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Cibertúlia

Dúvidas, inquietações, provocações, amores, afectos e risos.

Novembro 24, 2013

A última sessão

Miguel Marujo




Há muito que deixei de ir ao cinema - já lá vão mais de três anos e meio - uma opção como tantas que fazemos, na gestão de dias curtos e de um tempo mais preenchido. Longe da média de um filme por semana, de quando vim para Lisboa, lamento-o, mas é a vida. Por isso também tenho uma quota parte (pequenina) de responsabilidade no facto de o cinema King fechar hoje portas. As três salas em que aprendi tanto (de) cinema e me emocionei (ou irritei) com tantos filmes, têm hoje a sua última sessão.
Talvez seja um sinal dos tempos, de uma crise tantas vezes antecipada (afinal, algures nos anos 90, assisti sozinho a um filme, a sala toda para mim, numa acidental projeção privada). Das últimas vezes que ali fui surpreendi-me pela degradação do espaço, pela falta de chama da livraria anexa - que dificilmente chamaria leitores e (também assim) espectadores. Volta e meia ainda pensava que ali voltava, mas logo o calendário passava sem que cumprisse o regresso.
A esta ausência, tentei compensar (sem a mesma assiduidade) com o DVD visto em casa ou na box do Meo. Falta o escuro da sala e o ecrã gigante ou mesmo o sossego, apesar de surpresas desagradáveis que se pudessem ter com companheiros ocasionais de sala. Falta isso tudo. Mas não posso rasgar as vestes pelo fecho do King. Não fiz nada por ele nestes últimos anos.

[clip: The Last Picture Show/A Última Sessão, de Peter Bogdanovich; se não me falha a memória, julgo que foi no King que vi Texasville, a sequência 20 anos depois deste filme]