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Croquetes para pensar

por Miguel Marujo, em 17.07.03
Já a convidei para a Cibertúlia, mas tem-se feito rogada. É minha camarada no jornal (fica sempre bem recuperar este arcaísmo no tratamento entre jornalistas), mas também tem prosas soltas por aí - na magnífica «Egoísta» e na «Voz da Póvoa». Deste jornal local, com a devida vénia e o seu assentimento, reproduzo a última crónica. A ver se é desta que a Tatiana Alegria chega à Cibertúlia.



Do Conhecimento. Tatiana Alegria.



Ninguém percebe nada do que se passa à sua volta. Se tivéssemos testes sobre o decorrer do nosso dia antes de irmos para a cama, chumbávamos todas as noites. Exemplo: li um livro. Gostei do romance. Até comentei o facto com alguns amigos.



– Adorei o “Equador”.

– Ai sim? Não é muito grande?

– Não, lê-se bem.



Dediquei seis palavras à análise dum livro que deve ter demorado mais de um ano a ser escrito. Se a minha almofada me tivesse obrigado a rabiscar uma composição de 400 palavras sobre as alterações que a história sofreria desenrolando-se em Nova Orleães em vez de S. Tomé, aí sim, teria dado voltas à cabeça.



Seria necessário repensar aquelas páginas de prosa, consultar um mapa para ver que mar molha os pés daquela cidade norte-americana. Talvez depois de ter ido ao frigorífico buscar uns croquetes frios para apaziguar o estômago, até me viesse uma inspiração. Talvez até ficasse acordada mais duas horas do que o habitual, escangalhando toda a minha rotina do dia seguinte em nome deste exercício que não me paga a renda. Mas muito provavelmente não teria grande nota.



Porquê?, pergunta-me o estômago, irritado e baralhado com os croquetes.



Porque passar no exame da almofada, significaria que tinha compreendido mais de 50 por cento do romance do Sousa Tavares. Por mais que isso pareça pouco, metade é muitíssimo. Pensem num bolo de noiva. Agora imaginem comer metade. Mas nós não fazemos estes testes à noite. Não somos capazes. Daríamos em doidos. Porque não seria uma composição, mas várias. Sobretudo o que tínhamos visto, lido e ouvido. No entanto, mesmo apanhando sempre com negativas, valeria a pena.



Porque comeríamos uma fatia de conhecimento.



A jornada resume-se numa frase. O nosso interlocutor raramente exige desenvolvimento porque também está cansado do que não aprendeu. Quando o pede, nós lá rematamos:



– Pá, nem queiras saber.



E como o pá não está interessado, lá sugere uma ida à esplanada para saborear uma cerveja e uns caracóis.

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