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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Janeiro 23, 2016

Este dia da omissão

Miguel Marujo

Hoje, o leitor abre o jornal, qualquer jornal, e não encontra uma linha sobre o que se passou ontem neste país, que mobilizou centenas, milhares de pessoas, em vários pontos do país, e que foi notícia. Os jornais, as rádios e as televisões demitem-se de fazer aquilo para o que nasceram: informar. Porque uma lei assim o diz, assim o impõe. Diz que é dia de reflexão - é antes o dia da omissão.

Quem esteve a ver um canal de informação na televisão na noite de ontem choca de frente com este absurdo: até à meia-noite sucederam-se diretos e comentários sobre os últimos cartuchos de uma campanha eleitoral. De repente, ao sinal horário das 00.00, o mundo mudou - nem mais uma palavra de ordem se ouviu, nem mais uma bandeira se viu. Não é informação, é omissão.

O dia de reflexão não é anedótico de agora. Já o é há muito: desde que a maturidade democrática se implantou, mais ainda quando a internet e as redes sociais caducaram o anacronismo da lei. Não peço que se acabe com a pausa de um dia na campanha - essa acabou à meia-noite. E bem. O que contesto é o anacronismo de se proibir aquilo que não faz sentido proibir: a informação sobre o que se passou ontem.

Um dia, quando alguém se debruçar sobre a história da democracia portuguesa, terá uma grande dificuldade em encontrar relatos sobre o que se passou no último dia de qualquer campanha eleitoral: os jornais em papel ignoram-no, as publicações na internet perdem-se muitas vezes. Aquilo que este dia de reflexão lega é um imenso buraco. Que em nada contribui para a democracia. Acabar com a impossibilidade da comunicação social fazer o seu trabalho neste dia devia ser uma prioridade na revisão de uma lei que, demasiadas vezes, só é lembrada nas vésperas de atos eleitorais. Informar também é optar. Não omitir.

[publicado originalmente a 3 de outubro de 2015, dia de reflexão nas eleições legislativas, no DN]

Janeiro 01, 2016

Só nesta rusga não há lugar para o cidadão

Miguel Marujo

Faltavam uns 15 minutos para as 15.00 da terça-feira passada, dia 29, quando o autocarro foi ultrapassado por uma caravana da polícia, que bloqueariam o mesmo autocarro 50 metros à frente. A dois dias do fim do ano, a PSP subiu a Rua Maria Pia, em Lisboa, para se deter na Meia Laranja e fazer uma rusga no supermercado da droga que nunca o deixou de ser verdadeiramente, mesmo depois da “limpeza” do Casal Ventoso. A carreira 742 foi assim a primeira a ficar parada de quem sobe de Alcântara, sem possibilidades de se mover. Um agente informou o motorista que os passageiros podiam sair porque a operação podia “demorar um bocadinho”. Mas estes não podiam subir a pé a rua, que era o seu destino, só regressar a Alcântara, numa rua sem outro caminho possível.

Sem poderes adivinhatórios do que significa um “bocadinho” em linguagem policial, eu e muitos outros optámos por ficar e aguardar. Sem perceber porque não podia a polícia abrir uma faixa de rodagem do lado oposto aquele em que decorria a rusga para, pelo menos (os carros podiam inverter a marcha), permitir a circulação dos autocarros (já eram dois bloqueados e não terão sido mais porque o motorista avisou a central), muitos lamentavam-se do atraso com que iam chegar ao trabalho, aos seus afazeres.

Ao fim de 25 minutos, deixaram os peões subir a rua pela esquerda. Quando questionei um primeiro agente porque não tinham feito aquilo mais cedo, a resposta foi a de sempre. Limitavam-se a cumprir ordens. À insistência, veio a ordem para “circular”. Um segundo resolveu provocar: “Bom ano” e “a culpa é do fascismo”, atirou-me. As palavras foram do agente, não minhas. E fizeram ricochete: lembrei-me que só nestas rusgas não há lugar para os cidadãos. E aposto que foi muito aparato para nada. Duvido que a meia hora com que se interrompeu o trânsito (logo a seguir abriram a tal faixa de rodagem) tenha justificado mais do que umas quantas doses apreendidas e uns quantos tipos identificados. Nas paragens seguintes, muitos protestavam com o motorista. Não, a culpa foi mesmo da PSP.