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Uma fé sem portas

por Miguel Marujo, em 13.10.03
Haja fé. Nos últimos tempos o tema da religião apareceu em múltiplos fóruns, muitas vezes confundido com a Igreja Católica, mais institucional ou nem por isso, outras vezes reduzido à sua expressão apenas folclórica ou usado como bandeira de arremesso político. Por aqui, quero falar da (minha) relação da fé com o mundo. Haja fé: é um "post" longo, aviso já.



Hoje, a fé: não é fácil manter serenamente o diálogo com determinadas correntes, que se fincam em absolutismos:

- não dando espaço às dúvidas e incertezas, preferindo o comodismo do dogma e dos esplendores da verdade ("intra-muros");

- preferindo misturar folclores e práticas, muitas vezes com uma hostilidade que raia o insulto ("extra-muros").



Mas também reajo a esta separação entre o "mundo de cá" e o "mundo de lá". Prefiro o lugar de encontro entre os dois mundos, um constante diálogo que rompe fronteiras, construídas necessariamente pelos homens. É nesse lugar, de uma fé sem portas, que a Igreja - universal e ecuménica - se deve construir.



Da Doutrina Social da Igreja. Não é possível fazer um discurso de exclusão, de negação dos direitos dos Outros, todos os outros. É isto que significa a opção preferencial pelos pobres, expresso pela Doutrina Social da Igreja. Esta doutrina não é um programa político-partidário, recauchutada na "democracia cristã" propagandeada por Paulo Portas e acolitada por um Pires de Lima defensor da pena de morte (um exemplo). No Aviz, um seu leitor defendeu que «o que distingue a democracia cristã não é o seu apego aos valores morais da Doutrina Social da Igreja, bem mais presentes em partidos conservadores, mas sim o seu apego à construção e reforma social de acordo com aqueles princípios que, de uma assentada, impedem Estados centralizadores, totalitários, socializantes, egoístas, liberais, assentes no capital» [sublinhado nosso].

Lê-se e não se acredita, olhando para a prática conservadora e moralizante dos que se reivindicam da "democracia cristã" (uma expressão absurda e abusiva, nos dias de hoje). A Doutrina da Igreja é obviamente socializante, mas recusa os totalitarismos, à esquerda e à direita. Há um discurso de João Paulo II, sistematicamente esquecido por alguma esquerda (que podia olhar para além do preservativo - que também é importante!): este Papa, que daqui a dias celebra 25 anos de pontificado, vindo dos países de Leste, cedo levantou a voz contra o capitalismo, um rolo compressor dos direitos dos indivíduos e dos excluídos. Logo no início dos anos 80, quando floresciam os neoliberalismos selvagens de Reagan e Tatcher, o Papa apontava a necessidade de uma terceira via - não confundir com o programa de Tony Blair.



Da evangelização. O discurso exclusivista da direita-dita-democrata-cristã é contrário àquilo que deve ser a "praxis" dos cristãos. A mim, pouco me interessa ter um partido democrata cristão (pior: um partido cristão), uma televisão cristã, uma rádio católica, e por aí fora. Tomo emprestadas algumas ideias, que ajudei a construir há alguns anos: não se deve encontrar uma nova e mais atraente "embalagem" para um projecto de poder, que promova quer a lógica da conquista cristã da sociedade quer a do arregimentamento dos católicos e dos cristãos em grupo isolado e moralizador daquela. Ou, nas palavras de um amigo, o historiador António Matos Ferreira, no livro dos 20 anos do MCE, «o grande desafio em torno da evangelização situa-se na possibilidade de tornar pertinente a experiência cristã enquanto vivência de liberdade e de pluralidade no seio de uma sociedade mais livre, mais democrática, mais participativa, menos sacralizada, menos dominadora. A evangelização não é outra coisa senão a longa aprendizagem da humanização centrada no Jesus evangélico.»



É isto. Não é pouco. E é feito, todos os dias, de incertezas e dúvidas, sem dedos em riste, a apontar os "maus". Uma fé definitivamente sem portas.



«Para não dizerem que não falei nas flores»: está lá atrás um primeiro debate, promovido pelo Diogo, «às portas da fé». E há mais: uma entrevista sobre estas coisas a Bagão Félix («Católico, por acaso ministro»), e dois textos que enquadram a entrevista («Graças a Deus» e «Democracia Cristã, o que é?»).

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