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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 15, 2006

Nunca votei Soares

Miguel Marujo

É um facto. Em 1986, com quase 14 anos, não tinha idade para ir às urnas. E mesmo se tivesse, o voto à primeira volta teria ido para Maria de Lourdes Pintasilgo, alguém que trouxe uma dimensão ética única para a política. Mas (hoje) teria percebido da sua impossibilidade de vitória, em cima de um mal-amanhado caixote, de megafone em punho, no largo da Estação, a falar para escassas dezenas de pessoas. Na segunda volta, sem engolir sapos, teria recusado o frentismo freitista com o voto em Soares.

Em 1991, já podia votar - e tentei, mas não me deixaram: ausente nos Açores, procurei saber junto da CNE se podia exercer o meu direito antes de partir para as ilhas. Que não, apenas marinheiros (e nem o meu nome me ajudou) ou pessoal diplomata (e nem a minha persuasão funcionou). Assisti, assim, na RTP-Açores, a uma noite eleitoral única: da Madeira, João Jardim a tratar o jornalista por tu ("ó Zé Manel, tu..." - sim, hoje é o líder do CDS local), e nos Açores, Mota Amaral, que ainda reinava, a congratular-se qb. Afinal, Cavaco (e o PSD) apoiava(m) Mário Soares.

Contra Cavaco votei sempre. Em 1991, acordei em Dusseldorf, onde apanhei um avião às 7h da manhã, para um pouco antes das 7 da tarde estar a votar na mesa dos eleitores mais novos na Assembleia Distrital de Aveiro. Era o número 9154 ou algo assim, se não falha a memória. Falhou o voto, na altura: Sampaio e o PS foram cilindrados e Portugal conheceu quatro anos de portagens na ponte, bastonadas contra os estudantes, carnaval a trabalhar, desemprego a aumentar, fundos comunitários a pingarem fora... Em 1996, votei de novo Sampaio e Cavaco foi-se. Varrido à primeira volta.

Agora Cavaco ameaça voltar e ganhar. E eu, hoje, finalmente, posso votar em Mário Soares. Não sei se o farei. Afinal, nestas eleições volta a assomar-se uma quase quixotesca vontade de entregar o voto em Manuel Alegre. Se calhar, será uma nova Pintasilgo, como alguns (desdenharam) prognosticaram. Não acredito, mas não fui eu que disse que a História acabou.