o universo real e fantasioso da vida das crianças daquela idade, desde a relação com os pais, a ida para a escola, os amigos, até aos sonhos e pesadelos, a morte do gato ou o mistério do Tempo.”

A personagem de Benjamim é cantada por Maria João que joga na voz a vivacidade das histórias do dia do miúdo, como a espreguiçar-se pela manhã. Como Manuela Azevedo a bocejar em Disco Voador, actos idênticos que parecem sublinhar marcas e identidades comuns de projectos separados por 15 anos. 

Mas estes anos todos, são muitos anos para o mundo ter ficado parado: no tempo de Benjamim, o rapaz ainda brinca com o André, o Zé João, o Rui, o Zé, o Nuno e o cão Capitão, no clube onde “só as meninas não entram”: “Um clube que ninguém sabe onde é/ só entra quem for capaz/ de contar de cem para trás/ e for realmente um rapaz”. E no universo das suas brincadeiras ainda cabem o maquinista, o astronauta, o herói, mas também o bandido e o pirata. Em 2011, o amigo é “de carne e osso”, mas as referências imagéticas são outras. “Amigo do Peito” (assim se chama a música) abre Disco Voador com uma letra que é um tratado da amizade em tempos de internet e redes sociais e telemóveis e jogos de computador: 

“O meu amigo é power
O meu amigo é break
O meu amigo é shutdown
O meu amigo é save

O meu amigo não é toc nem delete
O meu amigo não é chat 

Nem retoque em Photoshop
O meu amigo é em carne e osso
Falamos com os olhos 

e vemos com os dedos
Pensamos em voz alta 

nos sonhos e nos medos

O meu amigo é live act
O meu amigo é free pass
O meu amigo é cool down
O meu amigo é peace

O meu amigo não é toc nem delete
O meu amigo não é chat

Nem retoque em Photoshop
O meu amigo é em carne e osso
É em carne e osso
Falamos com os olhos 

e vemos com os dedos
Pensamos em voz alta 

nos sonhos e nos medos

O meu amigo é power
O meu amigo é break
O meu amigo é shutdown”

Já “Arco-íris” é a canção que canta o amor “sem olhar a quem”. E não se esconde descaradamente do que se fala. “Mas então por que razão/ Ainda vês com maus olhos/ O homem que ama outro homem/ A mulher que ama a mulher”, para se rematar com “Amar sem olhar a quem/ Nem ao sexo nem à cor/ Não é vício nem pecado/ Não é mau nem mau olhado/ Amar sem medo ou vergonha/ Amar a torto e a direito/ Amar sem manha nem ronha/ Não é tara nem defeito”.

Afinal de boas pedagogias estão também estas músicas cheias. Mesmo que aparentem não estar. Ao contrário de quatro livros-CD que também estão aí a pedir para serem lidos e ouvidos, que se assumem como instrumentos para as vozes de pais e professores, Para além do já referido Sementes de Música para bebés e crianças (no seu título completo, é editado pela Caminho, com a autoria de Ana Maria Ferrão e Paulo Ferreira Rodrigues e ilustrações de Madalena Matoso), há ainda Cantar Juntos (em dois livros autónomos, com vários autores e ilustrações da editora Planeta Tangerina; um para miúdos até aos 3 anos, o segundo para crianças dos 3 aos 6, editados pela A Par) e Canta o Galo Gordo – Poemas e canções para todo o ano (de Inês Pupo e Gonçalo Pratas e ilustrações de Cristina Sampaio, numa edição também da Caminho). Nuns e noutros casos, qualquer franzir de sobrolho está a mais. A música é irrepreensível, as letras bebem na tradição de rimas e cantares populares ou apresentam originais em que a pitada de humor, ingenuidade e inteligência se equilibram com cuidado. 

No livro-CD em que canta o galo gordo, “às seis da manhã”, B Fachada não entra. O miúdo lava bem os dentes, veste-se depressa, bebe leite como gosta e entra na escola cheio de alegria, “Bom dia! Bom dia!”. Mas há um ponto comum com Fachada: os actos do quotidiano, os dias do ano, as pessoas em volta são ponto de partida para rimar as letras que os miúdos cantam e os pais acompanham. Muda o tom (e as idades dos pequenos que ouvem também): “Acordei cedo que era dia de Natal/ Larguei a chucha não 'tamos no Carnaval,/ Pedi ao velho um babygrow de cabedal/ Uma motinha e um CD de metal”, canta B Fachada sobre o “Dia de Natal”. O “velho” que é o Pai Natal preferia antes ouvir o pai das mil e uma profissões de “O Meu Pai” em Canta o Galo Gordo, que acaba com o elogio que faz sorrir a mais empedernida fachada paternal. “Pais há muitos, e ainda bem,/ Pois cada um tem o seu./ A verdade é sempre a mesma:/ O melhor pai é o meu”. Rima e é verdade, pensam todos os pais.

Os supernovos inquietam-se a sério. Mas divertem-se ainda mais. Daí ver com gosto a preocupação posta em cada um dos objectos que são estes álbuns, mesmo os que vêm embrulhados em simples capas. As ilustrações são parte essencial para a leitura de cada um destes trabalhos: as de Madalena Matoso e da editora Planeta Tangerina (da qual faz parte) nos livros-CD Sementes de Música e Cantar Juntos; as de Cristina Sampaio para Bom dia, Benjamim! (“conseguimos visualizar a personagem”, concretizou Rui Cardoso Martins) e Canta o Galo Gordo; as de Rui Duarte que desenha um jogo na capa de Disco Voador, para dois jogadores (melhor dito: “dois supernovos”) com “um dado apenas”; as imagens de 2020 para o álbum Faz de Conta, de Júlio Pereira (2003), ou dos vários ilustradores que dão cor aos pequenos postais de Contarolando, de João Filipe. 

Tropeçámos nestes dois discos por conveniência: cabem bem nesta nossa procura de coisas que os pais não têm vergonha de cantar com os filhos. Um e outro aproximam-se de um universo mais tradicional de contos e cantos para os mais novos. Júlio Pereira — num emaranhado de nomes que se vão cruzando entre estes discos — recupera sobretudo Eugénio de Andrade, mas também Vinícius, Sérgio Godinho ou António Torrado, para contar fábulas de fazer de conta. E fazer contas: “Era um gato e era um cão/ os dois não cabem na mesma canção/ Era um velho e uma rapariga/ os dois não cabem na mesma cantiga/ Era uma pedra e era um pote/ os dois não cabem no mesmo caixote/ Era uma tesoura, era uma trança/ as duas não cabem na mesma aliança/ Era uma pulga, era uma dama/ as duas não cabem na mesma cama/ Era uma laranja, era um melão/ os dois não cabem na mesma estação/ Uns são assim, outros assado/ nem todos dormem para o mesmo lado”.

Contarolando (não é erro de impressão, é com contos que se cantarola) insiste nos temas de um imaginário infantil com a dose certa de subversão e ternura. “A bruxa que não era assim tão má” promete uma mulher que já meteu no caldeirão “morcegos e pernas de rã” e um “bom rapaz” que foge do caminho para manter-se longe do mau olhado, para acabarem os dois “cansados” e “à beira do lar dormiram descansados./ De manhã, ao acordar, estavam muito admirados.../ Os dois, de cabeça no ar, tinham dormido abraçados.”

É neste mundo da canção tradicional e popular que surge também um álbum inesperado, no segundo ano de uma experiência inusitada: Leopoldina apresenta clássicos infantis (edição Continente). Esqueçam os Queijinhos Frescos, o conceito que aqui se ouve aproxima-se mais de revisitações do musicário infantil ao pegar em conhecidas canções para crianças, mas neste caso dando-lhes voz pelas vozes de músicos reconhecidos. A Disney já tinha feito isso, por exemplo, com Stay Awake – Various Interpretations of Music from Vintage Disney Films (1988), em que Tom Waits se metamorfoseava em sete anões a cantar “Heigh Ho” ou Los Lobos entravam na selva e diziam “I Wan’na Be Like You”, na música dos macacos.

A Leopoldina ensaia soluções idênticas. Se em 2010 a experiência incluiu Pedro Abrunhosa e David Fonseca, Xutos & Pontapés e Deolinda, neste ano de 2011 é possível ouvir os GNR a atirarem o pau ao gato, Rui Veloso a gingar com a bola do Manel ou os Clã (sim, eles que deram o mote para este texto) a cantarem “Ou isto ou aquilo”. Prova acabada vinda do supermercado: a loja do mestre Hermeto, que os Clã levam no seu Disco Voador, diz-nos que “tudo junto em sintonia assim se faz a harmonia”. É só procurar, abrir ouvidos – e juntarmo-nos aos miúdos a cantar.

 

- - - - - - - - - - - - - - - - - - - - -

Outros exemplos de fora: 
Lullabies. A editora Ellipsis Arts editou uma extraordinária coleção de álbuns com canções de embalar de diferentes origens geográficas. Um achado.

Adriana Partimpim. Adriana Calcanhotto vestiu a pele de Partimpim para nos trazer um imaginário infantil delicioso.

Natalie Merchant. A antiga vocalista dos 10000 Maniacs, dona de uma voz singular e de uma sólida carreira musical, atirou-se a poemas sobre a infância dos cancioneiros americano e britânico para cantar à sua filha. Uma maravilha.

Disney Silly Songs. As canções tolas da Disney que ouvimos nos desenhos animados. Um roteiro pelas vozes inconfundíveis de Mickey ou Pateta ou tantos outros.

Agosto 14, 2019

Pink Floyd na Lua feita de queijo verde

Miguel Marujo

green-moon.jpg

Quando os Pink Floyd chegaram ao lado oculto da Lua, esse Dark Side of the Moon lançado em março de 1973, já traziam na bagagem uma outra viagem lunar.

Quase quatro anos antes, a 20 de julho de 1969, nos estúdios de televisão da BBC, os produtores do programa colocaram de um lado do estúdio um painel de cientistas e do outro quatro rapazes prontos a improvisar em conjunto ao vivo música para aquela emissão, em direto, da chegada à Lua da Apollo 11.

Moonhead é porventura dos temas menos conhecidos de Roger Waters, David Gilmour, Nick Mason e Richard Wright, os quatro Pink Floyd que naquela noite aceitaram o desafio da televisão britânica para esta sessão. "Era uma programação mais solta por aqueles dias e, se um produtor de um programa fosse mais ousado, eles eram capazes de fazer algo assim, mais fora da caixa", contou há dez anos Gilmour.

Esta banda sonora especial para a emissão espacial quase se perdeu no tempo, uns seis, sete minutos, nunca tendo sido editada em disco pela banda. Alguém a resgatou em duas bootlegs, With/Without e Wavelenghts, e mais ainda, alguém a publicou no YouTube, sobrevivendo a memória. Conta-se que a peça instrumental é conhecida também como Trip on Mars, mas nunca viajou para Marte.

Gilmour explicou que a BBC tinha pensado em meter pelo meio alguns intervalos na transmissão em direto da alunagem com a banda a tocar. Em estúdio estavam ainda atores que liam frases e poemas alusivos à Lua. Na descrição do floyd, Moonhead "é um blues agradável, atmosférico e espacial de 12 compassos". Confere: é uma trip psicadélica, onde nos sentimos com a cabeça na Lua, como pensaram os quatro no momento em que tocaram.

Por causa disto, a banda usou uma frase numa digressão digna do seu feito: "Pink Floyd — still first in space." Também o programa de televisão tinha um nome muito adequado às muitas histórias que se contavam naquele tempo, com a devida dieta de humor britânico. "Mas e se for feita de queijo verde?!" A Lua, claro.

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, em 29 de junho de 2019]

Agosto 13, 2019

Apenas o suficiente para respirarmos

Miguel Marujo

Lamastrock.jpg

Deixem-me blasfemar: Johann Sebastian Bach é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando ouço Prélude de la Partita pour Violin nº 3 precedido de Pepa Nzac Gnon Ma vacilo. Estou a meter no mesmo saco Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Sim, estou. Na música, descobrimos, desarmados, que Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana, vozes, percussões, violoncelo, música, beleza e a dança do povo fang, do norte do Gabão, derrotando discursos das falsas superioridades civilizacionais. (Ouçam então Lambarena — Bach to Africa.)

Arrisquemos nova pauta, antes de retomar a partitura: numa altura em que se democratizou o gosto de viajar, a bagagem não tem lugar para a música - mais ainda quando o streamingquase derrotou o CD. A coisa boa da globalização (e do streaming) é o mundo todo num clique na internet.

Pode começar-se a viagem com Baaba Maal em Call to Prayer ou escutar em silêncio os ventos andinos de um Kyrie da Misa Criolla, tropeçar num casamento klezmer dos Muzsikás, percorrer os desertos sufis com o afegão Mohammad Rahim Khushnawaz ou o paquistanês Nusrat Fateh Ali Khan, visitar os banhos do Istanbul Oriental Ensemble ou cair nos braços de Sheila Chandra e das vozes búlgaras em polifonia com António Zambujo e adormecer, por fim, ao som do violão de Ricardo Cobo.

Esta divagação não é para mostrar apressados saberes enciclopédicos. Num tempo em que nos impingem que quem é diferente (apenas por ser migrante, refugiado, asilado, estrangeiro) deve ficar algures esquecido no seu canto, talvez possamos reconhecer que estes sons nos levam antes em peregrinação. Elias Chacour, que é (num mundo de definições fechadas) palestiniano, árabe, cidadão israelita, cristão, disse-nos: "A palavra guerra significa em hebraico aproximar-se demasiado um do outro, a ponto de não se conseguir respirar. A paz significa afastar-se um pouco, para que eu possa respirar. Hoje, sufocamos." Podemos descobrir a música afastados apenas o suficiente para respirarmos.

[texto originalmente publicado na revista 1864 do DN, com o título Peregrinação Interior, em 11 de maio de 2019; imagem de Tony Canton e Jean-Pierre Caporossi, La Tour de Valse]

Agosto 04, 2019

Beijos que enchem o mar

Miguel Marujo

Beppe Giacobbe.jpg

Não é a página em branco, vazia de palavras, que assusta o jornalista. É a falta de palavras exatas para contar o que se viu e ouviu e tocou e cheirou e provou. Deixemos os cinco sentidos assim, na cadência da conjunção, evitando as vírgulas abruptas, que nos ensinam a respirar entre as palavras mas tiram o prazer de ir somando palavras enquanto nos lembramos de cada um dos cinco sentidos. De novo, não é a página vazia que assusta. Cada um dos sentidos preenche um espaço na página branca e vai dando corpo ao texto.

Num sábado, 6 de julho, fomos despertados do torpor de uns dias de férias com a notícia: "Morreu João Gilberto." E mais uma vez apressámo-nos em obituários que se devoram nas redes sociais (pelo menos é uma colorida página de necrologia) até ao próximo morto. Acaba por faltar sempre tempo, daquele que vivíamos nas longas férias do verão azul da infância (e nunca os dias sem fazer nada eram dias vazios), enquanto levávamos a bicicleta pelos defensões das marinhas (ainda havia montes de sal) para ouvir o restolhar das águas e dos pássaros. E já nos estávamos a perder de novo.

Falta sempre tempo — para saborear, para ir ouvir de novo, ler as palavras que acompanham o violão, tatear os discos, cheirar os corpos. "Melhor do que o silêncio, só João", arrumou Caetano Veloso. E assim nos ensinou como nunca ganha o vazio, qualquer vazio.

Damos outro salto no tempo — e não há nenhum vazio entre este tempo e esse, em Manchester, quando, em maio de 2017, no final de um minuto de silêncio de homenagem pelas vítimas do atentado no concerto de Ariana Grande, a voz de uma mulher irrompeu na multidão a cantar Don't Look Back in Anger, e um a um todos em volta se foram juntando e cantando a canção dos Oasis. A música salva, sabemos, por isso quando João nos sussurrou Chega de Saudade, percebemos que vazio algum nos ganha. "Vai minha tristeza/ E diz a ela/ Que sem ela não pode ser", e logo à frente nos enche tudo de futuros. "Mas se ela voltar, se ela voltar/ Que coisa linda, que coisa louca/ Pois há menos peixinhos a nadar no mar/ Do que os beijinhos/ Que eu darei na sua boca."

[crónica publicada no 1864, suplemento do DN, em 30 de julho de 2019; imagem de Beppe Giacobbe, Made in Italy]