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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 08, 2022

45 anos

Miguel Marujo

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O Avô Albertino deixou-nos a sua nogueira e, mais do que nozes, a árvore traz-nos memórias — e estas são difusas, ténues: não me lembro da voz, mas dos olhos azuis água, do cabelo branco e de um bigode tão clássico como fora de uso, dos rebuçados que pareciam brotar dos bolsos para os seis netos, do chapéu sempre impecável sobre o cabelo branco. Nasceu na monarquia, morreu na democracia, viveu sobretudo sob a ditadura. O Avô Albertino era homem com ar sério, mas também seria um homem triste, que a esta distância não lhe sei decifrar os olhos azuis água nem os sentimentos, um pai que perdeu dois filhos, num tempo em que essas notícias eram comuns, e ficou viúvo cedo — e os dois tão soturnos no retrato. Aguentou-se no ofício de mestre-de-obras e carpinteiro, e aquela oficina cheia de ferramentas eram uma delícia para olhos miúdos. Há 45 anos, feriado da Imaculada, ouviam-se os sinos da capela da Senhora da Conceição, talvez três badaladas, há sempre um código para o número de badaladas que os da terra sabem, e a Teresa exclamou “morreu alguém”, era o Avô, e na confusão desse dia só me lembro do choro da minha Mãe. E nunca mais tivemos rebuçados vindos daqueles bolsos.