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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Abril 30, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 10

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

The Smiths: The Queen Is Dead

Ao contrário de tantos outros, é difusa a minha memória sobre a primeira epifania com os Smiths, com edições constantes naqueles anos da nossa adolescência em que trocávamos cassetes, discos e cd, sedentos de novidades. 

The Queen Is Dead é de junho de 1986, a coletânea The World Won’t Listen é de março de 1987 e, logo em setembro desse ano, saía esse espanto que é Strangeways, Here We Come. E talvez para melhor responder ao desafio dos discos que influenciaram o meu gosto musical devesse incluir esta trilogia de descoberta e paixão.

Este The Queen Is Dead é o que é, um conjunto de canções sem mácula, daquelas que cantámos em coro, a sós, com mais ou menos álcool no sangue, no meio da pista de dança de uma matiné numa discoteca e à volta da fogueira, ao ouvido de alguém ou afundados no sofá a chorar mais uma tampa da miúda gira da turma do lado. Basta dizer que este álbum abre com The Queen Is Dead, tem I Know It’s Over, Bigmouth Strikes Again, The Boy With The Torn In His Side, Some Girls Are Bigger Than Others e, para sempre, a luminosidade incandescente de There Is A Light That Never Goes Out. 

Um verdadeiro banquete que completava-se com lados B como Asleep, provavelmente uma das minhas três canções favoritas de sempre de Morrissey, Marr e companhia. Não admira que, com tanto para nos contar em tão curto espaço de tempo, The Smiths tenham sido a banda maior da nossa adolescência. Dos amores que ficam para a vida.

Abril 29, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 9

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Radiohead: OK Computer

Gosto de Creep, daquelas guitarras sujas e da voz que cresce, gosto de pegar nos auscultadores numa loja de discos e ouvir a canção, como no filme, gosto deste britpop que não ficou fechado aos quatro cantos das ilhas e se abriu, curioso, a sonoridades distintas e distantes.

Por causa de Creep (e de Pablo Honey e The Bends) cheguei, claro, a OK Computer e tudo fez sentido: em 1997, quando vinha aí a correr o século XXI, os Radiohead anteciparam-se ao milénio para nos cantarem logo como ele era – OK Computer, nascido entre 1996 e 1997, fechou-nos em casa, dias a fio assim, a ouvir o álbum que profetizava a idade digital que vivemos sem o adivinharmos, uma revolução em forma de disco, uma das suas obras maiores (e a mais icónica).

Thom Yorke dizia que andava a preparar um álbum “positivo”, mas faltou em otimismo o que sobrou em claustrofobia e nem as suspeitas guitarras que abrem Airbag, no início do disco, disfarçam o que logo se ouve: este álbum seria diferente, romperia com a britpop em que já estavam arrumados estes rapazes de Oxford. Se dúvidas houvesse, Paranoid Android, a segunda canção, desfazia-as numa assentada, com a voz sempre aparentemente frágil e perdida de Thom Yorke a deambular por entre personagens que nos assustam; ou como Karma Police, outra canção que entrou num panteão onde o difícil é indicar alguma que fique de fora. This is what you'll get, When you mess with us, canta Thom.

Este disco é, já se percebeu, a porta de embarque para uma viagem ancorada no que melhor se fez da britpop e mais além: mais do que aquele benfica-sporting que se alimentava nas páginas dos jornais britânicos, ao que parece por conta de uma rapariga, foi pelos Blur (e derivados como Gorillaz, The Good, the Bad and the Queen ou Damon Albarn a solo), Pulp e Suede que mais naveguei, e depois os Oasis. Mas no final do dérbi, regressei sempre aos Radiohead.

Abril 28, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 8

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

U2: The Joshua Tree

No tempo dos telediscos, em que a música também se via, aqueles rapazes divertiram-me em cima de um prédio até serem chamados pela polícia. Já disse que se ganha quando se é o irmão mais novo – e se ouvem coisas que os mais velhos trazem para casa. Foi o caso com os U2: Sunday Bloody Sunday e Bad já eram hinos para mim quando chegou novo álbum, The Joshua Tree.

É o álbum da América, depois de The Unforgettable Fire, é a descoberta de uma América que os U2 nos apresentaram há 33 anos, quando a 9 de março de 1987 chegou às lojas esta carta de amor pelos Estados Unidos e que nos fez também apaixonar pela América.

É também para muitos o derradeiro disco que vale a pena ouvir dos irlandeses, esquecendo esses muitos que a banda se soube reinventar como poucos em Achtung Baby e Zooropa, o genial díptico berlinense, do início dos 90, e que nunca baixou a guarda, fosse no extraordinário Original Soundtracks 1, com Brian Eno, em Pop ou No Line on the Horizon, ou no modo como souberam transportar cada um dos álbuns, incluindo os menos conseguidos e mais fustigados pela crítica, para os palcos, como as derradeiras digressões de Songs of Experience e Songs of Innocence o demonstram.

Bono, The Edge, Adam Clayton e Larry Mullen Jr. já nos contaram a sua história em 14 discos originais e muitas outras obras ao vivo ou em participações especiais e deixaram uma marca de génio que tanto moldou o meu gosto musical.

Foi a partir deles – e isto soará a sacrilégio para muitos! – que descobri os universos sonoros de Brian Eno e Daniel Lanois, que me embrenhei mais na América de Bruce Springsteen e Bob Dylan ou na poesia de Leonard Cohen (os irmãos também já tinham ajudado, mas os U2 convenceram-me), que me apaixonei pela voz de Johnny Cash e que me rendi a Lou Reed e a Siouxsie and the Banshees. Foi no deserto que encontrámos o amor.

Abril 27, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 7

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Marcel Cellier apresenta: Le Mystère des Voix Bulgares

Nos álbuns que influenciaram o meu gosto musical constam obrigatoriamente uns quantos de geografias muito diferentes, arrumados sob uma etiqueta tão genérica como surpreendente: músicas do mundo, a world music, que para os anglos-saxónicos inclui também o fado ou a bossa nova. Essas geografias arrumo-as de outro modo.

À cabeça há um disco absolutamente extraordinário, que nos chega da Bulgária, foi revelado ao mundo, antes da queda da cortina de ferro, por um produtor suíço, Marcel Cellier, e que a britânica 4AD Records (de que falámos no post anterior) resgataria do nicho onde vivia amplificando para todos estas “vozes que falam com Deus” (nome de um disco de produção portuguesa, sobre os Segredos da Música da Bulgária, registado em 1988).

O título dado à primeira recolha de Cellier impregnou-se de tal modo que Le Mystère des Voix Bulgares se tornou uma marca indelével e única e que, como todas as receitas de sucesso, foi copiada e multiplicada em muitas derivações, umas mais conseguidas que outras, com guerras em tribunal para registo do nome.

Neste caso trago-vos aqui o primeiro volume, como podia trazer ainda o segundo (há ainda mais dois a merecerem o nome e a atenção). Pilentze Pee é o tema de abertura que define o registo: vozes que nos sussurram como logo se elevam, numa dança de sons deste coros femininos que, para mim, se entranharam na forma como a música se foi moldando na minha vida.

(Não é de espantar que estas vozes se encontrem depois em discos de Kate Bush – outro nome incontornável no meu gosto – ou que nos arrepiem numa versão de Chamateia de António Zambujo.)

Nas músicas do mundo, eu viajo do sufista Nusrat Fateh Ali Khan, do Paquistão, às Nouvelles Poliphonies Corses, que Hector Zazou resgatou da Córsega, do transe dos congoleses Konono n.º 1 à sensualidade do Instanbul Oriental Ensemble, dos voos da indo-britânica Sheila Chandra aos ritmos da terra dos Drummers of Burundi, com passagens pelos campos da Irlanda, pelas estepes de tundra da Sibéria, pelas margens do rio Nilo ou pela floresta densa da Amazónia.

Podia juntar aqui o álbum Passion Sources, onde Peter Gabriel revelou a sua inspiração para a banda sonora do filme A Última Tentação de Cristo, ou esse monumental documento etnomusical que é Voices of Forgotten WorldsTraditional Music Of Indigenous People, e tantas outras coletâneas (já vos disse que gosto deste tipo de discos que nos abre uma polifonia de descobertas?), mas optei pelas vozes encantatórias da Bulgária. Há muito mundo para viajar, já se percebeu.

Abril 26, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 6

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Various Artists: Lonely Is An Eyesore

Houve um tempo em que o selo de uma editora era garantia de que se podia ouvir (e comprar) um disco quase cegamente. Pelo menos para mim. Les Disques du Crépuscule, Real World, a marca Made To Measure, da Crammed Discs, eram (são) algumas das labels em que praticamente nem pestanejava na hora de picar um disco. 

Depois havia a 4AD, a editora que Ivo Watts-Russell criou para durar a década de 1980 (mas que, felizmente, apesar de ter perdido a importância desses tempos, mantém a sua atividade), e na qual fui descobrir alguma da melhor música que ainda hoje ouço. Foi aqui que gravaram os Birthday Party, Matt Johnson dos The The, os Pixies ou os Bauhaus, os Xmal Deutschland ou His Name Is Alive…

Apesar de todos estes nomes, de que já ouvia algumas coisas, à 4AD cheguei por causa de um programa de música na TV, o Music Box with Simon Potter, que passava no espaço da Europa TV, na RTP2. 

O tal do Simon dedicou uma emissão a passar os vídeos de uma coletânea (e sempre gostei muito de boas coletâneas) chamada Lonely Is An Eyesore (nome retirado de um verso da canção dos Throwing Muses incluída no álbum), que juntava alguns dos principais nomes da editora: Cocteau Twins, de que já andava a ouvir o genial Victorialand, Dead Can Dance, The Wolfgang Press, Clan of Xymox, Dif Juz, This Mortal Coil, com Acid, Bitter and Sad, ou as já referidas muses de Kristin Hersh e Tanya Donnely.

Tudo somado, apaixonei-me pelos ritmos encantatórios e hipnóticos dos Dead Can Dance, sobretudo em The Serpent's Egg (1988) e Aion (1990), pelos lirismos que voam de Elizabeth Fraser nos Cocteau Twins, pelas guitarras e vozes de Throwing Muses, e mais ainda pela diversidade misteriosa do coletivo This Mortal Coil, que juntava músicos de bandas da editora, apercebendo-me então que aquela belíssima Song To The Siren que já tinha ouvido, na interpretação de Fraser e Robin Guthrie, era de um dos mais espantosos discos da 4AD (melhor dito, da música em geral): It'll End in Tears.

Tudo somado: thank you, Simon Potter!

Abril 25, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 5

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

José Mário Branco: FMI

Este disco está aqui por culpa do Olímpio. Ele que tratou de nos ensinar a olhar as coisas de modo diferente, quando nos demorávamos em noites longas a ler livros, maliciosos e deliciosos, ou a ouvir discos quase clandestinos (e este era-o, à época), houve uma geração do MCE que lhe deve este FMI, de José Mário Branco, trauteado como senha e contra-senha em tantos outros encontros e contextos. Por causa disso, o meu gosto musical moldou-se também entre a intervenção e a palavra. 

É verdade que já ouvia Zeca Afonso das baladas ao mato, que Sérgio Godinho fazia o nosso salão de festas, que Fausto nos levava rio acima, mas FMI transportou-me também para descobrir em profundidade outras canções de intervenção (Luís Cília, Adriano Correia de Oliveira…) e o que era a obra de José Mário Branco, incluindo o coletivo do GAC, os trabalhos como produtor-compositor, as obras para cinema e teatro, e mais tarde, já nestas últimas décadas, a viagem pelo fado — de Camané a Kátia Guerreiro. E assim se tecem outros gostos que fui compondo na minha viagem musical.

A visceralidade de José Mário Branco em FMI será recuperada em 1996 com a reedição de Ser Solid(t)ário, que inclui o máxi editado originalmente em 1982, deixando a clandestinidade com que o ouvíamos anos antes. E essa visceralidade estará sempre presente na sua obra original, até Resistir é vencer, de 2004, um extraordinário disco de palavras e sons que nos mostram que a intervenção não se arrumou nos anos da Revolução. E tudo começou com aquele "pedaço" da "vida" de José Mário Branco, "um pedaço um pouco especial, trata-se de um texto que foi escrito, assim, de um só jorro", que o Olímpio nos mostrou.

Abril 23, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 4

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Nick Cave and The Bad Seeds: The Good Son

Foi num filme que o ouvi, quando o rapaz no palco se entrega a The Carny, ainda não conhecíamos esta canção, e pensa para si que só “mais uma canção e acabou, mas não lhes vou falar de uma rapariga, não lhes vou falar”, mas ao microfone diz o contrário: “Vou falar-vos de uma rapariga” – e a banda começa a tocar.

É Nick Cave and The Bad Seeds num palco em Berlim, no filme Der Himmel über Berlin/As Asas do Desejo (1987), de Wim Wenders, a tocarem The Carny e From Her To Eternity. E é por causa desta cena que fui à procura deste australiano, que se mostrou ao mundo nos Birthday Party, que há muito vive no Reino Unido.

Descobri Your Funeral… My Trial (1986), fui até From Her To Eternity (o primeiro álbum, de 1984), mas é com The Good Son (1990) que tudo mais fez sentido: é neste disco que inicia uma inflexão, depois da visceralidade dos cinco primeiros discos, para um lirismo hipnotizante que o foi acompanhando, com mais ou menos intensidade, com mais ou menos arroubos carnais.

Podia nomear ainda Murder Ballads (1996) ou The Boatman's Call (1997), outros marcos na construção do meu gosto pessoal, até às três últimas obras-primas (Push The Sky Away, Skeleton Tree e Ghosteen), mas foi com The Good Son que percebi que Nick Cave era verdadeiramente um filho pródigo.

Abril 22, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 3

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles. E à boleia acrescentar outras influências que nasceram daqui.

Virginia Astley: Hope In a Darkened Heart

Não me recordo o que me fez comprar este que foi o primeiro disco que comprei com dinheiro amealhado por mim. Talvez uma crítica lida num jornal, talvez a breve audição na rádio ou mesmo na loja de Some Small Hope, a canção que Virginia Astley canta com David Sylvian, envoltos em teclas que nos soam a sinos. 

Sei que ouvi Hope In a Darkened Heart intensamente e o vinil revela hoje as marcas desses tempos de escuta extasiada — e que este álbum me levaria à descoberta da escassa discografia da britânica, sobretudo dessa obra-prima que é From Gardens Where We Feel Secure. 

O dueto com Sylvian transportou-me para outra descoberta absolutamente fundamental que é o universo do antigo frontman dos Japan e que influenciaria em absoluto o meu gosto musical. Por isso, o superlativo Secrets of the Beehive é um dos discos da minha vida, sempre ouvido com renovado prazer, mas também por isso me deixo sempre fascinar pelas sonoridades e texturas mais ou menos experimentais de quem arrisca uma Pop Song que é uma “antipopsong” ou nos conduz pelas Forbidden Colors com Ryuichi Sakamoto — e o japonês, que esteve na produção do disco de Virginia Astley, é também ele uma descoberta desta época. Santíssima trindade!

Abril 21, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 2

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Madredeus: Os Dias da MadreDeus

Um texto no Blitz (quando ainda era um jornal semanário em papel) de Miguel Esteves Cardoso (quando MEC bastava para o apresentar), provavelmente lido algures em 1987, introduziu-me a um mundo mágico. Falava das gravações e ensaios de um grupo de músicos numa antiga igreja em Xabregas, em Lisboa, acompanhados de uma voz que fazia sonhar (não sei se eram estes os termos, mas foi isto que me ficou gravado na memória) – e gostei do grupo só pelas palavras do MEC.

Para alguém que vivia numa cidade pequena, com duas discotecas (quando as lojas de discos se chamavam assim), e um acesso curto na carteira para discos e imprensa, a prenda daquele Natal foi um sonho: o LP duplo de Os Dias da MadreDeus (quando o grupo ainda não se apresentava como Madredeus, e me fez insistir naquele nome longo e bonito durante muito tempo) confirmou todas as minhas expectativas, da voz que nos fazia sonhar, de instrumentos impregnados de beleza, de músicas tão ingénuas quanto fantásticas. Meses depois, confirmaria tudo isto num concerto único, daqueles que nos marcam para a vida, no Teatro Aveirense, a meia casa, ainda longe do reconhecimento que muitos dariam aos Madredeus e onde esgotaram as canções ensaiadas nos encores e cantaram O Brasil a pedido da plateia (e eu fui um deles, claro).

A descoberta deste disco enquadrou-se nas várias descobertas que tive então, na música portuguesa, incluindo a Sétima Legião, de Mar D'Outubro, que me levou mais para trás ao genial A Um Deus Desconhecido, e que porventura também podiam estar no lugar deste Os Dias da MadreDeus – não fosse um certo texto de jornal me ter transportado para aquela antiga igreja às voltas com uma coisa velha.

Abril 20, 2020

Dez discos que influenciaram o meu gosto musical. 1

Miguel Marujo

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Pediram-me para escolher 10 álbuns que influenciaram o meu gosto musical. Um álbum por dia, 10 dias consecutivos. Pediram-me sem ordem cronológica, sem explicações, sem críticas, apenas as capas de álbuns. Mas não consigo deixar de contar um pouco da (minha) história de cada um deles.

Genesis: The Lamb Lies Down On Broadway

Quem tem irmãos mais velhos, com diferenças significativas e em idades que definem o gosto, é-se necessariamente influenciado por esse seu gosto. É o caso. Ouvi até à exaustão os Genesis, sem grande distinção entre as fações Peter Gabriel vs Phil Collins, mas é este duplo LP (que marcou o fim de Gabriel no grupo britânico) que sempre mais e melhor me ajudou a definir o gosto por um certo rock operático, progressivo e conceptual.

Nos anos 80 e 90, os Genesis foram muito maltratados, mas hoje, apesar dos amores e ódios que ainda provocam, têm um lugar reconhecido na música — e este álbum é o seu melhor cartão-de-visita. E por causa desta influência fraternal, cresci a ouvir tantos e tantos outros prog rock, dos Pink Floyd aos Jethro Tull, dos Tantra a José Cid, sim, ele, em 10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte.

 

Abril 01, 2020

Nick Cave e o espanto de Maria Madalena defronte do túmulo

Miguel Marujo

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É um assombro que espanta Nick Cave, aquele em que Maria Madalena e Maria permanecem junto à sepultura. Para o músico australiano, este é provavelmente o seu momento preferido da Bíblia. Jesus tinha sido retirado da cruz, o seu corpo depositado num túmulo novo, mandado talhar na rocha, e uma pesada pedra rolou para fazer a porta da sepultura. Os doze discípulos fugiram, só Maria Madalena e “a outra Maria” ali ficaram diante do túmulo.

Em Mateus 27, 61 (e não 51, como aponta Nick, numa provável gralha), sintetiza-se esse instante. “Maria de Madalena e a outra Maria permaneceram em frente à sepultura.”

“Eu acho que esta frase única e assombrada é provavelmente o meu momento favorito da Bíblia”, comenta Nick Cave, no seu site The Red Hand Files que já vai nas 90 atualizações, onde o músico, cantor e compositor se dedica a responder a perguntas de leitores sobre o seu processo criativo, a poesia que lê ou a música que ouve e faz, a sua vida e os animais lá de casa, a morte do filho adolescente e a sua fé e espiritualidade ou os sonhos de que não se lembra, e sobre temas que assombram as canções e a sua escrita, como o amor e a morte, o sexo e a religião, muitas vezes a religião.

É o próprio quem o reconhece, também a propósito da pandemia que se espalha pelo mundo. Radicado na Grã-Bretanha, Nick Cave regista-o, modesta e ironicamente, num dos mais recentes textos: “Os Red Hand Files sempre foram um espaço no qual eu pude oferecer noções existenciais duvidosas, meditações religiosas, conselhos infundados, senilidades milenares e aborrecimentos gerais, e, ao mesmo tempo, espero estender um pouco de bondade e compaixão humanas. No entanto, esse tipo de ruminações veio de uma época mais privilegiada e feliz, quando tínhamos oxigénio para refletir e tocar. As coisas mudaram, estamos diante de um inimigo comum — imparcial, insensível e de uma magnitude incomensurável — e não é mais o tempo de abstrações. Agora é a hora de ser cauteloso com as nossas palavras e as nossas opiniões.”

Dias antes tinha publicado, também neste site, o anúncio do adiamento da sua digressão europeia, que se iniciaria em 19 de abril em Lisboa — como tantas outras atividades que foram suspensas, canceladas ou adiadas em cidades cada vez mais desertas. “Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades”, descreveu agora o Papa Francisco. Estas trevas “apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares”.

Quando da morte do filho de 16 anos, o processo criativo de Nick Cave ficou suspenso. Talvez agora como então, o australiano sofra com isto. “As pessoas criativas em geral têm uma propensão aguda para a maravilha. Um grande trauma pode roubar-nos isso, a capacidade de ficar impressionado com as coisas. Tudo perde o brilho”, sintetizou.

Antes destas sombras, Nick Cave preferia o brilho de Maria Madalena, defronte do túmulo. Afinal, aquela mulher foi “mal julgada pela história e a sua importância fundamental na história cristã minada pelo patriarcado religioso”. Mas ele vê nela um papel central nos textos evangélicos. “Maria Madalena continua a ser o núcleo subversivo em torno do qual a história do Evangelho gira.”

Para Cave, “Maria Madalena é o símbolo mais comovente do amor verdadeiro e resiliente, tanto terrestre quanto espiritual. Ela ‘permanece’ na entrada da sepultura, a principal testemunha entre dois eventos monumentais — a crucificação e a ressurreição — que se imprimiram na história e moldaram não apenas o pensamento ocidental, mas também a essência do que somos, gostemos ou não disso”.

“Maria Madalena, para sempre parada na porta do túmulo numa vigília fiel, contemplando para lá da história, está embutida no nosso subconsciente. Ela é o verdadeiro ícone do luto feminino — complexo, elementar, paciente, empático e cheio de tristeza, e uma manifestação de amor físico e transcendente — o verdadeiro herói humano da história cristã”, conclui.

Agora que a pandemia de covid-19 levou Nick Cave a adiar a sua digressão europeia, é com as palavras que o australiano continua presente — e com a música de qualquer um dos seus álbuns. Uma amiga sua comparou este “nosso novo mundo” a um “navio fantasma” — “e talvez ela esteja certa”, admitiu. “Recentemente, ela perdeu alguém querido e reconhece agudamente o sentimento premonitório de um mundo prestes a ser destruído — e que precisaremos nos recompor novamente, não apenas pessoalmente, mas socialmente.” Com o espanto daquela mulher defronte do túmulo, a contemplar para lá da história.

[texto ligeiramente adaptado de uma publicação original no Sete Margens, de 30 de março de 2020; foto: a personagem de Maria Madalena, interpretada por Monica Bellucci, no filme A Paixão de Cristo, de Mel Gibson]