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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Maio 03, 2019

Gaiteiros abrem livro de bestas quadradas, diabos e baleeiros. "É uma outra coisa"

Miguel Marujo

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Bestiário marca o regresso dos Gaiteiros de Lisboa, ao fim de sete anos. Com nova formação e a mesma vontade de sempre de experimentar sons e um humor cáustico. Entrevista com Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho.

Há diabos que se agradam de hidromel, essa bebida de anjos, há a gaita do diabo que soa endiabrada, há baleeiros que vão vencer marés e assombração, há uma padeira que foi guerreira sem saber e nas horas vagas ou há aquela besta quadrada que se põe na alheta, um aldrabão, fazedor de vilezas e canalheira até mais não, que desfia um cardápio de nomes feios prontos a usar: aventesma, abécula, cavalgadura, energúmeno, estafermo, morcão, verdugo, trampolineiro, foge cão que já és barão, vai com os porcos, para te ires catar...

Senhoras e senhores, eis Bestiário, o novo álbum dos Gaiteiros de Lisboa, um regresso que tem tanto de inesperado como de familiar, que nos serve uma sonoridade que, quase 25 anos depois da estreia com Invasões Bárbaras (1994), continua a surpreender-nos pela ironia, pelo humor cáustico, pela alegria dos sons, em que não cabem instrumentos harmónicos.

Quando surgiram, estes Gaiteiros eram "uma outra coisa". E hoje ainda se reconhecem nessa definição, confessam Carlos Guerreiro e Paulo T. Marinho, em entrevista ao DN. "Quem é outra coisa nunca deixa de ser outra coisa", ri-se Carlos, o homem dos sete instrumentos, como lhe chamava Sérgio Godinho. "Há uma coisa que é fundamental que faz que sejamos outra coisa" - e Guerreiro ensaia uma explicação: "Quando começámos, foi na ressaca de todo um movimento reinterpretativo da música tradicional, que já vinha de trás, do GAC, da Brigada Victor Jara. Foi um caminho que já tinha sido percorrido e que já estava de certa forma esgotado e precisava de ideias."

Os projetos que surgiam, às vezes, "era juntando mais coisas". Os Gaiteiros preferiram tirar. "O grande segredo do som deste grupo, o que fez que este grupo fosse outra coisa, foi nunca abandonarmos a gaita-de-foles como o instrumento central do grupo. Como tínhamos tocado muitas polifonias tradicionais da Beira, do Alentejo, do Minho, fazíamos harmonias sem termos instrumentos harmónicos - e isso foi outro segredo. Se nós metêssemos uma guitarra ou um piano, a coisa era redutora", sintetiza Carlos Guerreiro.

Esta aparente desarmonia transformou-se numa sonoridade, num som característico, a tal "outra coisa", que vive também de um registo polifónico muito próprio. "Juntar um clarinete com uma gaita-de-foles com uma sanfona e pôr isso tudo a harmonizar, a dar um timbre. O que mais nos caracterizou começou por ser o som, o som ser diferente, ser outra coisa, lá está", aponta Carlos.

"O primeiro disco, por exemplo, foi gravado num ambiente praticamente laboratorial: tínhamos um estúdio à disposição, íamos para lá, compúnhamos, gravávamos, ouvíamos, gravávamos, ouvíamos, que é um método usado por tantas bandas internacionais... E, quando se chega ao fim de uma série de ensaios, depois é só misturar, que o disco está feito. A coisa foi muito, muito laboratorial... E isso foi a construção dos alicerces daquilo que o grupo é hoje", explica Carlos Guerreiro.

Nem sempre isto foi bom. "Houve uma dinâmica que se instalou, que funcionava, mas que também não era o grande motor do grupo - nos últimos dez anos, antes destes elementos mais radicalmente terem saído, o grupo andou em águas mornas: tínhamos vida, fazíamos concertos, fazíamos coisas, mas a certa altura entrou em velocidade de cruzeiro e essa velocidade era baixa porque nós estávamos no panorama musical português, mas não fazíamos nada por conquistar um lugar especial. Por isso é que agora estou um bocado surpreendido por ver que de repente estamos a renascer, provocando a mesma curiosidade que provocámos no princípio."

O percurso distinto de cada um - havia gente que vinha da música tradicional, outros do jazz ou do rock - ajuda a compor este grupo que abala as tradições da música tradicional portuguesa. Paulo Marinho, que muitos recordarão da Sétima Legião, diz que essa foi uma "experiência pop importantíssima", que lhe permitiu ter "uma visão alargada do que era estar em palco, de ter um certo conceito de espetáculo e do que era a música de raiz". E de repente o rapaz, que era fã do GAC ou de José Mário Branco, vê-se a trabalhar com os seus ídolos. Paulo põe aspas na expressão e brinca com Carlos Guerreiro: "Depois fiquei desiludido." Os dois riem-se.

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"Somos fãs do Quim Barreiros"

O humor das letras, que parece colar-se ao humor da sonoridade que emprestam às músicas, "não é pensado, é natural", defende Guerreiro. A tradição ainda é o que era, garantem os dois músicos, que invocam os exemplos mais inesperados em defesa desta tese. "Esta parte cómica, cáustica", como define Paulo, tem muito que ver com "as desgarradas, os segundos sentidos, os despiques". O gaiteiro concretiza: Leite de Vasconcelos, linguista, filólogo, arqueólogo e etnógrafo, "fala de recolhas que fez, porque eram muito importantes para a cultura, fazem parte da nossa cultura, mas não podia publicá-las por causa da linguagem, muitas vezes explícita". Como Bocage, que "não terá inventado um estilo, tem uma forma mais cuidada, mas há coisas da tradição que passavam muito por aí". "Nós não fomos a esse nível tão explícito", defende-se Marinho, para logo deixar cair um exemplo inesperado entre risos: "Nós somos fãs do Quim Barreiros!"

"As pessoas ficam um bocado escandalizadas, isso é música pimba", acrescenta Carlos Guerreiro, que se socorre do espetáculo de Bruno Nogueira e de Manuela Azevedo para pedir "deixem o pimba em paz". E completa: "Quim Barreiros é o herdeiro legítimo e direto de uma tradição do Alto Minho, das desgarradas nos casamentos, nos batizados, nas festas, em que o pessoal se embebeda e canta." "Era uma forma de resolver problemas sem ser à tareia", replica Paulo, para Carlos entrar no despique, recordando as festas de Santo Cristo, nos Açores, onde "o canto tradicional tem muita importância" e as pessoas se juntam para cantar ao desafio. "É uma coisa que existe pelo país... Quase todas as culturas têm isso, na Córsega é o chiama è rispondi. A gente quer é rir-se."

O riso também vive de um imaginário muito próprio dos Gaiteiros: bestas, monstros, sátiros, macaréus, uma galeria muito própria de monstros e animais. "Se perguntares porque é que é assim, não sei dizer", ri-se Carlos Guerreiro.

O humor cáustico também se veste de "crítica social", defende Paulo Marinho. Em Brites de Almeida, uma canção sobre a padeira de Aljubarrota, como o nome indica, o remate é desconcertante, puxando para a atualidade, brincando com uma padeira que não sabia marcar golos e falhou o Panteão.

Guerreiro pega na forma e molda as canções: "Uma das características dos nossos temas é que acho que nenhum é inócuo, estão todos de certa forma armadilhados. Todos têm uma história para contar, todos têm alguém de quem falar, todos são dedicados a alguém, todos têm um qualquer convidado, não é um debitar de coisas. Há quem faça isso muito bem... Aliás, essa é a forma mais normal até de fazer as coisas, uma coletânea de temas, as coisas não têm de ter sempre um objetivo comum ou conceptual." Com os Gaiteiros não é assim, já se percebeu.

Este sexto disco de originais, Bestiário, rompe com um silêncio prolongado. Avis Rara, o anterior disco de originais, data de 2012. "Nunca fiz essas contas. Sete anos, já?!", espanta-se Carlos Guerreiro. Com a saída dos seus elementos anteriores há uns três anos, Carlos e Paulo equacionaram o que fazer. "Acabamos? Nem pensar, disse o Paulo." Decidiram continuar, fizeram castings, começaram "a juntar gente aos poucos". E Guerreiro completa: "Foi assim uma almofada muito importante para o renascimento do grupo. Este renascimento nunca se daria com maus músicos, seria impossível porque nunca teria pachorra para começar do princípio outra vez. Houve elementos que entraram e voltaram a sair... Andámos a moer muito no início, quando tudo começou, não íamos voltar a moer."

Para desmoer melhor, os Gaiteiros de Lisboa rodeiam-se de amigos e velhos conhecidos. "Fazemos questão de não estar sozinhos", explica Carlos Guerreiro, num disco que conta entre os convidados com Filipa Pais, João Afonso, José Medeiros, Pedro Oliveira, Rui Veloso ou o coletivo feminino Segue-me à Capela.

Há dois anos fizeram a síntese do percurso anterior com a compilação A História, de que recuperam o tema então inédito Roncos do Diabo. "Isso", a tal coletânea, "foi graças a uma cumplicidade com a Uguru, que neste momento é quem distribui o nosso disco. Eles resolveram apoiar-nos, não nos deixar cair, sobretudo quando eu e o Paulo ficámos sozinhos a olhar um para o outro [risos]."

Mesmo em versões mais tradicionais como Canto do Coração, Flecha ou Chamateia, o original de Luís Bettencourt, aqui nas vozes de Filipa Pais e de João Afonso, quem conhecer os trabalhos para trás vai reconhecer este Bestiário como só podendo sair deste coletivo. "Talvez porque eu fosse um dos elementos mais ativos em termos de composição, talvez porque houvesse alguma simbiose, pelo menos no princípio, entre mim e o José David, houve coisas que se calhar se tomaram como definitivas em relação ao som do grupo, como o uso da gaita e de instrumentos de palheta", admite Carlos Guerreiro.

O realejo que é um mamarracho

"Só aí há logo uma definição sonora, continuar a usar gaitas e aerofones de palheta, e não usar instrumentos harmónicos, faz logo a diferença." E inventando também instrumentos, algo que aconteceu por curiosidade. "Nós não inventamos instrumentos para ser interessante, precisávamos de algumas sonoridades e lá dizíamos "deixa lá ver o que isto dá, se eu juntar um tubo não sei quê com uma palheta não sei que mais e fizer os buracos, como é que isto soa?"."

"Muitas vezes fiz temas para os instrumentos, também fiz instrumentos para os temas... Todas as combinações são possíveis." Como neste álbum, em que Guerreiro foi buscar "um realejo de cartões, de manivelas", que lhe apeteceu "fazer há uns anos". "Estava lá em casa para um canto, nunca tinha pensado em usá-lo fosse para o que fosse. Aliás também não vou andar com aquilo na estrada, é um mamarracho enorme..." E riem-se.

Senhoras e senhores, este é um belo e divertido monumento da música portuguesa.

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A padeira que não marcava golos e não foi para o Panteão

Há uma imensa ironia, um humor tremendo e um experimentalismo sonoro incessante nos Gaiteiros de Lisboa, que trazem agora, 25 anos depois da sua estreia em disco, o sexto álbum de originais, Bestiário. Prova disso é Brites de Almeida - a canção que é um hino à padeira de Aljubarrota com que antecipam o novo disco - de um humor delicioso que nos prende nas palavras como na música.

Este é o grupo que experimenta, em cada novo trabalho, resgatar a música tradicional portuguesa com uma releitura contemporânea que nunca abastarda a sonoridade popular de cada canção.

A exigência de Carlos Guerreiro, Miguel Quitério, Miguel Veríssimo, Paulo Tato Marinho, Paulo Charneca e Sebastião Antunes, é singular: já criaram instrumentos não convencionais, como túbaros de Orpheu, o cabeçadecompressorofone, clarinetes acabaçados, o orgaz, o espátulofone, a serafina ou mesmo um tubo estriado com búzio e um balde de gelo chinês.

Do tradicional mantêm uma atenção aos tempos de hoje, de "língua afiada", como descreve Carlos Seixas no prefácio a Bestiário. Basta lembrar Avejão, de Avis Rara (o anterior álbum de originais de 2012), sobre a terra dos patos bravos, que mais parece um vespeiro em que andam todos à bicada para chegar ao poleiro. Ou Proparóxitonias do mesmo álbum, onde "também os frades canónicos exploram recursos hídricos".

Ou esta nova canção que, entre os tradicionais sopros, percussões e cordas, nos recorda que "Brites de Almeida/ seja história ou seja lenda/ revelou-se na contenda/ modelo de liberdade/ fazia pão, broa de milho e bolos/ não sabia marcar golos/ não foi para o Panteão".

[entrevista e texto sobre single publicados em 26 e 2 de abril, respetivamente, no DN; fotos de António Brázio]

Maio 02, 2019

Com tanta estrada para andar, Jorge Palma conta-se de novo

Miguel Marujo

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O Jorge Palma que se pôde descobrir, ver e ouvir, num documentário na RTP1, é muito do que o cantor, compositor e músico quis contar na primeira pessoa, confidenciou ao DN um dos autores do programa, o jornalista Nuno Galopim. É uma marca da própria série Vejam Bem.

"A linha narrativa procura seguir o modelo que temos usado ao longo desta série, embora cada episódio acabe sempre por refletir muito da personalidade e obra do entrevistado", contou Nuno Galopim. "Ou seja, o ritmo, o discurso, a própria condução da narrativa, é definida pela figura, o seu percurso e, claro, o seu modo de falar, já que as histórias de vida e obra que procuramos retratar na série Vejam Bem têm como o maior denominador comum o facto de ser o próprio protagonista a partilhar ideias e memórias pelas suas palavras."

Para o documentário sobre Jorge Palma, a entrevista foi filmada "num fim de tarde" no Grande Auditório do CCB, onde ele mesmo já atuou ao vivo. E o resultado é também obra de Palma. "Tendo o Jorge visto o episódio dedicado a José Mário Branco, tinha já a noção de como podia alinhavar as memórias que ali ia evocar. Seguimos então as pistas que o discurso sugeriu, caminhando entre histórias pessoais e vivenciais e o modo como estas acabaram por se refletir na sua própria música", explicou Galopim, que já foi jornalista no DN.

Ainda que haja muita estrada para andar, como o próprio canta em A Gente Vai Continuar, Palma aqui conta-se de novo. "Mais do que procurar histórias nunca antes contadas - e do Jorge Palma há já uma boa biografia publicada em livro - observámos o seu modo de nos contar as narrativas. E a força da voz, o seu ritmo, é quase como o de uma canção falada em que, ao contrário de outras em que ficciona, afinal ali é a de quem olha para si", notou o coautor. "E fá-lo com gosto de partilhar connosco, e com franqueza, aquilo por que passou e quem é...", completou.

Este episódio de Vejam Bem tem como título Jorge Palma - Quem és Tu, de Novo, uma escolha que Nuno Galopim justificou pelo facto de, "no fundo", o título sugerir "um reencontro com histórias", mas que, neste caso, "são contadas de outra maneira". Os títulos "partem sempre de uma canção do protagonista", notou. A escolha recaiu num dos temas menos óbvio da obra de Palma, que se pode encontrar, lembrou Galopim, no álbum de 2001 Jorge Palma, "aquele tantas vezes referido como Prohibido Fumar, sim, com o 'h', como se vê na foto da capa".

A construção do episódio passou também pelo "recurso a uma série de imagens de arquivo, na sua maioria verdadeiros tesouros da nossa memória que encontramos no arquivo da RTP". E insistiu o jornalista: "A ideia desta série é a de alinhavar histórias narradas na primeira pessoa. E criar assim um coro que nos pode ajudar a fixar, através de memórias de figuras marcantes na história da música portuguesa cujo tempo de vida e obra se cruza com a história da própria televisão, um olhar panorâmico sobre a história da música portuguesa dos últimos 60 anos."

Sem exclusão de géneros e feitios: os anteriores episódios desta série da RTP Memória para a RTP1 foram dedicados a Simone de Oliveira, José Mário Branco e José Cid. "São histórias de música, algo que se ouve... Mas são todas elas histórias para ver. Porque nos fazem olhar para quem as conta e abrem janelas, através das imagens de arquivo, para os lugares, os factos, as canções, as atuações, os outros nomes, que cada um vai evocando", defendeu ao DN Nuno Galopim.

"Em cada episódio deixamos claro que estas histórias são como um retrovisor, ou seja, que ajudam a ver para trás, mas connosco a olhar em frente. Tenho dividido a construção de cada episódio um parceiro criativo diferente, o que ajuda também a vincar esta vontade de, sobre uma matriz comum, podermos sugerir nuances diferentes", contou. Neste caso, acrescentou, "o trabalho (que é sempre uma produção da Inovação RTP) foi partilhado com o Daniel Mota, que tinha já coassinado o episódio dedicado a Simone de Oliveira.

 

Jorge Palma: Quem és Tu, de Novo
de Daniel Mota e Nuno Galopim
[estreou a 1 de março, 23.30, na RTP1, publicado originalmente no DN nesse dia, com foto de Orlando Almeida / Global Imagens]