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Da superioridade das civilizações

por Miguel Marujo, em 22.02.06

lambarena.JPG

Por causa de uns cartoons, houve quem sublinhasse a superioridade da civilização europeia e ocidental. Nestas alturas, começo à procura de exemplos dessa superioridade — são muitos dizem-me e quase me convenço: o tratamento às mulheres, a perseguição política e religiosa, as ditaduras, a pobreza classista. Mas será assim? Recordo-me de um filme, "Al-Massir" (O Destino), que já, em 1997, nos colocava questões de hoje, de amanhã, a partir do confronto de ideias entre moderados e radicais nos califados andaluzes do... século XII. Já então o confronto de civilizações, com guerras e superioridades, se desenhava nos céus da Europa.


Deixem-me blasfemar: Bach, Johann Sebastian, é tido como o compositor de todos os tempos. Mas quando escuto o seu "Prélude de la Partita pur Violon nº 3" precedido de "Pepa Nzac Gnon Ma", vacilo. Estou a meter no mesmo saco, Bach e um tema tradicional gabonês, interpretado por Elugu Ayong?! Pois, estou. Na música, descobrimos, desarmados perante o Belo, que é impossível ser-se superior: Bach desenha uma melodia que se entrelaça na perfeição com os sons da selva africana: vozes, percussões, violoncelo, música, beleza. Sem concessões, Bach e a dança do povo Fang, do Norte do Gabão, derrotam os discursos das falsas superioridades civilizacionais.

Este é um exemplo, de outros, que se escutam no álbum "Lambarena — Bach to Africa" (edição de 1995, que agora volta a ser publicitada, sem motivo aparente), onde se recorda o espírito de Albert Schweitzer, médico alemão que viveu e trabalhou no Gabão, no coração de África, um apaixonado de Bach. Diz-se na contracapa: "Pela exaltação, a regra encontra o ritmo. Pela exaltação, o ritmo encontra a regra. Em Lambaréné, Albert Schweitzer realizou o encontro da Europa e de África pela música."

Blasfemo, para puristas de música clássica — e do politicamente correcto destes dias: o que neste disco se desenha não é da superioridade das civilizações. É da superioridade da alteridade, da descoberta do Outro, a vitória da civilização do Amor. Mas isto não é música que se queira para estes dias.

[publicado hoje originalmente na Terra da Alegria]

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4 comentários

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De Jordão a 22.02.2006 às 20:37

É verdade. Superioridade civilizacional não implica superioridade cultural, e muito menos negarmos a igualdade de princípio entre diferentes concepções culturais, modos de vida, crenças. O único axioma sem resposta é o facto de "eles" (perdoem a expressão) imigrarem para cá e "nós", com excepção de militares, espiões, prospectores de petróleo e futebolistas e fim de carreira, não emigrarmos para lá.
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De Victor de Souza Baptista a 23.02.2006 às 11:38

Tudo bem, mas será que algum deles é Maomé?
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De Mais Notas Soltas a 27.02.2006 às 15:33

Brilhante. Pouco ou nada o distingue, a você, de um canibal da Papua Nova-Guiné.
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De Miguel Marujo a 27.02.2006 às 16:03

a máquina zero rapou-lhe tudo, certo? até a inteligência!

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