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Polémica Mediterrânica

por Miguel Marujo, em 05.02.04
Tendo em conta a enorme adesão à polémica por mim lançada (ver abaixo), não podia deixar de insistir nela, desta feita com argumentos mais "terrenos", numa piscadela de olhos muito pouco subtil aos conhecimentos florestais do Zé Salvado (onde andas?!).



As citações são, uma vez mais, de Matvejevitch.



«A figueira assinala os limites do Mediterrâneo e alarga-os mesmo onde a oliveira recua. Segundo um provérbio rimado da Herzegovina, não é ao Sul a terra "em que o burro não zurra e a figueira não cresce". A alfarrobeira e a amendoeira acompanham-na ao longo dos rios, até ao primeiro afluente mais frio. A laranjeira e o limoeiro desaparecem para além das embocaduras dos rios, consoante os solos: transplantados para a bacia mediterrânica, acabaram por lhe pertencer e por se tornar emblemas dela. As plantas herbáceas, mais resistentes, vão mais longe, ultrapassam as montanhas: estão ali desde sempre. Algumas plantas aromáticas não tardam a desvanecer-se: o alfazema e o rosmaninho. O loendro, a jujubeira, e até o tenaz "maquis", extinguem-se sucessivamente, apesar da sua resistência ao vento. Apenas persiste a romãzeira (que vive nestas regiões há muito tempo), mas um pouco mais a norte torna-se ácida e brava: toma então outros nomes consoante as terras. A salva perde o seu vigor e as suas virtudes medicinais para além da zona mediterrânica; torna-se absinto. Do tamariz e do mirto apenas subsiste o nome, da palmeira e da tamareira a recordação, da alcaparra e do funcho um leve sabor. A composição e o cheiro da cebola e do alho são, perto do mar, sensivelmente diferentes das que têm nas regiões continentais. Os tomates (pomidori, pomos de ouro) são mais vermelhos e firmes na costa: quem poderia supor que também eles provêm de outros litorais? A giesta está inteiramente entregue ao Sul: vai buscar a sua cor amarela e o seu singular perfume à terra mais árida e talvez mesmo ao coração das pedras. Nas regiões meridionais o loureiro parece mais desenvolvido ou orgulhoso; à medida que avança para Norte, as suas folhas apertam-se e encarquilham. A coroa de louros continua a ser o atributo da glória, mesmo onde essa planta só é conhecida através da retórica. A vinha adpata-se, alternando variedades e virtudes, abandonando, ao que parece, algumas características bíblicas, salvo talvez ao longo de três ou quatro rios abençoados que recortam o continente. É muito difícil encontrar a mandrágora, que se tornou rara nestas costas: os marinheiros de Kotor levaram-me até ela, até perto de um rio chamado Ljuta (o Furioso), nas imediações do lago dito de Esculápio, não longe de Konavli, na fronteira entre a antiga República de Ragusa e o actual Montenegro, onde se cruzam o Mediterrâneo católico e o Mediterrâneo ortodoxo.»



Portugal é ou não é mediterrânico?

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