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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Setembro 27, 2003

A democracia na Igreja

Miguel Marujo

Ontem estive longamente à conversa com duas pessoas sobre o meu percurso individual - da minha participação associativa à vida académica, do meu percurso de católico e das opções profissionais que tomei. Fui várias vezes questionado: «Como se pode estar na Igreja, hoje, nos dias que correm?»

Respondi, invariavelmente: «Seria fácil dizer que a minha Igreja não é a de Ratzinger ou da Opus Dei. Mas também é. A Igreja Católica é feita de muitas igrejas».



Hoje, ao ler o Tolentino, a propósito da agitação na comunicação social e na blogosfera, por causa das anunciadas propostas para "alterar" as celebrações, revi-me muito nas suas palavras. Cito-o, apesar de longo, por valer muito a pena.



«(...) existe o modo como, facilmente, a opinião dita democrática se refere à Igreja. Esta aparece não como uma comunhão de comunidades, tecida conscientemente dos fios da diversidade, com matizes, expressões e ritmos específicos, mas como um bloco compacto e amorfo, sempre pronto a partir para uma cruzada contra a intocável Modernidade. E é confrangedor constatar como pessoas que admiramos pela sua inteligência, pelo esforço do seu espírito crítico, quando se trata da Igreja, desfilem simplesmente uma catalinária de lugares-comuns. Nunca, por exemplo, esquecem a Inquisição (e acredito que disso resulta um bem, pois a perpetuação dessa memória obriga a Igreja a um perpétuo processo de purificação), mas parecem ter omitido, eles que se tomam por seus "apóstolos" oficiais ou exclusivos, aquilo que é básico na cultura democrática: não só a tolerância, mas o interesse pelo outro, o desejo de conhecer, o reconhecimento do que o outro transporta.

Quanto à cultura democrática, creio que ela também resulta da experiência cristã. Refiro, antes de tudo, a centralidade dada, no cristianismo, à Pessoa e aos seus direitos e deveres fundamentais, mas igualmente a persistência do dissenso na Igreja, visto como afirmação profética do Espírito e não como interrupção. Jesus congregou sensibilidades tão diferentes como as de Pedro e João; os Actos dos Apóstolos falam da Igreja de Jerusalém e das Igrejas da diáspora, confiadas a Paulo; a Teologia cristã, convergindo num mesmo depósito da Fé, é tudo menos uniforme: basta pensar em Santo Agostinho e São Tomás ou nos recentes Karl Rahner e Balthasar; os cristãos individualmente e em comunidade vivem diferenças litúrgicas, diferenças de pensamento e de sentimento. Há uma unidade, um credo, uma procura de convergência no agir: mas há também uma hierarquia nas verdades e aquilo que não deve ser esquecido: "o mais importante é a caridade".

O que verdadeiramente me incomoda nos recorrentes comentários à vida da Igreja é que, usando a bandeira da democracia e da inteligência humanista, se tropece precisamente naquilo que se critica.
jtm»



[os sublinhados são nossos]

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