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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Junho 22, 2005

J'ACCUSE!

Miguel Marujo

[texto originalmente publicado na Terra de Alegria, de hoje, onde há outras leituras a merecerem atenção]

Acuso os bispos portugueses por omissão.
Acuso os padres das dioceses deste país por não levantarem a voz.
Acuso os leigos da Igreja católica portuguesa por indiferença.
Acuso quem, entre todos os cristãos, ignorou a manifestação nazi do passado sábado em Lisboa.

Não basta lermos a parábola do Bom Samaritano, para sabermos tratar e acolher o estrangeiro.
Não basta bater no peito e invocar a caridadezinha, que podemos praticar com os ciganitos lá do bairro.
Não basta rezarmos por quem pratica o mal, em supostos arrastamentos ou de braço em riste, repetindo a ladainha que pecámos por palavras, actos ou omissões. Porque pecámos.

Por palavras que não foram ditas.
Por actos que não tomámos.
Por omissões que todos nós tivemos.

Há que dizê-lo: fosse uma manifestação pró-aborto, e bispos, e padres, e alguns movimentos ditos pró-vida ou eclesiais, levantariam a voz, gritariam para lá da sacristia, poriam o dedo em riste.
Mais: no sábado da vergonha (não podemos esquecer como começou a vergonha nazi - com a indiferença de todos os que deviam ter sido mais actuantes e não levantaram a voz), alguns movimentos e organizações portuguesas correram a participar numa manifestação em defesa da família na vizinha Espanha - que, no fundo, era uma "manif" homofóbica! - quando em pleno coração de Lisboa as famílias portuguesas eram todas elas envergonhadas com braços em riste a saudar o que de mais vil a humanidade já viu e a colorirem esses gestos hediondos com frases mentirosas (sim, são mentiras, como provam todas as estatísticas sobre criminalidade).

A tudo isto, os católicos disseram nada. Ou quase nada. Calaram, porque falta na Igreja uma aprendizagem do Outro - contra o discurso racista e da indiferença. A vida defende-se aqui. Assim.

[Dir-me-ão: D. Januário Torgal Ferreira, bispo da comissão episcopal das Migrações, falou. Alto e bom som contra a "manif". Mas, agora, apetece-me ironizar, com a argumentação de alguns sectores às direitas: "É sempre o mesmo..."]
[actualizado: e um «contraditório (sabendo a pouco)» a este meu texto]

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