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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Dezembro 31, 2025

“Aqui”: arte e literatura numa obra maior

Miguel Marujo

 

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Este é um objeto inclassificável e muito bonito, uma verdadeira obra de arte. Para começo de conversa, é o que conta. Falamos de um livro, que já tem mais de dez anos (foi publicado em 2014), mas só ficou disponível em português no último ano. E em boa hora.

Aqui, como se chama esta novela gráfica, é o registo de um quotidiano que passa pelos nossos olhos ao longo de 304 páginas e milhões de anos – sim, milhões de anos. Este é o ponto de partida criativamente notável da obra de Richard McGuire.

Num traço seguro e clássico, o autor retrata o mesmo espaço ao longo dos tempos, seja 1962, seja 110.000 AC, seja 1990, seja 1609, seja no futuro… e por aí fora, em saltos temporais aleatórios, sempre desconcertantes, que nos levam por entre gargalhadas, silêncios, dramas e afetos, pela doença ou pelas brincadeiras, pelo amor e pela morte, pela infância e pela velhice.

 

O espaço é o interior de uma casa, nomeadamente o canto de uma sala de uma casa, mas essa sala antes de ser sala foi uma floresta, um lago, um jardim, e só depois a casa, que foi mudando de cor e decoração, umas vezes com um escadote ou um berço, outras vezes um sofá-cama, outras um espaço para brincar ou namorar. O canto da sala é protagonista e testemunha, vista e vivida por árvores e plantas, crianças, adultos, mais jovens, menos jovens, velhos, animais, uma lareira ou o pinheiro de Natal.

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É praticamente impossível traduzir o que nos oferece Aqui em cada página, e muitas vezes numa mesma página abrem-se várias janelas, que registam anos distintos, da pré-história ou do século XX. É esta narrativa visual, com diálogos curtos, quando os há, que abre todas as possibilidades para a forma como o leitor e a leitora constroem a história.

Richard McGuire recebeu os maiores elogios com esta novela gráfica, revolucionando a linguagem deste género, que também tem cada vez mais edições em Portugal e leitores. McGuire, que já teve ilustrações publicadas no The New York Times, Le Monde, Libération, fez de Aqui “um trabalho de literatura e arte diferente de qualquer outro visto ou lido antes”, como descreveu o jornal britânico The Guardian. Foi o melhor livro do ano, no festival de BD de Angoulême, ou da década, para a revista Les Inrocks, e o El País não deixou a coisa por menos: “Um dos 100 melhores livros do século XXI.” Não é excessivo: Richard McGuire fez uma obra de arte e de literatura tão intemporal como o tempo percorrido nas pranchas de Aqui.

 

 

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Aqui
Richard McGuire (tradução de 
Raul Henriques)
Cavalo de Ferro, 2024
304 páginas, 35,45€.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 29 de setembro de 2025; imagens do livro]

Dezembro 30, 2025

Um guia sem postais ilustrados

Miguel Marujo

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Não se engane o leitor: esta Volta a Portugal, com um ciclista vitorioso na capa, que Álvaro Domingues retratou em palavras e imagens, não nos traz um pelotão de ciclistas a subir à Torre ou à Senhora da Graça, mas sobe à Serra da Estrela e plana pelas terras da Ria de Aveiro, desce do Minho ao Algarve e salta às ilhas.

Domingues viaja pelo país de bicicleta ou no Google Earth. A parábola da Volta (aquela que se faz em bicicleta iniciou-se em 1927) ajuda o autor a compor e a decompor o “imaginário poderoso” e a “mitologia de lugares” de que se fazem imagens e representações da geografia de Portugal. Não há postais ilustrados aqui.

A globalização, explica-nos Domingues, parece ter acelerado o tempo, aumentando a tensão e a ansiedade sobre a própria paisagem e, no país de hoje, a paisagem urbana e a rural explodiram, numa amálgama que estilhaça a “geografia mítica da Nação” e “algumas ideias assentes sobre Portugal tão uno na sua individualidade nacional, e tão variado nas suas expressões de vida e beleza”.

Não se assuste o leitor: Álvaro Domingues pedala nesta Volta a Portugal, não esquecendo a terra e procurando apresentar o retrato de um imaginário geográfico. É uma viagem que vale a pena. O autor, geógrafo, e doutorado em Geografia Humana, quase oblitera humanos da paisagem, mesmo que a sua presença esteja omnipresente. As fotografias têm legendas, mas omitem a sua localização, como se toda a paisagem fosse de todos os lugares.

“Sob a paleta genérica da metamorfose profunda do país rural e da mágoa da sua perda, persiste uma jazida imensa de imagens emaranhadas em filões variados e contrastantes que, de tão diversos ao nível local e regional, comprometem a própria visibilidade da questão ao nível nacional — o todo que nunca houve vai-se perdendo na pulverização das suas peças. Desta superabundância de casos resulta um aturdimento geral que tudo confunde.”

Não se confunda o leitor: Álvaro Domingues, nos seus textos, ou os muitos poetas, escritores, académicos, de que se socorre o autor, organiza uma Volta a Portugal que tenta guiar-nos por entre “o mosaico das suas diversidades, as contradições e os contrastes que percebemos na rapidez das mudanças recentes a que assistimos aqui e ali” e responder aos “consensos sobre o imaginário geográfico do País” que escasseiam.

A fealdade de lugares pode levar o leitor a não encontrar empatia no olhar destas paisagens, mas acaba por reconhecer um certo tipo de beleza na composição de anacronismos no espaço, das ruínas coloniais por entre árvores a alminhas nas esquinas, de jardins de pedra a chaminés que se intrometem na planície, na salganhada de telhados e painéis solares que desaguam no campo ou por entre blocos de prédios dispostos de forma errática, até ao “Minho tropical romântico de torna-viagem” ou pombais que se assenhoreiam de um lugar.

 

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A obra de Álvaro Domingues (que mantém na sua conta no Facebook um registo idêntico de fotografias) nota que “as geografias mentais de Portugal e as suas memórias colectivas encontram-se em profunda transformação” e desvela-nos, de forma muito provocadora este território de “aldeias típicas”, “centros históricos”, “paisagens sem identidade fixa, sem memória”, “paisagens ordinárias, amnésicas ou genéricas como os medicamentos sem marca”.

O autor e geógrafo não prescreve uma receita, algum medicamento servirá melhor que outros, mas na observação cáustica e irónica de Álvaro Domingues há um olhar profundo sobre a necessidade de melhor vermos e cuidarmos o território, em direção a “um ponto de equilíbrio ou estabilidade”. As eleições autárquicas de outubro passado deviam ter tido como roteiro obrigatório esta Volta a Portugal. E este é um belo livro de bolso para autarcas de como (não) fazer.

 

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Volta a Portugal
Álvaro Domingues
Contraponto, 2017
328 pp, 19,90€.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 12 de outubro de 2025, com ligeiras adaptações; fotos © Álvaro Domingues, e capa do livro]

Dezembro 19, 2025

A trindade do horror: como Putin, Xi e Kim se perpetuam no poder

Miguel Marujo

 

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A ilustração da capa deste livro A Dança dos Ossos não é ficção: a 3 de setembro de 2025, o Presidente chinês, Xi Jinping, chegou à Porta de Tiananmen, em Pequim, acompanhado dos líderes da Rússia e da Coreia do Norte, Vladimir Putin e Kim Jong-un, para assinalar o 80.º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial. Uma trindade do horror.

Cada um destes três líderes é visto a partir do lugar de poder que ocupam, usando a História e abusando da falsificação e da manipulação das histórias dos seus países, para melhor controlar os povos que dirigem de forma autocrática e ditatorial. “Quem controla o passado controla o futuro; quem controla o presente controla o passado”, escreve George Orwell, citado na epígrafe do livro.

“A dança dos ossos” refere-se à manipulação política: em contextos políticos, nomeadamente à forma como os líderes, particularmente os autoritários, distorcem e modelam as narrativas históricas — até mesmo as “mentiras descaradas” — para servir a sua agenda política e justificar o governação atual.

Livro político do ano, em 2022, para os jornais Financial Times, Sunday Times e BBC History Magazine, a jornalista Katie Stallard apresenta-nos, nesta obra de fôlego, uma viagem que tem tanto de fascinante, como de assustadora: os destinos da China, Coreia do Norte e Rússia não são dissociáveis do estado do mundo, num tempo em que o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, fica despeitado e invejoso por não estar em Pequim, lado a lado com os três ditadores.

 

A Dança dos Ossos

 

A desinformação e as fake news não são uma invenção de hoje, nem exclusiva de regimes autoritários, mas em pleno século XXI, em que se vive num ambiente saturado de informação, o joio faz as vezes do trigo e o gato é comido por lebre, com muitos a acreditar e aqueles que lutam pela verdade, acabam presos, exilados ou mesmo mortos. Por exemplo, a história da Segunda Guerra Mundial é reescrita em função dos interesses do poder. Putin decretou que a Rússia “precisava mais dos seus mitos e dos seus heróis do que da verdade” (p. 202).

Também na Coreia do Norte, a ficção entranha-se na realidade, e a dinastia Kim governa com os pés assentes em mentiras sucessivas, dos locais de nascimento ao envolvimento dos líderes nos esforços de guerra, seja a Segunda Guerra Mundial, seja a Guerra da Coreia. “Os relatos verdadeiros dos combates, por mais inocentes que fossem, ameaçavam comprometer a versão oficial dos acontecimentos” (p. 165). Para que não haja dúvidas, a desinformação (em anos muito anteriores à internet e às redes sociais) fazia-se de gigantescas edições: “Entre 1957 e 1960, foram impressos mais de 95 milhões de exemplares de livros sobre o movimento de guerrilha”, ou seja, como constatou o historiador Andrei Lankov, “nove livros por cada homem, mulher e criança do país” (p. 162).

Na Rússia, tal como na China e Coreia do Norte, nota Katie Stallard, “a liderança reconheceu o poder da guerra passada para mobilizar o apoio da opinião pública e reivindicar uma posição moral de destaque”. Por isso, na ocupação russa da Crimeia em 2014, Putin apresenta-se como o defensor da paz e a proteger os russos, perante a “ameaça fascista” da Ucrânia. “Tal como tinham derrotado Hitler em 1945 e salvado o mundo do fascismo, também se oporiam à ascensão desta nova ameaça fascista” (p. 180). O passado a justificar (ou a limpar) os crimes de hoje.

Como sintetiza Stallard, Xi Jinping utilizou o passado na China “para contextualizar os desafios contemporâneos do país e demonstrar a necessidade da sua liderança, afirmando estar a alcançar vitória após vitória e a liderar a luta contra os inimigos, tal como os seus antecessores haviam feito em conflitos anteriores” (p. 269). São vitórias que mergulham estas sociedades em regimes sem liberdades, e em que qualquer assomo de dissidência é punido de forma absoluta.

 

A Dança dos Ossos

Katie Stallard, tradução de Sara Veiga.
Livros Zigurate, 2024
328 pp, 23,20€.

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 2 de outubro de 2025; imagem: pormenor da capa do livro]

Dezembro 17, 2025

Os horrores da guerra, a guerra ao horror

Miguel Marujo

 

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Valeu a pena a espera (passe o jogo de palavras): uma das mais interessantes autoras no mundo da ilustração viu algumas das suas mais importantes obras chegar ao mercado português nos tempos mais recentes. A sul-coreana Keum Suk Gendry-Kim revelou-se por cá com A Espera, a que se seguiram já outros três livros: A Árvore Despida, Erva, e só não lemos ainda Alexandra Kim – Filha da Sibéria.

Keum Suk Gendry-Kim traça, num preto e branco firme e numa narrativa sempre cuidada, o peso de um povo dividido em dois países, de uma história marcada pela ausência e pela memória de famílias forçadas a viverem separadas por uma fronteira herdada da Guerra Fria, com a Guerra da Coreia, em 1950, a dividir a península em duas metades.

Em cada uma das suas novelas gráficas, o desenho vai contando a história quase dispensando palavras a mais. Como em A Espera, testemunho de uma geração de coreanos que vivia na esperança de uma notícia de que os familiares do outro lado do paralelo 38 estavam vivos e haveria a possibilidade de um reencontro (concretizados desde os anos 1980, décadas depois da separação). Keum Suk Gendry-Kim ouviu a mãe sobre a vida dela e entrelaçou-a, pintando a história da península com pinceladas sobre a sua relação filial, numa dose de afeto, humor e ironia que narram a dor e angústia do povo coreano.

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Com Erva, a autora alarga o seu sucesso e projeção internacionais, voltando a abordar um capítulo doloroso na história coreana, ao contar a história verídica de uma criança sul-coreana que foi vendida pela família, durante a Segunda Guerra Mundial, e acabou explorada como “mulher de conforto”, ou seja, escrava sexual dos soldados japoneses. Essa criança, Ok-Sun Lee, deu a conhecer a sua história nos últimos anos de vida, quando se tornou ativista dos direitos das mulheres — e Gendry-Kim abordou a história com uma sensibilidade notável, carregando no preto das suas pinceladas (e há páginas que pedem que nos demoremos a ver cada detalhe) para melhor retratar o sofrimento destas crianças.

Em A Árvore Despida, Keum Suk Gendry-Kim regressou aos tempos da Guerra da Coreia, mas desta vez optando por adaptar uma obra de culto da literatura coreana da autoria de Park Wan-Seo, de novo sob o signo do muro que divide as duas partes da península, com uma história de amor impossível entre uma mulher do Sul e um pintor do Norte (ele era casado). O traço marcante a preto e branco da autora dá lugar à cor para representar os quadros desse homem-pintor, numa solução engenhosa e bonita, que acrescenta poesia a uma narrativa que remexe com as sombras e as dores da guerra.

E este é o poder dos trabalhos de Keum Suk Gendry-Kim: tocar o indizível e a angústia da guerra, a memória e os afetos, com uma graciosidade e uma beleza que toca o seu desenho e a narrativa. Valeu a pena esperar por esta autora.

 

O quotidiano das mulheres no Irão

 

Inscrever a memória da luta pelos direitos das mulheres no Irão é o propósito de Mulher, Vida, Liberdade, um álbum de banda desenhada coordenado por Marjane Satrapi, ilustradora iraniana, autora do notável Persépolis, hoje radicada em França. Depois da morte de Mahsa Amini, às mãos da polícia de costumes do regime iraniano, em setembro de 2022, levantou-se um movimento — com o nome que dá título a este livro — que tem exigido outra liberdade para as mulheres no país.

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O regime dos ayatollahs tem reprimido de forma violenta, com condenações à morte e execuções públicas, muitos homens e mulheres (na sua maioria jovens) envolvidos neste movimento, e é esse retrato que o livro procura trazer, como explica Marjane Satrapi: a primeira intenção deste livro “consiste em explicar o que se passa no Irão, descodificar os acontecimentos na sua complexidade e nas suas nuances para um público não iraniano”; a segunda intenção “é a de lançar um sinal aos iranianos para os lembrar de que não estão sozinhos”.

Para concretizar a obra, Satrapi reuniu três especialistas (um politólogo, um jornalista e um historiador), que construíram os argumentos, juntamente com 17 desenhadores que verteram em 23 histórias em banda desenhada e um debate ilustrado. Há ainda um texto que contextualiza “uma história persa do bem e do mal”, que é narrada em três capítulos: “Os acontecimentos”, “Um pouco de história” e “Um regime férreo… um povo que resiste”. Este Mulher, Vida, Liberdade é um relato essencial para melhor compreender a luta de mulheres e homens que não se resignam a um regime que oprime direitos e vidas no Irão.

 

Uma árvore que é testemunha do tempo

 

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No Oriente, o conflito marca também os territórios de Israel e Palestina, terreno que a banda desenhada já explorou com excelentes resultados (como as de Joe Sacco ou Guy Delisle, por exemplo). Agora, o historiador Vincent Lemire, no texto, e o ilustrador Christophe Gaultier, no desenho, apresentam uma História de Jerusalém, que parte do ponto de vista de uma árvore, uma oliveira com milhares de anos que é testemunha da passagem do tempo e dos tempos que fazem a história da Cidade Santa. Em 250 páginas, a oliveira vai narrando o que vê, desde o tempo em que a árvore “não tinha importância nenhuma” até aos dias de hoje.

No prefácio, com o título “A árvore do conhecimento do bem e do mal”, o historiador Rui Tavares nota que “ao levar-nos para o ponto de vista de uma árvore, este livro comete o paradoxo de nos humanizar”, numa história que “vai para lá da história de uma cidade e que se torna história do Médio Oriente, história europeia e global, história das civilizações e impérios”. A sua esperança – e a daqueles que semeiam uma obra assim – é a de que “com sorte a nossa oliveira”, a árvore deste livro, “lá continuará quando as razões que levam humanos a matar-se, em Jerusalém e no seu entorno, voltem a ser inconcebíveis”.

Numa linha que bebe na tradição franco-belga e com um texto extraído de mais de 200 fontes publicadas e de arquivos inéditos, esta narrativa é uma boa introdução para perceber também muito do que se vive hoje naquelas paragens. Entre o apocalipse e a revelação.

 

A Espera
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2023, 248 pp.

Erva
Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Yun Jung Im Park)
Iguana, 2024, 488 pp.

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A Árvore Despida

Keum Suk Gendry-Kim (tradução de Sunee Hong e Pedro Moura)
LeVoir, 2024, 328 pp.

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Mulher, Vida, Liberdade

Marjane Satrapi (coordenação; com tradução de Inês Fraga)
Iguana, 2023, 288 pp.

História de Jerusalém
Vincent Lemire e Christophe Gaultier (tradução de Sandra Alvarez)
LeVoir, 2024, 264 pp.

 

[texto originalmente publicado no 7Margens, a 16 de maio de 2025. Imagem principal: pormenor da ilustração do livro Erva]

 

 

Dezembro 16, 2025

E um pingo de vergonha, tem?

Miguel Marujo

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Diz-nos a Wikipédia que Fernando Manuel de Almeida Alexandre é um professor e político português. Tem sido Ministro da Educação, Ciência e Inovação desde 2024, agora no XXIV Governo Constitucional, liderado por Luís Montenegro. Acrescenta a pesquisa, que nasceu a 4 de janeiro de 1972, na Gafanha da Nazaré (Ílhavo), a meia dúzia de quilómetros de minha casa. Terá frequentado as mesmas escolas que eu. Estudou depois na Universidade de Coimbra e depois na Universidade de Londres.

O ministro é mais velho que eu 13 dias. Não sei qual o contexto social e económico da família dele, nem me interessa. Aquilo que ele diz, hoje, enquanto governante é que me leva a escrever isto. Vivi numa residência universitária, quando fui viver para Lisboa. Era uma antiga messe militar, se a memória não me falha, transformada em residência: um apartamento grande, com quartos que albergavam três camas em cada um, três armários metalizados individuais e mesinhas de cabeceira; uma sala despida de comodidades e uma cozinha básica, para uso comum. As casas de banho eram coletivas.

A morada desta residência da Universidade Nova de Lisboa não enganava: Zona J de Chelas. Longe da cidade, quando o gueto era ainda mais gueto, um bairro com duas únicas entradas e saídas. Os meus amigos lisboetas espantavam-se quando me davam boleia até lá: “Isto é Lisboa?”

Nunca naquele tempo em que lá vivi se viu qualquer manutenção da residência. Nunca naquele tempo em que lá vivi alguém estragou ou deteriorou o que fosse. O desgaste próprio do uso de um apartamento por uma dezena e meia de pessoas era o normal. O desgaste que senti sempre era o de um Estado que nunca tratou bem os seus alunos universitários. Talvez o ministro da Educação sonhe com alunos milionários a pagarem residências a preços proibitivos. Mas talvez valesse a pena, antes, a este Governo, pensar no que não faz para cuidar de ter alunos de estratos sociais mais baixos na universidade, proporcionando uma verdadeiro e efetivo apoio social. Talvez valesse a pena pensar em como os alunos das classes médias dificilmente conseguem pagar quartos em cidades médias, por causa dos preços das casas. Talvez valesse a pena a estes governantes terem empatia. E já agora, ao ministro da Educação, ter um pingo de vergonha, e demitir-se.

 

[atualização: o ministro veio esclarecer o que disse, negando o que lhe ouvimos dizer. Sigamos então o que disse para se explicar]


Apanhado em falso, pela intervenção trapalhona, o ministro desdobrou-se em entrevistas nos vários canais para atacar jornalistas, esquecendo que o mensageiro só passou a mensagem. Faltou-lhe dignidade e humildade para pedir desculpa, dizer que se tinha explicado mal e que não era aquilo que queria dizer, e então explicar-se corretamente. Mesmo que a explicação seja um alijar de responsabilidades espantoso: para responder à necessidade de ter mais alojamento para alunos deslocados, que a especulação imobiliária atirou para preços obscenos, o ministro quer retirar a prioridade aos bolseiros no acesso a residências universitárias. Porque, e o porque é relevante, se tivermos residências só com pobres, “os gestores” não cuidam devidamente desses espaços. Quando as instituições públicas recebem os mais pobres abandalham-se?

É uma teoria social que anda por aí, agora, na boca de todos os defensores do ministro, mas esconde o óbvio: o lavar de mãos do ministro sobre a necessidade dos “seus” gestores cuidarem bem do património público, dotando os serviços de ação social com um financiamento digno para a criação de residências e para a sua manutenção. Talvez isto explique muito o que este governo está a fazer ao SNS. Isto tudo só será resolvido quando houver uma aposta séria na criação de residências e a manutenção deixar de ser vista como um custo dispensável e passar a ser tratada como uma política pública essencial e preventiva. E isto nada tem a ver com o rendimento dos estudantes que utilizam esses serviços.

Não penso que tenha sido uma conversa de comadres (como lhe chamou um amigo meu) porque o tema é muito importante e relevante — a do apoio social no ensino superior, que é miserável e que é tratado de forma assistencialista por este governo. E, nisto, a conversa de comadres foi importante: destapou uma realidade que raramente se fala. Pode ser que haja jornalismo por estes dias que vá mostrar mais a fundo esta realidade.

 

[atualizado a 17/12/25, com o comentário às explicações do ministro]

 

Dezembro 14, 2025

Lisboa, uma cidade sonhada e misteriosa com gôndolas

Miguel Marujo

 

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Há 30 anos, Lisboa ainda respirava: a cidade vivia o sobressalto dos dinheiros que chegavam a jorro da Europa, a Praça do Comércio deixava de ser o parque de estacionamento a céu aberto, vivia-se a ressaca da Capital Europeia da Cultura, o estertor do cavaquismo, a alma lisboeta não se tinha entregue por completo ao diabo de nómadas digitais, cruzeiros e tuk-tuks. Havia turistas, neonazis a matarem um jovem português de origem cabo-verdiana e o Chiado ainda se subia por um passadiço para transpor os escombros do incêndio de 1988.

É neste caldo que nasce Ana (1994), o primeiro álbum da trilogia de aventuras de Filipe Seems, personagem nascido da pena de Nuno Artur Silva e do lápis de António Jorge Gonçalves, que “sonhava com uma cidade que não existia, mas que gostaria que existisse… uma cidade onde imaginasse os lugares e os habitantes, com as suas histórias, o enredo do acaso e do destino dos seus encontros, uma cidade e a sua mitologia”.

Esta cidade sonhada tem gôndolas que navegam no imenso lago da Praça do Comércio, sobem pelo canal da Rua Augusta e desaguam num Rossio aquático. Na Lisboa destas páginas, há um cinema drive-in junto à Torre de Belém, elétricos voadores a subir as colinas (e estávamos longe de nos assustarmos com a realidade trágica do Elevador da Glória), um comboio tubular na ponte, um rio sob o aqueduto, ou uma Basílica da Estrela transformada em templo da moda. Nesta cidade imaginada, o velho e o futurista coexistem num delírio de imaginação e criatividade que damos por nós a gostar que esta cidade venha a existir.

 

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

Esta trilogia – que se completou com A História do Tesouro Perdido (1994) e, quase dez anos depois, com A Tribo dos Sonhos Cruzados (2003) – foi de novo editada numa edição comemorativa dos 30 anos da edição do primeiro volume. “Estes livros”, descreveu António Jorge, “foram o início (longínquo) de um caminho” e que agora têm uma nova vida.

“Os originais foram digitalizados de novo com tecnologia recente (permitindo melhor reprodução das cores), o texto foi revisto, novas capas e material inédito foi criado e algumas páginas tiveram de ser redesenhadas porque os originais tinham desaparecido: fui falsário de mim próprio, a redescobrir técnicas de desenho e pintura que deixei de usar há décadas. Por fim, a escolha do papel e o formato generoso deixam-nos mais próximos dos desenhos originais”, contou o autor, no seu site (de onde se reproduzem as imagens deste texto).

 

Imagens da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

Esta edição cuidada e lindíssima dos três volumes é um ótimo pretexto para revisitar a Lisboa do detetive “muito particular” Filipe Seems, e escritor de bandas desenhadas nas horas em que não investiga um mistério sobre duas gémeas.

Este ponto de partida leva Seems a perder-se numa “Lisboa que parece existir na Lisboa que talvez não exista”, como depois o faz seguir o rasto de um tesouro perdido, que um canal de televisão também cobiça, antes de se perturbar por sonhos enigmáticos, num tempo em que as redes de conteúdos globais.

As aventuras aqui desenhadas vivem de uma ideia tão original, quanto de um argumento lucidamente tecido por Nuno Artur Silva e de um traço característico e sempre surpreendente e arrebatador de António Jorge Gonçalves, que a cada volume adequa o desenho aos ambientes exigidos pelo texto. Estas aventuras de Filipe Seems têm 30 anos, mas vêm a tempo deste tempo – é uma obra-prima. Para continuar a sonhar com uma outra cidade.

 

Os livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Foto: https://www.antoniojorgegoncalves.com

As capas da nova edição dos livros da trilogia de Filipe Seems, no atelier de António Jorge Gonçalves. Outras fotografias: imagens dos trabalhos, no atelier de António Jorge Gonçalves. Fotos retiradas do site oficial do autor: https://www.antoniojorgegoncalves.com

 

 

Trilogia Filipe Seems
Livro 1: Ana
Livro 2: A História do Tesouro Perdido
Livro 3: A Tribo dos Sonhos Cruzados
António Jorge Gonçalves e Nuno Artur Silva
Asa, 2024, 64 páginas cada volume, 22,90€ cada volume.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 19 de outubro de 2025]