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Meter a mão na massa

por Miguel Marujo, em 09.02.05
[ou escritos em defesa do voto na esquerda]

Este texto é publicado hoje na Terra da Alegria, onde outros apresentam também a sua leitura da coisa política. Por a Cibertúlia ser um blogue de cariz diferente, atrevi-me a acrescentar um último parágrafo, ainda mais politizado que o texto original.

Quem me segue nesta casa, já percebeu que não escondo alguma ruptura com questões mais práticas do exercício de sectores ditos conservadores da Igreja. Também na escolha política em vésperas de eleições o faço. O discurso da Igreja não pode ser só associado a homilias como a do padre de São João de Brito, compreendidas à cautela pelo Patriarcado. Mas também não pode remeter-se a uma lógica de fechamento na sacristia. Bem sei que o texto do José, aqui na semana passada, não vai por aí - mas a leitura que ali se retira também pode ser perigosa. Ele sabe-o e por isso, já no fim, acena com caminhos de esperança, contra o derrotismo do seu discurso.
Ao católico, cabe participar na política? Cabe. Como um dever quase sacramental. Se o templo foi tomado pelos medíocres, devemos procurar a expulsão dos vendilhões - ou pelo menos da sua mediocridade, com critérios de exigência. É mais cómodo e fácil gritar pobre país, o nosso e mantermos o apoio ao nosso clube, só porque é o nosso clube. Mas, para lá desta quase fatalidade de adepto, vale a pena ensaiar rupturas.
E que rupturas são essas?
O apelo do senhor padre lisboeta é um apelo habitual, quase farisaico - o de quem olha para a maçã e prefere sempre o lado mais lustroso, porque tem medo de trincar a parte mais pisada. Pede-se que não se vote naqueles que atacam a vida. Por uma vez, gostava de ouvir alguém gritar o mesmo - mas contra o ataque à vida que é a pobreza e a miséria. Por uma vez, gostava que a moral sexual ou questões que remetem para a consciência individual e familiar dos cristãos (corrijo: de todos os portugueses), fossem conscientemente debatidas no interior da Igreja, sem a demagogia dos assassinos (por oposição ao absurdo radical da barriga que é minha). Lamento: mas a eutanásia ou o aborto, sendo questões importantes, não o são as mais fundamentais para os portugueses.
Não são as que interessam mais ao povo português - numa altura em que o desemprego bate à porta de milhares; em que o imigrante é erradamente visto como alguém que está a mais ou apenas diferente; em que os ricos estão mais ricos e os pobres mais pobres; em que a produtividade só é medida pelo lado do trabalhador ou que a necessidade de cortar despesas signifique despedir; em que a Saúde está entregue a uma lógica cada vez mais de clientelismo e não de assistência; em que na Educação se valorizam "rankings" que sublinham a alegada excelência de escolas privadas, escondendo o trabalho social que muitas não fazem; em que a Justiça é lenta e perniciosa para os que estão sobretudo à margem; em que o Fisco penaliza quem trabalha por conta de outrém, facilita a vida à banca e às grandes empresas e continua a permitir a evasão dos mais ricos; em que os impostos vão penalizando quem não já paga e não aqueles que deveriam pagar; em que a Segurança Social, dita na falência, sem nunca ter atingido patamares de Estado-Providência, continua a ser atacada, para cobrir défices artificiais e auxiliar seguradoras; em que as empresas de serviços públicos laboram em pretensos mercados abertos, mas mantendo situações de inegável monopólio e comprovável sobranceria face aos utentes/clientes; em que...
A lista é longa, porque é longa a lista de problemas. Mas que fazer? Remetermo-nos à sacristia e sair a horas certas para pequenas acções de caridade (esquecendo o imenso alcance da palavra na sua origem)? Ou lutarmos para que estas coisas mudem? Para que estes atentados à vida acabem?
Claro que temos de seguir este caminho. E aqui o caminho, não tem de ser apontar o dedo aos que insistem no aborto, ou noutras questões que alguns dizem ser da vida. Não: de uma vez por todas, temos de apontar o dedo daqueles que se proclamam cristãos, mas no dia-a-dia atacam os seus semelhantes, criando dificuldades aos ciganos, que roubam com o rendimento mínimo. Mais rendimentos mínimos houvesse! Ou que seguem uma política de privatizar porque o Estado é mau gestor. Acaso não foram eles os gestores da coisa pública? Os vendilhões do templo dizem-nos que é útil a sua competência, mas confiaram a Nossa Senhora o que não fizeram no ambiente. Os auto-proclamados detentores da verdade empurram-nos para o colo de questões menores, chamadas de civilização, apenas para ganhar no jogo de malícia ao balcão da cervejaria de que aquele afinal é maricas. Zelam por virtudes que não praticam, rezam quando ficam na fotografia. Tudo coisas pequenas, mas que não têm problemas de trazer à liça para laçar mais votos. E para encorajar homilias como a do senhor padre de São João de Brito.
Demagogia feita à maneira, apontam-me o dedo. Mas, neste tempo, há que romper discursos caridosos ou politicamente correctos ou maioritariamente consensuais. Neste tempo, a Igreja devia dizer: é preciso fazer uma verdadeira opção preferencial pelos pobres. A direita no poder desde 1979, com um interregno de seis anos de governos de Guterres, e com a agravante do descalabro dos dois últimos anos, não tem condições de se reivindicar da doutrina social da Igreja. Nem muito menos de proclamar a defesa da vida, da vida dos mais pobres.
No dia 20, votarei PS. Já o disse aqui, por interpostas vozes e apontamentos vários. Será o PS de Sócrates tão igual assim do PSD de Santana e do PP de Portas (que diabo!, estes são unha e carne, foram-no durante três anos)?! Não, não são iguais. Ao governo de António Guterres - de que fez parte Sócrates - imputa-se uma das medidas socialmente mais arrojadas dos anos da democracia, o Rendimento Mínimo Garantido. Com todas as falhas que se lhe reconhecem, mas as falhas corrigem-se, não se matam os princípios. E aos governos de Durão-Portas/Santana-Portas apenas se reconhece a morte antecipada por birra ideológica do RMG, substituído por um rendimento de inserção social, cuja lógica foi desenhada para falhar, para poder acabar pura e simplesmente com a medida emblemática dos governos socialistas. E que alternativa nos propõem eles? Que dizem eles às milhares de crianças que voltaram às escolas, nos primeiros anos do RMG? Nada. Preferem atacar os ciganos do rendimento mínimo, como fez Paulo Portas na campanha de 2002, só porque os ciganos não votam ou votam pouco. E preferem falar de questões de civilização.

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1 comentário

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De afonso a 09.02.2005 às 15:13

Algumas pessoas até poderão dizer que é campanha eleitoral e ninguém leva a mal, que essa é uma opinião isolada e não da ICAR. Mas acho que a atitude do pároco em questão enfraquece a Igreja.
Primo: Pode ser que a criminação do aborto diminua os seus números, mas isso acontecerá a custo, não da virtude prática e de preceitos morais católicos, mas das dificuldades e medos que uma mulher possa ter quando decide abortar. Em termos práticos, a alma do crente não sai beneficiada. O acto é mais valioso quanto maior for a liberdade. Não pecar com medo de um castigo secular, e não por virtude moral e livre alvedrio, terá pouco valor para a Igreja e para a alma do próprio crente. Qualquer proibição exterior à virtude humana, diminui a livre escolha, atributo soberanamente precioso para o pensamento católico. Se a recorrência ao aborto diminuir, depois de descriminado, isso sim, será uma vitória para a moral católica.
Um católico poderá jamais aceitar o divórcio, mas isso não quer dizer que ele não possa ser legal na sociedade laica. Se for proibido será uma limitação para quem não é católico nem vive essa moral, como também o será para outras religiões que o aceitam.
Secundo: a Igreja baseia-se na Revelação e no dogma, obviamente. Qualquer relação com a verdade relativa, efémera e opinativa é uma possibilidade de erro evidente e faz com que se torne vulnerável à crítica, levando, inclusivamente, à necessidade de retractação. Ou seja, é possível que a ciência prove que, por exemplo, a vida não se inicia na altura da concepção, mas jamais será possível, à ciência, provar que interromper voluntariamente a gravidez, seja em que altura for, não é um pecado. O próprio Sto. Agostinho, acredito, me aplaudiria neste momento. A decisão sobre se um acto é criminoso ou não, deve fazer parte da competência da justiça laica. O pecado é outro assunto: se por vezes pode ser um crime, existem inúmeros exemplos em que tal não se verifica. Tomemos de exemplo a inveja. O sentimento não é punível secularmente, mas é um pecado, um acto que pode exigir arrependimento e expiação. A Igreja terá autoridade evidente para dizer que tal prática é pecado, mas terá para dizer que tal prática é um crime?
Tertio: Este é o argumento mais forte e é aquele que utilizaste. O padre que aconselha o voto em determinados partidos, fá-lo tomando em consideração dois ou três aspectos, importantes sem dúvida, mas que não são as únicas preocupações católicas. Outros tipos de preocupações sociais poderão estar melhor representadas noutros partidos. Não me parece que o pensamento dos crentes se deva limitar a estes dois ou três assuntos: interrupção voluntária da gravidez, divórcio e eutanásia. E homilias, tenho essa convicção, não são espaço de campanha.
E de resto, alguém imagina que se Cristo voltasse à Terra e exercesse o seu direito de voto, votaria no Portas?
Antes ser crucificado!

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