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Lembra aqui o nosso Marujo que a morte de um jovem jogador de futebol está a ser tratada com uma ultra-sensibilidade e, adito, um sensasionalismo natural dos dias que passam.



Ora, por muito que lamente a morte de Fehér, e faço-o, já expressei noutros fórums que o choque por ver um jogador morrer em campo se dá não apenas pela juventude do mesmo ou pelo clube a que pretence, bastião do futebol nacional, mas porque a comunicação social explorou - e o público foi atrás - a morte que, nos dias de hoje, se trata com recato.



O bom senso nos livre de voltar às ideias da idade média, ou dos romanos, ou dos gregos, onde a morte era mais mística e, por isso, mais pública. Aprendemos, e creio que evoluimos, com o tempo e com a experiência.



Fehér foi, infelizmente, apenas mais um. No dia em que caiu redondo no campo de Guimarães noticiava-se algo que, pessoalmente, considero mais terrível: crianças que morrem asfixiadas por gás butano, por causa de um esquentador colocado numa casa de banho. Em pleno Portugal do século XXI. Mais: as mortes que se sucedem a nível laboral, de imigrantes incógnitos e ignorados, são também tenebrosos sinais de uma sociedade que se preocupa com os mortos mediáticos mas que depressa esquece os mortos incógnitos.



Isto não é de hoje, é de sempre. Mas os pressupostos que levam a «decidir» que morte «é mais importante» são viciados. O jogador, figura pública, tem direito à atrocidade maior que pode existir: três tv's em directo, câmaras apontadas à urna, adeptos a protestar contra a polícia porque esta não os deixava chegar ao local onde o corpo estava em câmara ardente. «Estamos aqui para a festa do Fehér», gritava um adepto aos microfones da TVI.



Apesar de tudo, continuo a pensar que a sociedade lida mal com a morte. E lida pior com a morte dos que são próximos, como era este jogador para os adeptos do futebol e, em especial, para os benfiquistas. Mas a resposabilidade da exposição é dos jornalistas e do público ávido de emoções fortes.



No sonambulismo a que a vida urbana nos obriga, só um choque eléctrico como este mobiliza. Terá sido isto que levou o presidente do clube do atleta falecido a declarar que tinha de ir repensar o seu futuro. Se estiver a ser sincero, compreendo-o. É que depois das guerrilhas mais ou menos sui generis do mundo do futebol, uma morte parece fazer com que os resposáveis pelo espectáculo se dêem conta que nem tudo vale a pena.



Não creio que existam grandes mudanças no comportamento. Aliás, não darei mais de uma semana para que, após o funeral, surjam as piadas sobre a morte do jogador. Mas a verdade é que nenhuma morte é mais importante que outra. Há é circunstâncias mais arrepiantes. O que prova ainda o nosso emotivo comportamento. E este é saudável. Pena que outras ideias, objectivos ou propostas não reúnam os portugueses como o fado da morte. Deve ser o nosso destino.

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