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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Outubro 09, 2019

"Uma coisa estranha e maravilhosa" (ou o mais belo álbum do ano)

Miguel Marujo

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Deixemo-nos enfeitiçar: Nick Cave e os seus Bad Seeds apresentaram-nos esta quinta-feira à noite um espírito que voa por entre angústias, medos, esperanças, a paz e a morte a espreitar a cada palavra. O DN ouviu a estreia mundial do seu 16.º álbum de estúdio, no canal do YouTube da banda — e as primeiras impressões são estas, escritas ao correr dos sons.

Este é um disco que pede tempo: vive muito das palavras, como sempre viveu a música do australiano, mas Ghosteen (assim se chama o disco, que se poderia traduzir livremente por "Adolescente fantasma") é musicalmente menos áspero e visceral que qualquer uma das suas obras anteriores. Estão lá os poemas para isso, muitas vezes mais ditos que cantados (num registo em que é impossível não comparar com a referência que é Leonard Cohen).

Ghosteen segue-se a esse luto que foi o brilhante Skeleton Tree, editado há três anos, em setembro de 2016, depois da morte do filho adolescente Arthur, que tinha morrido no ano anterior, aos 15 anos. O nome deste álbum sugere também uma relação com essa morte. "I am beside you, you are beside me, look for me", ouve-se nos versos finais de Ghosteen Speaks. Depois da raiva contida do disco anterior, este novo trabalho parece representar um processo de apaziguamento. "Peace will come, a time will come for us", canta-nos Nick Cave logo a abrir em Spinning Song. "Estou a teu lado, estás a meu lado."

Não há um single óbvio — talvez Waiting for You, o terceiro tema da primeira parte (o disco surge dividido em duas metades) — e a própria estrutura deste duplo álbum traduz essa vontade de apontar um outro caminho, mesmo que seja claro que este é um disco novo de Nick e as suas ervas daninhas. Trata-se de oito canções na primeira parte e duas longas composições ligadas por um poema lido no segundo disco. "As canções do primeiro álbum são as crianças, as músicas do segundo álbum são os seus pais e Ghosteen é um espírito migratório", como explicou o australiano, radicado no Reino Unido, ao antecipar na semana passada o lançamento desta quinta à noite,

O disco pede de facto mais tempo de audição, mas não nos lembramos de Nick Cave cantar como canta neste disco, a voz sofrida mas percorrendo agudos que não suspeitávamos, as teclas de Warren Ellis a acomodarem as palavras. Em Waiting for You, Nick diz-nos que "sometimes it's better not to say anything at all". Felizmente, falha essa promessa. Há mais a dizer. "We would never admit defeat", canta logo depois em Night Raid, num exercício de declamação que abre a porta a coros - de vozes masculinas e femininas, que vão pintando os poemas ao longo dos dois discos, como em Sun Forest ou Leviathan.

Esta composição remete para Leviatã, o monstro marinho bíblico que atormenta Jó, um homem que sofre todas as provas (e provações) de Deus. As percussões de Leviathan, discretas, pontuam versos de uma dor tangível de um pai que perdeu o filho: "Love my baby and my baby loves me."

Na segunda parte, no tema que dá nome ao álbum, Nick Cave introduz uma nota de esperança, ao notar que "este mundo é lindo" e levando o espírito migratório a dançar, dançar e dançar por entre todas as coisas belas.

Em Hollywood, o tema com que encerra o disco, a morte parece pairar, como as estrelas que vivem apressadas na cidade dos sonhos e das ilusões. "And I know my time will come onde day soon", diz-nos Cave, 62 anos. E completa, num círculo que se fecha, como os espíritos que migram: "It's a long way to find peace of mind and I'm just waiting now for my time to come, for peace to come."

Antes ainda há Fireflies, um poema que já conhecíamos de Red Hand Files, o site onde Nick Cave conversa com os seus fãs e onde anunciou este disco. Foi aí, através dessas cartas que, há um ano, o australiano revelou que estava a trabalhar neste Ghosteen, afirmando que era "uma coisa estranha e maravilhosa e muito diferente do que aconteceu antes". E completava: "Estamos sob o seu feitiço." Também nós.

[texto originalmente publicado no DN, em 4 de outubro de 2019, na própria noite em que o disco foi lançado]