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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Maio 31, 2021

A escrita de Patti Smith entre um café e uma tosta de pão escuro

Miguel Marujo

Patti Smith no Coliseu de Lisboa em 2015 Orlando A

M Train foi escrito em cafés, entre muitas doses de cafeína, uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. Tratou-se do segundo registo autobiográfico da cantora, que depois desta obra já teve mais dois livros publicados em Portugal.

O café quer-se curto, cheio, seja bica ou abatanado, italiana, cimbalino, em chávena fria ou escaldada, sem princípio, carioca, pingado, com ou sem açúcar. Café, sempre café. Patti Smith só quer a chávena de café acompanhada de uma tosta de pão escuro e um pequeno pires de azeite. É senha e contra-senha para as suas viagens, pela memória dos seus dias, com o marido Fred, naquele que é o seu novo livro M Train.

O livro é movido a café, como já em setembro [dse 2015] confessava Patti Smith ao DN, numa conversa em que se antecipava o seu concerto em Lisboa. "Decidi que este livro não teria guião, desenho ou agenda, apenas me sentava e escrevia. Sentava-me num café, bebia o meu café, e escrevia. E assim fiz, escrevi. M Train é como mind train, o comboio da mente, como um comboio de pensamentos, e escrevi sobre cafés, viajar, o meu último marido, a pessoa que eu amava."

Este comboio é também um longo poema de amor a Fred Sonic Smith, o rapaz de Detroit que "foi um encontro inesperado" na sua vida e que "lentamente" alterou o rumo da vida de Patti.

Sentada à mesa do pequeno Café 'Ino, em Greenwich Village, na sua Nova Iorque adotiva, Patti rapidamente deixa a conversa com Zak, que lhe "tira o melhor café aqui das redondezas", para viajar, pela memória, pela mente, para os trópicos, entre o Suriname e a Guiana Francesa, como depois se senta no Café Pasternak , em Berlim, onde se senta na "mesa habitual". É quase sempre assim que se inicia a chegada a um local. "Deixei as malas no quarto e fui de imediato para o café", escreve de Berlim. Podia ser o seu café imaginário, que gostava ter um dia. Ou outro qualquer, pelo mundo, onde se senta. E nomeia pelo menos um em cada cidade.

Já se sabe: este M Train é também diferente do anterior livro autobiográfico de Patti. Agora, disse, "quis escrever um livro muito diferente" de Just Kids porque nesse livro a artista "tinha uma coisa específica que tinha que escrever". E explicou ao DN: "O Robert Mapplethorpe pediu-me que escrevesse Just Kids antes de ele morrer, sobre a nossa vida em comum e a nossa juventude, sobre a sua morte e arte, era muito específico."

M Train é diferente: é "um mapa das estradas da minha vida", apresenta a artista. "É mais autobiográfico. Ao mesmo tempo partilho com o leitor a vida como ela é, para mim, o que faço, como eu a guio. Os livros que ando a ler, as coisas que me preocupam, os meus pensamentos, a minha meditação. É um pouco divertido - e tem muito café", explicava-se ao DN. Não é só os livros que lê Patti, são quem a marca. E por isso Patti convence Fred a viajar de avião e carro até à fronteira entre o Suriname e a Guiana Francesa, atravessando o rio Maroni de piroga até Saint-Laurent-du-Maroni, antiga colónia penal e de deportação dos condenados que cumpriam sentença na terrífica ilha do Diabo.

O que leva a artista até aquela cidade onde chove sempre não é a famosa história de fuga de Henri Charrière, que escreveu um livro (Papillon) e deu origem ao filme com Steve McQueen - é antes a vontade de ver aquilo que Jean Genet chamava de "chão sagrado", ele que tinha sido condenado a cumprir pena, mas que já não o chegou a fazer ali porque o presídio foi encerrado. Patti recolheu pedras que fará chegar ao escritor através de William S. Burroughs. M Train é também isto: a soma encantada de encontros e referências literárias.

Em setembro [de 2015], Patti admitia ao DN: "É difícil explicar o livro, foi desdobrando-se em tempo real, mas regressa ao reino da memória." Patti Smith tem na escrita a mesma disponibilidade que mostra voz e no ritmo pausado com que fala, longe das guitarras com que ilustra a sua poesia ou dos sons viscerais com que canta. Mas a música também se nota em cada uma das páginas deste comboio movido a café.

[Artigo originalmente publicado no DN, em 7 de maio de 2016. Foto de Patti Smith no Coliseu de Lisboa em setembro de 2015 © Orlando Almeida/Global Imagens]

Maio 18, 2021

"Ainda aqui estou na terra dos vivos." Uma canção para o Armistício

Miguel Marujo

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Sinéad O'Connor, Brian Eno, o rolling stone Robin Wood e o pink floyd Nick Mason juntaram-se em homenagem aos homens caídos nas trincheiras da I Guerra Mundial.

 

À voz grave do ator Cillian Murphy, que nos lê uma carta do tenente Michael Thomas Wall, do regimento real irlandês, junta-se a voz inconfundível da cantora Sinéad O'Connor, para nos trazerem o sofrimento dos homens que, há 100 anos, celebraram a paz nas trincheiras da Europa. Michael não sobreviveu à guerra, mas as suas palavras inspiraram o projeto da nova editora Evamore, que homenageia todos aqueles que caíram tombados.

"Deus me conceda que chegue em segurança", escreve o jovem irlandês à sua mãe, que esperava regressar a casa. "Ainda aqui estou na terra dos vivos", nota Michael. "Eu vi os olhos cansados de homens duros cheios de lágrimas e nunca vi uma carnificina como esta, nem um único corpo humano foi deixado intacto", descreve numa leitura comovente de Cillian Murphy, o ator de Dunquerque.

A papoila da capa não engana: este é um disco de homenagem aos homens mortos na I Guerra Mundial, assinado por Sinéad O'Connor, com o produtor e músico Brian Eno, o guitarrista dos Roling Stones, Ronnie Wood, o baterista dos Pink Floyd, Nick Mason, os coros de Imelda May e a narração de Cillian Murphy, numa produção de John Reynolds.

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Editado em EP, que disponibiliza quatro versões para o tema One More Yard - uma expressão que era usada pelos soldados nas suas cartas e diários referindo-se aos avanços através da chamada terra de ninguém - este projeto conta com a composição de Brian Eno para as palavras lidas por Murphy e o poema da canção interpretada por Sinéad inspira-se também nas palavras do soldado morto.

As verbas angariadas com a venda deste disco serão para apoiar a investigação de cancro. No jornal britânico The Independent, Nick Mason explicou que o projeto One More Yard (disponível nas plataformas de streaming, como o Spotify) "permite que pessoas como eu prestem homenagem aos jovens que há 100 anos lutaram pela nossa liberdade, mas também para fazer algo para ajudar os jovens que enfrentam hoje o cancro".

Já Ronni Wood invocou a sua própria experiência com a doença. "Como alguém que teve de lidar com o cancro, estou muito feliz por fazer parte desta nova iniciativa de consciencialização - é uma ótima ideia apoiada por algumas pessoas científicas brilhantes", disse. Eu adoro a canção One More Yard, uma triste história verdadeira com uma melodia assombrosa. Foi um prazer tocar neste tema."

[artigo originalmente publicado no DN em 12 de novembro de 2018; foto de cima: na I Guerra Mundial, aspeto das trincheiras portuguesas, com membros do Corpo Expedicionário Português na Flandres, como descrevia a Ilustração Portugueza, de 25 de março de 1918, in © Arquivo DN.]

Maio 10, 2021

Não vai ter golpe. (De quando o Brasil entrou em ebulição)

Miguel Marujo

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Entre aquela noite de vento no verão passado [2015] e esta tímida primavera, o Brasil entrou em ebulição e, há pouco mais de uma semana [em abril de 2016], deputados encheram a boca com deus e a família para justificar meras jogadas políticas, enquanto um deles invocou um torturador da ditadura militar brasileira como sendo "o terror de Dilma", a Presidente da República que foi torturada.

Esse golpe de 1964, louvado pelo deputado que cuspiu na democracia que lhe permite o dislate, foi o mesmo que levou Gilberto Gil e Caetano Veloso a deixarem para trás o sol e o sal da Bahia em que nasceram e cresceram e a exilarem-se em Londres. Agora, regressam a Portugal, desta vez nos coliseus do Porto e de Lisboa, para cantarem a sua amizade longa de mais de cinco décadas (depois de terem atuado a 31 de julho do ano passado em Oeiras), no espetáculo Dois Amigos, Um Século de Música, a digressão que festeja 50 anos da carreira de cada um.

Estávamos em julho de 1969 e a escolha da capital britânica para o exílio devia-se apenas à música, explicou Gil. "Paris tinha um meio musical aborrecido, Londres era o melhor sítio onde um músico podia estar", justificou nas páginas do jornal The Guardian. Curiosamente, Lisboa e Madrid ficavam fora do mapa do exílio porque os dois países também "viviam sob uma pesada ditadura". As ditaduras definiam o rumo dos dois amigos: deixaram o Brasil, onde tinham estado presos seis meses - dois na cadeia, quatro em prisão domiciliária - para chegarem à vida londrina onde experimentaram fundir o tropicalismo e o samba que traziam de Salvador e do Rio de Janeiro com o rock, o funk, o reggae ou o jazz que por esses dias ouviam nas ruas e nos clubes de Londres.

Ao celebrarem por estes dias 50 anos de música, eles têm o Brasil como pano de fundo: o golpe de 1964 assomou nas manchetes dos jornais de 2016 - e Caetano (com Gil) voltou a recordar esses tempos, num programa da televisão brasileira, Altas Horas. "A passeata", disse da manifestação de domingo, dia 13 de março, "não era suficientemente diferente da passeata da Família com Deus pela Liberdade que produziu o golpe de 1964, que ajudou a dar o golpe. O buraco é sempre mais em baixo, mas a gente tem que olhar com objetividade", apontou.

Novo disco

É esta objetividade que um e outro, Gilberto Gil e Caetano Veloso, colocam na música que fazem, celebrada agora numa digressão que começou com 25 canções escolhidas e viu o seu repertório crescer. Pelo meio já houve disco, com o mesmo nome da digressão, Dois Amigos, Um Século de Música (Ao Vivo), publicado em janeiro deste ano, que recupera o concerto de São Paulo, um dos 44 espetáculos que passaram por 35 cidades em 21 países, com uma audiência de umas 135 mil pessoas.

Os "veneráveis velhos da música brasileira", como lhes chamou o crítico da revista da especialidade Songlines, demonstraram bem mais do que aquilo que Alex Robinson ouviu no disco, a voz cansada e rouca dos 73 anos de Gilberto Gil, ou a "melhor forma" da doce voz de Caetano Veloso, também com 73 anos. Quem ouviu Gilberto Gil no verão passado, em Oeiras, a fazer percussão do seu violão e a usar a voz como o instrumento que soou mais alto enquanto cantava "Não tenho medo da morte mas sim medo de morrer", desconfia que seja assim, apesar da versão mais contida registada em CD de Não Tenho Medo da Morte, que vem já na segunda parte do concerto.

Os veneráveis velhos amigos transportam memórias de mais 30 álbuns, cantando à vez ou em conjunto, tocando violão e guitarra, num despojamento instrumental que não afasta a linguagem pouco ortodoxa que os dois sempre imprimiram à sua música, a solo ou em colaboração. Com a ditadura militar que os levou ao exílio, Caetano e Gil também fugiram à obrigação canónica que a esquerda intelectual queria impor contra o imperialismo, fosse na recusa das letras em inglês ou do uso da guitarra elétrica.

Back in Bahia

Hoje são dois corações vagabundos que resistem a adversidades, como aquele vento que assobiava aos microfones ou a inclemente distância de um palco num estádio como o do Parque dos Poetas, em Oeiras, no último verão. Agora, nos coliseus, numa série de quatro concertos que começou ontem à noite, haverá outra intimidade para acompanhar um alinhamento que, sem surpresas, deverá abrir com Back in Bahia, o regresso à Bahia quando em 1972 os dois deixaram o exílio político.

Sempre com os dois no palco, até quando um deles não toca nem canta, de camisa negra Caetano, de roupa branca Gil, estes dois rapazes deverão socorrer-se de composições que não são suas. E à abertura com uma canção de Gilberto - que foi ministro no primeiro governo de Lula da Silva - o concerto deve fechar com A Luz de Tieta, a feliz composição de Caetano que os portugueses reconhecem da telenovela.

Ao exílio, à subversão, ao experimentalismo, um e outro sempre olharam bem de perto para o seu Brasil. Canta Gil, podia também ser Veloso a dizer: "Não tenho medo da morte/ Mas sim medo de morrer/ qual seria a diferença/ Você há de perguntar/ É que a morte já é depois/ Que eu deixar de respirar/ Morrer ainda é aqui/ Na vida, no sol, no ar." Como estes dias que o país vive. E um dia eles voltam para lá, para a Bahia, de onde vieram, para a cantar e contar, como eles cantam. "Agora, os acontecimentos estão se atropelando. Precisamos de ter calma para olhar os acontecimentos. Não temos uma ditadura, mas o Brasil é um país desumanamente desigual e toda movimentação no sentido dessa tentativa de diminuir a desigualdade enfrenta a oposição da elite. Eu desconfio", argumentou Caetano na televisão.

No concerto em Salvador, no dia 2, quando o público se manifestou durante o tema Odeio (e Caetano canta "odeio você, odeio você, odeio você" - é apelativo, entende-se), usando as palavras de ordem dos apoiantes da presidente, "não vai ter golpe", Caetano concordou, "não vai" (mas a Câmara dos Deputados votou mesmo a abertura do processo de impeachment a Dilma Rousseff). Não vai ter golpe, não. Pelo menos nestas noites no Porto e em Lisboa. Sabemos bem com que linhas se tecem estas vozes.

[artigo originalmente publicado no DN, em 25 de abril de 2016, com o título "Não vai ter golpe. Caetano e Gil"]