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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 28, 2025

Rosalía não é uma santa mas está abençoada

Miguel Marujo

 

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O mundo parece ter-se ajoelhado perante Rosalía, nascida catalã há 33 anos, que, ao quarto álbum de originais, Lux, subiu ao altar da mundaneidade pop, com a benção de muitos católicos. Apesar de tudo, Roaalía não é uma santa.

Cardeais, pelo menos o português Tolentino Mendonça, publicações mais ou menos austeras, como a American, e leigos espantaram-se com esta fusão de estilos, do flamenco ao hip-hop, pinceladas de fado e uma atrevida lição de música clássica, bebendo de várias fontes e contando com vozes convidadas, como Björk, Carminho, Silvia Pérez Cruz ou Estrella Morente. Senhores e senhoras, bendita é Rosalía entre as mulheres, e os homens. O sexo também é deste reino.

Berghain, o primeiro cartão de visita do disco e que se ouve por todo o lado, refere-se a um clube noturno de Berlim, na Alemanha, conhecido por uma cultura queer e por ser muito seletivo à porta. Mas a canção é uma síntese pop perfeita de experimentação e ousadia, mergulhando entre o classicismo da London Symphony Orchestra, a voz sempre única de Björk e a provocação de Yves Tumor.

Cantada em alemão, espanhol e inglês, Berghain é dedicada a Hildegarda de Bingen, monja do século XII e um dos nomes fundamentais da música medieval religiosa. “Se canto em alemão, é porque me inspiro em Hildegard de Bingen.” Para Rosalía, em entrevista ao The New York Times, esta doutora da Igreja deu-lhe a chave para Lux: “A música pode ser uma forma de oração.”

 

 

 

O pecado mora ao lado da santidade, e Rosalía socorre-se de outras santos e místicos, para contar as suas dores e amores, em doses equilibradas de sensualidade e espiritualidade. “Há algo no sagrado que sempre me atraiu, algo que tem a ver com entrega e amor”, notou na entrevista. “Li Santa Teresa de Jesus, Simone Weil, Hildegarda de Bingen… todas elas me acompanharam neste processo.”

Espanto, portanto, já o dissemos. E os exemplos sucedem-se, num álbum que não faz concessões, nem se deixa ir abaixo: RelíquiaLa PerlaLa Yugular e Sauvignon Blanc entram nos cânones da perfeição chamada pop, juntamente com esse hino que é Memória (o dueto com Carminho, e já lá vamos) e a aparente simplicidade de Magnolias.

Há mais: na edição física em vinil e CD, há outras três canções, Focu ‘ranni’Novia Robot e outro assombro quase sussurrado e doce, que é Jeanne, com uma influência assumida: Joana d’Arc. “Entrégate/ Que no hay manera/ Mejor de amar/ Que aniquilarse/ Et qui serais-je?/ C’était décidé/ La voix d’un ange s’est révélée”.

A oração universal que é Lux canta-se em 13 línguas, incluindo o árabe e o hebraico — e esta torre de Babel é também uma tomada de posição, como a própria se explicou: “Fiz o álbum por amor e curiosidade, querendo aprender outras línguas, querendo entender melhor o outro”, disse. E citou a filósofa Simone Weil para acrescentar: “Amor é amar a distância entre nós e o objeto amado. Compreendendo o outro, talvez possas compreender-te melhor, e possas aprender a amar melhor.”

Em português, Rosalía quase disfarça a pronúncia — denunciando o processo de aprendizagem das diferentes línguas, feita ao longo de um ano — para uma letra de Carminho, num fado lisboeta de Armando Machado, que vê a sua composição reinterpretada pela espanhola, por Carminho e pelo americano produtor e multinstrumentista Dylan Wiggins. É da ordem do espanto.

 

 

O novo disco de Rosalía é um puzzle e um labirinto, reconhece a própria, cheio de referências místicas e culturais, multiplicando piscadelas às artes, num jogo do gato e do rato, feito de camadas sonoras e um atrevimento que mais que arrebatou uma multidão.

Não é um disco fácil, pede paciência, em tempos de dopamina instantânea. “Quanto mais estamos na era da dopamina, mais eu quero o oposto. É isso que eu desejo.” Oremos, Rosalía. “No soy una santa pero estoy blessed”, canta ela em Relíquia. Ámen.

 

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[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 23 de novembro de 2025; fotos de divulgação © Noah P. Dillon/Columbia Records]

Novembro 24, 2025

Lá longe, bem longe: um Fórum Social Mundial para sair para a cidade

Miguel Marujo

Há 16 anos, acompanhei como jornalista, convidado pelos Missionários da Consolata, a edição do Fórum Social Mundial (FSM) de 2009, em Belém do Pará, Brasil. Por estes dias, Belém foi ainda mais central no mundo, com a realização da COP30. Mas os resultados são amargos, sem referências à eliminação de combustíveis fósseis. Recupero esta crónica-notícia, escrita em 2024, sobre um novo FSM, que ecoa também sobre o palco de contradições que também é a conferência anual sobre ambiente — e que foi mais nota de rodapé em telejornais ou notícia pequena nos jornais do que a manchete de um mundo sedento de outro clima.

 

 

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Lá longe, bem longe, no Nepal, e ainda mais longe dos debates que por estes dias fazem a atualidade política portuguesa, decorre desde quinta-feira, 15 [de fevereiro], até segunda-feira, 19 [de fevereir de 2024], o Fórum Social Mundial 2024. À distância, a tentação de vermos este evento como algo meramente folclórico é grande – mas é mais revelador de fortes preconceitos e uma enorme ignorância, do que qualquer outra coisa.

A capital daquele estado asiático, Kathmandu, é palco deste evento que se assume como uma plataforma para a convergência de uma gama diversificada de participantes, incluindo movimentos sociais, trabalhadores, agricultores, grupos da sociedade civil, comunidades marginalizadas e os que são “afetados pelos impactos do capitalismo neoliberal e da privatização”. Assim, sem rodeios. As igrejas também participam – por exemplo, o Conselho Mundial de Igrejas (CMI) marca, mais uma vez, presença no encontro –, em muitos casos a um nível mais basista, com missionários, religiosos ou leigos.

Há [16] anos, em janeiro de 2009, em Belém, junto ao rio Guamá, encostado à imensa bacia do rio Amazonas (e durante muito tempo fixou-se a sua foz nesta cidade), houve um mar de gente que chegou até à capital do estado brasileiro do Pará: foram 133 mil participantes de 142 países, incluindo 1.900 indígenas de 120 nações, para um total de 3.210 atividades previstas. Também por lá andaram três mil crianças e adolescentes, num espaço especialmente preparado para o efeito e a organização do evento envolveu, então, mais 17.500 pessoas no trabalho voluntário de apoio, expositores, artistas, jornalistas – e mais sete mil na segurança, incluindo a Força Nacional de Polícia.

No meio de tanta água (65% do território do município espraia-se por 42 ilhas), os mosquitos tiravam a paciência naquela amálgama de gentes, ideias e vontades. Belém é dona de um charme dolente, com a saudade a impregnar-se em edifícios antigos, havia carros de vidros fumados que gritam “Jesus é sucesso”, a polícia mostrava-se muito no meio de moleques, a manga chegava ao porto depois de horas de viagem, os urubus esvoaçavam sobre os restos do mercado, o elétrico parecia só existir em carris e sinais, e a Rua de Aveiro que existe no mapa, mas que não cheguei a ver. Belém entranhou-se. Sem verdadeiramente se estranhar.

Olhando ao redor, via-se uma quantidade extraordinária de projetos que fervilhavam por todo o mundo. Em Belém, soltavam-se ideologias esclerosadas, havia missionários católicos em Moçambique, na Colômbia ou no Roraima a fazerem aquilo que o Estado ou o mercado, ou quem quer que devia fazer, não fazia. Havia associações que participavam ativamente a definir a vida da sua cidade, da sua região, até do seu país. O orçamento participativo não era verbo de encher páginas de jornais – havia cidades que praticavam esta forma de democracia e de cidadania. Também havia folclore, sim, também resistia um ideário velho e gasto, mas o que surpreendia era o facto de, já nesse tempo, este acontecimento que mexeu então com mais de 130 mil pessoas ser apenas uma nota de rodapé em telejornais ou uma notícia pequena nos jornais.

O Fórum Social Mundial também era (e ainda será) um palco de contradições. Onde se acumulava lixo, quando se discutia um mundo mais limpo. Onde havia automóveis a mais, quando se queria um mundo mais verde. E, então, naquela Belém, fez falta pensar num Fórum para lá do seu território: sair da discussão para a praxis política, sair da tenda para a cidade. Ultrapassar o simples slogan ou a palavra de ordem fácil é sempre uma tarefa mais árdua do que parece. O Fórum cresceu muito naquele 2009 – com os tais 133 mil participantes e mais de cinco mil organizações. Mas necessitava de crescer para o mundo, olhar para quem estava de fora, de lado, na margem, e entender que devia traduzir a riqueza daqueles dias de debates nos intervalos entre fóruns.

Nesse tempo, o Fórum Social Mundial de Belém do Pará era um exemplo: a sua realização aconteceu em dois campos universitários enormes, o da Universidade Federal Rural da Amazónia e o da Universidade Federal do Pará, que obrigavam a caminhar muito. Mas outro tipo de exercício ficou por fazer. Junto às universidades, Guamá e Terra Firme eram uma real imersão naquele Brasil de contrastes, com imensas favelas, caídas à beira da estrada, que deviam interpelar mais quem participava no Fórum. Afinal, havia uma fronteira, impercetível, que separava estes territórios. Um outro mundo é possível, lembrava o outdoor do Fórum. Mas só saindo para a cidade.

[Dezasseis] anos depois, noutro país e noutro continente, o Fórum Social Mundial (FSM) procura manter viva a fórmula e o objetivo de criar um “pensamento reflexivo, um debate democrático de ideias, a formulação de propostas, a livre troca de experiências e a interligação para ações efetivas”, como descreve o CMI, no seu site. Criado em 2001, em Porto Alegre, no Sul do Brasil, com a visão de “Outro mundo é possível”, a edição de 2024 do FSM tem como tema o apelo “Outro Mundo Agora”. O relógio da Terra deixou de ter tempo para grandes futuros, sem ações imediatas.

Durante este fim de semana, há painéis temáticos sobre “Justiça Climática, Ecologia, Transições Justas, Habitat e Desenvolvimento Sustentável”, ou “Terra, Agricultura, Soberania Alimentar, Agroecologia, Energia e Recursos Naturais”, e no sábado, 18, decorre um evento paralelo sobre o “Jubileu da Dívida em Tempos de Mudanças Climáticas”, no qual, segundo informação do CMI, líderes religiosos e comunitários, bem como especialistas de países vulneráveis ao clima, compartilharão experiências vividas e estudos de caso sobre as interseções entre a dívida externa e as alterações climáticas.

 

[artigo originalmente publicado no 7MARGENS, a 16 de fevereiro de 2024; imagem: na 9.ª edição do Fórum Social Mundial, em Belém, Brasil, em 2009, povos indígenas da Amazónia lideraram uma marcha pelas ruas da capital do Pará. Foto © Marcelo Schneider/WCC-CMI]

 

Novembro 14, 2025

Concerto às camadas para vozes, sequenciadores e violoncelo

Miguel Marujo

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A tempestade tentou entrar de rompante no Teatro São Luiz, em Lisboa, com o vento a fustigar uma porta com violência, mas Julianna Barwick e Dobrawa Czocher trouxeram outras camadas à noite de 13 de novembro. Uma e outra, em diferentes registos, desenharam paisagens em que a voz — e que voz! — de Barwick ou o violoncelo e voz de Czocher — e que intérprete! — agarraram uma atenta audiência (que não enchia a sala). Foi uma noite de encantamentos. Por partes.

De pé, vestida de preto, Julianna Barwick trouxe para o palco a sua voz que o sequenciador foi multiplicando em sucessivas vozes, construindo camadas de coros que circulam e pairam nas planícies de sons que alimentam as imagens mais ou menos abstratas que vão sendo projetadas no fundo do palco.

A voz única da compositora e música americana multiplica-se até terrenos sublimes, como em Inspirit,  Melted Moon ou St. Apolónia, que dos pouco mais de dois minutos do tema do álbum Will (2015) se estendeu por mais tempo. Um exercício de sobreposições, loops, voltas e camadas que delicia os ouvidos.

Nove anos depois de ter estado em Portugal, Julianna Barwick regressou a uma Lisboa que adora, manifestando no final o desejo de não estar tanto tempo sem voltar, lembrando que há dez anos gravou o tema Sta. Apolónia no estúdio dos “amigos Paus”, uma referência quase improvável, quando se ouve uns e outra, mas que explica também a invulgaridade das propostas de Julianna.

Dobrawa Czocher é outra referência a seguir com atenção. Polaca, companheira de aventuras de Hania Rani (que se traduziu mais recentemente no sublime Inner Symphonies, de 2021), a violoncelista apresentou-se no palco com Natalia Czekala, que nos sintetizadores complementou a sonoridade particular que Czocher nos trouxe no seu trabalho a solo, Dreamscapes (2023), entre o classicismo do seu instrumento e a experimentação no jogo das cordas ou da voz.

Também aqui a voz de Dobrawa Czocher (e num dos temas acompanhada por Czekala) se desdobra em camadas, para acompanhar o violoncelo que a tecnologia também multiplica, numa construção que torna o concerto de um só violoncelo num ensemble de cordas próximo da perfeição.

Percorrendo os temas de Dreamscapes, a noite no São Luiz planou entre o quase sussurro das composições de Czocher e um som arrancado às entranhas do violoncelo, cativando uma audiência que deixou para trás a tempestade e se deixou encantar com estas vozes muito únicas. Uma noite perfeita.

Novembro 12, 2025

Sei Miguel. O disco que ganhei graças ao Miguel Cadilhe

Miguel Marujo

 

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Nos finais de 1980, em Aveiro, que era na província (e a coisa naquele tempo era mesmo assim), a música chegava com atraso. Lisboa estava longe, a A1 ainda ficava na Mealhada e a CP já se atrasava na altura, as rádios eram feitas de hits, apesar das noites longas do fm estéreo e do António Sérgio, ouvidos uma vez por semana no rádio que fazia às vezes interferência, e só o Blitz (género masculino, jornal em papel) caía às terças no balcão do Duarte dos Jornais — e lá arranjava uns trocos, bem puxados esses trocos (talvez 50 escudos, pá) para o comprar.


E também houve o LP, jornal efémero que saía num dia que não me lembro, e que escolheu os melhores discos da década de 1980, no final de 1988, deixando de fora 1989. Num e noutro jornal lia nomes que, por vezes, conseguia ouvir pelas mãos do Hélder e dos tipos da discoteca Estúdio Um (que hoje seria loja de discos) no último piso do Oita, ali ao cimo das escadas, antes de arremetermos aos melhores croissants da minha rua e do nosso mundo. Divago. Mas também lia nomes nesses jornais de que nunca tinha ouvido nada, só tocavam em Lisboa em salas que nem sei nem vi, o RRV, o Frágil, o Johnny Guitar.


Numa semana em que comprei o LP, jornal, vinha o desafio para ganharmos um disco: Songs Against Love and Terrorism, de Sei Miguel, trumpetista, jazzman, de que nada sabia a não ser o que tinha lido (era assim, e havia escribas que me faziam comprar discos às cegas, como o MEC fez com Os Dias da Madredeus). Dizia: o LP desafiava os leitores a mandarem um exemplo que ilustrasse o nome do álbum — e eu escrevi dois nomes num papel pequenino, e mandei a carta de Santarém (estava num encontro do MCE) para a redação, no limite do prazo: "Miguel Cadilhe e Maria Antónia Cadilhe." (Antigos entenderão: ele era ministro das Finanças, no cavaquismo, e frequentavam um jetset tão parolo como a embrulhada do imposto da casa do casal nas Amoreiras. Um poço de moralidades, o cavaquismo.)


Hoje, o disco mora ali na estante, difícil de ouvir, livre em tudo, e Sei Miguel foi sempre um tipo que fiz questão de acompanhar, e que descobri depois nos créditos de canções que sempre foram muito cá de casa, como Querelle dos Pop Dell’Arte. Morreu agora, soube-se ontem, terça-feira. Não tornou os murais das redes sociais num mantra de saudade, mas eu tenho de voltar a ouvir Songs Against Love and Terrorism.